Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Crédito e inadimplência em Sergipe

Ricardo Lacerda

Em artigo publicado no domingo passado na Folha de São Paulo, intitulado “A história e seus ardis. O lulismo posto à prova em 2010”,o jornalista e professor de ciências políticas da USP, André Singer, sintetiza o tripé de medidas voltadas para o aumento do consumo popularque teria sido responsável pela hoje forte identificação entre o presidente da república e a população:o Bolsa Família, o crédito consignado e o forte aumento real salário mínimo, a partir de 2004. O autor assinala que “os três aportes juntos começaram a surtir um efeito tão poderoso quanto subestimado: o mercado interno de massa se mexia, apesar do conservadorismo macroeconômico.(Ver em http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36445”).

A expansão do crédito na economia brasileira decorreu de uma série de mudanças institucionais, em que o crédito consignado para as pessoas físicas foi uma das modalidades mais percebidas. Quando o mercado financeiro internacional sucumbiu ao final de 2008, a resistência e a rápida recuperação da economia brasileira deixaram surpresos muitos analistas econômicos.

Pessoas Físicas

Ao longo do governo Lula, inovações institucionais que reduziam os riscos e a queda paulatina da taxa de juros impulsionaram a expansão do crédito para pessoa física, cujo saldo de operações passou de 5,7% do Produto Interno Bruto- PIB, em agosto de 2003, para 12,8% em agosto de 2008, imediatamente antes da deflagração da crise de crédito no mercado financeiro internacional. Ao longo de 2009, mesmo diante das dificuldades econômicas, o saldo de crédito para pessoas físicas continuou se expandindo e se constituiu em uma das principais forças que se contrapuseram à influência recessiva que vinha de fora do país. Em agosto de 2009, esse saldo alcançou 14,3% do PIB, e, em agosto próximo passado, montou 15,3%. (Ver gráfico 1)









Fonte: Banco Central do Brasil


Sergipe

Desde 2004, as operações de crédito para pessoa física também conheceram forte expansão em Sergipe, com taxa média de crescimento nominal (sem descontar a inflação no período) de 39% ao ano, entre junho daquele ano e junho de 2010. A expansão deste crédito, ao lado do aumento do emprego e dos rendimentos da população, foi determinante na expansão do comércio sergipano no período. Em termos reais, descontado pelo IPCA do período, entre junho de 2004 e junho de 2010, o saldo de operações de crédito na economia sergipana cresceu 456%.

A expansão do crédito para pessoa física pode, de fato, levar a excessos, quando as famílias não observam os limites da capacidade de endividamento. Entretanto, é curioso observar que o forte incremento das operações de crédito às famílias, o crédito para pessoa física, não foi acompanhado pela elevação da taxa de inadimplência. Pelo contrário, levantamento do Banco Central do Brasil informa que a taxa de inadimplência do crédito de pessoa física vem caindo ao longo dos últimos anos na maioria das regiões brasileiras. A exceção é a região Sul, em que se manteve relativamente estável, com alguns picos em 2009.

Em junho de 2004, a taxa de inadimplência dessa modalidade de crédito foi de 8,8% na região Nordeste, 7,8% em Sergipe, 5,1% na região Sudeste. Desde então, as taxas de inadimplência do crédito de pessoa física não apenas vêm convergindo entre essas três áreas como a de Sergipe passou a se situar abaixo da média da região Sudeste. Na verdade, desde julho de 2009, a taxa de inadimplência do crédito de pessoa física tem sido menor em Sergipe do que naquela região.

As inovações institucionais, o crescimento do emprego formal e a melhoria de renda das famílias certamente explicam a maior parte da redução da inadimplência nas operações de crédito de pessoas físicas em Sergipe e na região Nordeste, como um todo. É possível observar no gráfico 2, que informa a taxa média móvel trimestral de inadimplência do crédito de pessoa física, que em meados 2009 houve um repique da taxa de inadimplência nos três agregados analisados, como rescaldo da crise financeira internacional. Com a retomada do nível de atividade e com a forte expansão do emprego a partir do segundo semestre de 2009, a taxa de inadimplência voltou a cair. No caso de Sergipe, a taxa inadimplência do crédito de pessoa física em junho de 2010 se reduziu a menos da metade em relação ao início de 2004.










Fonte: Banco Central do Brasil

Emprego, crédito, transferências sociais e elevação do rendimento são os principais vetores da formação do mercado de consumo de massa no Brasil nos últimos anos. Os dados de inadimplência, para o bem de todos, se comportaram muito bem, notadamente no Nordeste e em Sergipe.

Publicado no Jornal da Cidade em 26 de setembro de 2010

Os pequenos empreendimentos e o desenvolvimento (2)

Ricardo Lacerda*

Como foi visto na primeira parte do artigo, em 2008, a economia sergipana contava com 18.326 estabelecimentos formais com até dezenove pessoas ocupadas, excluídos aqueles pertencentes à administração pública, correspondendo a 91,9% do total de estabelecimentos privados. Esses estabelecimentos de menor porte empregavam, naquele ano, 66.959 pessoas, representando 32,4% do total.

Os estabelecimentos com até dezenove empregados tinham presença importante em todos os segmentos de atividade econômica. Eles representavam 97,1% das empresas agropecuárias formalizadas, 95,1% do comércio, 90,4% dos serviços, 83,7% da indústria de transformação e 82,3% na construção civil. Apenas no setor extrativo mineral e nos serviços industriais de utilidades públicas, que contam com um número relativamente reduzido de estabelecimentos, os empreendimentos de menor porte respondiam por menos de 80% do total de unidades produtivas.

Atividades

As atividades que concentravam os contingentes mais expressivos de estabelecimentos nessa faixa de tamanho, em 2008, eram, por ordem, o comércio, o segmento de serviços, a agropecuária e a construção civil. A atividade do comércio congregava, em 2008, 7.574 estabelecimentos dessa faixa de tamanho, correspondente a 41,3% do total. O setor serviços, contava com 6.186, a agropecuária, 2.170, a indústria de transformação, 1.378, e a construção civil, 962. Com exceção do setor de serviços industriais de utilidades públicas, todos os demais tiveram incremento significativo, entre 2000 e 2008, do número desses estabelecimentos.

Na indústria de transformação, os estabelecimentos de menor porte se distribuem por todos os setores, mas a sua presença é especialmente forte nas indústrias de alimentos e bebidas, têxtil e confecção, minerais não metálicos, nas gráficas, metalúrgicas, madeiras e moveis e na indústria química. No setor terciário, além do comércio varejista, estão presentes com grande destaque nas atividades de alojamento e comunicação, atividades administrativas e profissionais, e nos serviços de médicos, odontológicos e veterinários, que já somavam, em 2008, o número de 975 estabelecimentos formais com até dezenove empregados. (Ver a lista completa no quadro abaixo).














Tamanho médio

É curioso observar que a participação desses empreendimentos de menor porte no total do setor não mudou muito significativamente no período de 2000 a 2008, com a exceção do setor de serviços industriais de utilidade pública. Isso se verificou apesar do aumento expressivo no número de estabelecimentos. Essa constância sugere um certo coeficiente técnico entre empreendimentos de distintos portes, como se houvesse algum tipo de funcionalidade na distribuição do mercado entre eles que se altera lentamente no tempo.

Apesar disso, têm ocorrido mudanças de participação nas faixas internas que compõem esse grupo de empresas que apontam para o crescimento do tamanho médio dos estabelecimentos. Enquanto o número de empresas com até nove empregados cresceu 38% entre 2000 e 2008, o grupo de empreendimentos com dez a dezenove empregados aumentou 62%. Essa expansão mais intensa dos estabelecimentos desse segundo grupo se verificou em todos os segmentos mais expressivos da economia sergipana em termos de número de unidades produtivas, a exemplo da indústria da transformação, construção civil, comércio, serviços e agropecuária. (Ver gráfico). O agrupamento de empresas com 20 a 99 empregados também cresceu acima da média do período, o que indica uma estruturação mais forte do setor produtivo sergipano, 68%.













Gráfico. Sergipe. Taxa de crescimento do Número de Estabelecimentos por Tamanho. 2000 a 2008 (%)
Fonte: MTE-RAIS

Uma pesquisa mais apurada poderia identificar se o crescimento mais rápido do agrupamento entre 10 e 19 empregados e das empresas entre 20 e 99 empregados decorreu principalmente da implantação de novos estabelecimentos ou se tratou de aumento do número de empregados de estabelecimentos que na primeira medição pertenciam a faixa inferior, o que revelaria um processo de expansão muito interessante para a economia do Estado.

Publicado no Jornal da Cidade em 14 de abril de 2010.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Crédito e consumo na economia sergipana

Ricardo Lacerda*

Nos últimos 12 meses concluídos em julho de 2010, o volume de vendas do comércio varejista de Sergipe aumentou 14,21%, na comparação com os 12 meses anteriores. Foi o quinto maior crescimento no Brasil nesse período e o primeiro do Nordeste. A expansão média do volume de vendas do varejo brasileiro, nesse período, também foi muito expressiva, 9,65%. A receita nominal do comércio varejista de Sergipe cresceu simplesmente 18,01% nesses 12 meses, o quarto maior do Brasil e, novamente, o maior do Nordeste. Os dados são provenientes da Pesquisa Mensal de Comércio – PMC, do IBGE, que realiza o levantamento em 9.000 empresas comerciais em todo o Brasil, entre os empreendimentos com vinte ou mais pessoas ocupadas.

As elevadas taxas de crescimento do consumo no mercado interno têm sido um dos principais fatores que explicam o robusto crescimento brasileiro em 2010, quando muitas das economias centrais ainda estão imersas nas dificuldades geradas pela crise financeira internacional que completou dois anos nesse mês de setembro.

O incremento do emprego e a expansão do consumo se alimentam mutuamente. Nos últimos 12 meses foram gerados dois milhões e duzentos e sessenta e nove mil empregos formais na economia brasileira, o melhor resultado já obtido desde o inicio da série estatística do Caged-MTE, representando um incremento de 6,9%. Em Sergipe, foram criados 20.430 novos empregos com carteira assinada, também um montante recorde, correspondendo a uma taxa de crescimento de 8,94%.

Mercados regionais

A pesquisa do IBGE revela que nos últimos 12 meses os incrementos mais expressivos no comércio varejista ocorreram nos estados da região Norte e da Região Nordeste. Entre os dez maiores crescimento no volume de vendas no período, cinco foram de estados da região Norte, três da região Nordeste, um do Centro-Oeste e um do Sul. (Ver gráfico 1). Da região Sudeste, a mais rica do país, nenhum estado. Naquela região, a taxa de crescimento do varejo mais elevada nos últimos 12 meses foi a de São Paulo, 10,19%, a 15º do país.

















Fonte: PMC-IBGE


Além do incremento do emprego e da massa salarial, um outro fator fundamental na expansão do mercado interno tem sido a evolução do crédito. A relação entre operações de crédito e o Produto Interno Bruto continuou se expandindo no período mais recente. Em julho de 2010, o saldo de operações de crédito do sistema financeiro nacional representava 45,9% do PIB nacional, frente a 42,8% em julho de 2009 e 37,9%, em julho de 2008. Em julho de 2001, correspondia a 25,8% do PIB.

O consumo de bens duráveis, como geladeira, fogão, móveis, computador e celular, é fortemente influenciado pelo acesso e pelo custo do crédito ao consumidor. Os dados sobre operações de crédito à pessoa física são elucidativos em relação às diferentes trajetórias de consumo entre as regiões brasileiras. O saldo médio mensal das operações de crédito para pessoas físicas, entre julho de 2009 e junho de 2010, alcançou R$ 3,2 milhões na economia sergipana, frente a R$ 2,4 milhões nos doze meses anteriores, o que significa um crescimento nominal de 34%. Na mesma comparação, o saldo de operações de crédito de pessoas físicas subiu 27% no Nordeste e 21% na região Sudeste. (Ver gráfico 2)









Fonte: Banco Central

A evolução do mercado interno de consumo tem sido uma das forças propulsoras da economia brasileira no ciclo de expansão recente. O crescimento das vendas no varejo acima da velocidade de expansão do PIB confirma essa tendência. As regiões mais pobres do país vêm liderando esse crescimento. A melhoria da renda e do emprego e o crescimento mais acelerado do crédito nesses mercados refletem e reforçam a melhoria da qualidade de vida nessas regiões.

* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.

Os pequenos empreendimentos econômicos e o desenvolvimento (1)

Ricardo Lacerda*

A reflexão sobre o espaço dos pequenos empreendimentos na economia contemporânea tem suscitado controvérsias estimulantes ao longo do tempo. Durante boa parte do século XX predominou uma visão pessimista sobre as perspectivas dos pequenos empreendimentos econômicos, tendo sido enunciados alguns vaticínios sobre o encolhimento progressivo de sua participação na atividade econômica até atingir a insignificância.

O argumento central que apoiava essa visão enfatizava as desvantagens dos pequenos empreendimentos frente às grandes empresas que, por produzirem em larga escala, operavam com custos médios de produção mais baixos e poderiam oferecer bens e serviços a preços mais atraentes.

Nessa perspectiva, as grandes empresas tenderiam a deslocar os pequenos empreendimentos dos mercados em que atuavam tão logo esses contassem com dimensão suficiente para a entrada de unidades produzindo em larga escala. Assim, com a chegada das redes de supermercados foram deslocadas as antigas mercearias que abasteciam as famílias de suprimentos. E no segmento industrial, novas tecnologias exigiam unidades produtivas e sistemas de distribuição cada vez maiores, com o surgimento de megas corporações que findariam por levar à bancarrota as unidades menores, que não conseguiam acompanhar às mudanças no ambiente econômico, em um reinado da produção em massa. Reconhecia-se, é verdade, que novos nichos de mercado seriam abertos para os pequenos empreendimentos, muitas vezes em atividades subsidiárias às da grande empresa, com o fornecimento de bens e serviços para a cadeia produtiva.

A reestruturação produtiva

A reestruturação industrial dos anos noventa, estimulada pelo aumento da competição em mercados cada vez mais globalizados, impactou de diferentes formas a vida dos pequenos empreendimentos. A busca obsessiva da redução de custos levou a grande empresa a terceirizar uma diversidade de atividades, desde serviços de segurança e limpeza, passando pela produção de partes e componentes, até a prestação de serviços de engenharia, tecnologias de informação e marketing, abrindo espaço de atuação para os pequenos empreendimentos. Novos arranjos institucionais se multiplicaram, com a formação de redes de empresas, em que os pequenos empreendimentos tinham um espaço a ocupar.

A disseminação das novas tecnologias de informação e de comunicação, as chamadas TICs, cumpriu um papel determinante. Com as novas tecnologias foram redimensionados os requisitos de tamanho dos empreendimentos, com efeitos diversos, elevando o tamanho mínimo em muitos mercados, mas abrindo oportunidades para unidades menores, em outros. Todo um conjunto de novas necessidades emergiu e pôde, parcialmente, ser atendido pelos empreendimentos de menor porte, mesmo por que eles continuaram se revelando imbatíveis em termos de flexibilidade para atender a demandas específicas de empresas e famílias, de uma forma que a produção massificada não conseguia suprir de forma satisfatória.

Ao lado desses processos, a formação de um contingente de pessoas que simplesmente não conseguia entrar ou permanecer no mercado de trabalho nos anos noventa concorreu para a constituição de novos empreendimentos de pessoas que forçavam sua inserção econômica. No Brasil, com a retomada do crescimento nos anos 2000, a expansão do poder de compra das famílias abriu novas oportunidades de mercado para os pequenos empreendimentos ao tempo em que foram intensificadas políticas voltadas para o fomento do desenvolvimento local por meio do fortalecimento das pequenas empresas, em que o acesso ao crédito se constituiu em uma das ferramentas de maior efetividade.

Alguns dados da presença dos pequenos empreendimentos refletem a importância deles na economia brasileira e em Sergipe. O Comunicado Ipea N. 38, de 04 de fevereiro de 2010, busca examinar a Atualidade e perspectiva das ocupações nos pequenos empreendimentos no Brasil, com base em dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar- PNAD, de 2008. O referido relatório informa que, considerando apenas o setor privado, os empreendimentos, formais ou informais, com até dez ocupantes respondiam por 54,4% de todos ou postos de trabalho e por 57,2% do total da massa de rendimentos. Em relação ao total de pessoas ocupadas, adicionando o setor público, pessoas não-remuneradas e serviços domésticos, os empreendimentos com até dez ocupantes representavam 33,6%. Em Sergipe, os empreendimentos com até dez ocupantes contavam com 342 mil trabalhadores, proporcionalmente mais do que a média brasileira, pois correspondiam a 37,5% de todas as ocupações.

Observando-se apenas as empresas formalizadas e excluindo a administração pública, em 2008, a economia sergipana contava com 18.326 estabelecimentos com até dezenove pessoas ocupadas, correspondendo a 91,9% do total de 19.944 estabelecimentos privados. Esses estabelecimentos empregavam 66.959 pessoas, contingente muito expressivo, representando 32,4% do total. Os estabelecimentos entre 20 e 99 empregados, considerados de pequeno porte, eram em número de 1.335 e ocupavam 52.186 pessoas; os empreendimentos de médio porte, entre 100 e 499 empregados, contavam com 48.986 empregados, e os grandes estabelecimentos, com mais de 500 empregados, ocupavam 38.313 pessoas. (Ver tabela)

Tabela. Sergipe. Estabelecimentos e Empregados no Setor Privado Formal segundo o Porte. 2008.










Fonte: MTE-RAIS

Entre 2000 e 2008, o segmento de empresas com até dezenove empregados teve um incremento de 5.221 estabelecimentos e de 22.588 pessoas ocupadas, 28% dos novos empregos gerados pelo setor privado sergipano. Os dados mostram a importância incontestável dos pequenos empreendimentos na economia sergipana e do Brasil como um todo.

Embora o avanço das grandes corporações seja um fato inegável, a visão mais pessimista não se confirmou e os pequenos empreendimentos souberam se recriar e se adaptar às mudanças cada vez mais velozes do ambiente de negócios, mostrando grande perspicácia para buscar o atendimento de novas necessidades. A permanência dos pequenos empreendimentos como um ator significativo da economia capitalista contemporânea também é um fato que não se pode desconhecer.
Nos artigos seguintes, serão examinados em que setores de atividade se concentram os pequenos empreendimentos e algumas das políticas de desenvolvimento voltadas para o segmento.

* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornal da Cidade em 11 de abril de 2010.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Situação financeira e expectativas das famílias brasileiras (2)

Ricardo Lacerda*

A pesquisa do IPEA sobre as Expectativas das Famílias procurou medir também a propensão de consumo e a situação de endividamento das famílias brasileiras. Os resultados obtidos permitem associar como a melhoria da situação financeira e a maior segurança no trabalho influenciam as decisões de consumo e de endividamento.
Na pesquisa, a situação do endividamento e a intenção de compra por parte das famílias podem ser apuradas segundo região geográfica, escolaridade, faixa salarial, sexo, faixa etária, etnia e segundo aqueles domicílios que participam e aqueles que não participam de programas de transferências de renda do governo federal. (Ver em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/IEF/100831_ief1.pdf).

Consumo

A pesquisa do IPEA procurou sondar a disposição das famílias brasileiras em relação à aquisição de bens de consumo duráveis, como os eletrodomésticos. Em agosto, 53,04% das famílias pesquisadas informaram que o momento é bom para a aquisição de bens duráveis, contra 37,32% para quem não é um momento adequado para realizar tais tipos de gastos. Outros 9,54% informaram que não sabiam ou simplesmente não responderam. Ou seja, mais da metade das famílias entendia que o momento é favorável à aquisição destes bens que, em sua maior parte, não são comprados à vista.

Os resultados variaram muito de acordo com as regiões. A maior predisposição para adquirir bens duráveis se verificou entre as famílias nordestinas. Quase duas em cada três famílias (63,85%) residentes na região informaram ser um bom momento para aquisição dos bens. Nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, mais da metade das famílias informaram ser um bom momento. As famílias da região Sul se mostraram mais reticentes; 41,62% informaram ser um bom momento para compra dos bens duráveis.Entre as famílias da região Norte o índice foi de 47,33%.(Ver gráfico 1)















Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.


Endividamento

A predisposição para adquirir eletrodomésticose outros bens duráveis está fortemente associada à percepção das famílias em relação a sua situação de endividamento. Um fato interessante é que 45,46% das famílias brasileiras informaram não possuir dívidas.

Os grupos com faixas de renda até 2 salários mínimos, nas faixas etárias de 30 a 39 anos, ou de 40 a 49 anos, é que tinham uma maior percepção de que se encontravam muito endividados. Não há uma clara relação entre o grau de escolaridade do responsável e a percepção das famílias que informaram estar muito endividadas. Apenas é possível constatar que uma menor parcela dos grupos nas faixas extremas, sem escolaridade e com nível superior completo ou incompleto, informaram que se encontravam em situação de muito endividamento. Curiosamente, o corte por sexo não revelou percepção muito diferenciada em relação a essa questão, ainda que uma maior proporção das mulheres do que de homens ter revelado a percepção de que estava muito endivididada.

Entre as famílias da região Nordeste, apenas 8,54% consideravam estar muito endividada, frente à média brasileira de 11,08%. As regiões com maiores parcelas das famílias que se precupavam com a situação de muito endividamente eram as regiões Sudeste, Norte e Sul. Na região Norte o quadro parecia mais desfavorável; 12% das familias se diziam muito endividadas e apenas 16% delas não possuíam dívidas. (Ver gráfico 2)













Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.

Mercados regionais

A primeira medição do IPEA realizada em agosto sobre as expectativas das famílias brasileiras revela um quadro geral de otimismo em relação à situação socioeconômica do Brasil, como foi visto no artigo da semana passada. Cerca de três em cada quatro famílias (73%) informaram que a sua situação financeira se encontrava melhor do que há um ano. No caso do Nordeste, a percepção de que a situação financeira a família havia melhorado nesse período era ainda mais disseminada do que a média brasileira, quatro em cada cinco famílias (80,33%).


A melhoria na situação financeira e a confiança em sua situação no mercado de trabalho têm impacto significativo sobre a evolução futura no mercado de consumo no país, com mais da metade das famílias revelando propensão para adquirir bens de consumo duráveis. As famílias das regiões Nordeste e Centro- Oeste se mostraram especialmente inclinadas em continuar adquirindo esses bens, que trazem conforto e comodidade para os domicílios. As redes de varejo já haviam percebido esse cenário e voltam-se fortemente para atender o crescimento da demanda nessas regiões.


* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.Publicado no Jornal da Cidade em 12 de setembro.

Preço e produção de petróleo em Sergipe

Nem sempre é de conhecimento do público o impacto que as mudanças dos preços internacionais de petróleo gera sobre os investimentos realizados pelo setor no Brasil e em Sergipe, na medida em determina a viabilidade de exploração de campos novos e maduros. Apenas para ilustrar, as últimas informações veiculadas na imprensa nacional dão conta que a exploração do pré-sal brasileiro já se tornaria viável a partir da cotação de US$ 22 o barril. Ou seja, a partir dessa cotação, relativamente baixa para o histórico dos últimos anos, já se tornaria economicamente vantajosa a exploração desse enorme potencial riqueza brasileira. A cotação do preço do barril é também determinante, ao lado do volume de produção, para os repasses de royalties para prefeituras e governos estaduais.

Em geral, a decisão de exploração dos campos não é guiada por oscilações de preço de curto prazo, e sim pela tendência de médio e longo prazo. Ainda assim, quedas abruptas na cotação internacional, como a verificada na recente crise financeira internacional pode afetar o nível de produção, na medida em que impacta a capitalização das empresas petrolíferas e produz prejuízos na exploração de determinados campos.

A expansão recente

Depois de atravessar período de profunda dificuldades a partir de meados dos anos oitenta, registrando uma trajetória decrescente à medida que os campos de exploração perdiam produtividade e novos poços não eram explorados na mesma velocidade de retração dos antigos, a exploração de petróleo de Sergipe iniciou uma trajetória ascendente a partir de 2003, já no Governo Lula.

A expansão da produção sergipana nesse período pode ser explicada, em parte, em função de mudança de estratégia por parte da Petrobras na direção da retomada de um papel mais atuante no desenvolvimento brasileiro. Mas, sem dúvida, a evolução dos preços internacionais em muito favoreceu a expansão da exploração de campos maduros e a realização de investimentos em novos campos, como o de Piranema.

O preço médio anual do barril de petróleo tipo Brent no mercado spot, em 2000, era de US$ 28,39. Esse preço se manteve relativamente estável na série anual até 2002. De 2003 em diante, o preço do barril apresentou trajetória fortemente ascendente, até atingir US$ 99,04 na média de 2008, apesar da retração no último trimestre quando a crise financeira já estava instalada. Em 2009, registrou-se uma forte inversão na cotação do produto ficando em média em US$ 61,50. No gráfico 1, a figura em linha representa a cotação anua do barril de petróleo tipo Brent no mercado spot, e as colunas, a produção sergipana em mil barris equivalente de petróleo- bep. Chama atenção como elas caminham em trajetórias semelhantes.













Gráfico1. Preço do barril de petróleo tipo Brent no mercdo spot. 2000 a 2008 (Em US$) e Produção de Petróleo de Sergipe (Em mil Barris equivalentes de Petróleo- BEP)
Fonte: ANP. Obs. A cotação do barril em 2009 é uma média simples dos trimestres.


A trajetória de elevação do petróleo no mercado internacional favoreceu muito os investimentos da Petrobras, inclusive por conta da forte capitalização e da valorização dos ativos das empresas, o que permitiu a forte ampliação dos seus investimentos em exploração. Em Sergipe, a elevação dos pecos internacionais tornou viáveis investimentos nos chamados campos maduros, alguns dos quais se encontravam com produção descendente. Mas o investimento que de fato fez diferença na retomada do crescimento da produção petrolífera em Sergipe foi a exploração do campo de Piranema, na plataforma continental, a partir de 2007.

Preços e royalties

O segundo aspecto da questão é o impacto das oscilações dos preços no mercado internacional sobre as receitas de royalties de estados e municípios. A figura 2 sintetiza o preço de referencia mensal para pagamento de royalties do campo de Piranema, no litoral sul do Estado. Em maio de 2008, esse preço de referência havia atingido R$ 1.376 por metro cúbico. Com a crise internacional, o preço de referência caiu para R$ 622/m3 em dezembro de 2008. A partir de março de 2009 teve início uma recuperação parcial do preço de referência de Piranema para pagamentos dos royalties, que em fevereiro de 2010 era de R$ 861/m3, 37,2% abaixo do pico de maio de 2008.

No nosso cotidiano, nem sempre nos damos conta de como os eventos internacionais afetam nossas vidas. A variação do preço internacional de petróleo é um deles, não resta dúvida.













Gráfico 2. Preço de referencia para pagamento de participações governamentais do Campo de Piranema- SE (R$/ m3)
Fonte: ANP.

Ricardo Lacerda
Publicado no Jornal da Cidade, em 16 de maio de 2010.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Situação financeira e expectativas das famílias brasileiras

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) publicou, em 31de agosto, a primeira medição do IEF, o Índice de Expectativa das Famílias, indicador mensal apurado com base em pesquisa domiciliar realizada em todas as unidades da federação. O principal objetivo do IEF é medir a percepção das famílias sobre sua condição financeira em comparação à de um passado recente e as expectativas para um futuro de curto a médio prazo.
(Ver em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/IEF/100831_ief1.pdf).

O IEF é um índice que resume a percepção das famílias brasileiras em relação a um conjunto de questões como (i) a situação econômica nacional; (ii) a condição financeira passada e a expectativa futura;(iii) decisões de consumo;(iv) endividamento e as condições de quitação de dívidas e contas atrasadas; e(v) o mercado de trabalho, especialmente nos quesitos segurança na ocupação e sentimento futuro de melhora profissional. Considerando esse conjunto de variáveis, o Índice de Expectativas das Famílias brasileiras em agosto atingiu 62,75 pontos, o que é um índice considerado como revelador de otimismo em relação à situação sócio econômica do país.

Grupos de famílias

O IEF pode ser apurado segundo região geográfica, escolaridade, faixa salarial, sexo, faixa etária, etnia e segundo aqueles domicílios que participam e aqueles que não participam de programas de transferências de renda do governo federal. Os resultados são interessantes pois põem em xeque algumas verdades consagradas. Há uma certa correlação entre as famílias de maiores faixas de renda e as mais otimistas em relação à situação do Brasil nos próximos 12 meses. Assim, 69,23 % das famílias com renda superior a 10 salários mínimos mostravam-se otimistas, enquanto 59,73 % das famílias com faixa salarial de até 1 salário mínimo encontravam-se na mesma situação. O grupo de faixa de renda menos otimista era o que auferia entre 2 e 4 salários mínimos.

Os melhores resultados para o Índice de Expectativa das Famílias foram obtidos quando os pesquisados eram homens, mais jovens, de faixas de renda mais elevadas e com curso superior incompleto ou curso médio completo, novamente os jovens. As famílias beneficiárias dos programas de transferência mostraram-se também mais otimistas do que aquelas que não recebem benefícios do governo, o que se reflete também no fato de que os grupos de faixa salarial de até 1 salário mínimo serem mais otimistas do que as famílias que auferem entre 1 e 2 salário mínimo.

Regiões

Um dos resultados mais interessantes da pesquisa foi a variação do Índice de Expectativas das Famílias por região. Enquanto 68,14% das famílias do Centro-Oeste estavam otimistas em relação à situação socioeconômica do país nos próximos 12 meses, na região Sudeste esse índice era de 59,09%. O gráfico 1 resume esses resultados, mostrando que as famílias das regiões Centro-Oeste, Nordeste (66,30%) e Norte (66,19%) estavam mais otimistas do que aquelas das regiões mais ricas, como Sudeste (62,12%) e Sul (59,09%).






Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.

O relatório da pesquisa apresenta dois indicadores que tiveram forte influência na variação dos resultados entre as regiões. Refletindo o momento muito favorável da economia brasileira, 73% das famílias brasileiras informaram que a sua situação financeira melhorou em relação a um ano. Em todas as regiões, o percentual de famílias que informou estar em melhor situação financeira em agosto de 2010, em relação ao mesmo período do ano anterior,foi muito elevado, mas as diferenças regionais são expressivas: 81,75% na região Centro-Oeste, 77,75% na região Nordeste e 80,33% no Norte, frente a 69,41% das famílias no Sudeste e 67,39% na região Sul. (Ver gráfico 2).

Em relação ao mercado de trabalho, os entrevistados nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste também se revelaram mais otimistas do os entrevistados nas regiões Sudeste e Sul. Na região Norte, 46,3% das pessoas entrevistadas informaram que esperavam alcançar melhoria profissional no intervalo de seis meses, a contar da pesquisa, frente a 41,1% na região Centro-Oeste, 36,7% no Nordeste. Na região Sudeste 32,1% dos entrevistados esperavam melhoria profissional e na região Sul, 29.8%. Ver gráfico 2.







Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.

Com o mercado de trabalho aquecido, 76,7% dos responsáveis pelos domicílios informaram que se sentiam seguros em sua ocupação atual. Nesse indicador, os resultados das regiões Nordeste e Sudeste ficaram abaixo da média brasileira.
A situação financeira da família, a segurança no trabalho e as expectativas em relação à situação financeira são fatores importantes nas decisões de consumo e de endividamento das famílias. No próximo artigo, serão apresentados os resultados da pesquisa do IPEA em relação à expectativa de consumo e a situação de endividamento das famílias brasileiras.


Ricardo Lacerda
Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornalda Cidade em 05 de setembro de 2010

O que o Nordeste espera do (a) novo (a) Presidente da República

Publicado no Jornal Cidade em 24 de janeiro de 2010

Ricardo Lacerda

Com a aproximação da eleição presidencial, a revista Nordeste Econômico, com sede em Recife, propôs que economistas da região apontassem as políticas de desenvolvimento econômico e social que os estados nordestinos anseiam do (a) novo(a) presidente da república. Com o espaço limitado proposto, segue a nossa contribuição ao debate.
Entre o início de 2004 e o terceiro trimestre de 2008, ao final do qual a crise financeira internacional a atingiu, a economia brasileira apresentou o mais longo período de crescimento sustentado desde a década de 1980.

Esse ‘ciclo virtuoso’ impactou as mais importantes variáveis de produção, emprego, vendas, rendimento, consumo das famílias e de finanças públicas. Depois de um final de 2008 assustador e de maus resultados no inicio de 2009, a partir do segundo semestre deste ano, mesmo em meio a um mundo ainda convulsionado financeiramente, a economia brasileira passou a registrar expansão vigorosa da atividade econômica e entra no ano de 2010 com perspectivas de retomar taxas de crescimento do PIB acima de 5% aa.

Faço esse registro pois contar com um crescimento robusto e sustentável é condição para enfrentar os problemas nacionais, particularmente, os que afligem o Nordeste. Os dados sobre expansão do emprego e do consumo na região desde 2004 refletem o impacto do crescimento da economia nacional e da melhoria da situação das finanças públicas, que propiciou a oportunidade do governo federal ampliar o arsenal e os montantes envolvidos nas políticas públicas que incidiram de forma muito especial no Nordeste. A inclusão recente de um grande contingente de brasileiros no mercado de consumo de massa tem sido especialmente importante para nossa região. Levantamentos recentes com bases nos dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar do IBGE confirmam as melhorias dos indicadores de renda, acesso a bens de consumo e de serviços públicos, saúde e educação, resultantes desse ciclo mais recente de crescimento e de expansão das políticas sociais.

Crescimento, melhoria das finanças públicas e políticas sociais são essenciais, mas não dão conta das transformações estruturais requeridas para a economia do Nordeste e de Sergipe, em particular. Se é verdade que a ampliação do acesso às políticas públicas é um desdobramento das definições estabelecidas pela constituição de 1988, e deve se manter no futuro, e que a incorporação de novas faixas da população ao mercado consumidor deve continuar, com importante repercussão no tamanho do mercado interno brasileiro, esses vetores são insuficientes para assegurar perspectivas de desenvolvimento para a região Nordeste.

É necessário reconhecer o déficit do Nordeste, comum a todos os estados da região, dos principais fatores de competitividade da economia contemporânea. De fato, dentre todas as regiões brasileiras, o Nordeste é a que mais se ressentiu do encerramento do ciclo políticas de desenvolvimento que marcaram o Brasil nos anos setenta e oitenta. E, de outra parte, a região apresenta grandes dificuldades para se posicionar de forma competitiva frente às oportunidades de um novo ciclo de crescimento na economia global, vencida a instabilidade vigente.
O que Sergipe espera do (a) novo (a) presidente é clareza de propósitos e determinação para fazer suprir as carências sociais e econômicas dos estados nordestinos, enfrentando a questão da pobreza de sua população e dotando a região dos fatores econômicos para elevação desses indicadores aos mesmos padrões das regiões mais ricas.

Isso envolve a ampliação e melhoria das políticas públicas de educação e saúde, investimentos em infraestrutura física (os ativos tangíveis) e em qualificação profissional e ciência e tecnologia (os ativos intangíveis), mas, igualmente, a utilização de poderosas políticas de indução de investimentos para a região, para que aqui sejam erigidas partes significativas das novas estruturas produtivas do país, sejam as relacionadas aos investimentos da cadeia energética, desde as atividades de petróleo e gás às energias renováveis, sejam outras atividades também de maior conteúdo tecnológico.

É necessário um olhar especial para estimular as potencialidades do semi-árido e dos pequenos centros urbanos, menos articulados às economias metropolitanas. Mobilizar os recursos ali existentes com políticas voltadas para o desenvolvimento local, como o fortalecimento dos seus arranjos produtivos, é fundamental para ter uma proposta abrangente em termos territoriais e sociais.

Não que tudo dependa da figura do (a) presidente. Mas o (a) primeiro (a) mandatório (a) do país deve mobilizar recursos e paixões nessa empreitada. Mostrar efetivo compromisso com a redução da pobreza e das desigualdades regionais. Para tanto, é crucial propor uma estratégia de desenvolvimento econômico e social distinta de épocas anteriores; menos preocupada com o fetiche do desenvolvimento, mais voltada para as pessoas, para a qualidade de vida, para o aprofundamento da democracia e para sustentabilidade de recursos naturais.
Professor do departamento de economia da Universidade Federal de Sergipe e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Proximo artigo tratará das Expectativas das Famílias

No próximo domingo, analisaremos o IEF, ìndice de Expectativa das Familias do IPEA. Focalizaremos a expectativa das famílias nordestinas sobre decisões de consumo e de endividamento.

Ricardo Lacerda

domingo, 29 de agosto de 2010

Nível de atividade econômica e consumo de energia em Sergipe

Ricardo Lacerda

Os principais indicadores utilizados para medir a temperatura da economia do país, mês a mês, procuram aferir a situação do mercado de trabalho, das vendas do comércio, da produção industrial, do nível de utilização da capacidade produtiva da indústria, do volume de produção agrícola e do saldo de empréstimos na economia, procurando dimensionar o comportamento dos setores agrícola, industrial, serviços e comércio, além de indicadores de relação com o setor externo da economia.

Consideram-se, também, os indicadores produzidos pelas sondagens das expectativas de consumidores e de empresários que informam o grau de otimismo e a disposição de dispêndio desses segmentos para os próximos meses. Com base nesses indicadores, dentre outros, o Conselho de Política Monetária- Copom, do Banco Central, decide, a cada 45 dias, qual deve ser a taxa de juros básica que ajusta o nível de atividade econômica às metas de inflação para o ano.

Indicadores

Os indicadores do nível de atividade são importantes para a tomada de decisão não apenas por parte das autoridades monetárias. Empresários dos segmentos da indústria, do comércio, de prestação de serviços e produtores agrícolas encontram nesses indicadores, ao lado da percepção sobre o andamento dos seus próprios empreendimentos e do mercado em que atuam, as informações que os subsidiam tanto nas atividades mais rotineiras relativas ao volume de insumos e de mercadorias que devem adquirir, quanto nas decisões mais estratégicas referentes à expansão dos negócios em direção ao aumento de produção, abertura de filiais e diversificação da produção.

É sentindo o pulso da economia que se pode planejar, adotando em algumas ocasiões uma postura defensiva e, em outras, aproveitando as oportunidades de expansão. Para os cidadãos, o acompanhamento desses indicadores também é importante, para que possam se posicionar em relação às medidas de política econômica e para definir suas estratégias de inserção no mercado de trabalho e em suas decisões de compra e de endividamento.

Muitos desses indicadores não estão disponíveis em escalas espaciais menores, como região e estado, ou, alguns deles, estão disponíveis apenas para alguns estados. A Pesquisa Industrial Mensal e a Pesquisa Mensal do Emprego, ambas do IBGE, por exemplo, não são realizadas ou não produzem indicador desagregado para a maioria dos estados da federação, inclusive Sergipe. No início de 2009, para suprir essa demanda de indicadores mais localizados de nível de atividade, equipe técnica do Banco Central desenvolveu, em projeto piloto, o Índice de Atividade Econômica Regional do Rio Grande do Sul, o IBCR-RS, a partir de indicadores que permitem inferir a evolução mensal daquela economia.

Sergipe

Para avaliar o comportamento do nível de atividade da economia sergipana estão disponíveis alguns indicadores que, em conjunto, permitem formar um quadro geral da situação presente e das perspectivas para os próximos meses. Boa parte desses indicadores circula semanalmente no boletim Sergipe Econômico, elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de Sergipe- FIES em parceria com a Universidade Federal de Sergipe. Ver em http://www.sergipeeconomico.com.

Especialmente representativos são os indicadores sobre a evolução do nível de emprego, volume de vendas do comércio, operações de crédito, produção de petróleo e gás, arrecadação do ICMS e do IPI. Para avaliar o grau de confiança do empresariado local sobre a situação presente e nos rumos da economia nos meses seguintes, a Fies elabora, mensalmente, a Sondagem Industrial.

O consumo de energia

O consumo de energia elétrica guarda uma relação técnica com o volume de produção física da indústria. No gráfico a seguir é apresentada a soma do consumo mensal de energia elétrica do setor industrial e do consumo do mercado livre na área da Energisa. A chamada Demanda dos Consumidores Livre refere-se ao consumo de grandes empresas que contratam no mercado livre de energia, de acordo com a melhor oferta de preço disponível. São, em geral, grandes consumidores, tanto no setor industrial quanto no de serviços.
Entre janeiro e julho de 2010, o consumo industrial e a demanda dos consumidores livre da área da Energisa somaram 556,7 GWh, 12% acima dos 496,4 GWh do mesmo período de 2009. Em julho de 2010, o consumo de energia desse agregado alcançou 80,3 GWh, frente a 70,4 GWh de julho de 2009, um incremento de 22,4%, um aumento muito substancial.










Fonte: Energisa

Esse indicador, ao lado de outros, como o nível de emprego da indústria, informa a intensidade da recuperação do nível de atividade da indústria sergipana depois do impacto ocorrido durante o período mais duro da crise financeira internacional, entre o final de 2008 e os primeiros meses de 2009. Desde novembro de 2009, a soma do consumo de energia elétrica do setor industrial e da demanda livre na área da Energisa tem, em todos os meses, superado o resultado de igual mês do ano anterior. Em julho de 2010, especificamente, verificou-se uma forte aceleração do consumo e um maior distanciamento em relação ao resultado de 2009.
A construção de indicadores de nível de atividade concorre para qualificar o debate econômico nos âmbitos nacional e local. Seguindo exemplo do que foi realizado pela equipe do Banco Central no Rio Grande do Sul, a construção de um indicador síntese que represente o nível de atividade da economia sergipana se somaria aos indicadores já disponíveis. Nesse sentido, estão sendo iniciados os estudos para elaborar, ainda em 2010, o Índice do Nível de Atividade Econômica de Sergipe, o INA-SE, em mais uma parceria da FIES com a UFS.

* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.

Publicado no Jornal da Cidade em 29 de agosto de 2010

A expansão da pecuária de leite em Sergipe

A Pesquisa Pecuária Municipal- PPM do IBGE tem revelado dados surpreendentes sobre a expansão da pecuária de leite em Sergipe. A produção anual de leite de Sergipe passou de 115 milhões de litros, em 2000, para 260 milhões de litros, em 2008, incremento de 126%. Nesse último ano, o Estado já respondia por 8% do leite produzido na região Nordeste, o que é um resultado digno de destaque, tendo em vista a sua reduzida dimensão territorial.

Apenas para comparar, no mesmo período o vizinho estado de Alagoas, que possui uma bacia leiteira mais tradicional, aumentou a produção de leite em apenas 10%. Segundo a PPM, em 2000, a produção de leite de Sergipe equivalia a 52% da produção alagoana e, em 2008, já superava a produção do estado vizinho em 8%. A expansão da bacia leiteira sergipana tem aberto oportunidade para a implantação de novos empreendimentos de beneficiamento e de produção de derivados de leite no interior no Estado e aponta para um novo patamar dessa atividade. O crescimento registrado é extraordinário e revela um novo cenário para a atividade. No presente artigo, examinam-se algumas características da bacia leiteira de Sergipe em termos de sua distribuição geográfica e de sua estrutura de produção.

Geografia do leite

A pecuária é uma atividade de grande importância em Sergipe. O Censo Agropecuário informou que, em 2006, 943 mil hectares foram ocupados com pastagens no Estado, correspondentes 64% do total das terras utilizadas.



















Gráfico 1. Sergipe. Produção Anual de Leite dos Principais Municípios. 2008. (Em mil litros)
Fonte: IBGE-Pesquisa Pecuária Municipal de 2008.

Um fato curioso é que a bacia leiteira vem se concentrando na parte de cima do mapa de Sergipe, notadamente no Alto Sertão e, em degrau um pouco abaixo, no Médio Sertão e no Baixo São Francisco. Os seis principais municípios produtores se localizam no território do Alto Sertão: Nossa Senhora da Glória, Porto da Folha, Poço Redondo, Canindé do São Francisco, Gararu e Monte Alegre. Chama a atenção, também, como a produção leiteira tem se expandido em direção ao Baixo São Francisco, especialmente no município de Japoatã, e ao Médio Sertão, em Aquidabã, Feira Nova, Cumbe e Itabi. No gráfico 1 são apresentadas as produções anuais dos 15 principais municípios produtores de Sergipe, em 2008. Nessa lista, apenas um município, Lagarto, situa-se fora da área delimitada mais ao Norte.

Produtores

Um aspecto importante da produção leiteira de Sergipe é o de que ela se constitui uma importante fonte de renda para a agricultura familiar. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, cerca de 2/3 dos estabelecimentos produtores de leite do Estado possuem até 19 cabeças de gado, sendo que 18% têm até 4 animais e 23%, entre 5 e 9 animais. No outro extremo, os proprietários de mais de 500 cabeças de gado são apenas 57, correspondentes a 0,3% dos mais de 16 mil produtores de leite de Sergipe, e os produtores com mais de 100 animais e menos de 500, representam 4%. Ver gráfico 2. A produtividade dos pequenos produtores não se diferencia muito da média da atividade. Com 32% do total de vacas ordenhadas em Sergipe, os produtores com até 19 cabeças respondiam, em 2006, por 30% do leite produzido. Cerca de 1/3 do leite é produzido em estabelecimentos com menos de 20 hectares e 58%, em estabelecimentos com até 50 hectares.












Gráfico 2. Sergipe. Distribuição da Produção de Leite segundo Faixa de Número de Cabeças de Gado dos Estabelecimentos (%).2006.
Fonte: IBGE-Censo Agropecuário de 2006.

Pode-se afirmar que está se formando uma nova geografia do leite em Sergipe. Novos municípios e novos produtores têm encontrado na atividade uma importante alternativa de obtenção de renda e ocupação. Essa expansão tem sido percebida como uma oportunidade para atrair novas unidades industriais de beneficiamento do produto. Como se sabe, persistem no segmento importantes carências econômicas e tecnológicas, mas os dados parecem apontar que Sergipe está pronto para dar um salto em direção à consolidação de sua cadeia produtiva do Leite.

Ricardo Lacerda
Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornal da Cidade, em 05 de junho de 2010.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Censo, a PNAD e o acesso a bens e serviços

Ricardo Lacerda*

Não é possível superestimar a importância do Censo Populacional para o planejamento das políticas públicas. Através do Censo, como assinala o IBGE, o poder público pode identificar as necessidades de investimentos em saúde, educação, habitação, saneamento básico, transporte, energia, programas de assistência à infância e à velhice. O setor privado também faz uso das informações obtidas para o planejamento de suas decisões de investimento e de entrada em novos mercados.

Nos anos não censitários, o IBGE realiza uma coleta mais restrita de informações econômicas e sociais por meio da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar- PNAD. A última PNAD publicada é a de 2008, em que foram pesquisados cerca de 150 mil domicílios em todas as Unidades da Federação. Os resultados gerados pela PNAD são representativos para os estados e para as capitais, mas, diferentemente dos censos, não podem ser desagregados à esfera dos municípios.

Acesso a bens

Na seção dedicada aos domicílios, o Censo e a PNAD coletam informações sobre o tipo de construção, número de moradores, número de cômodos e sobre a existência de alguns bens duráveis e de serviços públicos, como coleta de lixo, saneamento, entre outras. A seguir, são apresentados alguns resultados sobre o acesso a bens duráveis nos domicílios sergipanos, com base na PNAD de 2008, comparativamente ao ano de 2001 ou 2003.













Fonte: PNAD- IBGE

Em 2008, a PNAD constatou que bens como geladeira, televisão, fogão e rádios encontravam-se fortemente disseminados nos domicílios sergipanos: 88% dos domicílios possuíam geladeira; 96%, televisão; 98,4%, fogão e 86,7%, aparelhos de rádio. Os filtros de água eram encontrados em 44,1% dos domicílios e as maquinas de lavar roupa, em 20,3%. Itens como geladeira, televisão e maquina de lavar roupa registraram aumento importante de presença nos lares dos sergipanos entre 2001 e 2008. Ver gráfico 1. Com a expansão do emprego e do crédito em 2009 e 2010, certamente as futuras pesquisas constatarão participações ainda mais elevadas desses bens nas residências.

Um dado que diz muito da situação diferenciada de Sergipe em relação aos demais estados da região Nordeste é o ranking dos estados nesse indicador. Dos seis itens analisados, Sergipe contava, entre os estados nordestinos, com a maior participação de domicílios onde os bens estão presentes nos casos de geladeira, televisão e fogão; se situava na segunda posição nas participações de máquina de lavar e aparelho de rádio nos domicílios, e quarto lugar, na de filtros de água. Um aspecto interessante é que nenhum outro estado da região se posicionou em primeiro lugar em mais de um item.

Telefones e computadores

A partir de 2003, a PNAD passou a pesquisar a existência de computadores e telefones nas residências dos brasileiros. A disseminação da telefonia, especialmente da telefonia móvel, tem sido exponencial desde então. Em 2003, 45% dos lares sergipanos contavam com linha telefônica, participação que aumentou para 82,9% em 2008.














Fonte: PNAD- IBGE




Seja em 2003, seja em 2008, a participação dos domicílios sergipanos com linha telefônica é substancialmente superior à média da região Nordeste. Ver gráfico 2. Os computadores também estão mais presentes nos lares sergipanos, ainda que a desejada universalização permaneça muito longe de ser alcançada. Em 2008, 22,1%, pouco mais de 1 em cada 5, domicílios sergipanos possuíam computador, frente a 8,6%, aproximadamente 1 em cada 11 domicílios, em 2003.

O acesso domiciliar à internet é mais restrito. Em 2008, apenas 6,3% dos domicílios sergipanos contavam com computadores conectados. Nesses três indicadores, domicílios com telefone, computador e computador com internet, Sergipe se situava, em 2008, em primeiro lugar entre os estados nordestinos.

O Censo Populacional e as PNADs propiciam um conhecimento detalhado da situação social e econômica dos domicílios e das pessoas. Os resultados de 2008, por exemplo, recomendam a adoção de programas robustos de financiamento subsidiado para aquisição de computadores e ações voltadas para o acesso público à internet. Com a coleta de informações de Censo Populacional de 2010, será possível conhecer, município, por município, a situação do acesso a bens e serviços.


* Professor do Departamento de Economia da UFS
Publicado no Jornal da Cidade em 22 de agosto de 2010

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Guerra fiscal, reforma tributária e desenvolvimento regional

Publicado no Valor Econômico em 12/02/2008. Não é preciso dizer que a reforma tributária não foi aprovada até o momento. Fazemos votos de que o próximo governo a coloque novamente em pauta.

Ricardo Lacerda e Sudanês Pereira

A utilização de incentivos fiscais, subsídios e outros atrativos tributários tem sido comum entre os governos estaduais no Brasil. A chamada Guerra Fiscal entre as unidades da federação surgiu em um contexto de abandono de políticas e de instrumentos de desenvolvimento nacional e regional e a extinção das agências federais de desenvolvimento. Essas decisões provocaram a descentralização de ações de desenvolvimento regional.

Os Estados passaram a adotar políticas de incentivos, com o intuito de atrair investimentos industriais para o seu território, sem a interferência do governo federal. O principal atrativo tem sido a renúncia do ICMS. É necessário reconhecer que, frente à tendência dos novos investimentos concentrarem-se nas áreas mais desenvolvidas do país reforçando desigualdades, a Guerra Fiscal foi uma tentativa de atrair investimentos para fora do núcleo industrial mais moderno do território brasileiro.

A disputa fiscal entre os Estados por novos investimentos prejudica as finanças estaduais bem como a provisão pública de bens e serviços. A Guerra Fiscal representa um "jogo não-cooperativo" do tipo soma zero, em que a atração de um investimento para um Estado corresponde à perda efetiva ou potencial de outro e cuja resultante é o prejuízo fiscal para cada um deles e para o conjunto do país. Uma vez em curso a Guerra Fiscal, todos os Estados são induzidos a participar dela, correndo o risco, se não o fizerem, de perder para outros Estados que concedem tais benefícios fiscais, as indústrias implantadas em seu território.

Além do prejuízo às finanças públicas, a Guerra Fiscal gera distorções no setor produtivo criando uma competição desleal em favor a) das grandes empresas contra as pequenas; b) das empresas com maior relação capital/trabalho; c) das empresas novas que recebem incentivos contra as já estabelecidas no mercado. O mais grave é que as firmas escolhem sua localização baseadas nesses incentivos e, freqüentemente, não estabelecem relações com a base produtiva estadual.

A reforma tributária é uma necessidade para a retomada do desenvolvimento brasileiro de forma sustentada. A dificuldade maior reside em criar instrumentos justos de atração de investimentos, bem como construir os mecanismos de transição para o novo marco institucional.

O projeto de reforma tributário coordenado pelo governo federal está assentado na substituição dos tributos sobre bens e serviços (ICMS, IPI, PIS, Cofins, Cide-Combustíveis) por dois impostos sobre o valor adicionado: O Imposto sobre Valor Agregado - Estadual (IVA-E) e o Imposto Sobre Valor Agregado - Federal (IVA-F). Como o IVA-E observaria o princípio do destino, ou seja, seriam arrecadados pelos Estados onde os produtos seriam consumidos (ou utilizados no processo de produção), o principal mecanismo da Guerra Fiscal seria desativado.

A solução passa por uma distribuição equilibrada dos fatores estratégicos, que determinarão o futuro das regiões no nosso país.Algum potencial de Guerra Fiscal ainda restaria, ainda que substancialmente menor do que a que vigora hoje, através de políticas que desonerassem não mais, como a redução ou isenção do ICMS, os produtos elaborados, mas reduzindo a alíquota de insumos utilizados pelas indústrias localizadas no Estado. A migração da incidência da tributação da origem para o destino seria paulatina.

Caberia construir um sistema de compensação em que não houvesse perdedores.
Porém, o ponto central é que a eliminação dos incentivos estaduais deve ter como contrapartida a adoção de medidas efetivas por parte do governo federal voltadas para a redução dos desequilíbrios regionais.

Novos modelos de desenvolvimento têm sido registrados pela literatura especializada, enfatizando como algumas localidades (regiões e cidades) estão transformando as suas estruturas produtivas. Os novos processos de desenvolvimento combinam a atração de investimentos significativos com a ativação das potencialidades socioeconômicas locais. O fundamental é a implantação nas regiões/Estados e localidades das condições sistêmicas para tornar competitivos os investimentos ali realizados. O poder de atração de novos investimentos estaria associado a fatores que confiram competitividade ao sistema produtivo.

Como a constituição desses fatores não acontece da "noite para o dia", é necessária a instituição concertada entre unidades da federação e o poder central, por um tempo determinado, de incentivos fiscais e financeiros, além de outros mecanismos de indução dos investimentos para as áreas menos desenvolvidas do país, em uma estratégia de desenvolvimento nacional.

No momento, está sendo proposta a constituição do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), cujos recursos poderiam ser alocados em investimentos estruturantes, no financiamento ao setor produtivo e em incentivos fiscais que seriam geridos pelas superintendências de desenvolvimento regional recriadas. O montante de recursos e o impacto dessa medida ainda não estão claramente definidos.

O desenvolvimento regional equilibrado e em bases sustentáveis requer ações voltadas para reforçar fatores que reduzam as desvantagens locacionais das áreas mais pobres, definindo uma melhor distribuição de ativos estratégicos no território brasileiro, tais como: infraestrutura física; escolarização e qualificação da mão-de-obra; acesso a crédito; capacidade de investimento do setor público em suas três esferas; sistemas locais de inovação; capacitação em pesquisa e desenvolvimento; desenvolvimento institucional; sustentabilidade ambiental e o fortalecimento das cadeias produtivas e dos arranjos produtivos locais.

O novo ciclo de desenvolvimento brasileiro que ensaia os seus primeiros passos e os avanços institucionais recentes indicam que estão postas as condições para inaugurar uma nova geração de políticas de desenvolvimento regional no Brasil. A longevidade da
Guerra Fiscal por si já demonstra a dificuldade para encontrar novos mecanismos que permitam a adoção de políticas mais racionais e sustentáveis de desenvolvimento regional. O caminho da solução passa por uma distribuição mais equilibrada dos fatores estratégicos que determinarão o futuro das regiões no nosso país.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A expansão do varejo sergipano no 1º semestre

Ricardo Lacerda*

Durante a semana, os jornais noticiaram, quase simultaneamente, a desaceleração do crescimento econômico e a expansão recorde das vendas no varejo brasileiro. Em relação a junho de 2009, o volume de vendas no varejo brasileiro registrou alta de 11,3%. No acumulado do 1 º semestre, o volume de vendas avançou 11,5% na comparação com igual período do ano passado. O resultado do semestre é o melhor de toda a série histórica, iniciada em 2001.

Setorial

A expansão do varejo reflete o momento especial da economia brasileira, marcado pelo aumento do poder de compra da população. As vendas de um amplo setor do varejo, que inclui hipermercados, supermercados, alimentos, bebidas e fumo, cresceram 10,39% no 1º semestre de 2010, em relação ao 1º semestre de 2009.
Os setores de maior crescimento no período foram os de materiais e equipamentos de escritório, informática e comunicação, com impressionantes 25,8% de incremento, e o de móveis e eletrodomésticos, com 20,6%. Em ambos os setores, o nível de vendas já supera, com ampla margem, o patamar anterior à crise financeira internacional. São setores cujos desempenhos das vendas refletem, não apenas o aumento da renda dos consumidores, como também a expansão do crédito. O setor de medicamento e cosméticos registrou aumento de 12,2% e o de vestuário e calçados 10,2%, taxas também expressivas.

Regional

Um aspecto importante da expansão do comércio varejista no 1º semestre foi sua distribuição regional. Entre os 15 estados que apresentaram as maiores taxas de expansão do volume de vendas no 1º semestre de 2010, em relação ao mesmo período de 2009, nenhum pertencia às regiões Sul ou Sudeste. Os estados das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste registravam os maiores incrementos.
Quando se observa o crescimento do volume de vendas nos últimos 12 meses encerrados em junho, os estados do Norte e Nordeste continuam se destacando. Nessa série, Sergipe foi o 4º estado de maior crescimento no comércio varejista, com expansão de 14,79% nos últimos 12 meses, frente à média nacional de 9,6%, também muito elevada. Entre os estados das regiões Sudeste e Sul, São Paulo apresentou melhor desempenho, 9,96%. Ver gráfico 1.






















Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio

Desaceleração

A diferença entre o indicador do nível de atividade e o do volume de vendas do varejo pode ser atribuída, em grande parte, aos seus períodos de referência. O noticiário, em relação ao nível de atividade, comparou o 2º trimestre de 2010 com o 1º trimestre de 2010; e em relação às vendas no varejo, são feitas comparações entre o 1º semestre de 2010 e o 1º semestre de 2009. Na verdade, tanto o nível de atividade quanto o volume de vendas vão apresentar resultados muito favoráveis em 2010, mas ambos tiveram desaceleração no 2º trimestre de 2010.
A aparente contradição entre o nível de atividade econômica e o volume de vendas se desfaz quando é observada a evolução da média móvel trimestral do volume de vendas, já livre de efeitos sazonais. A média móvel trimestral mostra, em junho, quanto o volume de vendas do trimestre abr-jun cresceu em relação ao trimestre mar-mai.

No trimestre encerrado em junho de 2010, o volume de vendas no comércio varejista no Brasil se apresentou estabilizado em relação aos trimestres anteriores. Desde o trimestre terminado em março de 2010 que a curva de vendas deixou de subir, na série livre de efeitos sazonais. Ver gráfico 2.

A curva do volume de vendas do varejo de Sergipe em 2010, na media móvel trimestral, tem trajetória próxima a do Brasil, ainda que se posicione um pouco acima do desempenho médio do País. Além disso, em junho o volume de vendas de Sergipe apresentou pequeno incremento no trimestre encerrado naquele mês, enquanto no Brasil esse indicador se manteve estabilizado.














Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio

Os resultados do comércio varejista no Brasil e em Sergipe, referentes ao 1º semestre, são muito bons e devem ser comemorados. A desaceleração do crescimento não vai embotar a expansão do comércio varejista em 2010, que deve fechar o ano em torno de 10%, e acima desse patamar no caso de Sergipe. Mas convém não olvidar que, nos últimos meses, as vendas do comércio jaó não crescem tanto como vinham crescendo no inicio do ano.

* Professor do Departamento de Economia da UFS
Publicado no Jornal da Cidade em 15 de agosto de 2010

O “Grau de Abertura” da economia sergipana

Uma questão nem sempre colocada de forma devida no debate econômico brasileiro é o peso do comércio exterior no desenvolvimento dos estados. O clima de euforia vigente nos anos noventa em relação à abertura comercial e à globalização concorreu para disseminar a idéia de que a evolução das vendas internacionais cumpriria papel determinante também para o crescimento das economias estaduais.

Bem, esse não é o caso para a maioria das unidades da federação, ainda que se deva reconhecer que alguns dos estados dentre os que têm apresentado maiores taxas de crescimento, a exemplo, do Mato Grosso, Maranhão e do Espírito Santo, encontraram no comércio externo uma importante fonte de expansão. O fato é que as unidades da federação têm diferentes tipos de articulação comercial com o exterior e com os demais estados e esse é um aspecto importante para entender as suas dinâmicas de crescimento.

Tomando por base o ano de 2007, o último para o qual estão disponíveis as estimativas de PIBs estaduais, o coeficiente de comércio exterior da economia brasileira se situa em 19,6%, o que significa que a soma das exportações e das importações daquele ano correspondia a cerca de 1/5 da riqueza gerada no país. Esse coeficiente é tido como representativo do grau de abertura externa de uma economia. Naquele mesmo ano de 2007, o grau de abertura da economia chinesa atingia o extraordinário índice de 61,7%, o que bem diz do papel do comércio internacional na sua expansão econômica. Já o coeficiente de exportações, que relaciona o montante das exportações com o PIB, em 2007, era de 10,9% para o Brasil. Esse coeficiente já foi bem inferior entre os anos sessenta e oitenta, quando a economia brasileira se mantinha mais fechada em relação ao comércio mundial.

Estados

Para alguns estados brasileiros, o comércio exterior tem grande significado na geração da riqueza em função de contarem com perfil produtivo orientado para exportações e/ou se constituírem em portas de entrada de mercadorias importadas para o país. O Espírito Santo é o campeão brasileiro em termos de grau de abertura. Em 2007, o fluxo comercial externo daquele estado correspondia a 40,6% do seu PIB. O estado do Amazonas, por conta da Zona Franca de Manaus, o Pará e o Maranhão, pelas exportações de minérios, e alguns estados com importantes complexos agroexportadores, como Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Paraná, registravam os mais elevados coeficientes do país. Entre os estados nordestinos, apenas o Maranhão (26,0) e a Bahia (21,2) contavam com grau de abertura superior a 20% do PIB em 2007.

Em relação ao coeficiente de exportações, os estados especializados na produção de grãos ou de minérios de ferro/siderurgia são aqueles que se apresentam mais orientados para os mercados externos, a exemplo do Pará, Mato Grosso, Espírito Santo e Rio Grande do Sul. Estado de grande densidade produtiva, como São Paulo, e/ou de forte base minero/metalúrgica, como Minas Gerais, contam com coeficientes de exportações acima da média brasileira.

Sergipe

A situação de Sergipe é bem diversa. Os setores industriais e agrícolas mais expressivos da economia sergipana foram estruturados para atender a demanda interna, seja o mercado da própria região, seja o mercado do conjunto do país. A produção de petróleo e gás, de fertilizantes, e a mesmo a fabricação de cimento e das tradicionais indústrias de tecido têm no mercado interno brasileiro o seu destino principal.

Na verdade, alguns desses empreendimentos foram implementados com o objetivo de ocupar o lugar de produtos importados no abastecimento do mercado nacional, como os casos de produção de fertilizantes e de petróleo. O mercado externo tem sido prioritário em Sergipe para as atividades de produção de sucos concentrados e de alguns produtos metalúrgicos, além de ter importante significado, é importante reconhecer, para as indústrias do açúcar, cimento, calçados e tecidos.
Em 2007, o fluxo de comercio exterior sergipano correspondia a 3,1% do PIB e as exportações se limitavam a 1,55%. Esses indicadores confirmam que o comércio exterior não tem se constituído no motor do desenvolvimento sergipano, o que não tem impedido o PIB de Sergipe crescer, sistematicamente, acima das médias brasileira e nordestina.

O baixo grau de abertura externa, todavia, não significa que a economia sergipana sofra de problema de introspecção ou de isolamento. Estudo do BNDES em cooperação com o Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe, ainda inédito, auxilia a iluminar essa questão. No ano de 2006, dos fluxos comerciais da economia sergipana com agentes de fora do Estado, 97,6% eram realizados com os demais estados da federação e tão somente 2,4% com o exterior. As proporções das vendas e das compras efetuadas pelas empresas sergipanas mantinham perfis semelhantes, em termos agregados. As compras interestaduais de Sergipe representavam 97,4% do total e as vendas interestaduais, 97,8%, cabendo tão somente 2,6% e 2,2%, respectivamente, para as transações externas. (Ver Gráfico).

O estudo revela ainda que a integração de Sergipe com a economia do Nordeste é intensa. Em 2006, 53,4% das compras interestaduais e 55,9% das vendas interestaduais de Sergipe foram efetuadas com os demais estados da região. Individualmente, os maiores parceiros sergipanos são a Bahia, São Paulo, Pernambuco e Alagoas, ainda que Minas Gerais, Rio de Janeiro e Goiás apresentem participações expressivas.













Fonte: BNDES.

O processo histórico, através do qual se estruturou a economia sergipana, condiciona a sua atual forma de articulação externa e interna. Em si, essa forma de articulação não é boa nem má. Tampouco é um círculo de ferro que a aprisione. Ela foi diferente no passado e pode ser alterada, mas isso depende de mudanças estruturais de longo prazo. Por outro lado, indicadores agregados como grau de abertura ou coeficiente de exportações não devem impressionar as empresas que buscam uma maior inserção externa. Alcançar maior participação no mercado exterior é uma meta desejável e deve ser perseguida por que abre novas oportunidades de expansão de negócios e de aprendizagem tecnológica e comercial para as empresas sergipanas.

Ricardo Lacerda
Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe
Publicado no Jornal da Cidade em 04 de abril de 2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

A desaceleração do PIB no 2º trimestre e a taxa de juros

Ricardo Lacerda*

No inicio de 2009, em resposta à crise de confiança que se estabelecia e ameaçava paralisar a economia brasileira, o Conselho de Política Monetária- Copom, do Banco Central, deu inicio a uma série de cinco reduções da taxa de juros básica da economia, a Taxa Selic, trazendo-a do patamar de 13,75%, em que se posicionava desde setembro de 2008, até atingir a taxa de 8,75%, o menor nível desde que foi instituído o regime de metas de inflação no País.

Ao lado de outras medidas importantes, como a expansão dos empréstimos dos bancos oficiais, redução do depósito compulsório dos bancos, isenção de IPI para bens de consumo duráveis, manutenção da política de elevação do salário mínimo, entre outras, logrou-se reverter, em relativamente pouco tempo, o cenário de uma situação de pânico para uma rápida recuperação da economia. No segundo trimestre de 2009, o nível de atividade interna já ensaiava os primeiros passos da recuperação econômica, o que culminou com o excepcional resultado do PIB do 1º trimestre de 2010. Em crises agudas, não se pode esperar por sintonia fina. O remédio tem que ser forte.

A pressão de demanda

Com o aquecimento da economia, inverteu-se a preocupação das autoridades econômicas. A elevação do IPCA no inicio do ano, em grande parte por fatores climáticos associados às chuvas no Sudeste, e diversas indicações de pressão de demanda, levaram o Copom a promover três elevações sucessivas da taxa básica da economia, 0,75 pontos percentuais em abril, 0,75 pp, em junho, e 0,50 pp na última reunião, em julho, elevando a taxa básica para os atuais 10,75%. Ver gráfico 1.


O aumento de 2,7% do PIB brasileiro do 1º trimestre de 2010, na comparação com o 4º trimestre de 2009, na série livre dos efeitos sazonais, apontando para um crescimento anualizado acima de 10%, fez acender o sinal de alerta das autoridades econômicas. Com a supressão dos incentivos ao consumo e as sucessivas elevações das taxas de juros básicas, a economia brasileira perdeu ritmo no 2º trimestre. As projeções atuais são de crescimento em torno de 0.5%, também na série livre de efeitos sazonais. Não há motivo para alarme. Na verdade, trata-se de um ajuste de trajetória frente a uma expansão excessiva do 1º trimestre. Quando o mercado está muito aquecido, manter o mesmo nível de atividade, em um patamar elevado, não é, em algumas situações, um mau resultado.

Alguns analistas prevêem estabilização do nível de atividade, descontando os efeitos sazonais de aquecimento normais da segunda metade do ano, também no 3º trimestre, com a retomada do crescimento acontecendo apenas no último trimestre do ano. Com isso, o PIB de 2010 deverá crescer em torno de 7%, um pouco mais, um pouco menos.

Alguns indicadores são curiosos. O IEDI, Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, assinala que o movimento de veículos pesados nas estradas brasileiras, considerado um indicador abrangente do nível de atividade, caiu 0,4%, na comparação entre o segundo e o primeiro trimestre, com dados dessazonalizados.

Atividade regional

A desaceleração da atividade econômica não tem sido uniforme para todas as regiões. O Boletim Regional do Banco Central de julho de 2010, publicada nessa semana, revela que a economia nordestina manteve crescimento acelerado no trimestre março a maio de 2010. (Ver em http://www.bcb.gov.br/pec/boletimregional/port/2010/07/br201007c6p.pdf).
O relatório do Banco Central assinala que a desaceleração da economia a partir do 2º trimestre atingiu todas as regiões do país, com a exceção do Nordeste. No trimestre referente aos meses de março a maio de 2010, o Índice de Atividade do Banco Central- IBC registrou crescimento de 1,4% para o a economia brasileira, frente aos 3,2% no período de dezembro de 2009 a fevereiro de 2010. Enquanto o IBC de junho não se torna disponível, análises internas do Ministério da Fazenda apontam para um crescimento de 0,7% no segundo trimestre (abr-jun), em relação ao 1º trimestre.

A economia do Nordeste, por sua vez, manteve-se aquecida no trimestre mar-mai, com crescimento de 3,3% em relação ao trimestre anterior. As demais regiões desaceleraram fortemente. A economia da região sul cresceu 1,8%; o Centro-Oeste, 1,4%; o Norte, 1,6% e o Sudeste 1,3%. Ver gráfico 2. O relatório do BC lembra que o dinamismo da economia nordestina se traduziu no crescimento de 12,7% nos últimos doze meses encerrados em maio em relação a igual período anterior, de acordo com o IBC.


Um dos fatores da desaceleração da economia brasileira no trimestre mar-mai foi o comportamento do consumo doméstico, que havia registrado crescimento 2,9% no trimestre anterior e retraiu-se para 2,4% no último período.
A elevação da Selic e a retirada dos incentivos ao consumo adotados no auge da crise já estão se fazendo sentir na desaceleração do nível de atividade econômica com indicações de reduzido crescimento no segundo e no terceiro trimestres. Ainda que a elevação do PIB de 2010 em torno de 7% já esteja assegurada é importante sinalizar positivamente para que consumidores e empresários mantenham a confiança em relação à continuidade do crescimento. Já não seria a hora de parar com a elevação da taxa de juros? Não é hora da sintonia fina funcionar?
* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornal da Cidade em 08 de agosto de 2010

O Nordeste no Atual Ciclo Industrial

Um aspecto significativo em relação aos efeitos da crise econômica recente sobre o Nordeste decorre do grau de integração da economia da região ao restante da economia nacional, que faz com que a evolução econômica regional esteja fortemente associada à dinâmica de crescimento da economia brasileira.
No ciclo atual, tanto na fase da crise quanto na de recuperação, a economia do Nordeste acompanhou de perto a trajetória do conjunto da economia nacional. Enquanto as taxas de crescimento dos países ditos em desenvolvimento, como Brasil, Índia e China, até certo ponto, “descolaram” da forte queda de 2009 e da débil recuperação das economias avançadas em 2010, nas relações internas, as taxas de crescimento das regiões mantiveram certo grau de alinhamento.

Soldagem

Para o economista Leonardo Guimarães Neto, nos últimos 40 anos operou-se uma “soldagem” da economia nordestina ao centro econômico brasileiro que ajustou a dinâmica da região aos movimentos cíclicos da economia nacional. O caráter solidário da trajetória da economia nordestina ao conjunto do país é particularmente forte nas atividades industriais. Vale a pena passar uma vista no gráfico abaixo, que retrata as taxas de crescimento da produção da indústria de transformação do Brasil (linha contínua simples), de São Paulo (linha tracejada) e do Nordeste (linha continua dupla), desde janeiro de 2002. Não é difícil perceber que seguem uma trajetória muito semelhante.

Uma característica persistente em quase todo o período é a de que os ciclos de expansão e retração da economia nordestina são mais atenuados (ou menos agudos) do que os da média da economia brasileira ou os do Estado de São Paulo. Assim, a produção industrial do Nordeste, representada no gráfico pela linha contínua dupla, apresentou taxas acima da média brasileira (e da taxa de São Paulo) quando o Brasil estava desacelerando o seu crescimento, e abaixo dessas taxas quando o Brasil voltava a expandir em termos anuais a taxa de crescimento da produção industrial. A exceção são alguns meses do ano de 2003, durante um mini-ciclo expansivo, quando a taxa de crescimento da produção industrial do Nordeste situou-se acima da média brasileira.

O ciclo atual

A produção da indústria de transformação brasileira iniciou nos primeiros meses de 2004, uma etapa relativamente longa de expansão que, apesar de alguma oscilação, perdurou até o estouro da crise financeira internacional em setembro de 2008. Com o advento da crise internacional, a produção industrial brasileira declinou rapidamente e, apesar de diferentes respostas de cada um dos setores, o conjunto da indústria de transformação somente iniciou uma retomada consistente a partir do segundo semestre de 2009, observando-se a comparação com igual mês do ano anterior.
A produção indústria nordestina entrou em crise no mesmo momento que o conjunto da economia brasileira, impactada que foi pela reversão abrupta do cenário mundial e pela instalação da crise de confiança no país. O movimento declinante da produção industrial nordestina, todavia, foi bem mais atenuado do que o da média da economia brasileira e o de São Paulo. No ponto mais baixo da curva de crescimento, a produção industrial anualizada do Nordeste havia se retraído 7,56% (setembro de 2009), enquanto o conjunto da produção industrial brasileira, na mesma série, chegou a recuar 10,49%, e a de São Paulo, 11,1% (ambas em outubro de 2009).
Na etapa atual, de rápida aceleração do crescimento da produção industrial, as taxas do Brasil e de São Paulo voltam a se apresentar mais elevadas do que a do Nordeste, confirmando a prevalecência desse tipo de relação.
A crise atingiu todos os segmentos da indústria, ainda que os impactos sobre os setores de bens intermediários e de consumo duráveis como produtos químicos e materiais e equipamentos elétricos tenham sido mais acentuados. Em dezembro de 2008, a produção física da indústria de transformação nordestina havia caído 10,17% na comparação com dezembro de 2007. Os setores químicos, de materiais e equipamentos elétricos e Têxtil sofreram as maiores retração nesse momento. Em junho de 2009, o recuo da indústria de transformação, na comparação com o mesmo mês de 2008, se limitava a 2,9%, em fevereiro de 2010, a produção industrial do Nordeste já se situava 11,61% do resultado de fevereiro de 2009, mostrando a força de sua recuperação.
O grau de integração econômica do Nordeste ao centro dinâmico economia brasileira tem oscilado ao longo do tempo e se deve muito ao predomínio do mercado interno na economia nacional. Na crise atual, o Nordeste conheceu um mergulho menos profundo e de menor duração. Na retomada, a distribuição dos projetos estruturantes no território nacional e a continuidade das políticas sociais compensatórias é que vão definir se a região poderá reduzir de forma consistente o hiato de desenvolvimento em relação aos pólos mais ricos e crescer acima da média do país.

Ricardo Lacerda
Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornal da Cidade em 09 de maio 2010