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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O câmbio, as exportações e o saldo comercial em 2015

Uma mudança acentuada na paridade cambial, como ocorreu com a moeda brasileira ao longo de 2015, gera importantes efeitos sobre o comércio exterior e sobre o nível de atividade doméstica; alguns deles se manifestam prontamente, enquanto outros somente se completam no médio e o no longo prazo.
Os especialistas do comércio exterior brasileiro estimam que o impacto de uma depreciação da moeda nacional sobre as exportações apresenta uma defasagem temporal de seis a nove meses. A influência sobre a inflação interna é bem mais rápida. Por essa razão, a desvalorização da moeda causa uma perda quase que imediata no poder de compra da população, com desdobramentos negativos sobre o nível de atividade econômica. Os efeitos positivos tendem a demorar mais.
Os resultados da balança comercial brasileira de 2015 foram publicados na semana passada. Eles refletem não apenas os impactos da mudança no câmbio sobre as exportações e importações, como captam os efeitos da queda dos preços internacionais dos principais produtos da nossa pauta exportadora. Não menos importantes foram os efeitos sobre as compras externas decorrentes da queda do poder de compra da população e da retração da taxa de investimentos causados pela recessão.
O saldo comercial de 2015 somou US$ 19,7 bilhões, interrompendo a tendência de encolhimento iniciada ainda em 2007. Os resultados foram especialmente ruins em 2013 e 2014, quando foram obtidos, respectivamente, superávit de apenas US$ 2,3 bilhões e déficit de US$ 4,1 bilhões.
A inversão do saldo de negativo para positivo entre 2014 e 2015, como se sabe, decorreu de uma queda muito acentuada nas importações, bem mais intensa do que no valor das exportações. A retração no valor das compras externas foi de US$ 57,7 bilhões, enquanto as vendas ao exterior caíram US$ 34 bilhões. Em termos relativos as importações caíram 25,2% e as exportações, 15,1%.
A continuidade de queda nas exportações em 2015, todavia, não significa que a mudança no câmbio não teve efeitos benéficos sobre o comércio exterior, seja em relação às importações, seja no que diz respeito às próprias vendas externas.
O cenário externo
Em 3 de janeiro, o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz publicou na internet artigo intitulado O Grande Mal-Estar Continua. Já no parágrafo introdutório, ele sintetiza a evolução da conjuntura global no ano que passou. “O ano de 2015 foi duro para todos. O Brasil entrou em recessão. A economia chinesa sofreu seus primeiros solavancos sérios após quatro décadas de crescimento vertiginoso.  A zona do euro conseguiu evitar o colapso da Grécia, mas a sua semi-estagnação continuou, contribuindo para o que certamente será visto como a década perdida. Para os Estados Unidos, 2015 deveria ter sido o ano em que finalmente se encerrou o capítulo da Grande Recessão iniciada em 2008; em vez disso a recuperação econômica do país vem sendo medíocre”. E conclui a descrição do panorama lembrando que Christine Lagarde,  a diretora-gerente do FMI, chamou a situação atual da economia mundial de o Novo Medíocre (https://www.project-syndicate.org/commentary/great-malaise-global-economic-stagnation-by-joseph-e--stiglitz-2016-01).
Para o comércio exterior brasileiro, a desaceleração da economia chinesa foi impactante. Nossas exportações para aquele país caíram 12,3% em 2015, depois de terem recuado 11,7% em 2014. O impacto da deterioração no cenário externo sobre a cotação de nossos principais produtos não foi menos danoso. O preço da soja exportada despencou de US$ 509 por tonelada, em 2014, para US$ 386 por tonelada, em 2015, retração equivalente a 24%.
No caso do minério de ferro, produto líder das exportações brasileiras até 2013, a cotação internacional desabou 51%, em 2015, e simplesmente 64% em dois anos. Até dois anos atrás, esses dois produtos respondiam por cerca de 1/5 de nossas exportações totais.
Para alguns produtos, a depreciação de nossa moeda mais do que compensou a queda da cotação externa; em outros, como no caso do minério de ferro, atenuou as perdas.
Valor e quantidade
As atividades que tradicionalmente vendem parcelas importantes da produção ao mercado externo não deixaram de responder ao novo patamar de câmbio, em parte buscando alternativas à retração do mercado interno.
Se o valor das exportações recuou 15,1% ao longo do ano, as exportações físicas apresentaram uma expansão de 10,6%. O volume de exportações de soja teve incremento de 18,9%, o de minérios de ferro cresceu 7%, o de pasta química de madeira, 8,6%, e o de milho em grão, 40,1%.
  O Gráfico abaixo relaciona a evolução do valor das exportações e do volume exportado em doze meses com a taxa de câmbio real e efetiva, entre junho de 2011 e dezembro de 2015 (novembro para o câmbio): a taxa de câmbio real e efetiva vem subindo fortemente desde o final de 2014, como mostra a linha tracejada.
O volume exportado reagiu desde então (linha dupla), mas o valor exportado apresentou trajetória inversa, registrando queda abrupta por conta da baixa nas cotações das commodities no mercado externo.
Tomei a liberdade de fazer um pequeno exercício, calculando a média simples da taxa de câmbio de doze meses deslocada seis meses para frente (linha pontilhada).
O gráfico parece destacar três fenômenos: a comparação entre a linha contínua simples e a linha contínua dupla (exportações em valor e em volume) dá uma dimensão do impacto da crise externa sobre a evolução de nossas exportações e do esforço feito para ampliá-las; a comparação entre a linha pontilhada e a linha contínua dupla parece mostrar a associação entre o quantum exportado e a taxa de câmbio, considerada uma certa defasagem temporal; e, finalmente, a comparação entre a linha tracejada e a pontilhada (cambio mensal e cambio em doze meses com defasagem temporal) sugere que os efeitos da mudança na paridade cambial estão apenas começando.

Fonte: Banco Central, para o câmbio e MDIC para as exportações. Obs: A série do câmbio em doze meses foi calculada a partir da média simples das taxas de câmbio efetivas e reais mensais.

Publicado no Jornal da Cidade, em 10/01/2016

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