Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Urbanização e crescimento populacional em Sergipe pós-1970

Ricardo Lacerda



Com todo o impulso que a industrialização trouxe para o crescimento das cidades nos anos cinqüenta, o Censo Populacional de 1960 constatou que a maioria da população brasileira ainda era predominantemente rural. Naquele levantamento censitário registrava-se a predominância das populações urbanas apenas na região Sudeste e nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, com suas metrópoles pujantes, no antigo território do Amapá e no Distrito Federal. Na média do país, as populações rurais ainda representavam 54,9% do total.

Na década de sessenta, caracterizada pela crise política e pelo baixo crescimento, na primeira metade, e pelo chamado milagre econômico, a partir de 1968, as populações urbanas passaram a representar mais de 50% dos brasileiros. O predomínio das populações urbanas, de acordo com o censo populacional de 1970, já havia se estendido para as regiões Sul e Centro- Oeste, e para o atual estado de Rondônia, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Anos 1970 e 1980

Os anos setenta, que foram marcados pela aceleração da integração do território nacional e pelas intensas taxas de crescimento econômico, mesmo levando em conta a instabilidade provocada pelos dois choques do petróleo, consagraram o predomínio das populações urbanas em todas as regiões brasileiras. Foi o que constatou o Censo Populacional de 1980: em apenas oitos das atuais 27 unidades federadas as maiores parcelas de suas populações residiam no meio rural, inclusive Rondônia que, com a expansão da fronteira agrícola, a população urbana perdeu a predominância. Permaneceram ainda majoritariamente rurais as áreas dos atuais estados do Pará, Acre, Tocantins, Maranhão, Piauí e o vizinho estado da Bahia, com 49,4% da população no meio rural. Nas demais dezenove unidades federadas, inclusive Sergipe, as pessoas residindo em áreas urbanas se constituíram maioria.

Sergipe

Em 1960, Sergipe contava com uma população de 760 mil pessoas das quais 464 mil, ou 61,1%, residiam no meio rural, frente a apenas 296 mil pessoas (38,9%) no meio urbano, entre cidades e vilas. Ao longo dos anos sessenta, a população urbana de Sergipe cresceu 42,4%, contra apenas 5,5% de expansão da população residindo no meio rural. Ainda assim, o Censo Populacional de 1970 registrou o predomínio da população residindo em domicílios rurais, 53,8%, (ver Gráfico 1).


Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1960,1970, 1980,1991, 2000 e 2010
Obs: Em 1960, 1970 e 1980, população presente. Em 1991, 2000 e 2010, população residente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O crescimento demográfico de Sergipe pós-1970

Ricardo Lacerda

Ao longo do século XX, a população sergipana passou de 356.264 para 1.781.714 habitantes. Somente o censo de 1980 registrou população superior à casa de um milhão de habitantes. Em 2010, o número de residentes atingiu 2.068.017 (ver Gráfico 1).

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1872, 1890, 1900, 1920,1940, 1950, 1960,1970, 1980,1991, 2000 e 2010.
(1) População presente. (2) População recenseada. (3) População residente.
Obs: Os historiadores costumam lembrar que a população de 1872 está subestimada,
em razão de o levantamento censitário ter deixado alguns municípios de fora.


Um fato significativo na evolução populacional de Sergipe nesse período foi a mudança de sua dinâmica na década de 1970, quando a maior parcela da população se tornou urbana. Há um fenômeno particularmente curioso na trajetória populacional de Sergipe, vis a vis a média do Brasil e dos estados nordestinos: Sergipe que desde a década de 1920 vinha registrando crescimento populacional inferior ao do Nordeste e do Brasil, nos anos setenta passou a crescer acima da região e a uma taxa próxima da média brasileira e, nas décadas seguintes, ultrapassou o ritmo de crescimento dos dois agregados em todos os períodos intercensitários (ver Gráfico 2).


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

As exportações de suco concentrado de laranja - Parte 2



Ricardo Lacerda

Quem acompanha os comunicados das associações brasileiras de citricultores pode inferir o grau de insatisfação dos produtores com a situação do mercado da laranja, especialmente no que diz respeito às difíceis relações com as indústrias de suco. A queixa freqüente é a de que a estrutura concentrada permite à indústria impor preços muito desfavoráveis aos produtores de laranja, mesmo quando o mercado internacional inicia uma recuperação.

Em uma perspectiva de médio prazo, a cotação do suco de laranja concentrado (FCOJ) no mercado americano obteve importante aumento na safra de 2005/2006 e, especialmente, na safra de 2006/2007, o que ajudou a expansão das exportações brasileiras do produto. Com a crise financeira internacional, o preço recuou nas safras de 2008/2009 e 2009/2010, com graves conseqüências para a produção citrícola.

O preço do suco concentrado no mercado internacional vinha se recuperando desde meados de 2010, com alguns soluços, o que poderia estimular a retomada das exportações nos próximos anos, mas a recidiva na crise financeira, em que a situação da Grécia é o quadro mais emblemático, fez reverter a recuperação das cotações desde o início de agosto de 2011.

Exportações

No Gráfico 1, a seguir, são apresentados o valor e o volume das exportações brasileiras acumuladas em doze meses, entre outubro de um ano e setembro do ano seguinte. Ainda que esses doze meses não se relacionem com as safras, esse período foi escolhido para abranger os dados mais recentes, referentes a setembro de 2011.

Depois de alcançar US$ 874 milhões nos doze meses encerrados em setembro de 2006, o valor das exportações brasileiras do suco concentrado alcançou US$ 1,5 bilhão no período completado em setembro de 2007, o melhor resultado para essa série em todo o século XXI (ver as colunas no Gráfico 1). Em setembro de 2008, já refletindo a mudança no cenário externo, o valor acumulado das exportações em doze meses, apesar de ainda elevado, caiu para US$ 1,28 bilhão.

É curioso constatar que, apesar do patamar elevado do preço médio nesses dois períodos, o volume do produto comercializado no exterior, representado pela linha no Gráfico 1, ou pouco se elevou ou caiu, indicando problemas pelo lado da oferta brasileira.

Nos três períodos seguintes, nos doze meses acumulados em setembro de 2009, 2010 e 2011, o volume e o valor das exportações despencaram. Ou seja, quando os preços internacionais subiram, o volume exportado se manteve relativamente constante, quando os preços internacionais caíram, o volume exportado despencou.

Os especialistas têm atribuído esse comportamento recente, principalmente, à elevação do custo de produção interno da laranja, que, ao lado da valorização do real retiraria competitividade do produto brasileiro. Mas, honestamente, a explicação nos parece incompleta e insatisfatória.


 
Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.


Sergipe

A citricultura sergipana se ressentiu, também, das oscilações no preço internacional do suco concentrado de laranja, principal produto exportado pelo segmento. Quando os preços internacionais se tornaram muito atrativos, o valor das exportações de suco concentrado em Sergipe apresentou um grande salto, passando de US$ 28,5 milhões nos doze meses completados em setembro de 2006 para US$ 69,5 milhões, nos doze meses completados em setembro de 2007, e US$ 53,4 milhões em setembro de 2008 (ver Gráfico 2). Com a eclosão da crise financeira internacional, no final de 2008, o valor das exportações de suco concentrado também despencou, voltando nos doze meses completados em setembro de 2009 para o patamar anterior à expansão.

As exportações sergipanas de suco concentrado vêm respondendo mais positivamente à elevação do preço internacional do que a média brasileira. Se nos doze meses completados em setembro de 2010, o volume exportado ainda não havia iniciado sua recuperação, pelos menos interrompeu a queda, diferentemente do volume exportado pelo conjunto do país. No acumulado de doze meses de setembro de 2011, o volume exportado aumentou 29% e o valor das exportações, 89%, em relação ao período anterior.



Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.


As trajetórias do volume e do valor das exportações sergipanas de suco concentrado (FCOJ) parecem indicar que o setor estava iniciando uma importante recuperação. O novo período de instabilidade na economia mundial, que já vem afetando a cotação do produto, todavia, pode abortar essa retomada.


Publicado no Jornal da Cidade em 09/10/2011





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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As exportações de suco concentrado de laranja (1)



Ricardo Lacerda

Quem observa o preço médio do suco de laranja concentrado (FCOJ) que foi exportado pelo Brasil nos últimos meses se inclina a inferir que estamos diante de um novo período de prosperidade da citricultura. Depois do fundo do poço, em 2009, quando atingiu US$ 1.092 por tonelada exportada, o valor médio do suco concentrado exportado alcançou US$ 2.021, em agosto de 2011, em grande parte por conta de problemas na safra da Florida (ver Gráfico 1).

Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.

Mesmo com a forte melhoria das cotações, a quantidade exportada de suco concentrado ainda não reagiu. O volume exportado pelo Brasil nos doze meses encerrados em agosto de 2011 se limitou a 423 mil toneladas, frente às 523 mil toneladas comercializadas nos doze meses encerrados em agosto de 2010, uma retração de 19%.

Os especialistas não estão otimistas em relação às perspectivas do suco de laranja no mercado internacional. O entendimento é de que a alta do preço tem caráter temporário, decorrente de problemas climáticos que atingiram a produção americana. O diagnóstico predominante é o de que o mercado de consumo de suco de laranja se encontra estagnado, senão em declínio.

Saturamento

Estimativa da Markestrat, a partir de dados do Euromonitor e da Tetra Pak, é de que o consumo de suco de laranja concentrado nos vinte principais mercados caiu 6,9% entre 2003 e 2010. A retração do mercado no período não teria apenas caráter conjuntural, decorrente da crise financeira internacional, mas indicaria uma mudança de hábito no mercado mundial, em que outras bebidas vêm ocupando espaço na preferência dos consumidores. O Gráfico 2, a seguir, mostra que o mercado sofreu, de fato, com a crise financeira eclodida em 2008, mas a tendência de declínio é anterior e de caráter mais estrutural.



Fonte: Markestrat a partir de Euromonitor e Tetra Pak.
OBS: Inclui suco de laranja utilizado em mix de frutas e vendido congelado no varejo. Extraído de CitrusBR. Consumo Mundial de Suco de Laranja. Brasília, 6 de setembro de 2011. (http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/camaras_setoriais/Citricultura/28RO/App_Consumo_de_Suco.pdf).

Mercados

Entre 2003 e 2010, as retrações mais acentuadas no consumo de suco de laranja industrializado se verificaram em três das quatro maiores economias do mundo, Estados Unidos, Japão e Alemanha, com taxas de retração próximas a 20% (ver Tabela). O forte aumento do consumo em mercados emergentes, como os da China e da Rússia, não tem sido suficiente para se contrapor a tendência de declínio verificado nos principais mercados.

Fonte: Markestrat a partir de Euromonitor e Tetra Pak. Ver observação do Gráfico 2.

Sergipe
O valor das exportações de suco de laranja da economia sergipana reagiu positivamente à melhoria na cotação do produto no mercado mundial. A exemplo do que vem ocorrendo com a citricultura brasileira, como um todo, a melhoria de preços ainda não se refletiu de forma mais intensa no volume exportado por Sergipe. Esse será o ponto a ser tratado no artigo da próxima semana.



Publicado no Jornal da Cidade em 02/10/2011



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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O rebaixamento das expectativas para a economia mundial



Ricardo Lacerda

O agravamento do cenário econômico mundial nas últimas semanas deixou em segundo plano as criticas do ‘mercado’ à decisão do Copom de reduzir a taxa Selic em sua última reunião. A precipitação de notícias ruins sobre as dificuldades na rolagem da dívida soberana da Grécia, os riscos de contaminação de bancos europeus e americanos pelos créditos ruins em carteira, a desaceleração econômica da China, além da queda de braço entre republicanos e democratas que inibe a definição de medidas para ativar a economia americana, geraram um ambiente de forte incerteza na economia mundial, em que a turbulência no mercado de câmbio foi a face mais visível no Brasil.

Relatórios da Fazenda, do Banco Central e a edição de setembro das Perspectivas da Economia Mundial, do Fundo Monetário Internacional, publicados ao longo da semana, que são fontes úteis na compreensão do cenário econômico brasileiro no futuro próximo, podem ter se tornados obsoletos frente aos novos eventos, mas já registram a deterioração do cenário externo nas últimas semanas.

Perspectivas


O relatório do FMI alerta para desaceleração do nível de atividade da economia mundial, para o que contaram tanto fatores previstos na projeção anterior, de junho, quanto fatos que emergiram no período. A recuperação relativamente robusta do nível do comércio e do nível de atividade industrial em 2010 desacelerou-se em 2011. A instituição se diz surpreendida pela demora, nos países avançados, na transmissão de efeitos positivos dos gastos públicos para elevar as demandas das empresas e das famílias.
Fatores adicionais da desaceleração decorreram das dificuldades para a superação da crise das dívidas soberanas de países europeus, do impacto dos acidentes climáticos sobre o nível de atividade da economia japonesa e da elevação em cerca de 25% no preço do barris de petróleo associada aos conflitos no Norte da África e Oriente Médio (NAOM).

Economias avançadas
Na projeção efetuada em junho, o FMI estimava crescimento do produto mundial de 4,3%, em 2011, e 4,5%, em 2012, quando a taxa de 2010 alcançou 5,1%. A projeção de setembro é de que a economia mundial reduza o crescimento para 4%, em 2011 e em 2012, refletindo a deterioração do cenário nos últimos meses.
O produto das economias avançadas, que ensaiava uma recuperação relativamente robusta em 2010, deve registrar forte desaceleração, em 2011, limitando-se a um crescimento de 1,6% e permaneceu com a taxa rebaixada, de 1,9%, em 2012 (ver Gráfico 1). A reversão das expectativas de crescimento em 2011 e 2012, entre as projeções de junho e a de setembro, foi acentuada, encolhendo 0,6% para 2011 e 0,7%, para 2012.


Fonte: IMF.World Economic Outlook. Setembro de 2011.

Economias emergentes


As economias emergentes que, em média, atravessaram com perdas menores os impactos da crise de confiança no sistema financeiro mundial, apresentam cenários menos favoráveis para 2011 e 2012, se comparados aos resultados de 2010. Ainda assim, puxada pelas taxas de crescimento notáveis da China e da Índia, a projeção de crescimento das economias emergentes alcança 6,4% em 2011 e 6,1%, 2012. A projeção para a economia brasileira, no relatório do FMI, é de 3,8%, em 2011, e 3,6%, em 2012 (ver Gráfico 2).
Como a presidente Dilma destacou em seu discurso na abertura dos trabalhos da assembleia anual das Nações Unidas, há limites para as economias emergentes seguirem com crescimentos robustos enquanto as economias dos países avançados não superarem as ameaças de estagnação.


Fonte: IMF.World Economic Outlook. Setembro de 2011.

Mesmo com esta concentração de notícias ruins, vaticínios sobre a ocorrência de mais um dêbacle da economia mundial, abrindo um novo período de queda do PIB nas economias avançadas ou de incidência de nova crise de confiança no sistema financeiro internacional parecem precipitados, quando se considera a margem de atuação das economias líderes para enfrentar a situação, apesar da falta geral de entendimento sobre o que fazer. As próximas semanas serão ricas em acontecimentos.


Publicado no Jornal da Cidade em 25/09/2011

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A produção industrial em 2011

Ricardo Lacerda*

O ano de 2011 está sendo pródigo em medidas que sinalizam para uma reorientação da política econômica. A partir de uma leitura que contempla a reversão de um cenário de lenta recuperação para outro de estagnação nas economias avançadas, acompanhada pelo aumento da cobiça pelos mercados em forte expansão dos países de nível de desenvolvimento intermediário, está em curso uma mudança no mix das políticas fiscal, monetária e de desenvolvimento produtivo, cujo cerne parece ser o de assegurar a continuidade do ciclo expansivo da economia brasileira.

A reorientação da política econômica pode estar sendo motivada por uma combinação de percepção do agravamento conjuntural no cenário externo com o entendimento que se apresentam condições externas e internas para uma mudança na qualidade do desenvolvimento brasileiro, para não utilizar o tão demonizado termo modelo de desenvolvimento.

Depois de conquistar a estabilidade e de promover a formação de um amplo mercado interno, em um cenário de profundas transformações na economia mundial, o Brasil estaria preparado para uma nova geração de políticas de desenvolvimento de forte conteúdo social, mais pragmática e menos tributária das expectativas de mercado, uma combinação de ativismo econômico e social com responsabilidade macroeconômica. Sob certo sentido, é o terceiro estágio de uma política iniciada ainda no primeiro governo do Presidente Lula e que foi mudando de contorno progressivamente. Deixando de lado as digressões sobre o longo prazo, cabe registrar que os resultados do PIB Industrial do segundo trimestre e da produção física da indústria de julho acionaram um conjunto de medidas voltadas para a defesa e promoção do setor industrial, cujos alcances ainda são difíceis de serem avaliados.

Produção Industrial

Como alertou o ministro Mantega, o hiato entre o ritmo ainda intenso de crescimento do comércio varejista e as baixas taxas de incremento da produção industrial foi aberto pelo aumento da participação dos produtos importados no mercado interno. Enquanto o mercado de consumo permanece aquecido, a produção física da indústria vem reduzindo a taxa de expansão desde o início do ano. Na série do crescimento em doze meses, a produção física da indústria vem desacelerando em 2011, o que até certo ponto é natural em razão da elevada base de comparação do ano anterior, mas o faz em ritmo muito intenso, caindo de 3,7% em junho para 2,9%, em julho (ver Gráfico).

PIM-IBGE

A série que mostra a taxa de crescimento acumulada ao longo do ano, que capta melhor o comportamento mais recente, representada na linha dupla no gráfico, informa que até julho de 2011 a produção física da indústria teve incremento de apenas 1,4%, em relação ao mesmo período de 2010.
Setores
A redução do ritmo de crescimento da produção física da indústria teve amplo espectro, atingindo os segmentos de produção de máquinas e equipamentos (bens de capital), de insumos (bens intermediários) e os bens de consumo duráveis, semi-duráveis e não duráveis.

No caso do segmento de bens de capital, cuja produção física vinha crescendo rapidamente em resposta ao aumento do uso da capacidade produtiva disponível nos diversos segmentos da economia, a taxa acumulada de crescimento no ano caiu de 8,6% em março de 2011 para 5,5% em julho. Bem mais preocupantes foram as trajetórias da produção física dos segmentos de bens intermediários, bens de consumo duráveis e do segmento de bens de consumo semi-duráveis e não duráveis, que, respectivamente, apresentaram taxas de crescimento acumulado em julho de 0,6%, 1,9% e 0,5% (ver Tabela).



PIM-IBGE

Ainda na Tabela, podem ser observadas as taxas de crescimento das atividades industriais que tiveram os piores desempenhos nesse período: Têxtil (-14,4%), calçados (-7,4%), máquinas de escritório e equipamentos de informática (-5,5%), bebidas (-4,1%) e vestuários (-3,0%) Como são atividades industriais que, em sua maioria, têm forte participação na matriz industrial do Nordeste, a produção industrial de alguns estados da região está sendo fortemente afetada.

Publicado no Jornal da Cidade, em 18/09/2011

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A desaceleração econômica e o Nordeste

Ricardo Lacerda

A desaceleração do crescimento da economia brasileira entre o primeiro e o segundo trimestres de 2011 teve andamento diferente entre as regiões, ainda que alguns indicadores tenham apresentado comportamentos destoantes sobre esse ponto. Observando-se especificamente o desempenho da economia do Nordeste no período, a evolução do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC) e os dados de emprego apontam uma desaceleração menos pronunciada na região em relação ao comportamento médio do país.

As operações de crédito alcançaram elevadas taxas de crescimento em todas as regiões, e ainda que o Nordeste tenha apresentado taxas de crescimento dos saldos de operações bem acima da média brasileira, a redução do seu crescimento, mesmo que não muito acentuada, foi mais alta do que a média.

Finalmente, as trajetórias da produção física industrial e dos consumos industrial e total de energia elétrica foram menos favorável para região. Em conjunto, tais indicadores parecem apontar que a região Nordeste, com o mercado de consumo ainda bastante aquecido, foi, até o momento, menos impactada pelo agravamento do cenário externo e pelas medidas restritivas de política econômica.

Índice de Atividade

O Índice de Atividade do Banco Central (IBC), que procura antecipar os resultados do PIB, já é calculado para as regiões. Na comparação dos índices observados nos 1º e 2º trimestres de 2011 com igual período de 2010, alguns fatos saltam aos olhos. Enquanto nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, as taxas de crescimento se aceleraram no 2º trimestre, elas apresentaram forte recuo no Sudeste e, especialmente, na região Sul. Nessa série, o Nordeste registrou a mais alta taxa de crescimento no 2º semestre de 2011, 5,5% e a região Sul, a mais baixa, 2,7% (ver Gráfico 1).


Fonte: Banco central

Em termos de geração de emprego formal, nos últimos doze meses encerrados em julho, a taxa de crescimento da região Nordeste foi a segunda maior, 7,1%, atrás dos 8,26% da região Norte, mas superior às do Sudeste (5,90%), Centro-Oeste (6,32%) e Sul (6,07%). Apesar de serem taxas expressivas para todas as regiões, nos doze meses concluídos em março de 2011 as taxas de crescimento do emprego formal eram mais elevadas em todas as regiões. Produção Industrial

Os resultados da produção física da indústria e do consumo industrial são bem menos favoráveis ao Nordeste, em um grau surpreendente. Enquanto entre janeiro a julho a produção física da indústria brasileira cresceu 1,39%, na comparação com o mesmo período do ano anterior, no Nordeste verificou-se uma queda de 5,89%. No mesmo período, a produção física da indústria de São Paulo cresceu 2,6%.

O agravante é que segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), do IBGE, a queda da produção física da indústria nordestina nos sete primeiros meses do ano, embora mais acentuada no setor têxtil, foi generalizada. O consumo industrial da energia elétrica, apresentado no Gráfico 2, confirma essa trajetória desfavorável da indústria nordestina em 2011. Enquanto, em todas as demais regiões, o consumo industrial de energia elétrica, segundo dados da Eletrobrás, cresceu no primeiro semestre de 2011, em relação ao mesmo período de 2010, no Nordeste, o decréscimo alcançou 3,3%.

O Gráfico 2 permite observar, também, que na maioria das regiões, a taxa de crescimento do consumo industrial de energia elétrica refluiu entre o primeiro e o segundo trimestres, na comparação como os mesmos períodos do ano anterior. As magnitudes das variações na PIM e no consumo industrial de energia elétrica no Nordeste, no sentido inverso das demais regiões, podem sugerir problemas estatísticos e convém que sejam feitas investigações adicionais.


Fonte: Eletrobrás

Crédito
Finalmente, os dados relativos às operações de crédito no Nordeste mostram que elas continuam se expandindo em ritmo veloz, apesar de uma ligeira desaceleração no último trimestre. O saldo de operações de crédito para as famílias (PF), que financia a aquisição de imóveis e de bens duráveis, cresceu notáveis 28,2% no 2º trimestre de 2011, em relação ao mesmo período de 2010. Nessa mesma comparação, a taxa de incremento da região Sudeste alcançou 24,1% (ver Gráfico 3). As operações de crédito com as empresas (PJ) no 2º trimestre cresceram 25,8% no Nordeste e 18,9% no Sudeste.



Fonte: Banco Central

Apesar dos resultados problemáticos referentes à produção industrial e ao consumo de energia elétrica, as informações disponíveis apontam que a economia do Nordeste foi menos impactada no seu nível de atividade no segundo trimestre do que das regiões mais ricas do país. Voltaremos a esse tema no artigo da próxima semana.

Publicado no Jornal da Cidade, em 11/09/2011

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O PIB do 2º semestre de 2011

Ricardo Lacerda

A semana correu repleta de informações inquietantes que criaram um ambiente de angústia entre aqueles que acompanham o cenário econômico brasileiro: revisão da taxa de crescimento econômico americano para 1,7% em 2011, contra a projeção anterior de 2,7%; revisão da taxa de crescimento do PIB brasileiro de 2011 pelo Banco Central de 4% para 3,5%; o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, surpreendeu o mercado financeiro, antecipando o corte da taxa básica de juros em 0,5%, frente à expectativa de sua manutenção, quando ainda são tênues os sinais de recuo da taxa de inflação no acumulado de doze meses.

A semana fechou com o anúncio do crescimento do PIB brasileiro do segundo trimestre de 2011, de 0,8%, em relação ao semestre anterior, na série livre de efeitos sazonais, o que aponta a taxa anualizada de 3,6%.

Para além do recorrente comportamento histriônico de certos setores do chamado mercado, sempre que suas projeções não são confirmadas, como se assim fosse colocada em questão a sua pretensa onisciência, a decisão do Copom de reduzir a taxa de juros responde à deterioração do cenário externo e procura se antecipar aos seus efeitos recessivos sobre a economia brasileira, que apesar de ter mantido aquecido o nível de atividade, encontra-se em rápido processo de desaceleração, muito particularmente no setor industrial.

Desaceleração

Ainda que o crescimento do PIB dos últimos doze meses, em relação aos doze meses anteriores, tenha se mantido relativamente elevado, atingindo 4,7%, a trajetória apresentada é de rápida desaceleração, frente aos 6,2% no final do 1º trimestre, e dos 7,5% obtidos nessa série nos dois trimestres anteriores.

Quando se observam os resultados do trimestre comparativamente ao mesmo trimestre do ano anterior, é possível constatar o quão abruptamente a economia brasileira vem desacelerando em 2011. Depois de crescer 5% no 4º trimestre de 2010, em relação ao 4º trimestre de 2009, a taxa de crescimento nessa série caiu para 4,2% no 1º trimestre de 2011 e agora, no 2º trimestre de 2011, para 3,1% (ver Gráfico 1).

Setor Industrial

No setor industrial, mais sensível à valorização do câmbio e ao acirramento da competição com os produtos importados, depois das elevadas taxas de incremento no início de 2010, que na verdade apenas repunham parcialmente a produção perdida no ano de 2009, o PIB setorial se expandiu 4,3% no último trimestre de 2010, em relação ao mesmo trimestre de 2009, desacelerou para 3,5% no 1º trimestre de 2011, e cresceu apenas 1,7% na comparação entre o 2º trimestre de 2011 e o 2º trimestre de 2010, acionando o sinal de alerta (ver Gráfico 1). Entre o primeiro e segundo trimestres de 2011, na série sem efeitos sazonais o PIB industrial teve incremento de 0,2%, o que corresponde a uma taxa anualizada inferior a 1%.


Fonte: IBGE. Contas trimestrais

Gastos

Do ponto de vista do dispêndio, o consumo das famílias, responsável por 63% da demanda total da economia brasileira e principal motor do crescimento nos últimos anos, reduziu o ritmo de expansão nos últimos trimestres, à força das medidas voltadas para a restrição do crédito, mesmo que as taxas de incremento ainda se mantenham elevadas.

Depois de crescer 7,5% na comparação entre o 4º trimestre de 2010 e o mesmo período de 2009, o consumo das famílias aumentou 5,9% no 1º trimestre, nessa série, e 5,5% no 2º trimestre. O dispêndio de consumo da administração pública manteve uma trajetória de expansão moderada, com taxa de incremento de 2,5% no 2º trimestre, e a outra variável interna da demanda, a Formação Bruta de Capital (FBCF), fundamental para ampliar a capacidade produtiva interna e expandir o potencial de crescimento e que vinha se ampliando rapidamente à reboque da expansão do mercado de consumo interno, desacelerou intensamente no último trimestre (ver Gráfico 2).

O governo federal apontou para um novo redirecionamento da política econômica, com maior emprego dos instrumentos fiscais e menor uso da política monetária, diante dos efeitos dessa última sobre a valorização cambial.


Fonte: IBGE. Contas trimestrais

Confirmou-se, sem dúvida, uma mudança de comportamento do Copom, no sentido de se antecipar aos fatos adversos e demonstrar compromisso com a manutenção do crescimento, em uma conjuntura em que isto depende essencialmente do comportamento do mercado interno, mas como dizia Keynes àqueles que lhe cobravam coerência: quando mudam os fatos, eu mudo de ideia, e o que você faz?


Publicado no Jornal da Cidade em 04/09/2011



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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Pólo de fertilizantes de Sergipe

Ricardo Lacerda


A base de recursos minerais de Sergipe, abrangendo petróleo, gás natural, calcário e sais de potássio, tem sido desde os anos sessenta um dos principais diferenciais do Estado e um dos fatores mais importantes que fizeram com que ele tenha crescido sistematicamente acima das médias do Nordeste e do Brasil a partir da década de setenta, com exceção de alguns anos da primeira metade da década de noventa, quando a desestruturação do setor produtivo estatal abateu profundamente sua economia.

Os melhores indicadores sociais de Sergipe frente aos demais estados nordestinos podem ser atribuídos a um conjunto de fatores, entre eles a maior taxa de população urbana, a menor parcela do território no semi-árido e a concentração fundiária menos acentuada, mas devem ser associados também à geração de renda e emprego propiciada pela exploração e transformação da base de recursos naturais. Tais atividades têm importantes impactos diretos e indiretos, financiando, inclusive, uma presença mais expressiva da administração governamental na economia estadual.

O Pólo de Fertilizantes

O Pólo de Fertilizantes de Sergipe tem como matriz fundamental a produção de amônia e uréia, a partir do gás natural pela Fábrica de Fertilizantes do Nordeste (FAFEN), de propriedade da Petrobras, e a produção de sais de potássio pela companhia Vale, a partir da extração da silvinita, com o que Sergipe oferta nitrogênio e potássio, dois dos três componentes do composto NPK. Em 2010, a FAFEN produziu 315 mil toneladas de amônia e 423 mil toneladas de uréia, e a mina de potássio da companhia Vale, 662 mil toneladas. A unidade da FAFEN em Laranjeiras é uma das maiores plantas de nutrientes nitrogenados instaladas no território nacional e a mina de Taquari –Vassouras, da Vale, é a única fonte de potássio do Brasil.

Atraídas pela disponibilidade destes insumos, empresas misturadoras dos componentes como Heringer, Fertinor, Adubos Sudoeste, entre outras, instalaram-se em Sergipe, base a partir da qual comercializam para boa parte do mercado nacional, concentrando-se, todavia, no abastecimento da região Nordeste e Centro-Oeste.

Tanto a unidade produtora de amônia e uréia da FAFEN, em Laranjeiras, a antiga Nitrofértil, como a mina Taquari- Vassouras de extração da silvinita, no município de Rosário do Catete, foram instaladas ainda na década de oitenta, como desdobramento do II Plano Nacional de Desenvolvimento do Governo Geisel que buscava diminuir a dependência de insumos importados pela agricultura brasileira.

Novos Investimentos

Passados cerca de trinta anos, o Brasil não logrou diminuir significativamente a sua dependência de insumos importados para a produção de fertilizantes. Segundo dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (ANDA), a agricultura brasileira importa 72% da uréia, 90% do potássio e 38% do fósforo consumidos (ver Gráfico). O grau de dependência externa deverá se agravar nos próximos anos por conta da rápida expansão da produção do milho e da cana-de-açúcar, duas das culturas dentre as que consomem mais intensamente fertilizantes nitrogenados.

Fonte: Anda. Obs: O dado de uréia refere-se a 2009, e os de Potássio e Fósforo são relativos a 2008.

Dois investimentos de grande porte na área de produção de fertilizantes estão definidos para Sergipe. Uma planta de produção de potássio a partir da exploração da Carnalita, pela companhia Vale, e a unidade de Sulfato de Amônio da FAFEN. O investimento para a produção de potássio a partir da carnalita, segundo a Vale, pode alcançar US$ 4 bilhões, o maior investimento de uma empresa privada da história de Sergipe.

A mina de silvinita terá seu potencial de exploração esgotado em 2016, enquanto a nova unidade, com base na extração da carnalita, entrará em operação em 2015. Quando estiver em funcionamento pleno, aumentará a capacidade produtiva das atuais 700 mil toneladas/ano propiciadas pela extração de silvinita, para um mínimo de 1,2 milhão até o máximo de 2,4 milhões de toneladas/ano, com potencial de atender, ainda segundo a Vale, 40% da demanda brasileira.

Sulfato de amônio

A implantação da unidade de sulfato de amônio, nas instalações da FAFEN, em Laranjeiras, envolve o investimento de US$ 130 milhões para produzir 303 mil toneladas /ano visando atender o mercado nordestino.

Em 2009, a agricultura brasileira consumiu 1.734 mil toneladas de sulfato de amônio, das quais cerca de 90% são importadas. Como mostra a figura a seguir, o Nordeste consumiu 450 mil toneladas do produto, em 2009, das quais 45% foram demandadas pela cana-de-açúcar e 27% pelas culturas do milho e do algodão.


Fonte: Petrobrás (2009).
Extraída de apresentação de Paulo Lucena. Petrobras – posicionamento atual e perspectivas de produção
 de fertilizantes nitrogenados, em 20/03/2010.

Os sergipanos têm consciência, por conta da própria vivência, da importância tanto da exploração de petróleo e gás como da produção de nutrientes para a indústria de fertilizantes na geração de oportunidades de trabalho e na criação de renda na economia sergipana. Mais recentemente, começam a se dar conta do desdobramento que essa base produtiva, apoiada na exploração de recursos minerais, vem alcançando, com a formação do Pólo de Fertilizantes de Sergipe.

 

Publicado no Jornal da Cidade em 28/08/2011

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Piranema e a produção de petróleo de Sergipe (2)

Ricardo Lacerda


Os royalties da exploração de petróleo e gás geram um adicional de receita para União, Estados e Municípios que ajuda a viabilizar projetos importantes para o desenvolvimento regional. Há, todavia, certo fetiche em relação a tais recursos, predominando a percepção de que constituiriam uma das principais fontes de receita para muitos estados e municípios. Isso não corresponde exatamente à verdade, por conta do montante gerado atualmente e do grau de concentração de tais recursos em poucos Estados.

Em 2010, as participações governamentais da exploração de petróleo e gás natural, que incluem os royalties e as participações especiais além de outros componentes de menor peso, atingiram R$ 21,6 bilhões. Os Estados e Municípios, em conjunto, receberam R$ 12,2 bilhões.

As participações governamentais na exploração de petróleo e gás vão ganhar peso no total das receitas públicas, devendo duplicar até o final da atual década, podendo até triplicar com a plena exploração das reservas do pré-sal. Para efeito de comparação, a principal fonte de receita dos Estados e Municípios menos desenvolvidos são o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que alcançaram em conjunto R$ 82 bilhões em 2010. Para o Governo do Estado de Sergipe, a receita de royalties de 2010 representou o equivalente a 7% dos recursos oriundos do FPE.

Receita

Depois do pico alcançado em 2008, quando somou R$ 154 milhões, em razão da entrada da produção de Piranema e dos elevados preços médios do barril no mercado internacional, a receita de royalties do Governo de Sergipe despencou, em 2009, para R$ 96,4 milhões, corrigidos pelo IPCA do período, recuo real de 38%, em decorrência da queda do preço motivada pela crise financeira internacional e pelos problemas operacionais enfrentados.

Em 2010, com a recuperação parcial do volume da produção e da cotação do produto, os royalties auferidos pelo Estado de Sergipe somaram R$ 106,4 milhões, 13% a mais do que em 2009, mas ainda 29% abaixo do resultado de 2008, a preços de dezembro de 2010, corrigidos pelo IPCA (ver Gráfico 1).


Fonte: ANP. Valores corrigidos pelo IPCA de dezembro de 2010



2011

Os royalties de Sergipe vêm se recuperando nos últimos quatro meses, beneficiando o Estado e os Municípios produtores. O Gráfico 2, a seguir, mostra como as receitas mensais de royalties do Governo de Sergipe se mantiveram rebaixadas ao longo de 2009 e 2010. Em 2011, verificou-se uma intensa oscilação, em grande parte resultante dos problemas operacionais no campo de Piranema. A partir de maio, todavia, as receitas mensais de royalties do Governo do Estado retornaram ao patamar de R$ 11 milhões.




Fonte: ANP.


Preço de referência

Nos últimos meses, a recuperação das receitas de royalties contou com um importante fator; além da retomada da produção, a elevação do preço de referência. O gráfico 3, a seguir, apresenta o preço de referência do m3 de petróleo para pagamento de royalties do campo de Piranema. Desde o início de 2011, o preço de referência ultrapassou mil reais por m3, o que não se verificava desde outubro de 2008. O gráfico 3 apresenta também os royalties mensais gerados por aquele campo de exploração, alertando que, como os royalties são pagos sobre a produção de dois meses atrás, deslocamos para frente o preço de referência em dois meses para que ele corresponda ao royalties pagos com esse valor.

A combinação do forte incremento da produção de Piranema no mês de maio com a elevação do seu preço de referência fez com que a receita de royalties daquele campo pulasse de R$ 1,88 milhão, em junho, para R$ 5,67 milhões em julho.


Fonte: ANP. Obs: Os preços de referência foram deslocados dois meses para frente
 a fim de corresponderem aos royalties gerados com base neles.



Para concluir, os artigos da semana passada e o presente apontam para a recuperação da produção do petróleo e das receitas de sua exploração em Sergipe, favorecendo o Estado e os Municípios produtores, notadamente aqueles que recebem royalties de Piranema. Os abalos na economia mundial, todavia, vêm mexendo com preço do barril, o que poderá arrefecer os ganhos com a recuperação do nível de atividade.




Publicado no Jornal da Cidade em 21/08/2011

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Piranema e a produção de petróleo em Sergipe

 
Ricardo Lacerda

"A notícia a respeito de minha morte é um exagero”.
Resposta de Mark Twain ao falso anúncio de sua morte pelo New York Journal, em 02/06/1897

Em 2003, a exploração de petróleo e gás natural em Sergipe ganhou um novo alento. Afinal, a produção de petróleo no Estado manteve-se deprimida ao longo de toda a década de noventa e nos três primeiros anos do novo século. Depois de atingir a produção anual de 18.500 mil barris, em 1984, a produção de petróleo iniciou uma trajetória descendente, somando 16.372 mil barris em 1990, e atingiu seu ponto mais baixo no fatídico ano de 1997, marcado pela crise asiática, quando alcançou 12.083 mil barris, 30% abaixo do resultado de 1984 e 26% do volume de 1990. A produção manteve-se rebaixada até 2002, ano que em alcançou 12.932 mil barris. Naquele período, talvez fizesse sentido vaticinar o fim das perspectivas da exploração do petróleo em Sergipe.

A partir de 2003, iniciou-se um novo ciclo de exploração do petróleo em Sergipe. Concorreram para a retomada dois fatores fundamentais, um relativo ao cenário externo e outro de caráter empresarial, respectivamente, a elevação dos preços no mercado internacional que tornava rentável a exploração de campos de produtividade mais baixa e a decisão da Petrobras de voltar a investir na bacia de Sergipe e Alagoas. Os investimentos deste novo ciclo concentraram-se no melhor aproveitamento dos chamados campos maduros, que requeriam novos investimentos para se contrapor à produção descendente, e na exploração de uma nova fronteira, com a descoberta do campo marítimo de Piranema.

Nos anos seguintes, a produção de petróleo em Sergipe obteve volumes crescentes, passando para 13.962 mil barris, em 2004, até atingir 17.194 mil barris, em 2008, 42% acima do pior resultado, em 1997. Contribuiu para o forte incremento da produção de 2008 a entrada em operação, em setembro de 2007, do campo de Piranema, de exploração em águas profundas, fazendo com que a produção de petróleo em Sergipe alcançasse novo patamar, depois da forte queda no período anterior (ver Gráfico 1).

Crise

A combinação dos efeitos da crise financeira internacional, em 2008 e 2009, com problemas operacionais no campo de Piranema e de licenciamento ambiental em alguns poços da plataforma continental, fez com que a produção de petróleo de Sergipe apresentasse, até abril de 2011, queda significativa em relação ao pico de 2008, ainda que se mantivesse em patamar superior ao volume obtido nos anos noventa. O acompanhamento mensal da produção permite examinar mais cuidadosamente esses pontos.



Fonte: Petrobras e ANP.

Com a crise internacional, o preço médio do petróleo tipo Brent no mercado spot caiu de US$ 99,04, na média de 2008, para US$ 61,50, em 2009, impactando o fluxo de caixa da empresa. A produção mensal de petróleo nos campos sergipanos baixou de 1.463 mil barris, em setembro de 2008, para 1.328 mil barris em janeiro de 2009, recuperando-se nos meses seguintes, até atingir 1.431 mil barris em dezembro de 2009, volume muito próximo ao do resultado do período anterior à crise.
Problemas operacionais no campo de Piranema, ao lado de dificuldades nos poços rasos, fez com que a produção enfrentasse novas quedas, atingindo o volume de 1.121 mil barris, em fevereiro de 2011 (Gráfico 2).

Piranema

A Petrobras vem realizando importantes investimentos visando solucionar os problemas técnicos na exploração de Piranema, alcançando bons resultados somente a partir do último mês de maio. Com o crescimento da produção de Piranema e as melhorias incrementais em outros poços, a produção de petróleo de Sergipe está voltando ao patamar anterior à crise financeira, tendo alcançado 1.393 mil barris, em maio, e 1.353 mil barris, em junho. O Gráfico 2, a seguir, que compara a produção mensal com a média do ano de 2008, mostra que os resultados dos dois últimos meses da série se aproximam da média daquele ano.

Fonte: ANP.

A produção de petróleo de Piranema, que chegou a somar 365,7 mil barris em julho de 2008, atingiu a média mensal 237,5 mil barris em 2008, algo em torno de oito mil barris diários, sem agregar os barris óleo equivalentes oriundos da exploração de gás natural. Nos meses seguintes, trilhou trajetória similar à vista no gráfico anterior, da produção total de petróleo de Sergipe, atingindo seu ponto mais baixo em novembro de 2010 (ver Gráfico 3).
Em maio último, a produção de Piranema alcançou o volume de 285,6 mil barris, próxima a 10 mil barris/dia, quando nos meses anteriores não ultrapassava a faixa de 4 mil barris/dia. Ainda que o resultado de junho não tenha sido publicado, o volume total da produção do mês, apresentado no Gráfico 2, confirma a mudança do patamar da produção de Piranema.

Fonte: ANP.

Perspectivas

Na semana passada, o gerente geral da Unidade de Produção da Petrobras nos Estados de Sergipe e Alagoas informou que as dificuldades operacionais nos poços de Piranema estão sendo equacionadas e que, nos próximos meses, a produção diária deverá atingir 15 mil barris. Em termos de novos investimentos, a Petrobras está delimitando o campo da Barra, área localizada a 90 quilômetros de Aracaju, que poderá constituir nova fronteira de expansão.




Publicado no Jornal da Cidade em 14/08/2011


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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A queda da produção industrial brasileira em junho

Ricardo Lacerda


O anúncio da produção industrial de junho de 2011 adicionou mais um ingrediente ao debate relativo aos efeitos da valorização cambial e do repique da crise internacional sobre o setor industrial brasileiro. A produção física do setor industrial caiu 1,6% em relação a maio, na série livre de efeitos sazonais. Na comparação com junho de 2010, o crescimento limitou-se a 0,7%, quando em dezembro de 2010, em relação a dezembro de 2009, alcançou-se a exuberante expansão de 10,3%. A queda de junho, na comparação com maio, foi generalizada, atingindo 20 dos 27 ramos pesquisados.

Desaceleração
A indústria de transformação brasileira iniciou um longo ciclo expansivo em 2004, como é possível observar no gráfico 1, que apresenta o índice de produção física do mês de junho entre 2003 e 2011. Depois de atingir 94,8 em junho de 2003, o índice de produção física alcançou 107,8 , em junho de 2004, iniciando uma trajetória ascendente interrompida em 2009 com a crise de confiança na economia mundial. As medidas de desoneração tributária e de expansão do crédito tiveram os efeitos de retirar rapidamente a economia brasileira da recessão e de impulsionar a produção industrial, fazendo com que, em junho de 2010, o índice tenha voltado ao patamar de 2008.

Em 2011, a atividade industrial desacelerou-se rapidamente, com o que a produção física da indústria de transformação em junho situou-se apenas 0,7% acima do resultado do mesmo mês do ano anterior (ver Gráfico 1).



Fonte: IBGE-PIM

Os dados da produção industrial em junho foram muito ruins, notadamente nos setores de bens de consumo não duráveis e semi-duráveis, como o setor têxtil e o de calçados. Observe-se no gráfico 2, a seguir, que o índice de produção dos setores de bens de consumo não duráveis e semi-duráveis caiu na comparação entre junho de 2010 e junho de 2011. Nos demais segmentos, com exceção do setor de bens de capital que responde com certa defasagem temporal ao crescimento do uso da capacidade produtiva da indústria, a atividade vem se ressentindo da concorrência com os produtos importados que volta a ameaçar com a desarticulação das cadeias produtivas, à exemplo do que ocorreu no ciclo anterior de valorização cambial, na segunda metade dos anos noventa.


Fonte: IBGE-PIM

Importados


Com a economia dos países ricos andando de lado, os mercados emergentes têm sido alvo das economias exportadoras mais agressivas. A política monetária expansionista do governo americano, induzindo a desvalorização do dólar, é mais um ingrediente da guerra cambial em andamento.

Mesmo com o mercado interno ainda aquecido, entre janeiro e maio o volume do comércio varejista cresceu 7,35%, a indústria vem patinando, tendo aumentado a produção apenas em 1,6%, entre janeiro e junho, em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto o volume de produtos industriais importados cresceu 13,7%.

Segundo estimativa efetuada pela LCA Consultores, citada na edição de 03 de agosto do Valor Econômico, no segundo trimestre de 2011 a participação das importações no mercado doméstico de bens industriais atingiu 21,6%. O espaço dos importados no total consumido internamente avançou tanto em setores mais tradicionais, como têxteis, calçados e móveis, quanto cresceu em segmentos da indústria pesada e de bens de consumo duráveis, como nos ramos químicos, automotivos, máquinas e equipamentos e aparelhos e materiais elétricos.


Nova política


O governo respondeu ao novo cenário na economia mundial com uma série de medidas, de curto e longo prazos que combinam instrumentos de estímulo à competitividade da nova política industrial e as intervenções no mercado de câmbio visando interromper a valorização da moeda.

O conjunto de medidas adotadas parece apontar para uma percepção por parte do governo de que o agravamento do cenário mundial, com aumento da instabilidade e com uma trajetória de recuperação muita lenta e arrastando-se por alguns anos ainda, reuqer uma postura mais pragmática, de defesa dos empregos e de preservação de nossa estrutura industrial. Em um cenário que se afasta da normalidade, não cabe fingir que está tudo bem ou que nada pode ser feito, a não ser seguir o mantra de cortar as despesas, repetido à exaustão pelos setores mais ortodoxos.

Publicado no Jornal da Cidade, em 07/08/2011



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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os investimentos na exploração de petróleo e gás para o período 2011-2015

Ricardo Lacerda

A exploração na camada do pré-sal abriu novas perspectivas para a cadeia de petróleo e gás natural no Brasil. Nos próximos anos, os investimentos dos segmentos que a integram representarão mais de 1/3 do total previsto para a indústria. No último dia 22, com a aprovação pelo Conselho de Administração da Petrobras do Plano de Negócios 2011-2015, foram apresentados os investimentos da empresa para o período.

A Petrobras anunciou investimentos na ordem de US$ 224,7 bilhões, equivalentes a R$ 389 bilhões, dos quais US$ 127,5 bilhões, equivalentes a 57% do total, serão destinados à atividade de exploração e produção (E&P) de petróleo e gás natural.

Investimentos

No mês de junho, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia publicado a estimativa de investimentos para o período 2011-2014. Segundo o BNDES, a Formação Bruta de Capital Fixo, que representa os investimentos em máquinas e equipamentos, construções e outros elementos tangíveis, seguirá trajetória crescente enquanto participação no PIB, passando dos 18,4% obtidos em 2010 até atingir 22,8%, em 2014 (ver Gráfico 1 a seguir). A elevação da taxa de investimento, como se sabe, é o elemento fundamental para aumentar o potencial de crescimento da economia brasileira e assegurar o crescimento sustentável nos próximos anos, sem maiores pressões sobre os preços ou nas transações com o exterior.

Gráfico 1: Projeção da taxa de investimento ( Formação Bruta de Capital Fixo/ PIB).
Fonte: BNDES. Extraído de BNDE. Visão de desenvolvimento, nº 95. 20 de junho de 2011.

Os investimentos totais entre 2011 e 2014 na economia brasileira alcançariam o montante de R$ 3,3 trilhões, dos quais cerca de R$ 1 trilhão destinam-se ao setor industrial, R$ 400 bilhões para infraestrutura, com destaque para os investimentos no segmento de energia elétrica, e R$ 1,9 trilhão nos demais setores (ver tabela).

O setor de petróleo e gás realizaria investimentos da ordem de R$ 378 bilhões, no período 2011-2014, que representariam 11,3% do total da economia brasileira e 36,1% dos investimentos do setor industrial. Apenas para comparar, o segundo segmento industrial em valor de investimento, a indústria extrativa mineral, alcançaria R$ 72 bilhões, cerca cinco vezes menos, e os investimentos somados da siderurgia com a indústria automobilística também montariam cinco vezes menos.

Fonte: BNDES. Extraído e adaptado de BNDE. Visão de desenvolvimento, nº 95. 20 de junho de 2011.

Pré e pós-sal

No período 2011-2015, os investimentos da Petrobras no pré-sal, US$ 53,4 bilhões, permanecerão ainda abaixo dos US$ 64,3 bilhões previstos para o pós-sal, que serão destinados principalmente para a bacia de Campos. Mas a participação do pré-sal nos negócios da empresa será crescente, estimando-se que a produção deverá passar de 2%, em 2011, para 40,5%, em 2020.

Com os investimentos projetados, a produção nacional de petróleo deverá apresentar crescimento de 46% entre 2011 e 2015, atingindo o notável crescimento de 136% até 2020, passando dos estimados 2,1 milhões de barris óleo equivalentes dia (boed), em 2011, alcançando 3,1 milhões de boed em 2015 e 4,9 milhões de boed, em 2020 (ver Gráfico 2).

Fonte: Petrobrás. Plano de Negócios 2011 - 2015

Desafios

A empresa explicita a necessidade de reforçar o fluxo de caixa para financiar os investimentos. Dos US$ 224,7 bilhões previstos para todos os segmentos de atuação, entre US$ 125,0 bilhões e US$ 148,9 bilhões, ou seja, entre 56% e 66%, dependendo do cenário, deverão ser originários de acumulação interna. Atenta a tal questão, serão priorizados os investimentos em campos sob regime de contrato de cessão onerosa, em que a empresa já despendeu recursos para obter o direito de exploração e produção, mas que são livres de pagamento de participações especiais, cabendo apenas o pagamento de royalties às esferas de governo.

No plano de negócios 2011-2015, a empresa se diz ciente dos desafios tecnológicos, ambientais, gerenciais e de formação de recursos humanos para levar adiante a expansão e sinaliza para a ampliação de parcerias com as universidades e para o fortalecimento dos laços com fornecedores nacionais.


Publicado no Jornal da Cidade em 31/07/2011

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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Migração de retorno para o Nordeste

Ricardo Lacerda

O IBGE publicou no dia 15 de julho a coletânea de estudos Reflexões sobre os deslocamentos populacionais no Brasil, com uma série de informações muito interessantes sobre as migrações das pessoas entre as regiões e entre os estados brasileiros. Ver em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/reflexoes_deslocamentos/deslocamentos.pdf.

Um primeiro aspecto importante que foi apontado na publicação é o de que as migrações entre as regiões vêm caindo de forma muito significativa. Enquanto no qüinqüênio 1995-2000, cerca de 3,3 milhões de brasileiros passaram a residir em outras regiões, esse contingente caiu para 2,8 milhões, no qüinqüênio 1999-2004, e para cerca de 2 milhões entre 2004 e 2009. Uma outra informação muito curiosa é a de que parcela crescente, ainda que minoritária, das migrações interregionais é de pessoas que retornam para a suas regiões e que esse fenômeno foi mais acentuado no Nordeste.

Emigração

Dos 3,3 milhões de brasileiros que emigraram entre 1995 e 2000, 1,4 milhão, equivalentes a 42% do total, era de nordestinos, dentre os quais 969,4 mil se deslocaram para a região Sudeste. O Nordeste teve uma perda de população para as demais regiões que alcançou, em termos da diferença entre os que saíram e os que chegaram, 764 mil pessoas.

Na primeira década do novo século, caiu em todas as regiões o movimento migratório. No caso do Nordeste, a queda foi muito acentuada, passando para 935 mil no qüinqüênio 1999-2004 e 730 mil entre 2004 e 2009, quase a metade da emigração do primeiro período, os 1,4 milhão (ver Gráfico). No segundo qüinqüênio, o Nordeste registrou saldo migratório negativo de 86, 6 mil pessoas, e entre 2004 e 2009, de 187,9 mil pessoas, números bem inferiores aos do período 1995-2000.

Ainda que o destino principal dos nordestinos continue sendo os estados da região Sudeste, 549 mil entre 1999 e 2004, e 444 mil entre 2004 e 2009, essa última região registrou saldo migratório negativo nesses dois períodos, enquanto as regiões Sul e Centro-Oeste passaram a ser as principais receptoras em termos líquidos nas relações interregionais. Finalmente, cabe destacar que a redução da emigração do Nordeste foi maior entre 1999 e 2004 do que entre 2004 e 2009, diferentemente das demais regiões que desaceleraram mais rapidamente as emigrações no período mais recente, quando o mercado de trabalho brasileiro melhorou.


Fonte: PNAD 1995, 1999, 2004 e 2009 e Censo populacional de 2000.
Extraídos e adaptados de IBGE. Reflexões sobre deslocamentos populacionais no Brasil. 2011.

Migração de retorno

O estudo do IBGE calculou também os pesos das pessoas que retornaram para seus estados, a chamada migração de retorno, que são apresentados na tabela a seguir ao lado do índice de Eficácia Migratória (IEM), que mostra se o saldo migratório do estado, positivo ou negativo, representa muito ou pouco em relação ao seu movimento migratório total, incluindo emigração e imigração.



Fonte: PNAD 2004 e 2009.
 Extraídos e adaptados de IBGE. Reflexões sobre deslocamentos populacionais no Brasil. 2011.


Em sete estados, a migração de retorno entre 2004 e 2009 representou mais de 20% do total da imigração, por ordem, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Sergipe, Minas Gerais e Paraíba. Todavia, os dois primeiros tiveram saldos negativos, ainda que não tenham ultrapassado 10% do movimento migratório no período, e são assim considerados áreas de rotatividade migratória, porque o saldo não tem grande expressão na movimentação total.

Paraná, Sergipe e Paraíba registraram saldos positivos, mas que não representaram mais de 10% da migração total, são também considerados áreas de rotatividade migratória, diferentemente do Rio grande do Norte que aliou elevada migração de retorno a Índice de Eficácia Migratória que representou 24% de sua migração total (ver Tabela). Os demais estados do Nordeste também apresentaram elevadas taxas de migração de retorno, ainda que alguns deles, notadamente Alagoas, Bahia e Piauí contêm com saldos negativos que representam porcentagens expressivas do movimento migratório.

Em conjunto, os indicadores apresentados no citado estudo, mostram uma nova dinâmica populacional para o Nordeste, com menor emigração nos anos recentes, mas também recebendo menos migrantes de outras regiões.
Publicado no Jornal da Cidade em 24/07/2011

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desenvolvimento regional e conflito federativo no Brasil (2)

Ricardo Lacerda

A constituição de 1988 estabeleceu uma série de mecanismos cooperativos nas relações federativas, reafirmando o compromisso do país com a busca de um desenvolvimento mais equilibrado territorialmente, tanto em termos econômicos quanto em termos sociais.

Os resultados já publicados pelo censo demográfico de 2010 confirmam o que outras pesquisas já mostravam: os mecanismos de políticas públicas e o ciclo recente de crescimento econômico promoveram importante redistribuição espacial dos benefícios do desenvolvimento, favorecendo as áreas mais pobres do país, ainda que todas as regiões tenham alcançado importantes ganhos ao longo da década passada.

Os conflitos federativos têm assumido a feição de uma disputa cega por recursos para fazer frente às crescentes demandas das populações, deixando de lado os princípios consagrados de cooperação horizontal, entre os estados, e vertical, entre união, estados e municípios.

FPE

O Fundo de Participação dos Estados (FPE) tem como objetivo promover o equilíbrio socioeconômico entre as entidades federativas, tendo como critério de repartição os tamanhos da população e da área territorial e o inverso da renda per capita. Em 1989, pactuou-se entre os estados, como contrapartida a outras vantagens auferidas pelos estados mais industrializados, destinar 85% do FPE para os estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e 15% para as regiões Sul e Sudeste. Dentro dos grupos, aplicar-se-iam os critérios constitucionais.

Em 2010, provocado por alguns estados que se sentiam prejudicados, o STF pronunciou-se pela inconstitucionalidade das quotas regionais fixas de repartição (os 85%), visto que a realidade socioeconômica evolui no tempo, determinando a suspensão na distribuição dos recursos deste fundo, caso novas regras de repartição não sejam aprovadas pelo congresso nacional até o final de 2012.

União

Há disputas também em relação ao peso do FPE e FPM em relação ao total da receita arrecadada pelo governo federal.Para enfrentar as despesas geradas pela expansão das políticas públicas e pelo crescimento da máquina administrativa, as administrações federais têm optado por incrementar as receitas de contribuições como o Finsocial e CSLL, que não são repartidas com os estados e municípios, diferentemente do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPII e do Imposto sobre a Renda (IR), em que 40% têm tal destinação. Com isso, o IPI e do Imposto sobre a Renda (IR) caíram de 73,2% da arrecadação própria da receita federal, em 1988, atingiram 57,7% em 1990, e nos anos 2000, oscilaram em torno de 45% (ver gráfico a seguir).



Fonte: SRF. Extraído de GEFPE-CONFAZ, 2011.

Os maus resultados na arrecadação do IPI e do IR, em 2009 e 2010, frente aos compromissos crescentes, provocaram forte desequilíbrio nas finanças de estados e municípios mais dependentes do FPE/FPM, gerando uma forte insatisfação com a repartição dos recursos entre as esferas de governo.

Royalties

O imbróglio em torno dos critérios de repartição dos royalties de exploração marítima de petróleo parece ainda mais distante de uma resolução satisfatória.Em 2010, foram distribuídos como participações governamentais (royalties + participações especiais) R$ 21,7 bilhões, dos quais 40% pertencem a União, 56% a Estados e Municípios e os 4% restantes são destinados a fundos especiais e outros. Rio de Janeiro e Espírito Santo se apropriaram, junto com seus municípios, de R$ 10,6 bilhões, equivalentes a 49% do total distribuído no país e a 87,6% da parcela que cabe a estados e municípios, restando aos demais a quantia de 1,5 bilhão, ou 12,6% do total (ver tabela a seguir).



Fonte: ANP.

As participações governamentais (royalties + participações especiais) devem dobrar nos próximos anos, dado que a produção deverá passar de 2 milhões de barris/dia para 4 milhões de barris/dia em 2017, e triplicar até 2022, atingindo 6 milhões de barris/dia, implicando forte injeção de recursos nos Estados confrontantes, muito pouco compartilhados com os demais Estados.

Em dezembro de 2010, foi sancionada, com vetos,a lei 12.351, que definiu novas regras para a exploração de petróleo na camada do pré-sal, instituindo o sistema de partilha, com o que a distribuição das participações governamentais da exploração marítimade petróleo e gás deverá seguir os critérios mais equânimes entre estados produtores e não produtores, seguindo a sistemática do FPE.

O cerne da disputa atual é que 28% do petróleo do pré-sal já foram licitados pelo sistema anterior, regime de concessão, cujos resultados reforçam os ganhos dos estados produtores, Rio de Janeiro, Espírito Santo e também São Paulo, que inicia a exploração. Os demais estados não concordam em esperar até 2020 quando o pré-sal no regime de partilha começa a dar seus primeiros frutos e querem participar dos cerca de R$ 10 bilhões anuais de incremento da receita de petróleo.





Publicado no Jornal da Cidade 17/07/2011




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