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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

domingo, 3 de maio de 2026

Cenário prospectivo do emprego em Sergipe*

 Ricardo Lacerda

Observou-se uma inflexão positiva consistente da expansão do PIB sergipano a partir de 2023. O PIB estadual cresceu 3,1%, em 2023, 3,2%, em 2024 e estima-se em 1,8% o crescimento de 2025, com média trienal de 2,9%, sinalizando aceleração em relação ao triênio anterior. Desse ponto de vista, Sergipe parece ter entrada em uma etapa de crescimento econômico mais estável, em sintonia com o movimento geral da economia brasileira (Figura 1).

Esse novo ciclo tem sido acompanhado por forte expansão do emprego formal, como evidenciado nos dados do Novo CAGED, acompanhado por aumento dos rendimentos médios e redução dos indicadores de pobreza, em linha com a melhora do mercado de trabalho nacional.

Ainda que o ritmo de crescimento atual seja mais modesto quando comparado ao ciclo expansivo 2004–2014, marcado por forte crescimento do investimento, do crédito e do consumo, o atual momento pode revelar bases mais sólidas, com recuperação gradual da atividade produtiva e recomposição do mercado interno, com importante impacto no mercado de trabalho.

As expectativas para os próximos anos são consistentes com um conjunto de “fatos portadores do futuro”, com potencial de alterar aspectos estruturais da economia sergipana. Nesse sentido, destaca-se a decisão da Petrobras de iniciar, ainda em 2026, os investimentos na exploração do projeto Sergipe Águas Profundas II (SEAP II), com previsão de início da produção em 2030. Trata-se de empreendimento de grande escala, capaz de mobilizar investimentos significativos, gerar empregos diretos e indiretos e dinamizar cadeias produtivas associadas à indústria de petróleo e gás.

Somam-se a isso a reabertura da Fábrica de Fertilizantes do Nordeste e as perspectivas de atração de investimentos em data centers, vinculados à economia digital, e a retomada dos investimentos públicos em infraestrutura pelo Governo do Estado, elementos que podem ampliar a capacidade produtiva e a competitividade regional.

Não obstante, o horizonte permanece cercado de incertezas relevantes. O agravamento dos conflitos no Oriente Médio e o recente ataque ao Irã introduzem riscos significativos à estabilidade da economia mundial, com potencial de afetar preços internacionais de energia e dos alimentos, fluxos de comércio e condições financeiras globais. Em um cenário de maior volatilidade externa, economias periféricas como a brasileira tendem a enfrentar desafios adicionais, seja via taxa de câmbio, inflação ou restrições ao financiamento.

Ainda assim, o fato central é que o Brasil retomou um ciclo de crescimento e Sergipe acompanha esse movimento. A combinação entre recuperação do PIB, expansão do emprego formal, melhora dos rendimentos e perspectivas de novos investimentos estratégicos gera expectativas positivas para a economia sergipana no médio prazo, ainda que as incertezas externas possam ameaçar esse cenário mais virtuoso.

Figura 1. Sergipe. Taxa média trienal móvel do PIB: 2013-2025 (%)

Fonte: IBGE. Contas regionais até 2023 e LCA Consultoria para estimativa 2024 e projeção para 2025

Ao lado da retomada do crescimento do PIB a partir de 2023, os dados do Novo CAGED evidenciam que o mercado de trabalho formal em Sergipe também vem apresentando desempenho expressivo, consolidando um novo ciclo de expansão do emprego (Tabela 1 e Figura 5).

Tabela 1. Sergipe. Estoque, Saldo gerado e Taxa anual de crescimento do emprego formal 2020-2025

Anoso

Estoque

Saldo

Taxa anual (%)

2020

286.114

-

-

2021

301.939

15.825

5,5

2022

313.773

11.834

3,9

2023

327.139

13.366

4,3

2024

342.686

15.547

4,8

2025

358.143

15.457

4,5

Fonte: MTE. Novo CAGED

Após o período mais agudo da pandemia, o estoque de empregos formais no estado passou de 286.114 vínculos para 301.939 em 2021, com geração líquida de 15.825 postos e crescimento anual de 5,5%. Em 2022, mesmo com alguma desaceleração do ritmo de crescimento de novos empregos formais, o saldo permaneceu positivo em 11.834 empregos (3,9%), elevando o estoque para 313.773 vínculos. Esses números já indicavam um movimento consistente de recuperação do mercado de trabalho.

A partir de 2023, contudo, observa-se um novo patamar de expansão, em linha com a aceleração do PIB estadual. Em 2023, Sergipe gerou 13.366 empregos formais, com crescimento de 4,3%, alcançando estoque de 327.139 vínculos. Em 2024, o saldo foi ainda mais expressivo: 15.547 novos postos, com taxa anual de 4,8%, elevando o estoque para 342.686 empregos formais. Em 2025, a geração líquida manteve-se elevada, com 15.457 vagas adicionais (4,5%), totalizando 358.143 vínculos ativos.

No acumulado de 2021 a 2025, a economia sergipana criou mais de 56 mil empregos formais, o que representa uma expansão significativa da base de trabalhadores com carteira assinada no estado. O crescimento anual do emprego formal tem se mantido de forma relativamente estável em torno de 4% a 5% desde 2021, indicando que a retomada não foi episódica, mas sim parte de um movimento mais estruturado de recuperação econômica.

Ainda que o cenário externo apresente incertezas relevantes e que o ritmo de crescimento econômico seja mais moderado do que o observado em ciclos expansivos anteriores, os dados do Novo CAGED indicam que o mercado de trabalho sergipano vem respondendo de maneira robusta ao novo contexto macroeconômico, consolidando uma trajetória de recuperação iniciada no pós-pandemia e intensificada a partir de 2023.

Figura 2. Sergipe. Saldo gerado e Taxa anual de crescimento do emprego formal 2021-2025

Fonte: MTE. Novo CAGED

À luz desse desempenho recente, o cenário prospectivo para os próximos anos parte da hipótese de que esse ciclo moderado de crescimento do PIB deverá se estender nos próximos anos, acompanhando, ainda que com oscilações conjunturais, a trajetória provável da economia brasileira.

Nesse contexto, projeta-se a manutenção de taxas positivas de crescimento da atividade econômica em Sergipe, com expansão robusta do mercado de trabalho formal e incremento do estoque de empregos, sustentados pela recuperação do mercado interno, pela maturação de investimentos estruturantes e pela continuidade das políticas públicas voltadas à infraestrutura e ao desenvolvimento produtivo.

Assim, o exercício de construção de cenários para o futuro do trabalho no estado parte de um ambiente de crescimento moderado, no qual a dinâmica do emprego será influenciada não apenas pelo ritmo da economia nacional, mas também pelo perfil desse crescimento, em que as classes de rendimento mais baixo têm sido favorecidas, o que vem estabelecendo um multiplicador de emprego robusto, que no caso do emprego formal em Sergipe tem se situado acima de 4% ao ano.

O desafio será consolidar o ciclo de crescimento recente, transformando a recuperação conjuntural em trajetória sustentada de desenvolvimento, com diversificação produtiva, aumento da produtividade e redução das desigualdades sociais e territoriais.

* o presente artigo faz parte do relatório Cenários prospectivos e perfil das novas ocupações em Sergipe, elaborado no âmbito do estudo Diagnóstico do Mercado de Trabalho e Desenvolvimento Econômico de Sergipe da SETEEM - Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Sergipe: Panorama econômico de 2025 e Perspectiva para 2026*

Ricardo Lacerda


Introdução

O ano de 2025 foi marcado por tensões geopolíticas, desaceleração do crescimento global e elevado grau de incerteza quanto aos rumos da economia mundial. Ainda assim, o Brasil tem conseguido sustentar um processo de retomada do crescimento econômico, com inflação mais comportada e melhora consistente dos principais indicadores do mercado de trabalho. Sergipe, inserido nesse ambiente de incertezas, acompanhou esse movimento, apresentando desempenho favorável, confirmando o início de um novo ciclo de crescimento econômico.

Um vetor central dessa retomada tem sido o aquecimento do mercado de trabalho, que tem sustentado a expansão da renda, do consumo e das atividades de comércio e serviços. Em paralelo, o estado retomou investimentos relevantes em infraestrutura, ao tempo em que vem se consolidando a viabilização de projetos estratégicos para o seu desenvolvimento, com destaque para a reabertura das operações da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (FAFEN) e o anúncio do início da exploração pela Petrobras do projeto Sergipe Águas Profundas, iniciativas que ampliam as perspectivas de médio e longo prazo para a economia sergipana. Não obstante, o cenário permanece cercado de riscos importantes, seja no plano externo, diante da intensificação das tensões geopolíticas globais, seja no plano nacional, onde a manutenção de uma política de juros elevados segue representando uma ameaça concreta à sustentação do ritmo de crescimento econômico.

 1.    Cenário Mundial de crescentes incertezas

A edição de outubro de 2025 do relatório World Economic Outlook, do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou que a economia mundial entrou em uma fase marcada por grande incerteza, acompanhada por crescimento moderado e por riscos econômicos e políticos mais pronunciados. A primeira observação relevante é de que as condições do comércio internacional mudaram de forma significativa no início de 2025, quando os Estados Unidos elevaram tarifas de importação sobre diversos produtos.  Mesmo após recuos parciais, essas tarifas permaneceram altas, entre 10% e 20%, sobre uma ampla variedade de bens.

Segundo o relatório, as respostas dos países que sofreram as sanções não resultaram em regras claras para as transações econômicas internacionais. Na verdade, as negociações encetadas teriam sido fragmentadas e pouco coordenadas, o que teria o efeito de reduzir a previsibilidade para empresas e governos nas suas relações internacionais. Esse ambiente de respostas pontuais criou um quadro de maior volatilidade na economia mundial e dificulta a organização de cadeias produtivas globais que dependeriam para o bom funcionamento de fluxos estáveis e de acordos comerciais duradouros.

O FMI destacou também dois outros movimentos relevantes e que estariam sendo relativamente poucos discutidos: a redução dos fluxos migratórios entre os países e o recuo da ajuda internacional aos países pobres. Ambas as variáveis são importantes como mecanismos de ajuste global, e sua queda em 2024 e em 2025 limitaria a capacidade de países mais vulneráveis reagirem a choques econômicos adversos. A combinação de tarifas elevadas, retração migratória e menor apoio financeiro internacional resultaria em um novo cenário internacional marcado por os fluxos econômicos globais mais fragmentados, com impactos diretos sobre decisões de investimento das grandes empresas, elevação dos custos logísticos e perda de produtividade econômica na economia mundial.

O FMI enfatizou que os impactos das medidas tarifárias norte-americanas deverão estabelecer um novo cenário duradouro na economia mundial, porque que não se trataria de um ajuste passageiro, e sim de uma tendência de médio prazo, reforçada por fatores estruturais. Ainda que não aponte para nenhuma catástrofe, o relatório do FMI não é otimista sobre o cenário mundial de médio prazo: em 2030, dois terços da economia mundial estariam operando com níveis de crescimento inferiores aos estimados antes da pandemia do Covid-19. Isso significa que a recuperação da economia mundial no pós-Covid corrigiu desequilíbrios imediatos, mas não alterou a tendência de desaceleração do crescimento econômico já percebida nas últimas décadas.

Entre as causas da desaceleração recente, o FMI aponta fatores conjunturais e estruturais. No curto prazo, os principais elementos são as tarifas elevadas, que interrompem cadeias produtivas, aumentam custos para indústrias dependentes de insumos importados, enquanto o quadro de incertezas desestimula novas decisões de investimentos. Soma-se a isso a redução da demanda interna nas maiores economias, após um período de antecipação de investimentos e estímulos aplicados no início de 2025. Um terceiro fator é crítico para o médio prazo: os níveis historicamente elevados de endividamento público, especialmente nos Estados Unidos, na China e em parte da Europa.

* O presente texto foi elaborado em dezembro de 2025 para compor o Relatório de Atividades de 2025 do Governo de Sergipe.  Ele é composto pela introdução e pelo início da seção 1- Cenário Mundial de crescentes incertezas. O capítulo contém mais duas seções: Seção 2- Cenário Nacional: Mercado de trabalho aquecido, mas atividade em desaceleração e a seção 3- A consolidação do crescimento em Sergipe. A íntegra do capítulo pode ser acessada no link a seguir https://www.se.gov.br/anexos/uploads/download/filename_novo/16989/83409a27c0e88836a1d649b13a4cb01e.pdf

quinta-feira, 6 de junho de 2024

**Keynes está de volta, para a felicidade geral**

Publicado originalmente em abril de 2021.

 *Ricardo Lacerda*

 

O debate econômico atual no Hemisfério Norte não deixa margem para dúvidas: está em pleno andamento uma importante virada na compreensão do papel do Estado no desenvolvimento econômico e social, sintetizada na seguinte ordem do dia: o keynesianismo está de volta. Após 40 anos de hegemonia sufocante da perspectiva neoliberal, os reiterados fracassos do sistema de mercados crescentemente desregulados em cumprir as promessas de promover crescimento econômico sustentado, estável, inclusivo em termos sociais e expansivo em direção a novas áreas do globo terrestre exauriram suas possibilidades.

 

A agonia do sistema de mercados desregulados começou em 2008, com o estopim da crise financeira que abalou a economia mundial. Todavia, naquele momento, as lideranças políticas dos países ricos e os dirigentes das agências multilaterais de desenvolvimento titubearam em realizar as mudanças necessárias para uma nova etapa de maior regulação da economia mundial, sucumbindo mais uma vez à ideologia neoliberal e aos interesses dos detentores da riqueza financeira. Economistas notáveis, como Joseph Stiglitz e Paul Krugman, ambos premiados com o Nobel, apontavam incansavelmente os fracassos da globalização desregulada em promover crescimento justo socialmente e sustentado econômica e ambientalmente. Contudo, suas vozes minoritárias não ultrapassavam os muros das universidades ou dos movimentos populares mais engajados socialmente.

 

As insatisfações com o sistema neoliberal foram se acumulando com a crescente deterioração do mercado de trabalho nos países centrais, expressa pelo aumento exponencial das relações de trabalho precarizadas, pelo aumento do número de pessoas em situação de pobreza e pelo imenso contingente de moradores de rua nos principais centros urbanos dos países ricos, especialmente no país que simbolizava e liderava ideologicamente a propagação mundial das políticas neoliberais. O debate sobre as crescentes desigualdades de renda entre ricos e pobres, emergido dos trabalhos do economista francês Thomas Piketty, foi essencial para firmar nas mesas acadêmicas e na mente da população a injustiça crescente do sistema de mercados desregulados.

 

Se a crescente insatisfação com a globalização financeira propiciou a emergência de líderes populistas de extrema direita em diversos continentes, tendo o presidente norte-americano Donald Trump como representante maior, esse ciclo político aparentemente começou a se esgotar.

 

**Plano Biden**

 

A manifestação mais consistente e robusta da virada keynesiana foi, sem sombra de dúvidas, o recente pacote de estímulos do presidente dos EUA, Joe Biden, que alcançou a notável soma de dois trilhões de dólares. Antes de sua submissão ao Congresso, o conjunto de medidas sofreu ataques diversos, com destaque para as incisivas manifestações do economista Lawrence Summers, exatamente aquele assessor econômico que fez o então presidente Obama titubear em adotar medidas mais duras de enfrentamento ao poderio do setor financeiro. Dessa vez, todavia, o recém-empossado presidente Joe Biden não se deixou impressionar pela mensagem alarmista do economista de que um pacote tão robusto teria impactos inflacionários desestabilizadores da economia. A secretária do Tesouro americana, a experiente economista Janet Yellen, presidente do Banco Central (FED) na administração Obama, descartou recuar e afirmou sem rodeios que, dessa vez, se o governo tivesse que errar, seria para mais e não para menos, como aconteceu em 2008.

 

Até mesmo lideranças do setor financeiro e de empresas da mídia corporativa, que costumam se alinhar a esse segmento, reconhecem que o alcance das medidas anunciadas pelo governo Biden significa uma virada de grande alcance na política econômica. Não apenas enfrentam os postulados das medidas fiscalistas que colocavam a austeridade fiscal no altar da sacralidade, mas também desenham um conjunto de linhas de ação que reposiciona o papel do Estado no desenvolvimento econômico e social do país. O Plano Biden contempla investimentos de US$ 750 bilhões em infraestrutura produtiva, incluindo estradas, ferrovias e transmissão de energia; US$ 189 bilhões em Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (P&D); avança em direção ao estímulo a setores industriais considerados estratégicos; e mais US$ 100 bilhões em infraestrutura de internet de banda larga. Aproximando-se da plataforma dos ambientalistas, contempla investimentos em energias renováveis, veículos elétricos e saneamento básico, em uma reviravolta ambiciosa em termos de atuação do governo na área econômica.

 

**Efeito demonstração**

 

O efeito demonstração da iniciativa norte-americana sobre a gestão econômica dos países ricos e mesmo dos países em desenvolvimento, como o nosso, deverá ser avassalador, apesar dos mugidos e do aparente pouco caso de economistas brasileiros vinculados ao mercado financeiro e de seus porta-vozes na mídia corporativa, como retratado entre nós no editorial do jornal Folha de São Paulo de 04 de abril de 2021. O referido editorial, apesar de reconhecer que o megapacote de Biden visa revigorar o capitalismo dos EUA, vaticina que o Brasil não teria a oportunidade de seguir caminho similar.

 

Do ponto de vista brasileiro, a virada keynesiana que se apresenta no Hemisfério Norte abre uma senda de luta interna para se contrapor não apenas ao desmonte do Estado promovido pelas políticas neoliberais, que foi retomado em ritmo acelerado depois do golpe parlamentar de 2016. A possibilidade aberta pela virada na política econômica nos EUA vai além disso: cria condições concretas para a construção de um novo pacto político e social em favor de uma nova etapa de desenvolvimento, com forte conteúdo desenvolvimentista e de inclusão social, em linha com as novas demandas da sociedade e de afirmação do país interna e externamente. Essa afirmação deve contemplar não apenas o desenvolvimento produtivo por meio da capacitação tecnológica, científica e empresarial, como também a construção de uma sociedade mais homogênea e menos desigual, em uma nova perspectiva na relação com os recursos naturais e um aprofundamento interno nas relações democráticas. Sim, Keynes está de volta na política econômica e social e chegará ao Brasil. Sim, retornará para a felicidade geral da nação.

 

*Ricardo Lacerda*

 

*Integrante da ABED - Associação Brasileira de Economistas pela Democracia*

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Artigo- Nordeste 1952-2022: acerto com o passado e desafios para o presente e para o futuro


Banco do Nordeste do Brasil: 70 anos de contribuição para o desenvolvimento regional


 CAPÍTULO I

Nordeste 1952-2022: acerto com o passado e desafios para o presente e para o futuro 

Ricardo Oliveira Lacerda de Melo e Cid Olival Feitosa

Introdução

Quando o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) foi criado pelo presidente Getúlio Vargas, em 1952, obviamente o Brasil e a Região Nordeste eram muito diferentes do que são atualmente, setenta anos depois. Mas diferentes em quais sentidos? 

Em primeiro lugar, o Nordeste de então nem mesmo correspondia oficialmente ao território regional de hoje; os estados de Sergipe e Bahia integravam a Região Leste, com os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e o antigo Distrito Federal, enquanto o Estado de São Paulo fazia parte da Região Sul. A Região Nordeste, portanto, estendia-se do Maranhão a Alagoas, sendo delimitada ao sul pelo rio São Francisco, ainda que muitos dos programas de fomento econômico para a Região contemplassem os estados da Bahia e de Sergipe e alguns deles tivessem como alvo o Polígono das Secas, que abrangia também parcela dos territórios desses dois estados.

Na divisão regional da época, a Região Nordeste contava, em 1950, com 12.494.477 habitantes, correspondentes a 24,1% dos 51.944.397 brasileiros. Na divisão regional atual, a população nordestina, em 1950, alcançava 17.973.413 habitantes, equivalentes a 34,6% da população brasileira. Em termos de ordem de grandeza da população e da ordem dos problemas a serem enfrentados, vale a pena guardar a ideia de que cerca de um em cada quatro brasileiros era integrante da Região Nordeste na divisão regional da época, ou cerca de um a cada três brasileiros na regionalização atualmente vigente. Ainda que a divisão territorial dos anos 1950 seja relevante para a compreensão dos embates em torno das políticas públicas, a partir desse ponto do capítulo, por comodidade de acompanhar as bases estatísticas ou para dimensionar os problemas na extensão territorial e populacional atual, passaremos a apresentar os números com base na divisão regional que se apresenta hoje, a não ser quando outra dimensão territorial for expressamente informada.

Em segundo lugar, as distribuições espaciais da população e das atividades econômicas também eram muito distintas das que vigoram atualmente. O Brasil e o Nordeste no início dos anos cinquenta do século XX eram muito mais rurais do que são atualmente. Dos 17.990.000 residentes no Nordeste contados no censo de 1950, considerando a regionalização atual, residiam nas áreas urbanas 4.744.808 deles, enquanto 13.228.605 eram integrantes da população rural, correspondendo, respectivamente, a 26,4% e 73,6% do total regional. Na comparação com 2010, há uma inversão quase exata dessas proporções, com 73,1% da população residindo em áreas urbanas e 26,9% de população rural. Nos dois registros censitários, 1950 e 2010, a participação da população rural do Nordeste se manteve em cerca de dez pontos percentuais acima da média brasileira, mais precisamente 9,9%, em 1950, e 11,3%, em 2010. No meio rural, o censo demográfico de 1950 constatou que 83,6% da população nordestina de cinco anos ou mais não sabiam ler nem escrever.

Ao longo desses 70 anos emergiu na Região uma rede de cidades médias e formaram-se as áreas metropolitanas no entorno das capitais. Não menos significativas foram a ocupação dos vazios territoriais do sul do Maranhão e do Piauí e do oeste da Bahia, a partir da expansão da pecuária e da moderna agricultura de grãos, e a instalação de perímetros irrigados de elevada produtividade agrícola no Semiárido.

Em terceiro lugar, os circuitos de acumulação de capital no território brasileiro eram relativamente mais segregados espacialmente, destacando-se dois sistemas regionais: o polo econômico e industrial que se fortalecia no Centro-Sul e o Complexo Econômico Nordestino, ainda marcadamente de base agrícola. Nos anos 1950, a Região Nordeste ficava para trás política e economicamente, porquanto se via engolfada pela centralização do poder patrocinada pela Revolução de 1930 e pela nova dimensão que assumira a expansão da acumulação de capital no País, com a ampliação da base empresarial e a instalação de novos setores de atividades, especialmente aqueles dominados por grupos empresariais estrangeiros em mercados oligopolistas.

Uma das reconfigurações econômicas que mais impactou as lideranças nordestinas na época foi a conquista do mercado regional de bens de consumo pelas empresas nacionais ou por filiais estrangeiras sediadas na região hegemônica.

Em quarto lugar, o Brasil e o Nordeste dos anos 1950 enfrentavam desafios e acalentavam projetos e sonhos bem distintos dos atuais; no caso do Nordeste, os sonhos e desafios marcados pela busca de diminuição da miséria rural e de definição de políticas públicas visando a estreitar o hiato de desenvolvimento em relação à região que se industrializava rapidamente no Centro-Sul do País, que almejava, por sua vez, alcançar os padrões de riqueza das nações já industrializadas.

Atualmente, com mais de 70,0% da população residindo nas áreas urbanas, com predomínio das ocupações terciárias, contando com uma rede de cidades mais complexa, economia integrada aos circuitos nacionais de geração de renda e de acumulação e uma estrutura econômica e social mais diversificada territorialmente, são outros os desafios e sonhos que o Nordeste enfrenta. Permanecem os desafios de reduzir o grau de informalidade no mercado de trabalho, ainda muito elevado, e a defasagem persistente de renda per capita em relação às regiões mais ricas. 

São também desafios de grande significado para a Região reduzir a fração da população em situação de pobreza e retirar da miséria o contingente que nela se encontra, presentes no meio rural e nas periferias dos principais centros urbanos.

É sempre importante registrar a dimensão populacional da Região que, em certo sentido, sintetiza o tamanho dos seus problemas e potencialidades: em 2021, o Nordeste contava 57,9 milhões de habitantes, contingente superior a toda a população brasileira de 1950, e, também, superior à população de qualquer outra nação sul-americana.

Os desafios e os problemas, os novos e os que se arrastaram ao longo do tempo, terão que ser enfrentados em um cenário internacional que se apresenta mais complexo e, em certo sentido, menos favorável do que aquele dos anos do pós-guerra: um mundo hiperglobalizado marcado pelo predomínio das novas tecnologias de informação e comunicação e que desde a crise financeira de 2008 apresenta sinais de esgotamento de sua institucionalidade. O que a história do pós-guerra nos ensina é a importância de construir um ambiente institucional favorável ao desenvolvimento econômico e social e que, com esse intuito, é imprescindível a retomada do planejamento no País, em suas várias dimensões e esferas.
 
Para o Nordeste, tem sido especialmente danoso o processo, que já se estende por mais de trinta anos, de desmonte das estruturas de planejamento do País e sua contraparte, a integração marcadamente passiva e destituída de objetivos claros nos circuitos econômicos globais, que, entre outros impactos, provocou a profunda desindustrialização da economia brasileira, com importantes desdobramentos sobre as dinâmicas regionais.


A publicação integral pode ser acessada no link a seguir https://www.bnb.gov.br/s482-dspace/bitstream/123456789/1255/3/2022_LIV_BNB70.pdf