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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

domingo, 19 de maio de 2013

A indústria de Sergipe em 1970



Ricardo Lacerda


Partindo de uma base produtiva muito estreita, a indústria sergipana apresentou notável crescimento ao longo dos anos setenta. O PIB industrial cresceu a taxas médias de 13,5% ao ano. Ao final da década, a indústria sergipana, considerando as atividades de extração mineral e a indústria de transformação, era 3,6 vezes maior do que no seu início, apresentando uma velocidade de expansão muito acima da média da região Nordeste, que também vinha crescendo de forma acelerada.

A taxa média de crescimento da indústria nordestina na década alcançou 9,1% ao ano. Apesar de elevada, foi bem inferior a alcançada pela indústria de Sergipe, de tal forma que em 1980 o PIB industrial nordestino era 2,4 vezes o do início da década, segundo os dados do Departamento de Contas Regionais da SUDENE. 

Duas foram as forças que aceleram o crescimento industrial de Sergipe nos anos setenta. De um lado, a produção de petróleo, iniciada nos anos sessenta, continuou se expandindo ao longo de toda a década, de modo que em 1980 atingia 2,7 milhões de m3, 54% acima da produção de 1970. Em 1980, a produção de petróleo de Sergipe era a segunda maior do Brasil, atrás apenas da produção da Bahia, representando 25,3% da produção nacional dessa primeira etapa da exploração de petróleo no país, anterior às grandes descobertas em águas profundas na bacia de Campos, no Rio de Janeiro.

A segunda fonte de crescimento foi a expansão dos investimentos na indústria de transformação estimulados pela política de incentivos fiscais da SUDENE que propiciou a modernização de antigas unidades industriais, sobretudo no setor têxtil, e a implantação de novas plantas industriais, tanto nos segmentos tradicionais da indústria sergipana como em novos setores. Como esses fatores, em conjunto, não parecem explicar aquelas taxas tão elevadas medidas pela SUDENE, é possível que parte desse crescimento decorra do efeito da elevação dos preços do petróleo na década, impulsionados pelos dois choques internacionais. 

Indústria de Transformação

Na verdade, nos anos setenta, o crescimento da indústria sergipana teve que recuperar as perdas da década anterior em que a indústria têxtil foi fortemente afetada pelo avanço da produção da região Sudeste e Sul sobre o mercado regional, até então relativamente cativo da produção local, causando fechamento de unidades e desemprego. Enquanto o Censo Industrial de 1960 registrou 39 fábricas têxteis que ocupavam 5.973 pessoas (dados de 31 de dezembro de 1959), o Censo Industrial de 1970 vai encontrar 22 fábricas que empregavam 3.652 pessoas.

A crise da indústria têxtil nordestina nesse período, muito intensa em Sergipe, fez com que aquela que era a mais importante atividade industrial do estado visse sua participação no Valor da Transformação Industrial recuar de 40%, em 1960, para 29,1%, em 1970.

Nos anos setenta, o setor têxtil sergipano voltou a se expandir, de tal forma que em 1980 o número de fábricas instaladas aumentou para 41 unidades e o pessoal ocupado para 4.367.


As principais novidades na indústria de transformação advieram da instalação de um grande número de fábricas de confecções (vestuário, calçados e artefatos de tecidos), algumas de porte razoável, que passaram a responder por 7,7% do Valor da Transformação Industrial em 1980, quando em 1970 representavam apenas 0,6%. A diversificação caminhou também direção à produção metalúrgica, mecânica e ao gênero de indústrias diversas (ver Tabela).

Essa diversificação, ainda que relativamente restrita, reduziu a participação dos três gêneros mais importantes da indústria sergipana (produtos alimentares, têxtil e produtos minerais não metálicos) de 89% do Valor da Transformação Industrial de 1970, para 67% em 1980.


Tabela. Sergipe. Participação dos Gêneros Industriais no Valor da Transformação Industrial em 1970 e 1980 (%)
Discriminação
1970
(%)
1980
(%)
Variação da participação
(%)
1. INDÚSTRIA EXTRATIVA
1,5
0,6
-0,9
2. INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO
98,5
99,4
0,9
       - Têxtil
29,1
29,3
0,2
       - Produtos Alimentares
40,2
24,2
-16
       - Minerais Não Metálicos
18,4
13,4
-5
       - Diversos
0,2
8,3
8,1
       - Vestuário/Calçados/ Artef. Tecidos
0,6
7,7
7,1
       - Metalurgia
0,9
3,9
3
       - Mecânica
x
2,1
x
       - Bebidas
0,7
1,6
0,9
       - Editorial e Gráfica
1,9
1,4
-0,5
       - Madeira
1,7
1,2
-0,5
       - Fumo
x
1,1
x
       - Mobiliário
1,5
0,9
-0,6
       - Química
0,8
0,9
0,1
       - Materiais Plásticos

0,9
0,9
       - Couros/Peles/Similares
0,3
0,7
0,4
       - Extração de Minerais
1,5
0,6
-0,9
       - Papel e Papelão
x
0,5
x
       - Borracha
x
0,5
x
       - Material de Transporte
1,2
0,4
-0,8
       - Perfumaria/Sabão/Velas
1
0,3
-0,7
       - Produtos Farmacêuticos/Medicinais
x
x
 x
       - Material Elétrico/Comunicação
-
x
 x
TOTAL
100
100

Fonte: IBGE. Censos Industriais de 1960 e 1970.

Nos anos setenta, já se iniciava toda uma movimentação, liderada pelo economista Aloísio de Campos, para exploração dos sais de potássio recém descobertos pela Petrobras. Em evento realizado em abril de 1972, o economista já levantava a bandeira da exploração do potencial mineral de Sergipe por meio da criação de um pólo petroquímico a partir da exploração de gás natural. Em um período em que, em âmbito nacional, estavam sendo definidos os futuros pólos petroquímicos do país, Sergipe lutava para receber uma parte dos novos projetos estratégicos estabelecidos nos Planos Nacionais de Desenvolvimento. Marchas e contramarchas, todavia, adiaram para a década seguinte os  investimentos que viriam a estruturar uma nova base industrial no estado,  a partir da implantação da Unidade de Produção de Gás Natural.

Publicado no Jornal da Cidade, 19/05/2013


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