Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Expectativas e projeções para 2011

Com a aproximação do final de 2010, as expectativas e as projeções em relação ao cenário econômico para 2011 passam a receber maior atenção dos agentes econômicos. A revisão de outubro do relatório Perspectivas da Economia Mundial, do Fundo Monetário Internacional, apresenta um cenário ainda de saúde debilitada para a economia mundial no próximo ano. Em relação à projeção anterior, realizada no mês de julho, a instituição reviu ligeiramente para cima a estimativa da taxa de crescimento do PIB mundial em 2010 e para baixo a previsão para 2011.

Para o FMI, o quadro não é alarmante. A recuperação da economia mundial, após o período mais agudo da crise entre o final de 2008 e o primeiro semestre de 2009, continua evoluindo dentro do quadro esperado, ainda que estejam presentes importantes riscos, que podem comprometer essa trajetória. A preocupação da instituição é com os níveis elevados de dívida pública na maioria dos países avançados e em algumas economias emergentes que limitam a adoção de políticas expansionistas por parte dos governos dessas nações.

Desatar o nó do endividamento público crescente em um quadro econômico de baixo crescimento, com receitas em queda, não é trivial, por conta dos riscos de retorno da recessão e de agravamento da situação de um mercado de trabalho que não tem reagido. O fato é que a recuperação econômica americana perdeu fôlego no segundo trimestre de 2010, com o PIB registrando menor crescimento na comparação com o primeiro trimestre do ano.

Projeções

O nível de atividade da economia mundial no primeiro semestre de 2010 ficou acima da projeção anterior da instituição. A previsão de julho era de crescimento de 4,75% do PIB no primeiro semestre de 2010, em termos anualizados, quando, de fato, ela teria crescido 5,25%, portanto, 0,5 pontos percentuais acima do projetado.

Com isso, a projeção para o crescimento do PIB mundial em 2010 foi revista de 4,6% para 4,8%, principalmente por conta das novas estimativas para cima do desempenho dos PIBs dos países emergentes. Para o FMI, em 2010, as economias avançadas, depois de amargarem uma retração de 3,2% em 2009, deverão crescer 2,7%, com a economia americana se expandindo 2,6% e a Zona do Euro, apenas 1,7%. (Ver gráfico 1). O desempenho dos países ditos emergentes tem sido muito superior, o que tem contribuído decisivamente para a recuperação da economia mundial.













Fonte: FMI. World Economic Outlook, Outubro de 2010.

A projeção de crescimento para os países emergentes em 2010 foi revista para 7,1%, frente aos 6,8% estimados no mês de julho. A China e a Índia, com taxa de 10,5% e 9,7%, respectivamente, lideram a expansão, mas o Brasil não aparece mal na fotografia, com 7,5%.
2011

O FMI prevê uma desaceleração na taxa de crescimento mundial no segundo semestre de 2010 e no primeiro semestre de 2011, em grande parte associada ao baixo nível de confiança dos consumidores e os altos níveis de desemprego nos países mais ricos que inibem os gastos das famílias. A instituição reconhece que a produção industrial e o comércio internacional apresentaram forte recuperação no primeiro semestre de 2010, mas as economias avançadas ainda se mantêm com crescimento muito moderado.

Para 2011, a projeção do FMI é de crescimento de 4,2% na economia mundial e de desaceleração do já pífio incremento do PIB das economias centrais de 2,7%, em 2010, para 2,2%, em 2011, enquanto os países emergentes deverão crescer 6,4%. Para o Brasil, a projeção seria de 4,1% de crescimento em 2011, ligeira retração em relação à projeção de 4,2% de julho.

A título de curiosidade, a previsão do FMI em outubro de 2009 para o crescimento do PIB brasileiro em 2010 era de 3,5%. Como vimos, um ano depois ajustou a previsão para 7,5%. Para a economia mundial, em outubro de 2009, o relatório do FMI projetou crescimento de 3,5% em 2010, frente aos 4,8% calculados um ano depois.

Revisões


As projeções de crescimento anual do PIB das principais economias do mundo são refeitas trimestralmente pelo FMI, cujos analistas vão ajustando suas previsões à medida que os resultados parciais são computados. Cada projeção tende a supervalorizar a situação econômica do último trimestre e pode ser substancialmente revista ao longo do ano. As projeções efetuadas semanalmente pelo relatório Focus do Banco Central do Brasil, a partir de levantamento junto a consultorias especializadas, podem ilustrar como as previsões podem sofrer alterações de grande monta.

Há um ano, o relatório Focus projetava crescimento de 4,69% no PIB brasileiro de 2010. As revisões semanais saltaram a partir do mês de maio, com o anúncio do PIB do 1º trimestre muito acima do esperado e no inicio de outubro corrente já apontam para 7,5%. As projeções do Focus para 2011 apresentam até o momento uma curva comportada, mas, provavelmente, no início do ano que vem, sofrerão importantes ajustes. (Ver gráfico 2).














Fonte: Banco Central do Brasil. Relatório Focus.

Ricardo Lacerda
Publicado no Jornal da Cidade em 24 de outubro de 2010


Para baixar o arquivo em PDF clique aqui.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A rizicultura do Baixo São Francisco (2)

Ricardo Lacerda

Um aspecto positivo da expansão da produção de arroz no Baixo São Francisco Sergipano nos últimos anos decorre do fato que ela se deveu mais ao crescimento da produtividade do que da expansão da área cultivada.

Entre 2000 e 2008, a área plantada com arroz em Sergipe, fortemente concentrada na região, teve um incremento de 14,8%, passando de 10.030 hectares para 11.510 hectares. O rendimento da cultura, nesse mesmo período, aumentou de 3.838 toneladas por hectare para 5.089 toneladas por hectare, incremento de 32,6%, o que significa que cerca de 2/3 do aumento da produção se deveu ao ganho de produtividade e 1/3 à ampliação da área.

Ainda que no ranking estadual a rizicultura apareça, em 2008, como a quinta cultura temporária em termos de área plantada e de valor da produção, atrás do milho, da mandioca, cana de açúcar e feijão, na região do Baixo São Francisco ela se constitui na principal atividade.

Valor de produção

Em 2008, o cultivo de arroz na região do Baixo São Francisco Sergipano alcançou o valor de produção de R$ 34,3 milhões, equivalente a 78,3% das culturas temporárias e a 42,1% do total da atividade agrícola da região. A segunda cultura em termos de geração de valor da produção, o coco-da-baia, somou R$ 15,8 milhões, menos da metade do resultado do cultivo do arroz. O plantio de banana, manga, mandioca, cana de açúcar e laranja são outras culturas importantes na região (Ver gráfico 1).




















Fonte. IBGE. Pesquisa Agricola Municipal

Produtores

O número de estabelecimentos produtores de arroz de Sergipe não tem a mesma dimensão dos dedicados às culturas do milho, mandioca ou do feijão. O Censo Agropecuário de 2006 contou apenas 649 estabelecimentos voltados à produção de arroz, frente aos 31.412 estabelecimentos produtores de milho, 23.338 produtores de mandioca e 6.328 de feijão.

Os estabelecimentos dedicados à rizicultura, em sua quase totalidade, são de pequeno porte, com cerca de 95% deles não atingindo a extensão de 20 hectares de área total. Em sua ampla maioria, cerca de 2/3 dos estabelecimentos, contam com área entre 3 e 5 hectares. Os estabelecimentos entre 3 a 10 hectares respondiam por 82% do total e por 71% da produção naquele ano. ( Ver Gráfico 2)
















Fonte. IBGE. Censo Agropecuário de 2006.

Segundo o Censo Agropecuário, a quase totalidade dos rizicultores é de proprietários dos seus estabelecimentos, com um número pouco expressivo de arrendatários e ocupantes. A produção de arroz é destinada principalmente ao mercado, com apenas 3% voltados ao autoconsumo familiar. Parcela expressiva da produção, 52%, é vendida diretamente à indústria e outros 45% a intermediários.

Esse breve e incompleto perfil da rizicultura sergipana, concentrada na região do Baixo São Francisco, mostra uma atividade agrícola desenvolvida em pequenas propriedades rurais, cujos indicadores de produção e rendimento agrícola têm evoluído satisfatoriamente. O valor de produção por hectare colhido, em 2008, era significativamente maior do que as culturas de sequeiro, como milho, feijão e mandioca, e mesmo acima do resultado da cana-de-açúcar e da citricultura.

Os dados apresentados pela Pesquisa Agrícola Municipal não autorizam perspectivas mais pessimistas sobre a viabilidade da cultura na região do Baixo São Francisco. Aguardemos os dados sobre os indicadores sociais do censo populacional de 2010 para comparar os rendimentos e qualidade de vida das pessoas dedicadas a essa atividade em relação às pessoas dedicadas a outras culturas. Isso não significa, todavia, que não seja desejável buscar uma diversificação da atividade agropecuária na região, com o incentivo à aqüicultura e a agregação de valor à produção agrícola. A aplicação de pesquisas específicas na região rizícola seria desejável, no intuito de avaliar as suas condições tecnológicas e de rentabilidade.

Publicado no Jornal da Cidade em 17 de outubro de 2010.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A rizicultura do Baixo São Francisco (1)

Ricardo Lacerda

O cultivo de arroz na região do Baixo São Francisco Sergipano é costumeiramente visto com pessimismo por parcela expressiva dos técnicos especializados em desenvolvimento rural. Persiste, em certos círculos, um tipo de descrença sobre a viabilidade econômica da atividade e muitos chegam a indicar a necessidade da região, uma das mais pobres do Estado, buscar novas vocações produtivas em complementação ou substituição à atividade.

Quando os dados do censo populacional de 2010 estiverem disponíveis, será possível ter um quadro mais amplo da situação das pessoas que se dedicam àquela atividade. Do ponto de vista produtivo, todavia, é patente o avanço que a cultura do arroz vem obtendo nos últimos anos. É possível, fica como hipótese, que parcela do pessimismo em relação a atividade decorra do difícil período por que ela passou na segunda metade dos anos noventa, especificamente entre 1995 e 1997, que cristalizou uma visão desalentada sobre sua viabilidade.

Produção

A produção de arroz em casca de Sergipe, fortemente concentrada no território do Baixo São Francisco, somou 19, 5 mil toneladas no ano de 1990. Dez anos depois, em 2000, a produção já se situava em 32,8 mil toneladas, 68,6% superior. Os anos de 1995 a 1997, todavia, foram de crise acentuada na rizicultura sergipana.
Depois de atingir a produção de 28,1 mil toneladas em 1994, a quantidade produzida despencou para 14,0 mil toneladas em 1995, com nova queda acentuada em 1996, 8,7 mil toneladas, e recuperação parcial em 1997, com 24,2 mil toneladas. Apenas em 1998, a produção de arroz de Sergipe superou o patamar de 1994.
Em 2008, último ano disponível na série da Pesquisa Agropecuária Municipal do IBGE, a quantidade produzida alcançou 58,6 mil toneladas, 78,1% acima da produção de 2000 e, simplesmente, 201% superior ao resultado de 1990. Não é possível considerar um mau desempenho. (Ver gráfico 1).













Fonte: IBGE. Pesquisa Agrícola Municipal

Diversa foi a trajetória do outro lado do rio. A produção de arroz no vizinho Estado de Alagoas, em 1990, alcançou 26,3 mil toneladas, 35% a mais do que a de Sergipe. Passou também por uma crise intensa em meados dos anos noventa, entre 1994 e 1996. Depois de um ciclo de recuperação nos anos finais da década de noventa e nos anos iniciais da primeira década do novo século, mergulhou em uma crise de produção em 2002, da qual não mais saiu.

Em 2000, a produção de arroz de Alagoas somou 40,7 mil toneladas, 54,4% acima do resultado de 1990 e ainda 24% superior a de Sergipe. Em 2008, a produção já havia se retraído para 14,0 mil toneladas, 65,6% abaixo do patamar de 2000 e 76% inferior à produção sergipana. (Ver gráfico 1).

A área plantada de arroz em Alagoas caiu de 8.460 hectares, em 2000, para menos da metade, 3.386 hectares em 2008. Em Sergipe, por sua vez, a área plantada continuou se ampliando entre 2000 e 2008, passando de 10.030 hectares para 11.510 hectares.

Municípios

Ao longo da década verificaram-se algumas mudanças importantes na distribuição geográfica do cultivo de arroz entre os municípios sergipanos. Propriá, que em 2000 aparecia como o 3º município produtor com 6,1 mil toneladas, assumiu a liderança e em 2008 alcançou a produção de 17,5 mil toneladas, crescimento de 189,6% no período, representando 30% da produção estadual. Ilha das Flores manteve o segundo lugar no ranking, ampliando a produção de 7 mil toneladas para 11,3 mil toneladas. O município de Neópolis subiu da 4ª para a 3ª posição, com crescimento de 98,1% no período, enquanto Brejo Grande, o maior produtor em 2000, perdeu posição, caindo para o 4º lugar em 2008, registrando ligeira retração, de 1,3%( Ver gráfico 2)




















Fonte: IBGE. Pesquisa Agrícola Municipal

Não há, portanto, como se referir à crise de produção na cultura do arroz em Sergipe. Mesmo pelo critério de produtividade os avanços são significativos, segundo a pesquisa do IBGE. O rendimento por hectare pulou de 3,8 mil em 2000 para 5,1 mil, em 2008, incremento de 33%. Destaque-se que a produtividade da rizicultura em Sergipe, em 2008, se situava 20% acima da média brasileira e 201% superior à media nordestina. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/pam/2008/pam2008.pdf. No próximo artigo, examinaremos outros aspectos da rizicultura do Baixo São Francisco Sergipano.

Publicado no Jornal da Cidade em 10 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Criação de emprego industrial em Sergipe no ano de 2010

Ricardo Lacerda

A evolução recente do emprego industrial em Sergipe tem se destacado da média brasileira e vale a pena examiná-la. Entre janeiro e agosto de 2010, foram criados 1.947 empregos com carteira de trabalho na indústria de transformação em Sergipe, o melhor resultado da série iniciada em 1999. Observando a série acumulada em 12 meses, no período entre setembro de 2009 e agosto de 2010, foram criados 4.861 empregos no setor. A vantagem de se observar a série em doze meses acumulados é que são eliminados os efeitos sazonais, posto que todos os meses do ano são considerados na análise.

Nessa série de doze meses, o emprego formal na indústria de transformação apresentou, em agosto, taxa de crescimento de 13,82%, quase o dobro da média brasileira, de 7,87%. Foi o terceiro mês subseqüente em que Sergipe registrou o melhor resultado do país. Cabe, então, examinar, quais setores, localidades e portes de empresas têm apresentado os melhores desempenhos.

Emprego setorial

Um primeiro dado que chama a atenção é que o crescimento do emprego industrial nos doze meses encerrados em agosto foi abrangente, verificando-se em todos subsetores de atividade da indústria de transformação. Cabe destacar, todavia, o desempenho de quatro segmentos: calçados, com a geração de 1.783 empregos formais; alimentos e bebidas, 755 empregos; têxtil-vestuário, 707 empregos e minerais não metálicos, que inclui a produção das fábricas de cimento e das cerâmicas, com 475 empregos.

Por diferentes motivos, o setor de calçados e a cadeia têxtil-confecção merecem uma menção especial. Sergipe vem se constituindo em um importante pólo calçadista, a partir da atração de empresas com sedes nas regiões Sul e Sudeste. O crescimento do emprego na cadeia têxtil-confecção carrega um significado especial para a economia sergipana. Afinal, a própria história da industrialização do Estado se confunde com a implantação da sua indústria têxtil, ainda no final do século XIX. Nos anos recentes, a agressividade da China no comércio internacional de produtos têxteis, ao lado da valorização do Real, impactou negativamente as atividades têxteis brasileiras, inclusive em nosso Estado. Desde janeiro de 2010, todavia, o emprego na cadeia têxtil-confecção sergipana tem apresentado recuperação, com a chegada de novos empreendimentos, além da ampliação das contratações nas empresas já instaladas.

Interiorização

Um aspecto importante do perfil da expansão industrial recente em Sergipe tem sido a implantação de indústrias no interior do Estado. Nos últimos 12 meses, dos 4.861 novos empregos industriais, 3.187 ou cerca de 2/3 foram gerados em empresas localizadas no interior do Estado, frente a 1.674 empregos (34%), na Grande Aracaju. (Ver gráfico 1).

Os municípios que mais criaram emprego industrial nesse período foram, além de Aracaju, Frei Paulo, Simão Dias, Nossa Senhora do Socorro, Lagarto, Itabaiana, Estância, Aparecida, Carmópolis, Salgado, Ribeirópolis e Carira, com mais de cem novos empregos industriais, cada um, nos últimos doze meses. Os municípios de Nossa Senhora da Glória, Rosário do Catete, Itabaianinha, Itaporanga D’ajuda, Riachuelo, Barra dos Coqueiros, São Cristovão e Capela também tiveram importante incremento do emprego industrial no período. Esse movimento da indústria em direção ao interior do Estado é um dos aspectos mais benéficos do crescimento recente da economia sergipana, pois concorre para a desconcentração produtiva no Estado e pode reforçar vocações produtivas locais.













Fonte: MTE-CAGED

Porte das Empresas

Parte expressiva dos novos empregos industriais no período analisado foi criada em estabelecimento com até 19 funcionários, classificados como microempreendimentos. As empresas desse porte geraram 1.717 empregos nos últimos doze meses, o que corresponde a 35% do saldo do emprego industrial no período. Mas a atração de novos empreendimentos nos segmentos já mencionados fez com que os agrupamentos de estabelecimentos de médio e grande portes também conhecessem uma expansão expressiva no emprego. As empresas com mais de 500 empregados, em sua quase totalidade no setor de calçados, criaram 1.409 novos postos de trabalho, 29% do total da indústria de transformação. E as empresas de médio porte, entre 100 e 499 empregados, criaram outros 1.240 empregos, 26% do total do setor industrial.












Fonte: MTE-CAGED

A expansão recente do emprego industrial de Sergipe, muito acima da média nacional, revela, sobretudo, o interesse de empresas em aumentar a presença no mercado de consumo da região Nordeste, que vem se expandindo a taxas significativamente mais elevadas do que a média brasileira. Parte expressiva desse crescimento é recuperação de postos perdidos durante o período mais agudo da crise financeira internacional, mas outra parte reflete o ciclo expansivo da economia brasileira.



Publicado no Jornal da Cidade em 03/10/2010

Os pequenos empreendimentos e o desenvolvimento (3)

Ricardo Lacerda

No presente artigo, serão examinadas algumas linhas de políticas de apoio aos micros e pequenos empreendimentos implementadas no Brasil e em Sergipe. Com ele, encerra-se a série de três artigos sobre a importância dos pequenos empreendimentos no desenvolvimento econômico.

As políticas de apoio para os pequenos empreendimentos podem abranger uma diversidade de linhas de ações que buscam, de um lado, contrabalançar as desvantagens desses empreendimentos frente às grandes empresas e, de outro lado, fortalecer as suas vantagens competitivas. Mas, sobretudo, essas políticas assumem como pressuposto que a competitividade de um sistema produtivo depende do bom funcionamento das empresas de diferentes portes. O entendimento é de que o fortalecimento dos pequenos empreendimentos é importante não apenas para elas próprias ou por conta do peso expressivo na geração de ocupação e, sim, por que concorre para conferir competitividade às cadeias produtivas.

As políticas de apoio

As políticas de apoio aos pequenos empreendimentos abrangem a capacitação profissional e empresarial, simplificação e desoneração tributária, apoio à formalização, acesso a incentivo locacional, estímulo a formação de redes de cooperação, dentre muitas outras. Três linhas de ação, todavia, são especialmente significativas e sobre elas o presente artigo pretende concentrar seu foco: o acesso ao crédito, o uso do poder de compra e as políticas de extensão tecnológica.

A restrição de acesso ao crédito ou as condições desvantajosas desse acesso constituem importantes desvantagens dos pequenos empreendimentos. A ausência de garantias aceitáveis por parte do sistema financeiro e o custo de gerenciamento de operações creditícias de pequeno montante unitário limitam ou simplesmente podem tornar proibitivos o acesso desses empreendimentos aos recursos do sistema bancário. Frente à limitação de recursos próprios ou de crédito para expandir suas atividades, os pequenos empreendimentos, muitas vezes, utilizam o próprio capital de giro para expandir suas instalações ou ampliar o estoque de insumos e mercadorias, impondo-se condições inadequadas de prazos e custos que podem levar ao insucesso boas oportunidades de investimentos.

O uso do poder de compra consiste em uma das políticas de apoio de maior alcance para os pequenos empreendimentos. Contrariamente ao senso comum, as políticas de uso do poder de compra não se limitam à aquisição pelo setor público de bens e serviços fornecidos pelas pequenas empresas, ainda que essa seja uma das principais linhas de atuação. Empresas de maior porte podem formar redes de pequenos fornecedores por meio do uso do seu poder de compra e construir a partir desse relacionamento importante fonte de competitividade para si e para as empresas parceiras. Podem ser construídas vantagens mútuas na formação dessas redes: para o grande empreendimento é muito bem vinda a formação de um conjunto de fornecedores qualificados situados próximos a ela, capazes de assegurar o suprimento de bens serviços de forma regular e adequada e com capacidade de atender necessidades específicas do seu negócio. Para os empreendimentos de menor porte, a política do uso do poder compra pode assegurar mercado estável e, muitas vezes, formas de acesso ao crédito tanto para o giro quanto para o crescimento da empresa. Uma das questões mais sensíveis nessas redes é a de encontrar uma boa governança na sua formação como forma de garantir o equilíbrio no relacionamento entre os parceiros.

Finalmente, a extensão tecnológica tem sido uma modalidade de política de apoio que ainda não ganhou a robustez desejada, embora já seja praticada há algum tempo. A extensão tecnológica surge de fato como ‘assistência técnica’ ao produtor rural, como forma de disseminar práticas mais modernas de produção e gestão. Em grande parte impulsionada pelo avanço das tecnologias da informação e pelas perspectivas abertas para os pequenos empreendimentos a partir da reestruturação produtiva dos anos noventa, governos e instituições despertaram para necessidade de fortalecer as ações de extensão tecnológicas nas principais cadeias produtivas brasileiras, que se ressentiam de uma maior aproximação entre o setor produtivo e instituições de ciência e tecnologia.

Brasil e Sergipe

As políticas de apoio aos pequenos empreendimentos vêm ganhando consistência no Brasil e em Sergipe como um fruto do amadurecimento das instituições em torno de pontos amplamente debatidos e do fortalecimento do compromisso com esse segmento. A implementação da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas que delimita condições diferenciadas para esse segmento é o melhor dos certificados desse compromisso. Vêm sendo promovidos avanços relativos a desonerações e simplificação tributária, estímulo a formalização das empresas e iniciou-se um importante processo de desburocratização, que ainda requer, reconheça-se, muitos passos até se aproximar dos padrões de países de maior cultura empresarial.

No que tange às três linhas de ação destacadas nesse artigo, muito tem se avançado no Brasil e em Sergipe. A conquista de um ambiente macroeconômico benigno, ao lado da atuação mais incisiva dos bancos públicos, tem propiciado nos últimos anos importante redução nas taxas de juros e no acesso ao crédito por parte dos pequenos empreendimentos. Pesquisas junto a empresas de algumas cadeias produtivas sergipanas já vêm revelando nos últimos anos que o alto custo do acesso ao crédito deixou de ser o principal entrave à expansão dos negócios, como costumava ser apontado até o inicio dos anos 2000. A expansão das operações de microcrédito e condições diferenciadas de taxas de juros para os pequenos empreendimentos são práticas dos bancos oficiais, ainda que haja largo campo para avançar em termos de simplificação nas operações.

Digna de destaque tem sido a política de uso do poder de compra do governo de Sergipe. No âmbito da implantação da Lei Geral, a administração estadual estabeleceu condições muito favoráveis para o acesso dos pequenos empreendimentos às compras públicas, o que teve o efeito de mudar radicalmente o perfil dessas aquisições, com o incremento substancial da participação desse segmento. Grandes empresas, como a Petrobras e algumas empresas privadas situadas no estado, contam com programas de qualificação de fornecedores, que resultam em importantes ganhos para ambas as partes, fortalecendo a competitividade das cadeias produtivas, ainda que o escopo dessas ações possa ser ainda ampliado substancialmente.

Finalmente, a extensão tecnológica é necessariamente uma linha de ação cujos benefícios são essencialmente de médio e longo prazos, mas de grande potencial para o desenvolvimento do Estado. Nesse capítulo, importantes programas e ações estão sendo implementados. Cabe destacar o programa de apoio aos Arranjos Produtivos Locais, a implantação do Núcleo de Excelência de Petróleo e Gás na Universidade Federal de Sergipe e a nova estruturação do SergipeTec. Reconheça-se o esforço da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação de Sergipe- FAPITEC com o lançamento de editais públicos direcionados a superação de gargalos tecnológicos de pequenos empreendimentos do estado, a exemplo do que já vinha sendo executado nacionalmente pelo SEBRAE em associação com a FINEP. A extensão tecnológica deve ser fortemente impulsionada com a plena implantação do Sistema Brasileiro de Tecnologia- SIBRATEC, rede que abrange universidades, centros e institutos tecnológicos com o objetivo de aproximar as instituições de ciências e tecnologias das efetivas necessidades do setor produtivo.

O apoio aos pequenos empreendimentos é essencial para o desenvolvimento mais equilibrado do sistema produtivo brasileiro. A quebra de preconceito em relação ao segmento e novas linhas ação voltadas para o seu fortalecimento apontam para uma nova postura em relação ao seu papel no desenvolvimento.
Publiado no Jornal da Cdade em 25/04/2010.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Crédito e inadimplência em Sergipe

Ricardo Lacerda

Em artigo publicado no domingo passado na Folha de São Paulo, intitulado “A história e seus ardis. O lulismo posto à prova em 2010”,o jornalista e professor de ciências políticas da USP, André Singer, sintetiza o tripé de medidas voltadas para o aumento do consumo popularque teria sido responsável pela hoje forte identificação entre o presidente da república e a população:o Bolsa Família, o crédito consignado e o forte aumento real salário mínimo, a partir de 2004. O autor assinala que “os três aportes juntos começaram a surtir um efeito tão poderoso quanto subestimado: o mercado interno de massa se mexia, apesar do conservadorismo macroeconômico.(Ver em http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36445”).

A expansão do crédito na economia brasileira decorreu de uma série de mudanças institucionais, em que o crédito consignado para as pessoas físicas foi uma das modalidades mais percebidas. Quando o mercado financeiro internacional sucumbiu ao final de 2008, a resistência e a rápida recuperação da economia brasileira deixaram surpresos muitos analistas econômicos.

Pessoas Físicas

Ao longo do governo Lula, inovações institucionais que reduziam os riscos e a queda paulatina da taxa de juros impulsionaram a expansão do crédito para pessoa física, cujo saldo de operações passou de 5,7% do Produto Interno Bruto- PIB, em agosto de 2003, para 12,8% em agosto de 2008, imediatamente antes da deflagração da crise de crédito no mercado financeiro internacional. Ao longo de 2009, mesmo diante das dificuldades econômicas, o saldo de crédito para pessoas físicas continuou se expandindo e se constituiu em uma das principais forças que se contrapuseram à influência recessiva que vinha de fora do país. Em agosto de 2009, esse saldo alcançou 14,3% do PIB, e, em agosto próximo passado, montou 15,3%. (Ver gráfico 1)









Fonte: Banco Central do Brasil


Sergipe

Desde 2004, as operações de crédito para pessoa física também conheceram forte expansão em Sergipe, com taxa média de crescimento nominal (sem descontar a inflação no período) de 39% ao ano, entre junho daquele ano e junho de 2010. A expansão deste crédito, ao lado do aumento do emprego e dos rendimentos da população, foi determinante na expansão do comércio sergipano no período. Em termos reais, descontado pelo IPCA do período, entre junho de 2004 e junho de 2010, o saldo de operações de crédito na economia sergipana cresceu 456%.

A expansão do crédito para pessoa física pode, de fato, levar a excessos, quando as famílias não observam os limites da capacidade de endividamento. Entretanto, é curioso observar que o forte incremento das operações de crédito às famílias, o crédito para pessoa física, não foi acompanhado pela elevação da taxa de inadimplência. Pelo contrário, levantamento do Banco Central do Brasil informa que a taxa de inadimplência do crédito de pessoa física vem caindo ao longo dos últimos anos na maioria das regiões brasileiras. A exceção é a região Sul, em que se manteve relativamente estável, com alguns picos em 2009.

Em junho de 2004, a taxa de inadimplência dessa modalidade de crédito foi de 8,8% na região Nordeste, 7,8% em Sergipe, 5,1% na região Sudeste. Desde então, as taxas de inadimplência do crédito de pessoa física não apenas vêm convergindo entre essas três áreas como a de Sergipe passou a se situar abaixo da média da região Sudeste. Na verdade, desde julho de 2009, a taxa de inadimplência do crédito de pessoa física tem sido menor em Sergipe do que naquela região.

As inovações institucionais, o crescimento do emprego formal e a melhoria de renda das famílias certamente explicam a maior parte da redução da inadimplência nas operações de crédito de pessoas físicas em Sergipe e na região Nordeste, como um todo. É possível observar no gráfico 2, que informa a taxa média móvel trimestral de inadimplência do crédito de pessoa física, que em meados 2009 houve um repique da taxa de inadimplência nos três agregados analisados, como rescaldo da crise financeira internacional. Com a retomada do nível de atividade e com a forte expansão do emprego a partir do segundo semestre de 2009, a taxa de inadimplência voltou a cair. No caso de Sergipe, a taxa inadimplência do crédito de pessoa física em junho de 2010 se reduziu a menos da metade em relação ao início de 2004.










Fonte: Banco Central do Brasil

Emprego, crédito, transferências sociais e elevação do rendimento são os principais vetores da formação do mercado de consumo de massa no Brasil nos últimos anos. Os dados de inadimplência, para o bem de todos, se comportaram muito bem, notadamente no Nordeste e em Sergipe.

Publicado no Jornal da Cidade em 26 de setembro de 2010

Os pequenos empreendimentos e o desenvolvimento (2)

Ricardo Lacerda*

Como foi visto na primeira parte do artigo, em 2008, a economia sergipana contava com 18.326 estabelecimentos formais com até dezenove pessoas ocupadas, excluídos aqueles pertencentes à administração pública, correspondendo a 91,9% do total de estabelecimentos privados. Esses estabelecimentos de menor porte empregavam, naquele ano, 66.959 pessoas, representando 32,4% do total.

Os estabelecimentos com até dezenove empregados tinham presença importante em todos os segmentos de atividade econômica. Eles representavam 97,1% das empresas agropecuárias formalizadas, 95,1% do comércio, 90,4% dos serviços, 83,7% da indústria de transformação e 82,3% na construção civil. Apenas no setor extrativo mineral e nos serviços industriais de utilidades públicas, que contam com um número relativamente reduzido de estabelecimentos, os empreendimentos de menor porte respondiam por menos de 80% do total de unidades produtivas.

Atividades

As atividades que concentravam os contingentes mais expressivos de estabelecimentos nessa faixa de tamanho, em 2008, eram, por ordem, o comércio, o segmento de serviços, a agropecuária e a construção civil. A atividade do comércio congregava, em 2008, 7.574 estabelecimentos dessa faixa de tamanho, correspondente a 41,3% do total. O setor serviços, contava com 6.186, a agropecuária, 2.170, a indústria de transformação, 1.378, e a construção civil, 962. Com exceção do setor de serviços industriais de utilidades públicas, todos os demais tiveram incremento significativo, entre 2000 e 2008, do número desses estabelecimentos.

Na indústria de transformação, os estabelecimentos de menor porte se distribuem por todos os setores, mas a sua presença é especialmente forte nas indústrias de alimentos e bebidas, têxtil e confecção, minerais não metálicos, nas gráficas, metalúrgicas, madeiras e moveis e na indústria química. No setor terciário, além do comércio varejista, estão presentes com grande destaque nas atividades de alojamento e comunicação, atividades administrativas e profissionais, e nos serviços de médicos, odontológicos e veterinários, que já somavam, em 2008, o número de 975 estabelecimentos formais com até dezenove empregados. (Ver a lista completa no quadro abaixo).














Tamanho médio

É curioso observar que a participação desses empreendimentos de menor porte no total do setor não mudou muito significativamente no período de 2000 a 2008, com a exceção do setor de serviços industriais de utilidade pública. Isso se verificou apesar do aumento expressivo no número de estabelecimentos. Essa constância sugere um certo coeficiente técnico entre empreendimentos de distintos portes, como se houvesse algum tipo de funcionalidade na distribuição do mercado entre eles que se altera lentamente no tempo.

Apesar disso, têm ocorrido mudanças de participação nas faixas internas que compõem esse grupo de empresas que apontam para o crescimento do tamanho médio dos estabelecimentos. Enquanto o número de empresas com até nove empregados cresceu 38% entre 2000 e 2008, o grupo de empreendimentos com dez a dezenove empregados aumentou 62%. Essa expansão mais intensa dos estabelecimentos desse segundo grupo se verificou em todos os segmentos mais expressivos da economia sergipana em termos de número de unidades produtivas, a exemplo da indústria da transformação, construção civil, comércio, serviços e agropecuária. (Ver gráfico). O agrupamento de empresas com 20 a 99 empregados também cresceu acima da média do período, o que indica uma estruturação mais forte do setor produtivo sergipano, 68%.













Gráfico. Sergipe. Taxa de crescimento do Número de Estabelecimentos por Tamanho. 2000 a 2008 (%)
Fonte: MTE-RAIS

Uma pesquisa mais apurada poderia identificar se o crescimento mais rápido do agrupamento entre 10 e 19 empregados e das empresas entre 20 e 99 empregados decorreu principalmente da implantação de novos estabelecimentos ou se tratou de aumento do número de empregados de estabelecimentos que na primeira medição pertenciam a faixa inferior, o que revelaria um processo de expansão muito interessante para a economia do Estado.

Publicado no Jornal da Cidade em 14 de abril de 2010.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Crédito e consumo na economia sergipana

Ricardo Lacerda*

Nos últimos 12 meses concluídos em julho de 2010, o volume de vendas do comércio varejista de Sergipe aumentou 14,21%, na comparação com os 12 meses anteriores. Foi o quinto maior crescimento no Brasil nesse período e o primeiro do Nordeste. A expansão média do volume de vendas do varejo brasileiro, nesse período, também foi muito expressiva, 9,65%. A receita nominal do comércio varejista de Sergipe cresceu simplesmente 18,01% nesses 12 meses, o quarto maior do Brasil e, novamente, o maior do Nordeste. Os dados são provenientes da Pesquisa Mensal de Comércio – PMC, do IBGE, que realiza o levantamento em 9.000 empresas comerciais em todo o Brasil, entre os empreendimentos com vinte ou mais pessoas ocupadas.

As elevadas taxas de crescimento do consumo no mercado interno têm sido um dos principais fatores que explicam o robusto crescimento brasileiro em 2010, quando muitas das economias centrais ainda estão imersas nas dificuldades geradas pela crise financeira internacional que completou dois anos nesse mês de setembro.

O incremento do emprego e a expansão do consumo se alimentam mutuamente. Nos últimos 12 meses foram gerados dois milhões e duzentos e sessenta e nove mil empregos formais na economia brasileira, o melhor resultado já obtido desde o inicio da série estatística do Caged-MTE, representando um incremento de 6,9%. Em Sergipe, foram criados 20.430 novos empregos com carteira assinada, também um montante recorde, correspondendo a uma taxa de crescimento de 8,94%.

Mercados regionais

A pesquisa do IBGE revela que nos últimos 12 meses os incrementos mais expressivos no comércio varejista ocorreram nos estados da região Norte e da Região Nordeste. Entre os dez maiores crescimento no volume de vendas no período, cinco foram de estados da região Norte, três da região Nordeste, um do Centro-Oeste e um do Sul. (Ver gráfico 1). Da região Sudeste, a mais rica do país, nenhum estado. Naquela região, a taxa de crescimento do varejo mais elevada nos últimos 12 meses foi a de São Paulo, 10,19%, a 15º do país.

















Fonte: PMC-IBGE


Além do incremento do emprego e da massa salarial, um outro fator fundamental na expansão do mercado interno tem sido a evolução do crédito. A relação entre operações de crédito e o Produto Interno Bruto continuou se expandindo no período mais recente. Em julho de 2010, o saldo de operações de crédito do sistema financeiro nacional representava 45,9% do PIB nacional, frente a 42,8% em julho de 2009 e 37,9%, em julho de 2008. Em julho de 2001, correspondia a 25,8% do PIB.

O consumo de bens duráveis, como geladeira, fogão, móveis, computador e celular, é fortemente influenciado pelo acesso e pelo custo do crédito ao consumidor. Os dados sobre operações de crédito à pessoa física são elucidativos em relação às diferentes trajetórias de consumo entre as regiões brasileiras. O saldo médio mensal das operações de crédito para pessoas físicas, entre julho de 2009 e junho de 2010, alcançou R$ 3,2 milhões na economia sergipana, frente a R$ 2,4 milhões nos doze meses anteriores, o que significa um crescimento nominal de 34%. Na mesma comparação, o saldo de operações de crédito de pessoas físicas subiu 27% no Nordeste e 21% na região Sudeste. (Ver gráfico 2)









Fonte: Banco Central

A evolução do mercado interno de consumo tem sido uma das forças propulsoras da economia brasileira no ciclo de expansão recente. O crescimento das vendas no varejo acima da velocidade de expansão do PIB confirma essa tendência. As regiões mais pobres do país vêm liderando esse crescimento. A melhoria da renda e do emprego e o crescimento mais acelerado do crédito nesses mercados refletem e reforçam a melhoria da qualidade de vida nessas regiões.

* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.

Os pequenos empreendimentos econômicos e o desenvolvimento (1)

Ricardo Lacerda*

A reflexão sobre o espaço dos pequenos empreendimentos na economia contemporânea tem suscitado controvérsias estimulantes ao longo do tempo. Durante boa parte do século XX predominou uma visão pessimista sobre as perspectivas dos pequenos empreendimentos econômicos, tendo sido enunciados alguns vaticínios sobre o encolhimento progressivo de sua participação na atividade econômica até atingir a insignificância.

O argumento central que apoiava essa visão enfatizava as desvantagens dos pequenos empreendimentos frente às grandes empresas que, por produzirem em larga escala, operavam com custos médios de produção mais baixos e poderiam oferecer bens e serviços a preços mais atraentes.

Nessa perspectiva, as grandes empresas tenderiam a deslocar os pequenos empreendimentos dos mercados em que atuavam tão logo esses contassem com dimensão suficiente para a entrada de unidades produzindo em larga escala. Assim, com a chegada das redes de supermercados foram deslocadas as antigas mercearias que abasteciam as famílias de suprimentos. E no segmento industrial, novas tecnologias exigiam unidades produtivas e sistemas de distribuição cada vez maiores, com o surgimento de megas corporações que findariam por levar à bancarrota as unidades menores, que não conseguiam acompanhar às mudanças no ambiente econômico, em um reinado da produção em massa. Reconhecia-se, é verdade, que novos nichos de mercado seriam abertos para os pequenos empreendimentos, muitas vezes em atividades subsidiárias às da grande empresa, com o fornecimento de bens e serviços para a cadeia produtiva.

A reestruturação produtiva

A reestruturação industrial dos anos noventa, estimulada pelo aumento da competição em mercados cada vez mais globalizados, impactou de diferentes formas a vida dos pequenos empreendimentos. A busca obsessiva da redução de custos levou a grande empresa a terceirizar uma diversidade de atividades, desde serviços de segurança e limpeza, passando pela produção de partes e componentes, até a prestação de serviços de engenharia, tecnologias de informação e marketing, abrindo espaço de atuação para os pequenos empreendimentos. Novos arranjos institucionais se multiplicaram, com a formação de redes de empresas, em que os pequenos empreendimentos tinham um espaço a ocupar.

A disseminação das novas tecnologias de informação e de comunicação, as chamadas TICs, cumpriu um papel determinante. Com as novas tecnologias foram redimensionados os requisitos de tamanho dos empreendimentos, com efeitos diversos, elevando o tamanho mínimo em muitos mercados, mas abrindo oportunidades para unidades menores, em outros. Todo um conjunto de novas necessidades emergiu e pôde, parcialmente, ser atendido pelos empreendimentos de menor porte, mesmo por que eles continuaram se revelando imbatíveis em termos de flexibilidade para atender a demandas específicas de empresas e famílias, de uma forma que a produção massificada não conseguia suprir de forma satisfatória.

Ao lado desses processos, a formação de um contingente de pessoas que simplesmente não conseguia entrar ou permanecer no mercado de trabalho nos anos noventa concorreu para a constituição de novos empreendimentos de pessoas que forçavam sua inserção econômica. No Brasil, com a retomada do crescimento nos anos 2000, a expansão do poder de compra das famílias abriu novas oportunidades de mercado para os pequenos empreendimentos ao tempo em que foram intensificadas políticas voltadas para o fomento do desenvolvimento local por meio do fortalecimento das pequenas empresas, em que o acesso ao crédito se constituiu em uma das ferramentas de maior efetividade.

Alguns dados da presença dos pequenos empreendimentos refletem a importância deles na economia brasileira e em Sergipe. O Comunicado Ipea N. 38, de 04 de fevereiro de 2010, busca examinar a Atualidade e perspectiva das ocupações nos pequenos empreendimentos no Brasil, com base em dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar- PNAD, de 2008. O referido relatório informa que, considerando apenas o setor privado, os empreendimentos, formais ou informais, com até dez ocupantes respondiam por 54,4% de todos ou postos de trabalho e por 57,2% do total da massa de rendimentos. Em relação ao total de pessoas ocupadas, adicionando o setor público, pessoas não-remuneradas e serviços domésticos, os empreendimentos com até dez ocupantes representavam 33,6%. Em Sergipe, os empreendimentos com até dez ocupantes contavam com 342 mil trabalhadores, proporcionalmente mais do que a média brasileira, pois correspondiam a 37,5% de todas as ocupações.

Observando-se apenas as empresas formalizadas e excluindo a administração pública, em 2008, a economia sergipana contava com 18.326 estabelecimentos com até dezenove pessoas ocupadas, correspondendo a 91,9% do total de 19.944 estabelecimentos privados. Esses estabelecimentos empregavam 66.959 pessoas, contingente muito expressivo, representando 32,4% do total. Os estabelecimentos entre 20 e 99 empregados, considerados de pequeno porte, eram em número de 1.335 e ocupavam 52.186 pessoas; os empreendimentos de médio porte, entre 100 e 499 empregados, contavam com 48.986 empregados, e os grandes estabelecimentos, com mais de 500 empregados, ocupavam 38.313 pessoas. (Ver tabela)

Tabela. Sergipe. Estabelecimentos e Empregados no Setor Privado Formal segundo o Porte. 2008.










Fonte: MTE-RAIS

Entre 2000 e 2008, o segmento de empresas com até dezenove empregados teve um incremento de 5.221 estabelecimentos e de 22.588 pessoas ocupadas, 28% dos novos empregos gerados pelo setor privado sergipano. Os dados mostram a importância incontestável dos pequenos empreendimentos na economia sergipana e do Brasil como um todo.

Embora o avanço das grandes corporações seja um fato inegável, a visão mais pessimista não se confirmou e os pequenos empreendimentos souberam se recriar e se adaptar às mudanças cada vez mais velozes do ambiente de negócios, mostrando grande perspicácia para buscar o atendimento de novas necessidades. A permanência dos pequenos empreendimentos como um ator significativo da economia capitalista contemporânea também é um fato que não se pode desconhecer.
Nos artigos seguintes, serão examinados em que setores de atividade se concentram os pequenos empreendimentos e algumas das políticas de desenvolvimento voltadas para o segmento.

* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornal da Cidade em 11 de abril de 2010.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Situação financeira e expectativas das famílias brasileiras (2)

Ricardo Lacerda*

A pesquisa do IPEA sobre as Expectativas das Famílias procurou medir também a propensão de consumo e a situação de endividamento das famílias brasileiras. Os resultados obtidos permitem associar como a melhoria da situação financeira e a maior segurança no trabalho influenciam as decisões de consumo e de endividamento.
Na pesquisa, a situação do endividamento e a intenção de compra por parte das famílias podem ser apuradas segundo região geográfica, escolaridade, faixa salarial, sexo, faixa etária, etnia e segundo aqueles domicílios que participam e aqueles que não participam de programas de transferências de renda do governo federal. (Ver em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/IEF/100831_ief1.pdf).

Consumo

A pesquisa do IPEA procurou sondar a disposição das famílias brasileiras em relação à aquisição de bens de consumo duráveis, como os eletrodomésticos. Em agosto, 53,04% das famílias pesquisadas informaram que o momento é bom para a aquisição de bens duráveis, contra 37,32% para quem não é um momento adequado para realizar tais tipos de gastos. Outros 9,54% informaram que não sabiam ou simplesmente não responderam. Ou seja, mais da metade das famílias entendia que o momento é favorável à aquisição destes bens que, em sua maior parte, não são comprados à vista.

Os resultados variaram muito de acordo com as regiões. A maior predisposição para adquirir bens duráveis se verificou entre as famílias nordestinas. Quase duas em cada três famílias (63,85%) residentes na região informaram ser um bom momento para aquisição dos bens. Nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, mais da metade das famílias informaram ser um bom momento. As famílias da região Sul se mostraram mais reticentes; 41,62% informaram ser um bom momento para compra dos bens duráveis.Entre as famílias da região Norte o índice foi de 47,33%.(Ver gráfico 1)















Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.


Endividamento

A predisposição para adquirir eletrodomésticose outros bens duráveis está fortemente associada à percepção das famílias em relação a sua situação de endividamento. Um fato interessante é que 45,46% das famílias brasileiras informaram não possuir dívidas.

Os grupos com faixas de renda até 2 salários mínimos, nas faixas etárias de 30 a 39 anos, ou de 40 a 49 anos, é que tinham uma maior percepção de que se encontravam muito endividados. Não há uma clara relação entre o grau de escolaridade do responsável e a percepção das famílias que informaram estar muito endividadas. Apenas é possível constatar que uma menor parcela dos grupos nas faixas extremas, sem escolaridade e com nível superior completo ou incompleto, informaram que se encontravam em situação de muito endividamento. Curiosamente, o corte por sexo não revelou percepção muito diferenciada em relação a essa questão, ainda que uma maior proporção das mulheres do que de homens ter revelado a percepção de que estava muito endivididada.

Entre as famílias da região Nordeste, apenas 8,54% consideravam estar muito endividada, frente à média brasileira de 11,08%. As regiões com maiores parcelas das famílias que se precupavam com a situação de muito endividamente eram as regiões Sudeste, Norte e Sul. Na região Norte o quadro parecia mais desfavorável; 12% das familias se diziam muito endividadas e apenas 16% delas não possuíam dívidas. (Ver gráfico 2)













Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.

Mercados regionais

A primeira medição do IPEA realizada em agosto sobre as expectativas das famílias brasileiras revela um quadro geral de otimismo em relação à situação socioeconômica do Brasil, como foi visto no artigo da semana passada. Cerca de três em cada quatro famílias (73%) informaram que a sua situação financeira se encontrava melhor do que há um ano. No caso do Nordeste, a percepção de que a situação financeira a família havia melhorado nesse período era ainda mais disseminada do que a média brasileira, quatro em cada cinco famílias (80,33%).


A melhoria na situação financeira e a confiança em sua situação no mercado de trabalho têm impacto significativo sobre a evolução futura no mercado de consumo no país, com mais da metade das famílias revelando propensão para adquirir bens de consumo duráveis. As famílias das regiões Nordeste e Centro- Oeste se mostraram especialmente inclinadas em continuar adquirindo esses bens, que trazem conforto e comodidade para os domicílios. As redes de varejo já haviam percebido esse cenário e voltam-se fortemente para atender o crescimento da demanda nessas regiões.


* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.Publicado no Jornal da Cidade em 12 de setembro.

Preço e produção de petróleo em Sergipe

Nem sempre é de conhecimento do público o impacto que as mudanças dos preços internacionais de petróleo gera sobre os investimentos realizados pelo setor no Brasil e em Sergipe, na medida em determina a viabilidade de exploração de campos novos e maduros. Apenas para ilustrar, as últimas informações veiculadas na imprensa nacional dão conta que a exploração do pré-sal brasileiro já se tornaria viável a partir da cotação de US$ 22 o barril. Ou seja, a partir dessa cotação, relativamente baixa para o histórico dos últimos anos, já se tornaria economicamente vantajosa a exploração desse enorme potencial riqueza brasileira. A cotação do preço do barril é também determinante, ao lado do volume de produção, para os repasses de royalties para prefeituras e governos estaduais.

Em geral, a decisão de exploração dos campos não é guiada por oscilações de preço de curto prazo, e sim pela tendência de médio e longo prazo. Ainda assim, quedas abruptas na cotação internacional, como a verificada na recente crise financeira internacional pode afetar o nível de produção, na medida em que impacta a capitalização das empresas petrolíferas e produz prejuízos na exploração de determinados campos.

A expansão recente

Depois de atravessar período de profunda dificuldades a partir de meados dos anos oitenta, registrando uma trajetória decrescente à medida que os campos de exploração perdiam produtividade e novos poços não eram explorados na mesma velocidade de retração dos antigos, a exploração de petróleo de Sergipe iniciou uma trajetória ascendente a partir de 2003, já no Governo Lula.

A expansão da produção sergipana nesse período pode ser explicada, em parte, em função de mudança de estratégia por parte da Petrobras na direção da retomada de um papel mais atuante no desenvolvimento brasileiro. Mas, sem dúvida, a evolução dos preços internacionais em muito favoreceu a expansão da exploração de campos maduros e a realização de investimentos em novos campos, como o de Piranema.

O preço médio anual do barril de petróleo tipo Brent no mercado spot, em 2000, era de US$ 28,39. Esse preço se manteve relativamente estável na série anual até 2002. De 2003 em diante, o preço do barril apresentou trajetória fortemente ascendente, até atingir US$ 99,04 na média de 2008, apesar da retração no último trimestre quando a crise financeira já estava instalada. Em 2009, registrou-se uma forte inversão na cotação do produto ficando em média em US$ 61,50. No gráfico 1, a figura em linha representa a cotação anua do barril de petróleo tipo Brent no mercado spot, e as colunas, a produção sergipana em mil barris equivalente de petróleo- bep. Chama atenção como elas caminham em trajetórias semelhantes.













Gráfico1. Preço do barril de petróleo tipo Brent no mercdo spot. 2000 a 2008 (Em US$) e Produção de Petróleo de Sergipe (Em mil Barris equivalentes de Petróleo- BEP)
Fonte: ANP. Obs. A cotação do barril em 2009 é uma média simples dos trimestres.


A trajetória de elevação do petróleo no mercado internacional favoreceu muito os investimentos da Petrobras, inclusive por conta da forte capitalização e da valorização dos ativos das empresas, o que permitiu a forte ampliação dos seus investimentos em exploração. Em Sergipe, a elevação dos pecos internacionais tornou viáveis investimentos nos chamados campos maduros, alguns dos quais se encontravam com produção descendente. Mas o investimento que de fato fez diferença na retomada do crescimento da produção petrolífera em Sergipe foi a exploração do campo de Piranema, na plataforma continental, a partir de 2007.

Preços e royalties

O segundo aspecto da questão é o impacto das oscilações dos preços no mercado internacional sobre as receitas de royalties de estados e municípios. A figura 2 sintetiza o preço de referencia mensal para pagamento de royalties do campo de Piranema, no litoral sul do Estado. Em maio de 2008, esse preço de referência havia atingido R$ 1.376 por metro cúbico. Com a crise internacional, o preço de referência caiu para R$ 622/m3 em dezembro de 2008. A partir de março de 2009 teve início uma recuperação parcial do preço de referência de Piranema para pagamentos dos royalties, que em fevereiro de 2010 era de R$ 861/m3, 37,2% abaixo do pico de maio de 2008.

No nosso cotidiano, nem sempre nos damos conta de como os eventos internacionais afetam nossas vidas. A variação do preço internacional de petróleo é um deles, não resta dúvida.













Gráfico 2. Preço de referencia para pagamento de participações governamentais do Campo de Piranema- SE (R$/ m3)
Fonte: ANP.

Ricardo Lacerda
Publicado no Jornal da Cidade, em 16 de maio de 2010.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Situação financeira e expectativas das famílias brasileiras

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) publicou, em 31de agosto, a primeira medição do IEF, o Índice de Expectativa das Famílias, indicador mensal apurado com base em pesquisa domiciliar realizada em todas as unidades da federação. O principal objetivo do IEF é medir a percepção das famílias sobre sua condição financeira em comparação à de um passado recente e as expectativas para um futuro de curto a médio prazo.
(Ver em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/IEF/100831_ief1.pdf).

O IEF é um índice que resume a percepção das famílias brasileiras em relação a um conjunto de questões como (i) a situação econômica nacional; (ii) a condição financeira passada e a expectativa futura;(iii) decisões de consumo;(iv) endividamento e as condições de quitação de dívidas e contas atrasadas; e(v) o mercado de trabalho, especialmente nos quesitos segurança na ocupação e sentimento futuro de melhora profissional. Considerando esse conjunto de variáveis, o Índice de Expectativas das Famílias brasileiras em agosto atingiu 62,75 pontos, o que é um índice considerado como revelador de otimismo em relação à situação sócio econômica do país.

Grupos de famílias

O IEF pode ser apurado segundo região geográfica, escolaridade, faixa salarial, sexo, faixa etária, etnia e segundo aqueles domicílios que participam e aqueles que não participam de programas de transferências de renda do governo federal. Os resultados são interessantes pois põem em xeque algumas verdades consagradas. Há uma certa correlação entre as famílias de maiores faixas de renda e as mais otimistas em relação à situação do Brasil nos próximos 12 meses. Assim, 69,23 % das famílias com renda superior a 10 salários mínimos mostravam-se otimistas, enquanto 59,73 % das famílias com faixa salarial de até 1 salário mínimo encontravam-se na mesma situação. O grupo de faixa de renda menos otimista era o que auferia entre 2 e 4 salários mínimos.

Os melhores resultados para o Índice de Expectativa das Famílias foram obtidos quando os pesquisados eram homens, mais jovens, de faixas de renda mais elevadas e com curso superior incompleto ou curso médio completo, novamente os jovens. As famílias beneficiárias dos programas de transferência mostraram-se também mais otimistas do que aquelas que não recebem benefícios do governo, o que se reflete também no fato de que os grupos de faixa salarial de até 1 salário mínimo serem mais otimistas do que as famílias que auferem entre 1 e 2 salário mínimo.

Regiões

Um dos resultados mais interessantes da pesquisa foi a variação do Índice de Expectativas das Famílias por região. Enquanto 68,14% das famílias do Centro-Oeste estavam otimistas em relação à situação socioeconômica do país nos próximos 12 meses, na região Sudeste esse índice era de 59,09%. O gráfico 1 resume esses resultados, mostrando que as famílias das regiões Centro-Oeste, Nordeste (66,30%) e Norte (66,19%) estavam mais otimistas do que aquelas das regiões mais ricas, como Sudeste (62,12%) e Sul (59,09%).






Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.

O relatório da pesquisa apresenta dois indicadores que tiveram forte influência na variação dos resultados entre as regiões. Refletindo o momento muito favorável da economia brasileira, 73% das famílias brasileiras informaram que a sua situação financeira melhorou em relação a um ano. Em todas as regiões, o percentual de famílias que informou estar em melhor situação financeira em agosto de 2010, em relação ao mesmo período do ano anterior,foi muito elevado, mas as diferenças regionais são expressivas: 81,75% na região Centro-Oeste, 77,75% na região Nordeste e 80,33% no Norte, frente a 69,41% das famílias no Sudeste e 67,39% na região Sul. (Ver gráfico 2).

Em relação ao mercado de trabalho, os entrevistados nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste também se revelaram mais otimistas do os entrevistados nas regiões Sudeste e Sul. Na região Norte, 46,3% das pessoas entrevistadas informaram que esperavam alcançar melhoria profissional no intervalo de seis meses, a contar da pesquisa, frente a 41,1% na região Centro-Oeste, 36,7% no Nordeste. Na região Sudeste 32,1% dos entrevistados esperavam melhoria profissional e na região Sul, 29.8%. Ver gráfico 2.







Fonte: IPEA. Índice de Expectativa das Famílias. Agosto de 2010.

Com o mercado de trabalho aquecido, 76,7% dos responsáveis pelos domicílios informaram que se sentiam seguros em sua ocupação atual. Nesse indicador, os resultados das regiões Nordeste e Sudeste ficaram abaixo da média brasileira.
A situação financeira da família, a segurança no trabalho e as expectativas em relação à situação financeira são fatores importantes nas decisões de consumo e de endividamento das famílias. No próximo artigo, serão apresentados os resultados da pesquisa do IPEA em relação à expectativa de consumo e a situação de endividamento das famílias brasileiras.


Ricardo Lacerda
Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornalda Cidade em 05 de setembro de 2010

O que o Nordeste espera do (a) novo (a) Presidente da República

Publicado no Jornal Cidade em 24 de janeiro de 2010

Ricardo Lacerda

Com a aproximação da eleição presidencial, a revista Nordeste Econômico, com sede em Recife, propôs que economistas da região apontassem as políticas de desenvolvimento econômico e social que os estados nordestinos anseiam do (a) novo(a) presidente da república. Com o espaço limitado proposto, segue a nossa contribuição ao debate.
Entre o início de 2004 e o terceiro trimestre de 2008, ao final do qual a crise financeira internacional a atingiu, a economia brasileira apresentou o mais longo período de crescimento sustentado desde a década de 1980.

Esse ‘ciclo virtuoso’ impactou as mais importantes variáveis de produção, emprego, vendas, rendimento, consumo das famílias e de finanças públicas. Depois de um final de 2008 assustador e de maus resultados no inicio de 2009, a partir do segundo semestre deste ano, mesmo em meio a um mundo ainda convulsionado financeiramente, a economia brasileira passou a registrar expansão vigorosa da atividade econômica e entra no ano de 2010 com perspectivas de retomar taxas de crescimento do PIB acima de 5% aa.

Faço esse registro pois contar com um crescimento robusto e sustentável é condição para enfrentar os problemas nacionais, particularmente, os que afligem o Nordeste. Os dados sobre expansão do emprego e do consumo na região desde 2004 refletem o impacto do crescimento da economia nacional e da melhoria da situação das finanças públicas, que propiciou a oportunidade do governo federal ampliar o arsenal e os montantes envolvidos nas políticas públicas que incidiram de forma muito especial no Nordeste. A inclusão recente de um grande contingente de brasileiros no mercado de consumo de massa tem sido especialmente importante para nossa região. Levantamentos recentes com bases nos dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar do IBGE confirmam as melhorias dos indicadores de renda, acesso a bens de consumo e de serviços públicos, saúde e educação, resultantes desse ciclo mais recente de crescimento e de expansão das políticas sociais.

Crescimento, melhoria das finanças públicas e políticas sociais são essenciais, mas não dão conta das transformações estruturais requeridas para a economia do Nordeste e de Sergipe, em particular. Se é verdade que a ampliação do acesso às políticas públicas é um desdobramento das definições estabelecidas pela constituição de 1988, e deve se manter no futuro, e que a incorporação de novas faixas da população ao mercado consumidor deve continuar, com importante repercussão no tamanho do mercado interno brasileiro, esses vetores são insuficientes para assegurar perspectivas de desenvolvimento para a região Nordeste.

É necessário reconhecer o déficit do Nordeste, comum a todos os estados da região, dos principais fatores de competitividade da economia contemporânea. De fato, dentre todas as regiões brasileiras, o Nordeste é a que mais se ressentiu do encerramento do ciclo políticas de desenvolvimento que marcaram o Brasil nos anos setenta e oitenta. E, de outra parte, a região apresenta grandes dificuldades para se posicionar de forma competitiva frente às oportunidades de um novo ciclo de crescimento na economia global, vencida a instabilidade vigente.
O que Sergipe espera do (a) novo (a) presidente é clareza de propósitos e determinação para fazer suprir as carências sociais e econômicas dos estados nordestinos, enfrentando a questão da pobreza de sua população e dotando a região dos fatores econômicos para elevação desses indicadores aos mesmos padrões das regiões mais ricas.

Isso envolve a ampliação e melhoria das políticas públicas de educação e saúde, investimentos em infraestrutura física (os ativos tangíveis) e em qualificação profissional e ciência e tecnologia (os ativos intangíveis), mas, igualmente, a utilização de poderosas políticas de indução de investimentos para a região, para que aqui sejam erigidas partes significativas das novas estruturas produtivas do país, sejam as relacionadas aos investimentos da cadeia energética, desde as atividades de petróleo e gás às energias renováveis, sejam outras atividades também de maior conteúdo tecnológico.

É necessário um olhar especial para estimular as potencialidades do semi-árido e dos pequenos centros urbanos, menos articulados às economias metropolitanas. Mobilizar os recursos ali existentes com políticas voltadas para o desenvolvimento local, como o fortalecimento dos seus arranjos produtivos, é fundamental para ter uma proposta abrangente em termos territoriais e sociais.

Não que tudo dependa da figura do (a) presidente. Mas o (a) primeiro (a) mandatório (a) do país deve mobilizar recursos e paixões nessa empreitada. Mostrar efetivo compromisso com a redução da pobreza e das desigualdades regionais. Para tanto, é crucial propor uma estratégia de desenvolvimento econômico e social distinta de épocas anteriores; menos preocupada com o fetiche do desenvolvimento, mais voltada para as pessoas, para a qualidade de vida, para o aprofundamento da democracia e para sustentabilidade de recursos naturais.
Professor do departamento de economia da Universidade Federal de Sergipe e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Proximo artigo tratará das Expectativas das Famílias

No próximo domingo, analisaremos o IEF, ìndice de Expectativa das Familias do IPEA. Focalizaremos a expectativa das famílias nordestinas sobre decisões de consumo e de endividamento.

Ricardo Lacerda

domingo, 29 de agosto de 2010

Nível de atividade econômica e consumo de energia em Sergipe

Ricardo Lacerda

Os principais indicadores utilizados para medir a temperatura da economia do país, mês a mês, procuram aferir a situação do mercado de trabalho, das vendas do comércio, da produção industrial, do nível de utilização da capacidade produtiva da indústria, do volume de produção agrícola e do saldo de empréstimos na economia, procurando dimensionar o comportamento dos setores agrícola, industrial, serviços e comércio, além de indicadores de relação com o setor externo da economia.

Consideram-se, também, os indicadores produzidos pelas sondagens das expectativas de consumidores e de empresários que informam o grau de otimismo e a disposição de dispêndio desses segmentos para os próximos meses. Com base nesses indicadores, dentre outros, o Conselho de Política Monetária- Copom, do Banco Central, decide, a cada 45 dias, qual deve ser a taxa de juros básica que ajusta o nível de atividade econômica às metas de inflação para o ano.

Indicadores

Os indicadores do nível de atividade são importantes para a tomada de decisão não apenas por parte das autoridades monetárias. Empresários dos segmentos da indústria, do comércio, de prestação de serviços e produtores agrícolas encontram nesses indicadores, ao lado da percepção sobre o andamento dos seus próprios empreendimentos e do mercado em que atuam, as informações que os subsidiam tanto nas atividades mais rotineiras relativas ao volume de insumos e de mercadorias que devem adquirir, quanto nas decisões mais estratégicas referentes à expansão dos negócios em direção ao aumento de produção, abertura de filiais e diversificação da produção.

É sentindo o pulso da economia que se pode planejar, adotando em algumas ocasiões uma postura defensiva e, em outras, aproveitando as oportunidades de expansão. Para os cidadãos, o acompanhamento desses indicadores também é importante, para que possam se posicionar em relação às medidas de política econômica e para definir suas estratégias de inserção no mercado de trabalho e em suas decisões de compra e de endividamento.

Muitos desses indicadores não estão disponíveis em escalas espaciais menores, como região e estado, ou, alguns deles, estão disponíveis apenas para alguns estados. A Pesquisa Industrial Mensal e a Pesquisa Mensal do Emprego, ambas do IBGE, por exemplo, não são realizadas ou não produzem indicador desagregado para a maioria dos estados da federação, inclusive Sergipe. No início de 2009, para suprir essa demanda de indicadores mais localizados de nível de atividade, equipe técnica do Banco Central desenvolveu, em projeto piloto, o Índice de Atividade Econômica Regional do Rio Grande do Sul, o IBCR-RS, a partir de indicadores que permitem inferir a evolução mensal daquela economia.

Sergipe

Para avaliar o comportamento do nível de atividade da economia sergipana estão disponíveis alguns indicadores que, em conjunto, permitem formar um quadro geral da situação presente e das perspectivas para os próximos meses. Boa parte desses indicadores circula semanalmente no boletim Sergipe Econômico, elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de Sergipe- FIES em parceria com a Universidade Federal de Sergipe. Ver em http://www.sergipeeconomico.com.

Especialmente representativos são os indicadores sobre a evolução do nível de emprego, volume de vendas do comércio, operações de crédito, produção de petróleo e gás, arrecadação do ICMS e do IPI. Para avaliar o grau de confiança do empresariado local sobre a situação presente e nos rumos da economia nos meses seguintes, a Fies elabora, mensalmente, a Sondagem Industrial.

O consumo de energia

O consumo de energia elétrica guarda uma relação técnica com o volume de produção física da indústria. No gráfico a seguir é apresentada a soma do consumo mensal de energia elétrica do setor industrial e do consumo do mercado livre na área da Energisa. A chamada Demanda dos Consumidores Livre refere-se ao consumo de grandes empresas que contratam no mercado livre de energia, de acordo com a melhor oferta de preço disponível. São, em geral, grandes consumidores, tanto no setor industrial quanto no de serviços.
Entre janeiro e julho de 2010, o consumo industrial e a demanda dos consumidores livre da área da Energisa somaram 556,7 GWh, 12% acima dos 496,4 GWh do mesmo período de 2009. Em julho de 2010, o consumo de energia desse agregado alcançou 80,3 GWh, frente a 70,4 GWh de julho de 2009, um incremento de 22,4%, um aumento muito substancial.










Fonte: Energisa

Esse indicador, ao lado de outros, como o nível de emprego da indústria, informa a intensidade da recuperação do nível de atividade da indústria sergipana depois do impacto ocorrido durante o período mais duro da crise financeira internacional, entre o final de 2008 e os primeiros meses de 2009. Desde novembro de 2009, a soma do consumo de energia elétrica do setor industrial e da demanda livre na área da Energisa tem, em todos os meses, superado o resultado de igual mês do ano anterior. Em julho de 2010, especificamente, verificou-se uma forte aceleração do consumo e um maior distanciamento em relação ao resultado de 2009.
A construção de indicadores de nível de atividade concorre para qualificar o debate econômico nos âmbitos nacional e local. Seguindo exemplo do que foi realizado pela equipe do Banco Central no Rio Grande do Sul, a construção de um indicador síntese que represente o nível de atividade da economia sergipana se somaria aos indicadores já disponíveis. Nesse sentido, estão sendo iniciados os estudos para elaborar, ainda em 2010, o Índice do Nível de Atividade Econômica de Sergipe, o INA-SE, em mais uma parceria da FIES com a UFS.

* Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.

Publicado no Jornal da Cidade em 29 de agosto de 2010

A expansão da pecuária de leite em Sergipe

A Pesquisa Pecuária Municipal- PPM do IBGE tem revelado dados surpreendentes sobre a expansão da pecuária de leite em Sergipe. A produção anual de leite de Sergipe passou de 115 milhões de litros, em 2000, para 260 milhões de litros, em 2008, incremento de 126%. Nesse último ano, o Estado já respondia por 8% do leite produzido na região Nordeste, o que é um resultado digno de destaque, tendo em vista a sua reduzida dimensão territorial.

Apenas para comparar, no mesmo período o vizinho estado de Alagoas, que possui uma bacia leiteira mais tradicional, aumentou a produção de leite em apenas 10%. Segundo a PPM, em 2000, a produção de leite de Sergipe equivalia a 52% da produção alagoana e, em 2008, já superava a produção do estado vizinho em 8%. A expansão da bacia leiteira sergipana tem aberto oportunidade para a implantação de novos empreendimentos de beneficiamento e de produção de derivados de leite no interior no Estado e aponta para um novo patamar dessa atividade. O crescimento registrado é extraordinário e revela um novo cenário para a atividade. No presente artigo, examinam-se algumas características da bacia leiteira de Sergipe em termos de sua distribuição geográfica e de sua estrutura de produção.

Geografia do leite

A pecuária é uma atividade de grande importância em Sergipe. O Censo Agropecuário informou que, em 2006, 943 mil hectares foram ocupados com pastagens no Estado, correspondentes 64% do total das terras utilizadas.



















Gráfico 1. Sergipe. Produção Anual de Leite dos Principais Municípios. 2008. (Em mil litros)
Fonte: IBGE-Pesquisa Pecuária Municipal de 2008.

Um fato curioso é que a bacia leiteira vem se concentrando na parte de cima do mapa de Sergipe, notadamente no Alto Sertão e, em degrau um pouco abaixo, no Médio Sertão e no Baixo São Francisco. Os seis principais municípios produtores se localizam no território do Alto Sertão: Nossa Senhora da Glória, Porto da Folha, Poço Redondo, Canindé do São Francisco, Gararu e Monte Alegre. Chama a atenção, também, como a produção leiteira tem se expandido em direção ao Baixo São Francisco, especialmente no município de Japoatã, e ao Médio Sertão, em Aquidabã, Feira Nova, Cumbe e Itabi. No gráfico 1 são apresentadas as produções anuais dos 15 principais municípios produtores de Sergipe, em 2008. Nessa lista, apenas um município, Lagarto, situa-se fora da área delimitada mais ao Norte.

Produtores

Um aspecto importante da produção leiteira de Sergipe é o de que ela se constitui uma importante fonte de renda para a agricultura familiar. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, cerca de 2/3 dos estabelecimentos produtores de leite do Estado possuem até 19 cabeças de gado, sendo que 18% têm até 4 animais e 23%, entre 5 e 9 animais. No outro extremo, os proprietários de mais de 500 cabeças de gado são apenas 57, correspondentes a 0,3% dos mais de 16 mil produtores de leite de Sergipe, e os produtores com mais de 100 animais e menos de 500, representam 4%. Ver gráfico 2. A produtividade dos pequenos produtores não se diferencia muito da média da atividade. Com 32% do total de vacas ordenhadas em Sergipe, os produtores com até 19 cabeças respondiam, em 2006, por 30% do leite produzido. Cerca de 1/3 do leite é produzido em estabelecimentos com menos de 20 hectares e 58%, em estabelecimentos com até 50 hectares.












Gráfico 2. Sergipe. Distribuição da Produção de Leite segundo Faixa de Número de Cabeças de Gado dos Estabelecimentos (%).2006.
Fonte: IBGE-Censo Agropecuário de 2006.

Pode-se afirmar que está se formando uma nova geografia do leite em Sergipe. Novos municípios e novos produtores têm encontrado na atividade uma importante alternativa de obtenção de renda e ocupação. Essa expansão tem sido percebida como uma oportunidade para atrair novas unidades industriais de beneficiamento do produto. Como se sabe, persistem no segmento importantes carências econômicas e tecnológicas, mas os dados parecem apontar que Sergipe está pronto para dar um salto em direção à consolidação de sua cadeia produtiva do Leite.

Ricardo Lacerda
Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.
Publicado no Jornal da Cidade, em 05 de junho de 2010.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Censo, a PNAD e o acesso a bens e serviços

Ricardo Lacerda*

Não é possível superestimar a importância do Censo Populacional para o planejamento das políticas públicas. Através do Censo, como assinala o IBGE, o poder público pode identificar as necessidades de investimentos em saúde, educação, habitação, saneamento básico, transporte, energia, programas de assistência à infância e à velhice. O setor privado também faz uso das informações obtidas para o planejamento de suas decisões de investimento e de entrada em novos mercados.

Nos anos não censitários, o IBGE realiza uma coleta mais restrita de informações econômicas e sociais por meio da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar- PNAD. A última PNAD publicada é a de 2008, em que foram pesquisados cerca de 150 mil domicílios em todas as Unidades da Federação. Os resultados gerados pela PNAD são representativos para os estados e para as capitais, mas, diferentemente dos censos, não podem ser desagregados à esfera dos municípios.

Acesso a bens

Na seção dedicada aos domicílios, o Censo e a PNAD coletam informações sobre o tipo de construção, número de moradores, número de cômodos e sobre a existência de alguns bens duráveis e de serviços públicos, como coleta de lixo, saneamento, entre outras. A seguir, são apresentados alguns resultados sobre o acesso a bens duráveis nos domicílios sergipanos, com base na PNAD de 2008, comparativamente ao ano de 2001 ou 2003.













Fonte: PNAD- IBGE

Em 2008, a PNAD constatou que bens como geladeira, televisão, fogão e rádios encontravam-se fortemente disseminados nos domicílios sergipanos: 88% dos domicílios possuíam geladeira; 96%, televisão; 98,4%, fogão e 86,7%, aparelhos de rádio. Os filtros de água eram encontrados em 44,1% dos domicílios e as maquinas de lavar roupa, em 20,3%. Itens como geladeira, televisão e maquina de lavar roupa registraram aumento importante de presença nos lares dos sergipanos entre 2001 e 2008. Ver gráfico 1. Com a expansão do emprego e do crédito em 2009 e 2010, certamente as futuras pesquisas constatarão participações ainda mais elevadas desses bens nas residências.

Um dado que diz muito da situação diferenciada de Sergipe em relação aos demais estados da região Nordeste é o ranking dos estados nesse indicador. Dos seis itens analisados, Sergipe contava, entre os estados nordestinos, com a maior participação de domicílios onde os bens estão presentes nos casos de geladeira, televisão e fogão; se situava na segunda posição nas participações de máquina de lavar e aparelho de rádio nos domicílios, e quarto lugar, na de filtros de água. Um aspecto interessante é que nenhum outro estado da região se posicionou em primeiro lugar em mais de um item.

Telefones e computadores

A partir de 2003, a PNAD passou a pesquisar a existência de computadores e telefones nas residências dos brasileiros. A disseminação da telefonia, especialmente da telefonia móvel, tem sido exponencial desde então. Em 2003, 45% dos lares sergipanos contavam com linha telefônica, participação que aumentou para 82,9% em 2008.














Fonte: PNAD- IBGE




Seja em 2003, seja em 2008, a participação dos domicílios sergipanos com linha telefônica é substancialmente superior à média da região Nordeste. Ver gráfico 2. Os computadores também estão mais presentes nos lares sergipanos, ainda que a desejada universalização permaneça muito longe de ser alcançada. Em 2008, 22,1%, pouco mais de 1 em cada 5, domicílios sergipanos possuíam computador, frente a 8,6%, aproximadamente 1 em cada 11 domicílios, em 2003.

O acesso domiciliar à internet é mais restrito. Em 2008, apenas 6,3% dos domicílios sergipanos contavam com computadores conectados. Nesses três indicadores, domicílios com telefone, computador e computador com internet, Sergipe se situava, em 2008, em primeiro lugar entre os estados nordestinos.

O Censo Populacional e as PNADs propiciam um conhecimento detalhado da situação social e econômica dos domicílios e das pessoas. Os resultados de 2008, por exemplo, recomendam a adoção de programas robustos de financiamento subsidiado para aquisição de computadores e ações voltadas para o acesso público à internet. Com a coleta de informações de Censo Populacional de 2010, será possível conhecer, município, por município, a situação do acesso a bens e serviços.


* Professor do Departamento de Economia da UFS
Publicado no Jornal da Cidade em 22 de agosto de 2010