Praça São Francisco, São Cristovão- SE

Praça São Francisco, São Cristovão- SE
Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 11 de março de 2013

Oferta e demanda



Ricardo Lacerda

O anúncio do pífio PIB de 2012 pôs lenha no debate sobre os limites do crescimento brasileiro. Os críticos da política econômica insistem que o crescimento movido pela expansão do consumo já teria se esgotado.

O truque, assim se referem os críticos, não funciona mais porque as famílias estão endividadas e o mercado de trabalho já se encontra próximo ao pleno emprego. Em tais situações, acréscimos de consumo se traduziriam mais em aumento de preço do que em incremento da produção para atender a essa demanda acrescida. A hora é da oferta. A demanda já teria encontrado o seu teto.

Sofisma

Esse tipo de abordagem recorre, sob certo sentido, a um sofisma muito utilizado nos embates públicos. Elencam-se fatos amplamente conhecidos, como a ampliação do mercado de consumo, a baixa taxa de desocupação em vigor e a queda do investimento em 2012 e, sobretudo, apela-se a sensos comuns, como o de que é necessário ampliar os investimentos públicos e privados, para concluir, apressadamente, que o reduzido crescimento do PIB nos últimos dois anos se deve ao esgotamento do crescimento puxado pelo ciclo de consumo.

Não há como discordar que um dos principais pontos da agenda de desenvolvimento brasileiro é a necessidade de ampliação do seu potencial de crescimento, seja por meio da aceleração dos investimentos públicos e privados em infraestrutura, seja pelo aumento da capacidade produtiva das empresas, fatores atinentes às condições de oferta. Na verdade, o governo está atento a essas questões e toda uma agenda de desenvolvimento produtivo e de infraestrutura está sendo implementada. Mas essa é somente uma parte do enredo sobre a evolução recente do PIB.

O equívoco não está em destacar que o crescimento liderado pelo consumo deve ser complementado pela expansão dos investimentos, que não apenas reforça a elevação da demanda como alarga a capacidade produtiva da economia. O problema é deixar em segundo plano ou simplesmente desconsiderar que outros fatores, não necessariamente associados a restrições físicas ao crescimento, concorreram, se não determinaram, para o resultado do PIB de 2012.

Oferta

Do lado da oferta, convém examinar as taxas de crescimento dos setores em 2012, cuja média ponderada é o aumento de 0,9% do PIB. O setor agropecuário, que representa cerca de 6% do PIB, decaiu 2,3% no ano, a maior retração entre todos os setores. O setor industrial, com cerca de 24% do PIB, apresentou queda de 0,8% (sendo que a indústria de transformação recuou 2,5% e a construção civil cresceu 1%). Apenas o setor de serviços, responsável por quase 70% do PIB, registrou expansão, com taxa de crescimento de 1,7%.
O desempenho negativo do setor agropecuário, como é de conhecimento geral, esteve associado a problemas climáticos ou de comportamento dos preços no mercado externo, e dificilmente pode ser atribuído à escassez de mão-de-obra e a limitações físicas do potencial de crescimento. 

O resultado ruim da indústria de transformação deriva sim de deficiências na produtividade, mas também está associado a questões do lado da demanda como o acúmulo de estoques e aos efeitos da sobreprodução mundial no setor em um quadro de câmbio ainda valorizado sobre a produção doméstica. Ao apresentarem queda na produção, indústria e agricultura contaminaram o desempenho de outras atividades.

A Tabela 1 ilustra, do ponto de vista da produção, quais foram as atividades que puxaram o crescimento do PIB para baixo ao destacar com célula sombreada quais delas cresceram abaixo da média e perderam participação.

Tabela 1. Participação dos setores de atividade no Valor Adicionado de 2011 e 2012.
(Em %). Em valores constantes de 1995.
Setores
2011
2012
Variação de Participação (%)
Agropecuária
6,5
6,3
-0,20
Indústria
24,5
24,1
-0,38
-         Ext. Mineral
1,0
1,0
-0,02
-         Indústria de Transformação
15,1
14,6
-0,49
-         Construção
5,3
5,3
0,03
-         Eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana
2,7
2,8
0,08
Serviços
69,2
69,8
0,62
-         Comércio
12,0
12,0
0,03
-         Transporte, Armazenagem e Correio
4,4
4,4
-0,01
-         Serviços de Informação
1,2
1,2
0,03
-         Intermediação Financeira e Seguros
11,1
11,1
-0,03
-         Outros Serviços
16,1
16,2
0,16
-         Serviços Imobiliários e Aluguel
9,2
9,3
0,05
-         Consumo da Administração e Educação e Saúde Públicas
14,7
15,0
0,30
Valor Adicionado
100
100
Fonte: IBGE. Contas Nacionais Trimestrais.

Demanda

A Tabela 2 apresenta o outro lado da moeda, com os dados sob a ótica da demanda. O comportamento das variáveis é muito esclarecedor do resultado ruim do PIB de 2012. Cresceram acima da média do PIB o consumo das famílias e as despesas correntes da administração pública e da educação e saúde públicas. Dois itens de despesas, fortemente associados entre si, puxaram fortemente para baixo e com efeitos da mesma ordem de grandeza o crescimento do PIB de 2012: os investimentos em capital fixo (FBCF) e os estoques bens e materiais retidos nas empresas (ver Tabela 2).

Os comportamentos dessas variáveis, associados a efeitos do lado da demanda e não da oferta, explicam na essência o desempenho do setor industrial em 2011. A variação fortemente negativa dos estoques significa que parte da expansão do consumo em 2012 não teve como contrapartida o aumento da produção e sim a redução nos estoques acumulados em anos anteriores. Por outro lado, não há como se esperar recuperação mais expressiva dos gastos com investimentos enquanto as empresas estão desovando bens elaborados em anos anteriores.

Tabela 2. Composição do PIB, em valores correntes, sob a ótica das despesas em 2011 e 2012.
(Em %)
Ano
2011
2012
Variação de Participação
(%)
-         Consumo das Famílias
60,3
62,3
2,0
-         Consumo da Administração Pública e Educação e Saúde Públicas
20,7
21,5
0,8
-         Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF)
19,3
18,1
-1,1*
-         Variação de Estoques
0,4
-0,5
-1,0*
-         Comercio Exterior de Bens e Serviços
-0,7
-0,8
-0,1
-         Produto Interno Bruto (PIB)
100
100

Fonte: IBGE. Contas Nacionais Trimestrais. * Valores arredondados.

Do ponto de vista mais imediato, das causas de curto prazo, o baixo crescimento de 2012 se deve principalmente a, de um lado, problemas climáticos que afetaram o resultado do setor agrícola, e de outro lado, à queda acentuada dos gastos com investimentos em máquinas e equipamentos e à variação negativa de estoques, que comprometeram o desempenho do setor industrial.

Ainda que os gargalos de infraestrutura e a pressão do mercado de trabalho sejam evidentes, não se pode atribuir exatamente a eles o baixo crescimento do PIB de 2012, mas corretamente associado a questões de choque de oferta agrícola e a ajustes no estoques retidos pelas empresas. Como tais problemas não devem se repetir em 2013 são esperadas taxas de crescimento do PIB bem mais expressivas.

Publicado no Jornal da Cidade em 10/03/2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

Produtividade e crescimento do Nordeste



Ricardo Lacerda*

O crescimento econômico do Nordeste nos últimos dez anos abriu uma janela de oportunidade para que a região estreite de forma significativa a larga desvantagem que acumulou historicamente em relação às regiões mais ricas. Ao apresentar no período mais recente taxas de crescimento da produção e do consumo acima da média brasileira, o Nordeste vem atraindo importantes investimentos que irão reforçar o ciclo virtuoso de transformações econômicas e sociais.

Há poucas dúvidas de que nos últimos dez anos foi reduzido o hiato de desenvolvimento do Nordeste e as regiões mais prósperas, ou seja, de que avançou-se em um processo de convergência. A redução das disparidades se manifesta nos indicadores de renda, de emprego, de produção, de saúde e de escolaridade.

Ainda que as disparidades sejam muito acentuadas, o Nordeste responde hoje por uma parcela maior da renda, do emprego formal e dos alunos cursando o terceiro grau comparativamente a uma década atrás, enquanto os níveis de renda média, PIB per capita, produtividade industrial(ver Gráfico) e da escolaridade da região estão menos distantes da média brasileira. Crescimento econômico e políticas sociais foram e vão continuar sendo os vetores-chave dessa nova fase de desenvolvimento da região.


Fonte: IBGE. Renda per capita familiar, PNAD; PIB per capita, Contas regionais; Produtividade Industrial, PIA. Obs. O indicador comparativo de produtividade industrial compara o VTI médio por trabalhador da indústria geral.

Herança

Para além da herança colonial e das diferenças de crescimento da produtividade nas economias agrícolas regionais de base exportadora do século XIX, o esforço realizado pelo país para se desenvolver por meio da industrialização ao longo da segunda metade do século XX, com investimentos concentrados no eixo RJ-SP, reforçou e consolidou a disparidade entre as regiões em todas as dimensões do desenvolvimento, incluindo infraestrutura, recursos humanos e, principalmente, a base produtiva instalada na agricultura, na indústria e no setor de serviços.

Os investimentos na modernização da região entre os anos sessenta e oitenta foram importantes para interromper a ampliação do hiato de desenvolvimento regional. Todavia, se a modernização do Nordeste nesse período apresentou resultados significativos em termos de transformação da base produtiva e na edificação de infraestrutura, ela manteve uma marca de exclusão social e de baixa endogeneização, limitando o seu alcance social e econômico e a sua sustentabilidade no tempo.

O baixo crescimento brasileiro na década de noventa e o abandono das políticas de desenvolvimento deixaram ao relento as preocupações com as disparidades regionais e o Nordeste restou esquecido.

Convergência e oportunidade

A aceleração do ritmo de crescimento econômico a partir de 2004 assegurou os meios materiais para que o país começasse a por em prática de forma mais incisiva as promessas da constituição cidadã de 1988. Foi necessário superar, todavia, alguns preconceitos antigos (reforçados ao longo dos anos noventa) que restringiam a adoção de políticas sociais mais incisivas, como também foi fundamental a retomada de políticas explícitas de ativação do desenvolvimento.

As políticas sociais entraram na agenda do país e passaram a ser um dos vetores estruturantes que deverão balizar o desenvolvimento pelas próximas décadas. Deixou-se para trás uma visão de desenvolvimento que se assentava na crença de que a modernização da base produtiva asseguraria per si a elevação das condições de vida da população e promoveria a redução da pobreza. 

Desafios

Apesar de a redução das disparidades nos últimos dez anos ter sido significativa e de ter havido importante mudanças estruturais no Nordeste, o processo de convergência em andamento é relativamente lento e ainda não se avista o momento em que a região apresente indicadores econômicos e sociais próximos aos das regiões mais prósperas.

Além disso, como resultado da política social inclusiva, a convergência de desenvolvimento entre as regiões tem sido mais rápida no que tange a renda, consumo e emprego do que de produção, de produtividade e possivelmente de infraestrutura tangível e intangível para o desenvolvimento sustentado.

O crescimento econômico recente, acompanhado pela incorporação de novos contingentes populacionais ao mercado de consumo, ampliou e adensou a base econômica da região, dotando-a de um tamanho de mercado atraente. É necessário, todavia, continuar avançando em direção à sustentabilidade do seu desenvolvimento por meio da elevação de a sua competitividade.

Para tanto, é preciso viabilizar um patamar elevado de investimentos em infraestrutura e na formação de recursos humanos, além de uma política de forte indução para a região de investimentos produtivos nos setores estratégicos da política industrial, compatibilizando assim os impulsos emanados da política social com os da ampliação da base produtiva da região.

Publicado no Jornal da Cidade em 03/03/2012

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Consumo e crescimento



Ricardo Lacerda

Alguns períodos de crescimento são liderados pela expansão do comércio exterior, outros pelos investimentos autônomos e, mais comumente, pela expansão de consumo.  Depois do impulso inicial, pode-se formar um ciclo virtuoso em que o crescimento se desdobra na elevação das outras variáveis que compõem a demanda agregada.

O ciclo de crescimento iniciado em 2004 contou com o impulso decorrente do forte incremento da demanda por matérias-primas no mercado internacional associado à expansão da economia chinesa, mas somente firmou-se com a ampliação do poder de compra interno promovida pela incorporação de novos contingentes populacionais ao mercado de consumo.

Varejo

Os dados do comércio varejista anunciados pelo IBGE na semana passada confirmam a ampliação do mercado de consumo no país. Com os 8,4% de crescimento do volume de vendas do comércio varejista em 2012, o tamanho do mercado de varejo brasileiro fechou o ano 90,4% maior do que se encontrava ao final de 2002, antes do inicio do ciclo de crescimento.  

Assim, contamos hoje com um mercado de varejo que é quase o dobro de dez anos atrás. Reformulando, somente para enfatizar: são quase dois Brasis em consumo no varejo em uma década.

Em todos os anos a partir de 2004, o volume de vendas no varejo cresceu acima de 4% (ver Gráfico) e a expansão média anual desde então foi de simplesmente de 7,9%.  Esse crescimento foi maior nos estados mais pobres, nos quais a incorporação de mais pessoas ao mercado de consumo foi mais intensa. A média anual de crescimento em Sergipe alcançou 9,2% ao ano.




Fonte:IBGE-PMC


Se o crescimento do consumo trouxe alguns gargalos não desprezíveis, foram muitas as oportunidades abertas por ele. Alicerçada na expansão do emprego, no aumento da renda e na ampliação do crédito, a evolução do varejo reflete também a melhoria do acesso aos bens nos domicílios e ainda indica como esse novo Brasil agregou milhões de famílias ao mercado de consumo.

Efeitos e limites

A expansão do mercado de consumo gerou oportunidades de investimentos e fez multiplicar os pequenos empreendimentos voltados para atender a esse poder de compra aumentado. Muitos investimentos foram direcionados para as regiões mais pobres do país a fim de atender essa demanda crescente por bens de consumo e as oportunidades surgidas de adensar a cadeia de fornecimento.

Ainda que tenham surgidas alertas aos limites de manter um crescimento puxado pelo consumo, essa questão não tem uma resposta tão simples assim. A expansão do consumo em determinadas etapas em que a crise internacional se agudizou foi benéfica para o país. Nos momentos mais críticos, o incremento do consumo animou as receitas públicas, o emprego, a produção interna e ajudou a retomada do investimento.

Há evidentemente limites em quanto o consumo pode seguir crescendo a taxas mais elevadas do que a média da economia. A um período liderado pelo crescimento de uma variável como o consumo, deve seguir outros períodos em que os investimentos públicos e privados, estimulados pelo próprio aumento do consumo, passem a crescer em ritmo mais acelerado. De outra forma, o crescimento não se sustenta.

Há sim distorções decorrentes da expansão do consumo. As mais graves decorrem da valorização cambial, que amplia o acesso a bens de consumo importados em detrimento da produção que gera emprego internamente e aumenta artificialmente o poder de compra da população. A ampliação do consumo quando não se segue à retomada do investimento ou quando a economia se aproxima do teto de sua capacidade também pode pressionar os preços de tal forma que induza a adoção de políticas monetárias e fiscais restritivas que findam prejudicando a expansão dos investimentos.

Os recursos reais e creditícios que financiam a expansão do consumo podem concorrer ou não com as demandas de crescimento dos investimentos públicos e privados se a fase do ciclo econômico já aproxima o uso dos recursos produtivos de sua plena utilização ou se limita a capacidade dos governos de investir em infraestrutura para o desenvolvimento.

Os sinais que indicam o limite dessa política se cristalizam em desequilíbrios no balanço de pagamento ou quando o excesso de demanda pressiona os preços. É monitorando essas varáveis que a política macroeconômica deve compatibilizar o duplo objetivo de manter a economia em crescimento, para proporcionar a continuidade da elevação da qualidade de vida das pessoas, sem descuidar dos desequilíbrios que se manifestam nos preços e nas relações externas.

Publicado no Jornal da Cidade em 24/02/2013

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O comercio exterior brasileiro em 2012




Ricardo Lacerda

A expansão das nossas exportações a partir de 2003 foi um dos principais vetores do recente crescimento econômico brasileiro. Entre 2003 e 2007, o valor das exportações brasileiras cresceu notáveis 166%, equivalentes a taxas anuais de 21,6%. Nesse período, dois fatores favoreceram a rápida evolução das vendas externas do Brasil: a elevação das cotações internacionais das principais commodities agrícolas e minerais brasileiras e o novo patamar estabelecido para o câmbio, após o fim do regime de câmbio fixo no início de 1999 e a forte desvalorização ocorrida entre 2002 e 2003.

Com o advento da crise financeira em 2008, o ritmo de expansão de nossas exportações desacelerou, apresentando taxas anuais de crescimento bem inferiores, mas ainda elevadas, 12,4% entre 2008 e 2011.

À medida que a economia brasileira foi se consolidando entre 2003 e 2006, com a ampliação do mercado interno, as importações de bens de consumo para as famílias e de insumos e de componentes para as empresas também aceleraram, de tal forma que, entre 2006 e 2008, o ritmo de crescimento das importações se apresentou mais rápido do que o da expansão das exportações.  A revalorização do câmbio nesse período também foi importante, na medida em que elevou a competitividade do produto importado no mercado interno.

Já sob a influência da crise financeira, de 2008 em diante, as importações também desaceleraram, mas se mantiveram com expansão superior a das exportações. O movimento, portanto, foi de saltos anuais no saldo da balança comercial entre 2003 e 2006, e de encolhimento desde lá, em um primeiro momento em função do forte aquecimento do mercado interno e, a partir de 2009, por conta do diferencial entre o ritmo de desaceleração do crescimento das exportações e o das importações, em favor dessas últimas que caíram mais lentamente.

2012

Em 2012, o comércio exterior não ajudou o crescimento da economia brasileira. Pelo contrário. Exportações e importações se retraíram. Todavia, enquanto as primeiras caíram 5,3%, as últimas apresentaram perdas menores, de 1,4%, mesmo considerando a contabilização retardada das compras externas de combustíveis.

Com isso, o saldo comercial de 2012 apresentou um recuo de impressionantes US$ 10,4 bilhões em relação ao ano anterior, caindo de US$ 29,8 bilhões para US$ 19,4 bilhões. Definitivamente, não foi um bom desempenho (ver Gráfico). 

A retração das exportações de 2012 em US 13,5 bilhões, em relação ao ano anterior, se deveu essencialmente à redução das compras de alguns dos nossos principais parceiros comerciais. As exportações para a Argentina caíram quase 9%, para a Alemanha, 46%, para a Espanha, 25% e para a China 9%.  Em termos de grupos de produtos, as principais quedas em 2012 atingiram as exportações de minérios, café, açúcar, metais e veículos.

Fatores

Para as sucessivas retrações no saldo comercial desde o pico de 2006, quando atingiu US$ 46,5 bilhões, para os atuais US$ 19,4 bilhões, muitos fatores concorreram. Considerando o conjunto do período, os principais estão relacionados ao forte incremento da demanda por importações, mesmo quando a economia interna desacelerou após 2008, e a redução mais intensa do ritmo de crescimento das exportações. Os dois processos indicam a perda relativa de competitividade de nossos produtos, seja no mercado doméstico, seja no mercado externo.  

Parte desse fenômeno se deve à valorização cambial em um cenário de comércio mundial desaquecido, parte se deve aos efeitos do forte incremento da renda interna sobre a nossa estrutura de custos. Para ambos os casos, somente uma mudança de preços relativos induzida pela desvalorização cambial pode se contrapor.

 

Fonte: MDIC-SECEX

Publicado no Jornal   da Cidade , em 17/02/2013 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A política econômica em compasso de espera




Ricardo Lacerda

O anúncio na semana passada do índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro acendeu o sinal de alerta. O IPCA alcançou 0,86%, acumulando alta de 6,2% em doze meses, o quinto mês consecutivo de elevação dessa série acumulada.

Há alguns motivos para preocupação, como reconheceu o presidente do Banco Central.  Alguns dos componentes do IPCA têm pressionado fortemente o índice para cima, antes mesmo de o nível de atividade econômica apresentar uma retomada mais consistente. O grupo de alimentos e bebidas, que responde por 22,1% do índice, registrou o crescimento assombroso de 11,1%, o mesmo do grupo de despesas pessoais, que representa 6,5% do total (ver Gráfico).

Estiagem e pressão de demanda

A forte elevação no preço da alimentação em doze meses foi em grande parte provocada pelos efeitos da estiagem que atingiu várias regiões e fez com que o preço da farinha da mandioca tivesse aumentado 111,9%, a batata inglesa, 67,4% e o feijão mulatinho 43,7%.  O subgrupo de hortaliças teve aumento de 24% no período. A desvalorização cambial também impactou o preço dos alimentos. 

É de se esperar que a pressão de preços do grupo de alimentos vá ser diluída nos próximos meses, porquanto os aspectos climáticos deverão ser mais favoráveis em 2013.

De natureza diferente é o aumento dos preços no grupo de despesas pessoais, que vem se mantendo em patamar elevado durante um período muito longo. A elevação dos preços neste grupo que abrange os serviços pessoais está fortemente relacionada ao aumento real do salário mínimo e à expansão de demanda associada ao crescimento do poder de compra da população. Em geral, a um aumento de demanda pelos serviços desse grupo a oferta demora a responder, podendo pressionar os preços por longos períodos. O ajuste vem a longo prazo, na medida que parte do hiato é coberto pelo aumento da oferta e parte é suprimido pela corrosão do poder de compra.   

Raio de manobra.

Para alguns analistas, a elevação nos preços dos serviços, como no caso das despesas pessoais, é um sintoma do esgotamento do ciclo de crescimento dos últimos anos, puxado pela expansão do consumo. Também refletiria o baixo potencial de crescimento da economia brasileira nesse momento, em que qualquer novo estímulo a demanda impacta mais fortemente os preços do que impulsiona o crescimento da produção.

Se essa conclusão pode parecer um pouco apressada, refletindo talvez o desejo de certos segmentos que não vêm se sentindo suficientemente contemplados pela política econômica, há pouca dúvida de que a reaceleração dos preços reduz a margem para a adoção de medidas adicionais de estímulos à demanda e talvez venha a obrigar as autoridades econômicas a buscar uma melhor calibragem entre os vários instrumentos.

O fato é que o tempo de respostas de cada uma das várias medidas adotadas desde 2011 para estimular o crescimento econômico pode diferir muito, com impactos diferenciados sobre os índices de preço. A pressão de demanda sobre os serviços pessoais, em um sentido amplo, continua a puxar os preços para cima enquanto a desvalorização do câmbio impacta de imediato os preços dos importados e somente no médio prazo traz benefícios em termos de crescimento do nível de produção.  Há ainda uma interrogação quanto ao repasse para os preços das desonerações na folha de pagamento e da redução nas tarifas de energia elétrica.

Fica a expectativa em aberto se a média de doze meses do IPCA vai se manter suficientemente comportada até que o nível de produção comece a se recuperar de forma mais sustentada ou se o governo vai adotar medidas adicionais de desoneração da produção, agora não mais para estimular a produção e sim diretamente para reduzir os preços dos bens e serviços.  


Fonte: IBGE


Publicado no Jornal da Cidade em 10/02/2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O crescimento do emprego



Ricardo Lacerda

O IBGE informou na semana passada que a taxa de desocupação nas regiões metropolitanas de dezembro de 2012 foi de 4,6%, a mais baixa desde o início da atual série histórica em março de 2002. A taxa de desocupação média ao longo do ano de 2012 ficou em 5,5%, também a menor registrada. Cabe lembrar que em 2003, antes do início do ciclo expansivo que mudou as condições do mercado de trabalho no país, a média anual da taxa de desocupação atingiu 12,4%, mais do que o dobro da taxa de 2012.

O que mais tem intrigado os analistas são os resultados do mercado de trabalho nos dois últimos anos, quando a economia desacelerou. Em 2011, enquanto o PIB cresceu 2,7% o emprego formal aumentou 5,7%, segundo dados do Caged. Em 2012, o PIB deverá crescer em torno de 1%, mas o emprego formal subiu 3,4%.

Em um lapso de tempo um pouco mais longo, entre 2007 e 2012, enquanto o PIB cresceu estimados 3,6% ao ano, o emprego formal aumentou 5,6%, crescimento quase chinês.

Descolamento

Os analistas têm buscado explicação para esse descolamento entre o mercado de trabalho e o ritmo de atividade da economia. Uma das explicações mais disseminadas é a de que as atividades mais intensivas em trabalho, como aquelas que integram o setor de serviços, têm crescido mais rapidamente do que as atividades com maior relação capital/trabalho, como as vinculadas à indústria de transformação.

O gráfico 1, a seguir, apresenta a taxa de crescimento médio anual do emprego formal entre 2007 e 2012, nos principais setores de atividade. É interessante perceber que mesmo os setores com ritmo mais lento de crescimento de emprego formal (com exceção da agricultura em que o grau de informalidade ainda é muito elevado), a taxa média anual foi superior a 3%.  

Entre os setores de peso mais expressivo no mercado de trabalho, a indústria de transformação foi o que registrou a menor taxa anual de crescimento do emprego no período, 3,6%. Os grandes destaques foram a construção civil, com a notável taxa média anual de 11,1% , e o comércio (6,6%) e  os serviços (6,1%).


Fonte: MTE- CAGED

Limites

Por um lado, essa dinâmica tem um papel favorável no que tange à geração de emprego, por outro, ela findaria por limitar o crescimento da economia nacional, porque as atividades que mais têm evoluído são também aquelas de menor produtividade por trabalhador e, portanto, com menor potencial de incremento do PIB.  A partir dessa constatação, são lançadas críticas ao modelo de crescimento dos últimos anos que teria privilegiado o consumo em detrimento da produção.

Se essa argumentação, de fato, faz sentido talvez alguns analistas devessem apoiar, e não criticar, as últimas medidas adotadas para elevar a competitividade da produção industrial frente aos importados, incluindo a redução nas taxas de juros e nas tarifas de energia, a desoneração da folha de pagamentos e a desvalorização do câmbio. A elevação do câmbio, de R$ 1,70 para R$ 2,00, implica em estimular a produção frente ao consumo, e a indústria de transformação frente às atividades comerciais e de serviço. E a redução no patamar das taxas de juros empurra o crescimento da produção frente à expansão das atividades financeira e ao consumo das famílias.

Se os sinais de mercado fazem sentido, e fazem, é de se esperar que nos próximos trimestres a atividade industrial recupere em parte o espaço cedido para as atividades de serviço e a produção cresça mais do que o consumo. Esse ajuste, todavia, não implica em desaceleração no ritmo de crescimento do emprego, dado que a aceleração do PIB e seus efeitos interindustriais devem mais do que compensar as mudanças nas proporções setoriais.


Fonte: MTE- CAGED

Um desdobramento do movimento de descolamento da taxa de crescimento do emprego em relação ao PIB é que as regiões mais pobres têm apresentado ritmo bem mais intenso de criação de emprego formal. O gráfico 2 mostra que, entre 2007 e 2012, o emprego formal no Nordeste cresceu 46%, média anual de 6,5%,  enquanto o crescimento do Brasil foi de 39%, média de 5,6%. Sergipe apresentou o segundo maior crescimento do Nordeste, 53%, ou 7,3% ao ano, bem acima dos resultados médios da região e do país.

Publicado no Jornal da Cidade, em 03/02/2013