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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 7 de março de 2011

O PIB de 2010 e a desaceleração da economia no 4º trimestre


Ricardo Lacerda



O anúncio na semana passada do crescimento do Produto Interno Brasileiro (PIB) de 2010 foi, ao mesmo tempo, motivo de comemoração e de alguma preocupação. Comemoração porque a taxa de 7,5% é a mais elevada desde 1986, ano marcado pela explosão de consumo do Plano Cruzado, confirmando a força da recuperação da economia brasileira após a crise financeira que prostrou a economia mundial ao final de 2008. O setor industrial, o mais atingido pela crise em 2009, quando caiu 6,4%, apresentou a taxa setorial mais elevada em 2010, 10,1%. O setor agrícola reverteu o recuo de 4,6% em 2009, com 6,5% de crescimento em 2010, e o setor de serviços, o único com resultado positivo em 2009, 2,2%, alcançou 5,4%.
O mais significativo no resultado do PIB de 2010 é o fato de que, com ele, a economia brasileira retomou a trajetória de expansão iniciada no ano de 2004, estabelecendo no período uma taxa de crescimento médio anual de 4,4%, há muito desconhecida no Brasil, em um intervalo relativamente longo, de sete anos.

Trajetória

A primeira década do novo século teve resultados superiores à última do século anterior. Entre 2001 e 2010, o crescimento anual médio foi de 3,6%, enquanto no período 1991-2000, o PIB cresceu, em média, 2,6% ao ano. A diferença pode parecer pequena, mas significa que, na primeira década dos anos 2000, a economia brasileira cresceu 42,4%, contra 29,3 % no período anterior e que, nos anos noventa, o PIB por habitan te subiu apenas 1,1% ao ano, frente aos 2,4% ao ano da primeira década dos anos 2000, implicando que, no ritmo anterior, seriam necessários 63 anos para dobrar a renda média do país, e às taxas mais recentes este prazo se reduziria para 29 anos.

O gráfico 1 a seguir apresenta as taxas de crescimento do PIB brasileiro entre 1996 e 2010. Saltam aos olhos a dinâmica mais intensa de crescimento desde 2004 e que, após o resultado ruim de 2009, foi retomada a expansão no ano passado.



Fonte: IBGE: Contas Nacionais Trimestrais

Alerta

A preocupação é de duas naturezas: de um lado, no quarto trimestre a economia brasileira registrou uma forte desaceleração, com crescimento de 0,7% em relação ao trimestre anterior, na série livre de efeitos sazonais, equivalentes a apenas 2,8% anualizados; e do outro, o consumo continuou muito forte neste quarto trimestre, crescimento de 2,5% ou 10,4% em termos anualizados, indicando que as medidas macroprudenciais de contenção da demanda ainda não tiveram o poder de fazer refluir a taxa de expansão desta variável e, ao mesmo tempo, que outras variáveis da demanda agregada tiveram um desempenho pífio.

O gráfico 2, a seguir, resume a evolução do PIB trimestral ao longo de 2010, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, observando os componentes da demanda agregada. Um primeiro aspecto que chama a atenção é que houve uma sensível melhoria nas trajetórias das taxas de importações (que contam negativamente) e de exportações de bens e serviços (que contam positivamente), amplamente desfavoráveis às exportações no primeiro trimestre e que foram aproximando os ritmos de crescimento ao longo do ano.

Entre as variáveis da demanda interna, o consumo das famílias não apenas comandou a expansão no 4º trimestre, como apresentou uma evolução ascendente ao longo do ano. O Consumo da Administração Pública (Cons. APU), que foi muito importante para a expansão do PIB no segundo trimestre, perdeu o ímpeto de crescimento nos terceiro e quarto trimestre, mostrando-se comportado no período. Especialmente, houve certa decepção com o comportamento dos investimentos, medidos pela Formação Bruta do Capital Fixo (FBCF), que desaceleraram fortemente no quarto trimestre, após três períodos de intenso crescimento, mesmo considerando que esta variável tenha aumentado 21,8% na comparação, entre 2010 e 2009, e que a taxa de investimento da economia tenha subido para 18,4%.




Fonte: IBGE: Contas Nacionais Trimestrais

Em relação ao consumo das famílias, os indicadores de crédito de 2011 apontam para uma trajetória menos acelerada, o mesmo devendo ocorrer com o consumo da administração pública.

A preocupação decorre do fato de que as pressões inflacionárias permaneceram fortes nos últimos meses, mesmo com a economia crescendo a taxas menores. Ainda que fatores importantes de elevação dos preços se originem de fontes externas, o raio de manobra para manter taxas elevadas de crescimento se estreitou. A lição parece ser que o crescimento sustentável requer, nos próximos trimestres, alterações mais aceleradas entre as proporções das taxas de consumo e das taxas de investimento, públicos e privados, na economia brasileira.


Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/



Publicado no Jornal da Cidade, em 06/03/2011


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