Praça São Francisco, São Cristovão- SE

Praça São Francisco, São Cristovão- SE
Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

domingo, 17 de maio de 2015

A Barra dos Coqueiros

Ricardo Lacerda

O ilustre advogado e morador da Barra dos Coqueiros José Carlos Montalvão cobra-me com frequência uma análise econômica sobre o município onde reside e do qual é um divulgador incansável. Montalvão sente no seu dia a dia as transformações pelas quais o município vem passando nos últimos anos, decorrentes do intenso crescimento demográfico e da multiplicação de condomínios residenciais na faixa costeira e que se constituem uma das principais frentes de urbanização da Grande Aracaju. Não conhecendo como ele a realidade cotidiana da Barra, arrisco-me a apresentar alguns dados agregados e fazer algumas observações sobre a expansão urbana e a economia do município.

É possível, em linhas gerais, identificar os principais vetores de crescimento do município nas próximas décadas: a) a multiplicação de condomínios residenciais de pessoas que trabalham em Aracaju; b) a realização de novos investimentos industriais no entorno do porto e no vizinho município de Santo Amaro; c) os impactos das novas descobertas da Petrobrás; e, finalmente, d) a complementação da ligação viária do litoral norte, com a pavimentação do trecho Pirambu- Pacatuba da SE 100- Norte, mais uma etapa da integração litorânea nordestina desde Salvador até Recife, faltando apenas uma nova ponte sobre o rio São Francisco, entre Brejo Grande (SE) e Piaçabuçu (AL). 

Muitas Barras

A Barra dos Coqueiros são muitas em uma só: abrange localidades de ocupações mais antigas e outras de ocupações mais recentes, sendo algumas de moradia e outras predominantemente de residências de finais de semana e veraneio, hoje também denominadas de segunda moradia. Além dos núcleos urbanos persistem áreas de características rurais, predominantemente sítios, nas quais residem 16,4% da população.

No município convivem antigos núcleos urbanos ocupados por moradores, como a sua sede, localidades ocupadas predominantemente por veranistas e frequentadores de finais de semana, como o Jatobá, localidades mistas, digamos assim, como a praia da Costa e a Atalaia Nova, e as novas áreas onde estão sendo implantados condomínios residenciais de moradores e de segunda moradia, além da população rural.

O município sedia também áreas industriais e o Porto de Sergipe, o Terminal Integrado Inácio Barbosa (TMIB), já há alguns anos sob gestão da subsidiária de logística da empresa Vale, a VLI.
Nos últimos dois anos, a Petrobras tem divulgado grandes descobertas de reservas de petróleo e gás, entre as maiores do Nordeste, em águas ultraprofundas no litoral do município, cerca de 100 km da costa. Segundo a empresa, os poços deverão entrar em produção até 2020.  

O município conta com um resort de médio porte e uma rede de bares e restaurantes de praia. Mais recentemente foram sinalizados investimentos industriais e na geração de energia de grande porte na zona portuária, além da presença do parque eólico já em funcionamento. O vizinho município de Santo Amaro das Brotas prepara-se para receber investimento de quase um bilhão de reais em uma fábrica de cimento, o que certamente vai repercutir na demanda por moradia na Barra.

Os investimentos na cadeia de petróleo e gás, na produção de fertilizantes e na geração de energia concorrerão para adensar a área industrial no entorno do TMIB. Por tudo isso, o município e toda a região afetada precisam se preparar para crescer, o que inclui planejar a expansão da infraestrutura urbana, definir uma política de uso do seu território e planejar a ampliação da rede de prestação de serviços públicos.

População

O IBGE estima para 2014 uma população de 28.093 pessoas residindo na Barra dos Coqueiros (ver Gráfico). Entre 2000 e 2010, a população da Barra cresceu notáveis 40,3%, equivalentes a uma média anual de 3,44%, somente inferior ao crescimento de Carmópolis. A média estadual no período foi de 1,48% ao ano. No período intercensitário anterior (1991-2000), a população da Barra cresceu 3,9% ao ano, como parte do processo de metropolização de Aracaju que se consolidava no período.

Fonte: IBGE, Censos Demográficos. *estimativa para 2014.

Ocupação

A diversidade espacial do território da Barra se reflete na estrutura ocupacional da população. O contingente de pessoas ocupadas que residem no município, não necessariamente trabalhando lá, saltou de 5.082, em 2000, para 8.469, em 2010. Nesse período houve uma ampliação considerável no número de residentes no município que passou a contar com emprego com carteira assinada. Eram 2.073 pessoas, em 2000, e somaram 3.801, em 2010, crescimento extraordinário de 83%.

O número de funcionários estatutários praticamente duplicou no período, mas ainda é reduzido, inferior a 500 empregados. Todavia, o total de pessoas com qualquer tipo de vínculo com a administração pública, saúde e educação em 2010 passou de 1.300, concorrendo com o comércio como a principal atividade econômica da população ocupada. Chama atenção o crescimento do número de pessoas que trabalham por conta própria, que respondia por quase 1/3 da população ocupada. Outras 750 pessoas se ocupavam na atividade primária, das quais cerca de 500 dedicavam-se à pesca e aquicultura.

Tabela. Pessoas de 10 anos ou mais ocupadas na Barra dos Coqueiros em 2000 e 2010
Posição na ocupação
2000
2010
Pessoas ocupadas
%
Pessoas ocupadas
%
Total
5.082
100
8.469
100
Empregados
3.734
73,5
5.493
64,9
Empregados com carteira de trabalho assinada
2.073
40,8
3.801
44,9
Militares e funcionários públicos estatutários
250
4,9
497
5,9
Empregados - outros sem carteira de trabalho
1.410
27,7
1.194
14,1
Não remunerados em ajuda a membro do domicílio
55
1,1
49
0,6
Trabalhadores na produção para o próprio consumo
39
0,8
178
2,1
Empregadores
11
0,2
67
0,8
Conta própria
1.243
24,5
2.682
31,7
Fonte: IBGE, Censos Demográficos


Publicado no Jornal da Cidade, em 17 de maio de 2015 

domingo, 10 de maio de 2015

São Paulo no centro da crise

Ricardo Lacerda

São Paulo continua exercendo papel central na economia brasileira. Não apenas por contar com os principais polos de negócios e sediar os setores econômicos mais modernos e de maior produtividade como pelo papel que exerce de articular as atividades econômicas em todo o território nacional.

O estado é o maior parceiro comercial, ou um dos principais, de quase todos os estados da federação. O nosso estado de Sergipe, de pequenas dimensões territorial, populacional e econômica, tem com São Paulo e Bahia os principais fluxos de venda e compra de mercadorias.

São Paulo responde por cerca de 1/3 do PIB brasileiro e um pouco mais de 40% do valor da produção da indústria de transformação (2012), enquanto representa 22% da população (2010). No setores mais modernos da atividade industrial, participa com mais da metade do valor produzido no país.

Na medida em que setor moderno foi abrindo novas fronteiras de expansão no território brasileiro, realizou-se certo espraiamento de tais atividades entre estados e regiões. Todavia, a redistribuição foi de magnitude relativamente limitada e jamais ameaçou a liderança e o papel central que a economia paulista exerce no desenvolvimento do país.

Trajetória

Seja por seu peso no PIB, seja por seu papel integrador das principais cadeias de produção e comercialização de bens e serviços, o comportamento da economia de São Paulo é um termômetro do que está acontecendo na economia brasileira e algumas vezes antecipa a trajetória dos demais estados.  

O amplo processo de inclusão social, acompanhado pelos investimentos em infraestrutura e pela geração do emprego formal, fez com que as áreas mais pobres do país apresentassem taxas de crescimento do poder de compra e do PIB mais elevadas do que as regiões mais ricas e industrializadas.

Mesmo com o crescimento da renda, do emprego e do PIB mais acelerado nos estados das regiões mais pobres, não há descolamento de suas trajetórias econômicas com a média do Brasil e com a economia de São paulo, a não ser no período mais recente, pós-2011. Em movimento simultâneo ou com alguma defasagem de tempo, as trajetórias do nível de atividade econômica daquelas regiões findavam seguindo as oscilações da economia paulista.

IBC e Produção Industrial

A crise industrial, que se acentuou nos últimos dois anos, mesmo atingindo todo país, se revelou muito mais aguda em São Paulo e provocou o descolamento entre as trajetórias das economias das regiões mais pobres em relação a de São Paulo. Ver as curvas de crescimento em doze meses do Índice de Atividade do Banco Central para o Brasil, São Paulo, Norte e Nordeste (Gráfico 1) e da produção física da indústria em doze meses para o Brasil, São Paulo e Nordeste (Gráfico 2).

A região Nordeste sentiu muito menos do que São Paulo e do que a média do país os efeitos do segundo mergulho da economia mundial na crise, a partir de meados de 2011. O nível de atividade da região se manteve em crescimento considerável mesmo no período mais recente (depois de meados de 2013) quando a crise de confiança se instalou na economia brasileira.

A trajetória da média da economia brasileira manteve-se colada com a de São Paulo, com alguns afastamentos temporários. Nos últimos dois anos, todavia, a trajetória da economia de São Paulo apontou fortemente para baixo, em um primeiro momento desacelerando e depois, a partir do segundo semestre de 2014, passou a apresentar queda no nível de atividade. A média da economia do país foi arrastada para baixo, junto com São Paulo, ainda que em magnitude menos pronunciada.

Há o temor das lideranças políticas das regiões mais pobres de que as ações que propiciaram o relativo descolamento de suas economias da crise estejam sendo abandonadas exatamente nesse momento pelo conjunto de medidas do ajuste fiscal.

Fonte: Banco Central do Brasil


Fonte: IBGE-PIM


Publicado no Jornal da Cidade, em 10 de maio de 2015

segunda-feira, 27 de abril de 2015

As fontes do crescimento

Ricardo Lacerda

Em período de baixo crescimento, acompanhado de cortes de gasto público, dissemina-se uma atmosfera de ansiedade associada à incerteza em relação às perspectivas da economia brasileira. A recessão duradoura que acomete as economias avançadas findou contaminando as perspectivas de crescimento das economias emergentes por meio de diversos canais de transmissão e é natural que as pessoas questionem quais seriam os vetores que poderiam impulsionar à recuperação da nossa economia.

Cenário externo

Algumas considerações são necessárias para dimensionar o tamanho de nossas dificuldades e os horizontes de nossas perspectivas. No cenário externo, apesar da aceleração do crescimento norte-americano, o quadro ainda é de baixo dinamismo nas principais economias. Mesmo que as agências multilaterais venham reiterando que o pior da crise da zona do euro teria passado, a verdade é que não há segurança sobre tais vaticínios que já se revelaram equivocados em anos anteriores.

Os relatórios de tais agência apontam que países e bancos europeus teriam reduzido a vulnerabilidade relativa a dívidas problemáticas, mas não há até o momento sinais de crescimento robusto da economia do euro. Assim como não há, no curto prazo, muito o que se esperar em termos de reaceleração do crescimento chinês ou de recuperação no Japão, cuja economia encontra-se adormecida há muitos anos.

Em síntese, se nada atrapalhar as economias avançadas deverão acelerar moderadamente nos próximos anos, lideradas pelo crescimento da economia norte-americana e apoiadas pela adoção de política monetária expansiva na zona do euro. Na projeção do FMI, o potencial de crescimento das economias avançadas aponta para taxas médias anuais de crescimento de 1,6% entre 2015 e 2018.

Tal cenário externo restringe as possibilidades de que a retomada do crescimento brasileiro possa ser impulsionada por um drive de exportações movido pela melhoria dos termos de trocas, mas isso não significa que o comércio externo não possa desempenhar papel importante na medida em que a depreciação recente do real impacte a competitividade da produção interna, tanto no mercado doméstico quanto no exterior.

Cenário interno

Não há obstáculos internos de monta que impeçam a economia do país de seguir em frente, após o equacionamento de algumas questões básicas. Os desajustes nas contas públicas estão sendo enfrentados e os desequilíbrios do balanço de pagamento não guardam proporção com o que já se enfrentou no passado. Enfim, há tempo para fazer os ajustes, desde que haja determinação para tal.

Alguns fatores internos deverão delimitar as possibilidades de retomada do crescimento. Entre os mais importantes, julgo que devem ser elencados os efeitos do ajuste fiscal sobre a demanda corrente e os ganhos de credibilidade que podem proporcionar e o desenlace da crise da Petrobras e a continuidade da expansão dos investimentos na cadeia de petróleo e gás.

Duas outras questões também me parecem decisivas para alavancar os investimentos e deixar para trás o impasse que imobiliza o país. A primeira é a retomada dos leilões de concessão de infraestrutura que poderá viabilizar a expansão de investimentos importantes, tanto em termos de geração de emprego e renda quanto pelos efeitos que geram pela abertura de fronteiras de crescimento e pela elevação da produtividade.

O segundo fator diz respeito ao encaminhamento satisfatório da situação energética, em comparação a situação atual de estrangulamento de oferta e de preços proibitivos do suprimento emergencial. A normalização do nível dos reservatórios e a ampliação da oferta de energia a custos mais baixos podem conferir ganhos extraordinários ao país que, somados à queda dos preços do petróleo, equivaleriam a um deslocamento para baixo na curva de custos de produção, além de liberar renda das famílias.

Os ciclos expansivos

A deflagração de um ciclo expansivo depende de alargar os fatores de oferta, quando não há ociosidade dos recursos produtivos, que restringem fisicamente o potencial de crescimento. Depende igualmente de um ou mais impulsos pelo lado do dispêndio que arrastem e multipliquem a demanda efetiva na economia. Frente ao nível de endividamento das famílias e da restrição fiscal é difícil imaginar uma expansão autônoma do consumo.

Na ausência de ociosidade de recursos, ou na vigência de restrições fiscais e no balanço de pagamento, que é o nosso caso, os investimentos privados e públicos deverão liderar a expansão do gasto, concorrendo simultaneamente para superar os limitantes físicos do lado da oferta e injetar poder de compra na economia, ao tempo que estimulam a expansão do dispêndio corrente das famílias e do governo. Tal como em um modelo autoalimentado do tipo acelerador-multiplicador.

Para finalizar, vale a pena indagar sobre os fatores que mantêm as economias das regiões Norte e Nordeste crescendo a ritmos próximos a 3% enquanto as demais regiões se encontram em estagnação já há alguns trimestres. O Gráfico apresenta as trajetórias das taxas de crescimento do Indice de Atividade do Banco Central (IBC) para o Brasil e para o Nordeste no acumulado de doze meses e as taxas de crescimento trimestral em relação a iguais períodos do ano anterior.


Fonte: BCB

Nos doze meses encerrados em fevereiro a economia do Nordeste cresceu 3,6%. Na série trimestral, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, percebe-se que a economia vem desacelerando desde dezembro do ano passado. Ainda assim no trimestre encerrado em fevereiro de 2015  o IBC-R NE se situa 3,1% acima de fevereiro de 2014. Nas duas séries, o IBC-BR apresenta resultados negativos em fevereiro de 2015.

A resposta mais adequada, provavelmente, é a de que tais regiões ainda se beneficiam do impulso anterior de expansão da renda interna que alimentou a realização de investimentos em busca do atendimento do poder de compra aumentado e que não há segurança que manterão taxas de crescimento tão robustas por muito tempo. Ainda assim, a manutenção de tais taxas de crescimento em um cenário interno adverso serve para ilustrar as possibilidades de um novo ciclo expansivo, após o período de ajuste.

Publicado no Jornal da Cidade,  em 26/04/2015
https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif



segunda-feira, 20 de abril de 2015

O FMI e o potencial de crescimento da economia mundial

Ricardo Lacerda

As recorrentes revisões para baixo das projeções que elabora sobre crescimento da economia mundial instigou o Fundo Monetário Internacional a investigar as mudanças recentes no potencial de crescimento de longo prazo entre as economias avançadas e entre as economias emergentes.
A figura apresentada, extraída da edição de abril do Panorama da Economia Mundial, ilustra como os PIBs das economias avançadas e dos mercados emergentes evoluíram a taxas bem inferiores às que foram projetadas em 2007 e 2008, antes da deflagração da crise financeira internacional.

Gráfico: Evolução dos Índices de crescimento das economias avançadas
e das economias emergentes comparados com as projeções pré-crise. (2007=100)


Fonte: Extraído de FMI, Panorama da Economia Mundial, abril de 2015.

Produto potencial

A edição de abril de 2015 do relatório Panorama da Economia Mundial dedica o capítulo 3 ao exame da queda do potencial de crescimento de longo prazo nos últimos anos. O capítulo examina as mudanças recentes que aconteceram na evolução dos fatores do lado da oferta (trabalho, capital e tecnologia) que teriam provocado deslocamento para baixo no potencial de crescimento, tanto entre as economias avançadas quanto entre os chamados mercados emergentes.

Segundo o relatório, o crescimento de longo prazo entre as economias avançadas teria espaço para acelerar moderadamente nos próximos anos, à medida que forem amortecidos os efeitos restritivos da crise financeira.

As economias emergentes, por sua vez, se situariam em outro estágio e amargariam redução adicional do produto potencial depois de terem conhecido um período relativamente longo de sua ampliação, entre o início dos anos 2000 e a deflagração da crise financeira no final de 2008.
O relatório aponta as razões substantivas para que o potencial de crescimento das economias avançadas não alcance as taxas do período pré-crise: fatores associados a questões demográficas como o envelhecimento da população e aspectos relacionados ao ritmo lento da recuperação do investimento.

No caso das economias emergentes, as taxas de expansão do PIB dos últimos anos viriam se posicionando acima do seu potencial, rebaixado após a crise de 2008, resultando em desequilíbrios fiscais e nas contas externas que minaram a confiança das empresas e famílias sobre as perspectivas de crescimento.

Para o relatório do FMI, três seriam as causas da revisão para baixo do potencial de crescimento de longo prazo das economias emergentes: o envelhecimento da população, a forte contração dos investimentos que acompanhou a crise internacional e a desaceleração dos incrementos de produtividade à medida que as economias emergentes reduziram a diferença tecnológica em relação às economias avançadas. Em outras palavras, a maior parte das economias emergentes estaria crescendo mais do que pode.

Para aqueles países que se encontrariam em tal situação caberia seguir duas linhas de ação: ajustar o crescimento efetivo ao potencial de crescimento, adotando políticas fiscais e monetárias restritivas, e fazer as reformas e investir em recursos humanos a fim de ampliar tal potencial, a receita básica das agências internacionais.

Avançadas e emergentes

O FMI projeta que as economias avançadas devem ampliar o potencial de crescimento médio anual de 1,3% entre 2008-2014 para as taxas ainda muito modestas, de 1,6% entre 2015 e 2020, assinalando que elas alcançaram 2,25% entre 2001 e 2007. A ampliação do potencial de crescimento entre as economias avançadas decorreria do incremento gradual da taxa de investimento, acelerando a ampliação do estoque de capital à medida que a crise ficasse para trás. Taxa média anual de 1,6%, definitivamente, não é uma perspectiva extraordinária.

Entre os países emergentes, o crescimento do produto potencial ter-se-ia retraído da média anual de 6,5%, entre 2008 e 2014, para 5,2%, entre 2015 e 2020.

Como dito acima, a estimativa da expansão do produto potencial, que funcionaria como um teto para o crescimento equilibrado, se baseia na velocidade do crescimento da força de trabalho, do estoque de capital e dos ganhos de produtividade proporcionados pela instalação de equipamentos mais modernos, por contar com mão-de-obra mais qualificada ou até mesmo por mudanças do ambiente econômico tornando-o mais favorável à expansão dos negócios e à inovação. Ao fim e ao cabo significa apenas que a economia somente pode crescer de forma equilibrada de acordo com a quantidade e a eficiência dos fatores de produção com que dispõe, uma simples igualdade contábil.

Quando as condições internas ou externas alterarem as possibilidades do crescimento do uso ou da disponibilidade dos fatores ou a eficiência ou rentabilidade deles novos cálculos deverão ser feitos.

Há limitações cruciais nas estimativas do produto potencial que fazem com que sejam desautorizadas seguidamente: mudanças institucionais, tecnológicas, regulatórias, comerciais, financeiras ou macroeconômicas inesperadas ou mal dimensionadas na economia mundial fazem picadinho das melhores projeções, como ocorreu após a deflagração da crise financeira internacional; em relação aos países emergentes, persiste uma limitação adicional; subestima-se o enorme potencial de crescimento que tem a incorporação de grandes contingentes de força de trabalho subaproveitada, assim como o da inclusão de tais pessoas no mercado de consumo.

Publicado no Jornal da Cidade, em 19/04/2015

https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif



domingo, 12 de abril de 2015

O FMI e as expectativas diminuídas



Ricardo Lacerda

O Fundo Monetário Internacional publicou na semana passada relatório revendo o crescimento potencial das economias avançadas e das economias emergentes, mostrando, no caso das primeiras, que o declínio do potencial de crescimento remete ao início dos anos 2000, ainda que tenha se acentuado com a crise financeira mundial, enquanto entre as economias emergentes a queda do potencial do crescimento se deu depois da crise.

O relatório reconhece que os PIBs apresentaram desempenhos nos anos pós-crise muito abaixo do que esperava em 2008 e que as expectativas de médio prazo têm sido revisadas para baixo desde 2011 , tanto para as economias avançadas quanto para os mercados emergentes.

Não se sabe se o desvio recorrente deve ser atribuído a deficiências metodológicas ou ao desejo da instituição de procurar estimular o espírito animal dos empresários e passar o sentimento de que o pior da crise já passou, à maneira de um célebre ex-ministro da fazenda do Brasil.

Talvez o mais correto seja afirmar que a economia mundial se encontra em uma embrulhada difícil de desbaratar e as expectativas de uma retomada robusta de crescimento, depois de sete anos de anemia econômica, vão sendo postergadas ano após ano. O relatório pode ser encarado como o reconhecimento de tais dificuldades.

Avançadas e emergentes

Na atualização de janeiro do relatório Panorama da Economia Mundial, o FMI projetou leve aceleração do crescimento do PIB mundial, dos 3,3% obtidos nos últimos três anos, para 3,5%, em 2015, e 3,7%, em 2016. No relatório de outubro passado, as projeções para 2015 e 2016 eram mais altas, 3,8% e 4,0%, respectivamente. Não vai ser surpresa se nas próximas atualizações as projeções voltarem a ser revistas para taxas próximas às alcançadas no último triênio, ou quem sabe a instituição até subestimou as forças da recuperação desta vez.

O Panorama da Economia Mundial de janeiro informa que as revisões para baixo das projeções de crescimento para 2015 e 2016 se devem à piora, em relação ao relatório anterior, dos desempenhos esperados para a China, Rússia e para os países exportadores de petróleo. Entre as grandes economias, apenas a norte-americana teve a projeção revista para cima, o que equivale dizer que as expectativas de recuperação das economias da zona do euro e do Japão continuam a causar frustrações.

Para 2015, a publicação de janeiro projeta que as economias avançadas deverão manter a trajetória de suave aceleração passando de 1,8% para 2,4%, lideradas pela retomada da economia norte-americana (projeção de 3,6%), enquanto as economias emergentes registrariam mais um ano de desaceleração, de 4,4% para 4,3%.
  
Determinantes

Entre outubro e janeiro, informa o relatório, a economia mundial foi impactada por quatro movimentos significativos para a reformulação das perspectivas de curto e médio prazos: a queda muito acentuada nas cotações dos petróleo, de cerca de 55% desde setembro de 2014, e seus efeitos sobre os investimentos no setor, ainda que seja razoável prever uma recuperação parcial nos preços nos próximos meses; uma certa aceleração do crescimento da economia mundial no terceiro trimestre de 2014, mesmo que os desempenhos tenham sido muito divergentes entre as principais economias, acima do esperado nos EUA e abaixo no Japão e zona do euro; valorização do dólar frente às principais moedas, que se apresentou ainda mais acentuada em relação às moedas dos países emergentes exportadores de commodities; e, por último, a súbita elevação das taxas de juros e dos riscos nos títulos nos países emergentes.

Foi com tal cenário externo com se defrontou o Brasil nos últimos meses de rápida deterioração do quadro econômico e político do país. Uma sequência de desequilíbrios macroeconômicos foram se acumulando internamente enquanto as tentativas de manter mercado interno em expansão entregavam resultados cada vez menos consistentes.

Trajetórias

O Gráfico apresentado resume o desempenho do PIB mundial e de algumas das principais economias depois que eclodiu a crise financeira internacional no final de 2008 até o ano de 2014. São apresentadas médias trienais de crescimento a fim de captar o movimento tendencial, amortecendo as oscilações nervosas de cada ano.

Na média do triênio 2005-2007, o PIB mundial cresceu 5,4%. Em 2011, a média trienal havia caído para 3,2% e três anos depois, com as renovadas frustrações nas expectativas de retomada, a média trienal se limita a 3,3%.

A rápida desaceleração do crescimento do gigante chinês é inequívoca, como se pode perceber, da mesma forma que os atoleiros em que se meteram as economias japonesa e da zona do euro. A economia norte-americana apresenta uma retomada consistente, mas ainda modesta, depois de ter despencado nas primeiras etapas da crise.

O Gráfico também traz as trajetórias de algumas das maiores economias emergentes (Brasil, México e Rússia) com desempenhos não tão exuberantes quanto a China. O Brasil resiste relativamente bem aos impactos crise internacional até 2011-2012 e depois disso entra em um processo de forte desaceleração acompanhada pela deterioração dos indicadores macroeconômicos. Os desempenhos do México e da Rússia também não são dignos de júbilo.


Fonte: FMI. Database

Publicado no Jornal da Cidade, em 12/04/2015