Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A economia agrícola sergipana na década de noventa

Ricardo Lacerda


Desde os anos oitenta, a economia agrícola de Sergipe já havia assumido as características básicas que apresenta atualmente, com a liderança da laranja no sul e em parcela do centro-sul do estado, cana-de-açúcar e coco na zona litorânea ao sul e ao norte de Aracaju, e a rizicultura no Baixo São Francisco. Nas áreas menos úmidas, predominam a mandioca, no agreste, e milho e feijão no sertão. A pecuária se estendia por quase todo o território, com presença mais acentuada no sertão e no agreste, tendo a microrregião de Nossa Senhora da Glória polarizando a produção pecuária leiteira.

Na verdade, com exceção da laranja, que iniciou sua expansão nos anos sessenta, a configuração das culturas no território é muito mais antiga. E é exatamente a laranja que diferencia Sergipe da maioria dos estados da região Nordeste, em que as culturas temporárias ocupam áreas muito mais vastas do que as permanentes. Ainda assim, algumas modificações dignas de nota ocorreram nos anos noventa. 

É importante registrar que o território da citricultura, cujo epicentro é ainda hoje Boquim, já havia se estendido para um grande número de municípios de Sergipe e transbordado para a região do nordeste baiano.

Em termos da distribuição do uso do solo, o censo agropecuário de 1995-96 apresenta os seguintes dados para Sergipe: cerca de 2/3 (68%) das terras agricultáveis eram ocupadas com pastagens, enquanto as lavouras respondiam por 19%, as matas por 9%, e as terras produtivas não utilizadas representavam 3% (ver Tabela 1).

Tabela 1. Sergipe. Utilização das terras. 1995-1996
Utilização das terras
1995-1996
Há
%
Área total (ha)
1.702.628
100
Lavoura permanente
112.727
7
Lavoura temporária
166.130
10
Lavoura em descanso
26.669
2
Pastagem natural
624.514
37
Pastagens plantadas
529.350
31
Matas naturais
155.543
9
Matas plantadas
2.915
0
Produtivas não utilizadas
49.004
3
Fonte IBGE – Censo Agropecuário de 1995/1996.                          


Principais culturas                                          

A distribuição das áreas de lavoura entre as diversas culturas nos anos noventa está apresentada na Tabela 2. Segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, em 1990 quatro culturas temporárias, milho, feijão, mandioca e cana-de-açúcar, e duas culturas permanentes, laranja e coco, ocupavam 88% das áreas plantadas em Sergipe. Em 2000, essas mesmas culturas respondiam por 90% da área plantada..  

Entre as culturas temporárias, a principal mudança na composição ao longo dos anos noventa se deveu ao recuo da cana-de-açúcar, prejudicada pela crise de desabastecimento do etanol nos primeiros anos da década, que levou à perda da confiança da população em relação aos veículos movidos a álcool. Somente com o desenvolvimento dos motores bicombustíveis, na década seguinte, a produção de etanol voltou a se recuperar.

Entre os anos extremos do período 1990 e 2000, a área de plantio da cultura em Sergipe recuou de 38 mil hectares para 22 mil hectares. As colunas mais à direita mostram a mudança na composição das áreas pelas culturas calculando as médias anuais de 1990-1995 e de 1996-2000, para amortecer os efeitos de um ano ruim atípico. 

Nessa comparação, os plantios do milho e mandioca foram ampliados, enquanto os da cana-de-açúcar e de feijão recuaram. A redução da área de plantio do algodão confirmou a sua trajetória de desaparecimento.

Em relação ao cultivo do arroz, marca da região do Baixo São Francisco, a trajetória é de forte retração na área plantada nos anos de 1995 e 1996, seguida de intensa expansão a partir de 1997, fazendo com que em 2000 a produção estadual se posicionasse bem acima dos resultados do início da década (ver Tabela 2).

Permanentes

Entre as principais culturas permanentes, a laranja continuou se expandindo nos anos noventa, espalhando-se no entorno do município de Boquim, cuja área plantada, quase que monopolizando as terras do município, pouco cresceu entre 1990 e 2000. A cultura ocupou rapidamente novas terras mais ao sul, em Itabaianinha, Cristinápolis, Tomar do Geru, Indiaroba e Santa Luzia do Itanhy, além de conquistar áreas a leste, em Estância e Umbaúba, e a noroeste, em Lagarto e Riachão do Dantas .

Entre 1990 e 2000, a área plantada de laranja se ampliou de 34 mil hectares para 52 mil hectares, agregando novos 18 mil hectares, incremento de 51%. A expansão da cultura no nordeste baiano foi ainda mais intensa, agregando 22 mil novos hectares, expansão notável de 139%.

Diferente foi o desempenho da cultura do coco, cuja área de cultivo estagnou no período, somente voltando a se ampliar em meados da década seguinte.  Um aspecto significativo é que a cultura do coco recuaria nas áreas litorâneas mais adensadas por residências ou de maior presença de empreendimentos econômicos nos municípios de Itaporanga, Barra dos Coqueiros e Santo Amaro, enquanto apresentaria uma expansão moderada nos municípios de Estância e Santa Luzia do Itanhy, além de intenso crescimento em Japoatã e Neópolis, no Baixo São Francisco, certamente por conta dos projetos públicos de irrigação ou de assentamentos. No próximo artigo, será examinada a evolução da pecuária no período.


Tabela 2. Sergipe. Áreas plantadas* das principais culturas. 1990-2000.
Itens
1990
2000
Media anual (1990-1995)
Media anual (1996-2000)
Hectares
%
Hectares
%
Hectares
%
Hectares
%
Total temporárias
186.143
100
213.578
100
215.982
100
224.595
100
Milho
49.779
27
86.300
40
64.750
30
86.265
38
Feijão
42.038
23
54.771
26
59.302
27
60.020
27
Mandioca
34.177
18
30.265
14
37.198
17
34.946
16
Cana-de-açúcar
38.104
20
21.208
10
30.613
14
22.619
10
Arroz
6.395
3
10.030
5
6.646
3
7.528
3
Fumo
1.542
1
3.411
2
2.642
1
3.740
2
Batata-doce
1.967
1
2.884
1
2.315
1
3.150
1
Fava
6.831
4
1.669
1
5.984
3
2.409
1
Amendoim
1.117
1
1.143
1
1.250
1
1.200
1
Melancia
130
0
776
0
170
0
582
0
Abacaxi
352
0
525
0
409
0
505
0
Algodão herbáceo
3.324
2
300
0
4.262
2
1.227
1
Total permanentes
91.471
100
109.058
100
96.725
100
105.010
100
Laranja
34.374
38
51.878
48
37.504
39
48.624
46
Coco-da-baía
46.939
51
45.720
42
49.266
51
45.302
43
Maracujá
5.684
6
4.402
4
4.983
5
4.538
4
Banana
2.888
3
3.809
3
3.212
3
3.695
4
Manga
744
1
1.193
1
832
1
1.469
1
Limão
475
1
1.077
1
574
1
737
1
Tangerina
98
0
417
0
100
0
196
0
Mamão
145
0
357
0
168
0
296
0
Goiaba
1
0
201
0
1
0
145
0
Fonte: IBGE. Pesquisa Agrícola Municipal. * Nas culturas permanentes, utiliza-se o conceito de áreas  destinadas a colheitas.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma Janela de Oportunidade para o Nordeste


Ricardo Lacerda

Em seminário comemorativo pelos cinquenta anos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em 2002, no painel dedicado ao tema distribuição de renda- redução das disparidades regionais, palestrantes e debatedores não se mostraram muito otimistas em relação às perspectivas de desenvolvimento do Nordeste. 

Os painelistas argumentavam que as transformações em curso naquele momento eram todas desfavoráveis às possibilidades de desenvolvimento das regiões mais pobres: a abertura comercial e a consolidação do Mercosul; a mudança na concepção do estado e o papel do processo de privatização de empresas; e as mudanças na tecnologia, com a liderança das tecnologias de informação e da comunicação e seus impactos em termos de reestruturação das cadeias produtivas globais.

Concluíam os especialistas pela tendência da reaglomeração da atividade industrial nas regiões que possuíam melhor base econômica, especialmente de estrutura industrial e de oferta de serviços e infraestrutura de conhecimento, as regiões Sudeste e Sul.

Convergência

O roteiro pessimista previsto para as disparidades regionais no Brasil, comum na década de noventa e no início da década de 2000, não se confirmou. Há poucas dúvidas de que nos últimos dez anos reduziu-se o hiato de desenvolvimento entre o Nordeste e as regiões mais prósperas, ou seja, de que a região apresentou taxas de crescimento econômico acima da média das regiões que possuem PIB per capita e renda média mais elevadas.

Apesar de a redução das disparidades ter sido significativa e de ter havido algumas mudanças de alcance estrutural na economia do Nordeste, o processo é relativamente lento.

Para buscar entender porque a evolução das economias regionais não seguiu o script pessimista previsto é necessário redirecionar o olhar para os fatores que propiciaram o movimento recente de convergência.

A mesma trajetória que mostrou para o Brasil uma evolução mais rápida no consumo, na renda e no emprego do que na produção e no investimento, se refletiu espacialmente na direção de maior crescimento das primeiras variáveis nas regiões mais pobres do que nas mais ricas.

Todavia, também nas variáveis de produção e de infraestrutura e de escolaridade, mesmo evoluindo mais lentamente do que as de renda, emprego e consumo, o Nordeste vem reduzindo o hiato em relação às regiões mais ricas, Sudeste e Sul, embora em ritmo muito distante do desejável.

Retroalimentação

Ainda que a convergência tenha sido conduzida mais pelas políticas públicas de cunho social do que proporcionada por fatores tipicamente econômicos, a expansão recente pode ter engendrado importantes efeitos de retroalimentação.

O crescimento recente da região Nordeste tem o potencial de gerar efeitos significativos de causação cumulativa, por meio da ampliação do tamanho de mercado e na formação de ativos tangíveis e intangíveis, abrindo uma janela de oportunidade para mudar a realidade econômica e social da região.

A ampliação recente do mercado de consumo no Nordeste e os avanços ainda que relativamente restritos no seu capital social básico abrem um período de oportunidades para induzir um movimento de convergência de níveis de desenvolvimento em relação às regiões mais prósperas.

Há ainda que serem consideradas as forças associadas à própria expansão da economia no país que pode encontrar na região uma fronteira de expansão tanto em termos de mercado, quanto de força de trabalho e de disponibilidade de recursos produtivos.

Renda média

De outra parte, a chamada armadilha de renda média se coloca em termos diferentes entre as regiões brasileiras, diante da ampla disponibilidade de oferta de mão-de-obra nas áreas mais pobres do país.

Enquanto nas regiões mais prósperas o crescimento do produto depende em maior grau de ganhos de produtividade da força de trabalho já ocupada, nas regiões mais pobres persiste um grande contingente de trabalhadores subocupados ou ocupados em atividades de produtividade muito baixa, o que propicia um espaço de crescimento econômico ainda amplo por meio da incorporação desse contingente ao mercado formal. Diante do baixo grau de formalização do trabalho na região, há um importante potencial de crescimento associado à absorção de mão-de-obra em atividades de produtividade relativamente mais elevadas em diversos setores de atividade.

A relocalização de atividades intensivas em trabalho, tanto nos segmentos industriais como nas de serviços, vindas de outras regiões para o Nordeste, em parte repercutiu essa diferença regional no mercado de trabalho e deve perdurar nas próximas décadas, concorrendo para elevar a produtividade média da economia regional, com um papel importante no crescimento da renda média.

É razoável mesmo supor que esse fator deva ganhar maior proeminência no futuro próximo do que no passado recente, na medida em que a pressão no mercado de trabalho no Brasil deve elevar o custo da força do trabalho.

Agenda de desenvolvimento

Isso não significa, todavia, que a região, que conta com atividades relativamente sofisticadas em seus principais centros urbanos, não deva apostar em atividades de elevado conteúdo tecnológico. É necessário compatibilizar, como de resto no conjunto do país, mas em grau ainda maior, a expansão de atividades capazes de incorporar esse contingente, com atividades de conteúdo tecnológico mais elevado que tais centros urbanos têm possibilidade de hospedar e desenvolver.  Esforços moderados a altos para elevar a qualificação dos recursos humanos trariam grandes resultados positivos.

Entendemos que o crescimento econômico do Nordeste nos últimos dez anos abriu uma janela de oportunidade para que a região estreite de forma significativa o largo hiato de desenvolvimento que acumulou historicamente em relação às regiões mais ricas.

Cabe registrar, todavia, que o impulso de convergência refluiu após a eclosão da crise financeira em 2008, em parte por conta da desaceleração do próprio ritmo de crescimento econômico do país, quase que congelando as posições relativas em alguns indicadores.

O desafio é suprir as carências sociais e econômicas dos estados nordestinos, enfrentando a questão da pobreza de sua população e dotando a região dos fatores econômicos para elevação desses indicadores aos mesmos padrões das regiões mais ricas. Isso envolve a ampliação e melhoria das políticas públicas de educação e saúde, investimentos em infraestrutura física (os ativos tangíveis) e em qualificação profissional e ciência e tecnologia (os ativos intangíveis), mas, igualmente, a utilização de poderosas políticas de indução de investimentos para a região, para que nela sejam erigidas partes significativas das novas estruturas produtivas do país, sejam as relacionadas aos investimentos da cadeia energética, desde as atividades de petróleo e gás às energias renováveis, sejam outras atividades também de maior conteúdo tecnológico.

Publicado no Jornal da Cidade, em 02/02/2014