Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A economia sergipana no 1º semestre de 2011

Ricardo Lacerda

Pressionado pela aceleração inflacionária no inicio de 2011, o governo federal adotou uma série de medidas restritivas ao crédito, elevou a taxa de juros e limitou o dispêndio público. Respondendo a essas medidas, verificaram-se uma desaceleração do ritmo de crescimento da economia e um comportamento mais tranqüilizador dos índices de preço, ainda que o nível de atividade e, notadamente, o mercado de trabalho ainda se mantenham aquecidos.

Com o objetivo de examinar o comportamento da economia sergipana nesse período apresenta-se a seguir um conjunto de indicadores da atividade industrial, de vendas, emprego e crédito no Estado.

Setor Industrial

O indicador mais abrangente do nível de atividade industrial, particularmente da indústria de transformação, é o consumo de energia elétrica. A soma do consumo industrial e dos contratos no mercado livre da área da Energisa vem se mantendo firme, acima de 80 GWh por mês, mas o crescimento vem se desacelerando nos últimos meses. No acumulado de janeiro a maio de 2011, o consumo industrial somado aos contratos livre teve incremento de apenas 2,8% em relação ao mesmo período de 2010.

O gráfico 1, a seguir, representa a situação do consumo de energia deste agregado, com a vantagem de isolar o efeito sazonal. As colunas apresentam os dados do consumo acumulado em doze meses e a linha resume as taxas de crescimento em relação aos doze meses anteriores.

Em síntese, as colunas mostram que o consumo de energia se mantém em um patamar elevado, mas com incrementos limitados nos últimos meses; a linha indica que a taxa de crescimento do consumo em doze meses vem declinando desde dezembro de 2010, quando atingiu 11,1% em relação aos doze meses encerrados em dezembro de 2009, mas ainda são elevadas, alcançando 7,9% em maio de 2011.



Fonte: Energisa

Comércio

Os dados mais surpreendentes são os da Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE. Depois de crescer 12,9% em 2010, na comparação com 2009, o volume de vendas do comércio sergipano, entre janeiro e abril de 2011, teve incremento de apenas 2,6 % em relação ao mesmo período de 2010. O dado é intrigante porque o ritmo de crescimento dos saldos de operação de crédito, tanto de pessoa física quanto de pessoa jurídica, que financiam as compras, vem se mantendo muito acelerado.

O saldo médio das operações de crédito de pessoas físicas entre janeiro e abril de 2011 se situou 34% acima do resultado do mesmo período de 2010 e o de pessoas jurídicas, excepcionais 46,1%. Mais ainda, no saldo médio de doze meses, as operações de pessoa física atravessaram todo o ano de 2010 e entraram nos quatro primeiro meses de 2011 com taxas de crescimento de cerca de 30%, enquanto o ritmo de crescimento das operações de pessoa jurídica tem mesmo se acelerado (ver Gráfico 2). O valor total de cheques trocados em Sergipe também vem se mantendo elevado, tendo crescido 18% entre janeiro e maio de 2011 sobre igual período de 2010.




Fonte: Banco Central

Mercado de trabalho

O mercado de trabalho sergipano se mantém notavelmente aquecido em 2011. Entre janeiro e maio, foram criados 4.312 empregos com carteira de trabalho, contingente superior ao já excepcional resultado do mesmo período de 2011, quando haviam sido geradas 4.126 vagas formais. O mercado de trabalho vem permanecendo firme em 2011, como mostram os resultados setoriais comparativos do emprego com carteira assinada nos primeiros cinco meses em relação a igual período de 2010 (ver Gráfico 3).



Fonte: MTE-CAGED

Em resumo, os indicadores parecem apontar que a economia sergipana permaneceu aquecida no primeiro semestre de 2011, mesmo que a taxa de crescimento possa ter desacelerado.
Para finalizar, é importante destacar que o empresário sergipano, particularmente o empresário industrial, permanece otimista em relação ao desempenho da economia estadual. Em maio, o Índice de Confiança do Empresário Industrial – ICEI da FIES marcou, 61,1 pontos, destacando que índices superiores a 50 pontos significam otimismo em relação à economia. O indicador de expectativas em relação ao futuro alcançou 66,2 pontos.



Publicado no Jornal da Cidade em 03/07/2011

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

A área de influência de Aracaju

Ricardo Lacerda


Em 2008, o IBGE publicou o estudo Regiões de influência das cidades em que procurou mostrar as redes de centros urbanos do País. O estudo consistiu em importante esforço para delimitar o grau de relacionamento e as áreas de influências das cidades.

A caracterização da área de influência dos centros urbanos foi feita com base na presença de órgãos do poder executivo, do poder judiciário, das áreas de abastecimento de grandes empresas, na oferta de ensino superior e de serviços de saúde, dos domínios de internet, das coberturas de rede de televisão e da oferta de transporte interligando as cidades.
Em linhas gerais, apoiado na teoria dos lugares centrais elaborada por Walter Christaller ainda na década de 30 do século passado, o estudo buscou construir uma hierarquia entre os centros com base na oferta de bens e serviços, caracterizando desde aquelas menores aglomerações em que são encontrados apenas empreendimentos econômicos ou instituições muito simples, até grandes centros urbanos que ofertam os serviços mais complexos. A partir desta hierarquização, procurou-se estimar a área de influência desses centros, ou seja, para quais populações estes serviços devem estar sendo oferecidos, além da população residente na própria localidade.

Hierarquia


As cidades brasileiras, de acordo com a complexidade dos serviços oferecidos e as áreas e a intensidade dos relacionamentos com outros centros urbanos, foram classificadas em cinco níveis hierárquicos: 12 metrópoles; 70 capitais regionais, que naturalmente não se confundem com as capitais estaduais, 169 centros sub-regionais, 556 cidades denominadas de centros de zona, e as demais 4.473 cidades pesquisadas seriam centros locais, ou seja, em que a oferta de bens e serviços atende basicamente a sua própria população. A publicação completa, com os critérios e a posição das cidades, pode ser acessada em (ftp://geoftp.ibge.gov.br/Regic/regic.zip). No que tange ao serviço público, o estudo considerou o nível hierárquico dos órgãos do executivo e da justiça federal presentes nos centros urbanos. Do ponto de vista empresarial, identificou-se a distribuição das sedes e das filiais das maiores empresas brasileiras.

Sem surpresa, Aracaju integrou o grupo das capitais regionais, em que também fazem parte João Pessoa, Natal, Maceió, São Luís, Teresina e Natal, ou seja, cidades de ordem 2. Também sem novidade o fato de Aracaju manter relacionamento mais intenso com Salvador, ainda que também sejam importantes as vinculações com outras metrópoles, como Recife, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro (ver Figura 1).

Figura 1. Principais conexões externas de Aracaju
Fonte: Extraído de IBGE: Regiões de influência das cidades. 2007.

Aracaju

Na classificação do IBGE, a área de influência de Aracaju, ou seja, a extensão territorial que é atendida de forma sistemática por bens e serviços ofertados pela cidade, abrange 93 centros urbanos, as 75 cidades sergipanas mais 18 cidades da Bahia, de Alagoas e de Pernambuco, e tem vinculada a ela 2 centros urbanos sub-regionais, Paulo Afonso (BA) e Itabaiana, e 7 centros com influência em cidades vizinhas, Estância, Lagarto, Nossa Senhora da Glória, Propriá, Canindé de São Francisco Neópolis, Nossa Senhora das Dores e Cícero Dantas (BA), ver Figura 2.

Para a área delimitada por estes centros urbanos, Aracaju provê diversos serviços públicos, como educação superior e saúde, como também as populações ali residentes, em grande parte, abastecem-se de bens e adquirem serviços ofertados por empresas localizadas na capital sergipana.



Figura 2. Região de influência de Aracaju
Fonte: Extraído de IBGE: Regiões de influência das cidades. 2007.



Planejamento

O estudo da rede urbana brasileira e, especificamente, a caracterização da área de influência e as conexões externas de Aracaju, podem oferecer ferramentas fundamentais para subsidiar o planejamento da oferta de bens públicos, notadamente os relativos à educação, saúde e transporte, como também auxiliar a decisão de localização das atividades econômicas.

Particularmente, podem ajudar a apontar as formas de integração desejadas da Capital com outros centros urbanos e de Sergipe com Estados vizinhos, fornecendo informações para as decisões de investimentos públicos voltados para a integração regional. Aos especialistas em planejamento regional e urbano, lembro que o IBGE disponibilizou em seu portal na última sexta-feira a base de dados da pesquisa, com o que é possível identificar os tipos e graus de relacionamentos entre os 4.625 municípios pesquisados.



Publicado no Jornal da Cidade em 26/06/2011


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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Petróleo e desenvolvimento local em Sergipe

Ricardo Lacerda


O papel da exploração de petróleo no desenvolvimento econômico de Sergipe é bem conhecido. Além do próprio valor gerado na atividade extrativa, a produção petrolífera foi responsável pela formação de um importante pólo de fertilizantes no Estado, a partir do fornecimento de gás natural, essencial para a produção de nitrogênio e do potássio e, consequentemente, fomentou a atração de empresas misturadoras.

A presença destas atividades em Sergipe gera efeitos diretos e indiretos na criação de emprego e renda e tem importante impacto na receita pública, auxiliando a financiar os investimentos em infraestrutura para o desenvolvimento, ao tempo em que libera recursos orçamentários para serem utilizados em funções sociais do governo. Outro efeito importante sobre o mercado interno é o que se dá por meio da movimentação da massa de salários pagos e dos contratos de aquisição de bens e serviços pela cadeia produtiva.

Os investimentos na cadeia produtiva de petróleo e gás são um dos principais fatores de diferenciação de Sergipe em relação à média dos Estados nordestinos, concorrendo inclusive para que a nossa economia tenha crescido sistematicamente acima da média do Nordeste e do Brasil desde os anos setenta. Sintomaticamente, os melhores indicadores de renda, de acesso a bens de consumo e a serviços públicos pelas famílias na região Nordeste se verificam, por ordem, em Sergipe e no Rio Grande do Norte, que têm na exploração do petróleo uma das principais fontes de geração de riqueza.

1 bilhão

Menos conhecida é aimportância da exploração do petróleo e do gás natural para o desenvolvimento dos municípios sergipanos. Na primeira década do século XXI, os municípios sergipanos receberam R$ 818 milhões em forma de royalties pela exploração de petróleo e gás natural, equivalentes a exatamente R$ 1 bilhão a preços de dezembro de 2010, corrigidos pelo IPCA.

No ano de 2010, treze municípios sergipanos receberam mais de R$ 1 milhão oriundos de pagamento de royalties de petróleo e gás, do total de R$ 110 milhões distribuídos para os municípios, por ordem de receita: Carmópolis, Aracaju, Rosário do Catete, Santo Amaro das Brotas, Japaratuba, Divina Pastora, Itaporanga D'Ajuda, Barra dos Coqueiros, Estância, Siriri, Pirambu, Pacatuba, Maruim, Brejo Grande e São Cristovão (ver gráfico).

Berço do petróleo extraído em plataforma terrestre, cuja produção remonta ao ano de 1963, Carmópolis obteve, em 2010, R$ 24,8 milhões de receita de royalties, mais de 1/5 de tudo que foi distribuído. Aracaju recebeu R$ 21,5 milhões (19,5%), Rosário do Catete, R$ 16 milhões (14,6%), Santo Amaro das Brotas, R$ 10,8 milhões (9,8%), Japaratuba, R$ 9,8 milhões, equivalentes a 8,9% (ver Gráfico).

Fonte: ANP

Impactos

Para alguns municípios a produção de petróleo e gás natural tem sido muito importante para o desenvolvimento local. A tabela a seguir ordenou os dez municípios sergipanos que receberam os maiores aportes de royalties em 2010, proporcionalmente à população local.

Pode-se perceber que para alguns municípios como Carmópolis, Rosário do Catete, Divina Pastora e Santo Amaro das Brotas os royalties por habitante assumiram valores significativos em 2010, alcançando entre R$ 1.836, no caso do primeiro, a R$ 944, no caso do último.

PIB

Alguns municípios produtores de petróleo e/ou com atividades de extração de potássio detêm parcela expressiva das melhores posições no ranking do PIB por habitante de Sergipe, como Rosário do Catete, que aparece em 1º lugar, Divina pastora, 4º maior PIB per capita, Carmópolis, 5º lugar, Japaratuba, 6º lugar, e Siriri, 8º lugar.

Fonte: ANP.


IFDM

Como forma de inferir o desenvolvimento social dos municípios produtores de petróleo são apresentadas, de forma sucinta, as três dimensões do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), elaborado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. Carmópolis, Rosário do Catete, Japaratuba posicionam-se entre os dez melhores municípios sergipanos no índice geral do IFDM e nos índices setoriais de emprego e renda e de educação (ver Tabela). Divina Pastora situa-se melhor nos indicadores de educação e desaúde do que no IFDM- Geral e no indicador de emprego e renda.

Em geral, os municípios petroleiros estão mais bem posicionados nos critérios de educação e de emprego e renda do que no de saúde. Finalmente, o município de Santo Amaro é o mais fragilizado entre aqueles que recebem valores expressivos de royalties.

Certamente, a geração de riqueza do petróleo e do conjunto das atividades extrativas minerais, considerando inclusive o seu impacto nas finanças públicas, cria oportunidades para o desenvolvimento local. Mas isso é apenas um primeiro passo. A execução de boas políticas públicas é o que confirma ou não as potencialidades de desenvolvimento econômico e social.




Publicado no Jornal da Cidade em 19/06/2011


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segunda-feira, 13 de junho de 2011

A reforma tributária fatiada e o pacto federativo

Ricardo Lacerda

Depois do fracasso do Projeto de Emenda Constitucional 233/2008, paralisado no Congresso Nacional, incapaz que foi de criar um mínimo de consenso em torno dos principais pontos, o Ministério da Fazenda voltou a tomar iniciativa para implementar nova proposta de reforma tributária, desta vez muito mais modesta, limitando-se a aspectos considerados mais prementes, visando eliminar algumas das distorções mais agudas, dentre as muitas que vigoram.

A reforma tributária foi colocada na mesa de negociação em um momento crítico para as finanças dos Estados nordestinos, inclusive por conta da fragilização progressiva do papel do Fundo de Participação dos Estados (FPE) como um dos principais instrumentos de compensação das disparidades regionais, na medida em que parcela crescente da base de tributação da União não entra no cômputo de sua arrecadação.

Suplementarmente, os recursos do FPE têm sido alvo de cobiça pelos Estados mais ricos que questionam os critérios de sua distribuição. A disputa federativa se estende à definição de repartição de recursos de royalties do pré-sal e à tributação do comércio eletrônico.


Reforma fatiada

A proposta do governo federal é fazer uma reforma fatiada, iniciando por mudanças no ICMS, mais particularmente alterando as suas alíquotas interestaduais. Na agenda do Ministério da Fazenda constam outros temas, como a devolução de créditos por exportação e investimento, a ampliação do teto do faturamento das pequenas empresas para efeito de enquadramento no Supersimples e a desoneração da folha de pagamento.

O nosso ICMS é um tributo exótico, porque apesar de ser um imposto de circulação ele é prioritariamente cobrado no Estado onde o bem é produzido, quando deveria ter a maior parcela tributada naquele em que é consumido. O ponto focal da reforma fatiada é a mudança na alíquota interestadual do ICMS, aquela que a empresa se credita no Estado onde produz e desconta dos 17%, tarifa modal, no Estado onde o produto é comercializado. Progressivamente, a incidência do ICMS aumentaria no Estado de destino do bem ou serviço e diminuiria no Estado de origem.

Créditos tributários

Os Estados disputam os investimentos oferecendo créditos tributários, reduções fiscais e outros benefícios. O crédito do ICMS na origem, em operações interestaduais, é, hoje, o principal instrumento de atração de empresas para os Estados mais distantes dos grandes mercados consumidores do país e constitui a essência da chamada guerra fiscal entre as unidades da federação.
Tal concessão é foco de contestação pelos Estados detentores de maior mercado consumidor que, de forma crescente, vêm retaliando ao que consideram um ataque aos seus mercados, por meio de glosa dos créditos nas operações interestaduais, ao tempo que questionam a constitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal daquelas concessões que não foram frutos de convênios firmados no âmbito do Conselho Fazendário Nacional (CONFAZ). Repetidamente, produtos têm seus créditos desconsiderados e passam a pagar a totalidade do tributo no Estado onde vai ser consumido, gerando um acúmulo de ações judiciais impetradas pelas empresas que se sentem prejudicadas, criando um ambiente de conflagração entre os Estados e um quadro de insegurança jurídica.

Importação

A distorção que gerou maiores preocupações são as operações com produtos importados que obtêm créditos do ICMS no Estado em que ocorre o desembaraço alfandegário e os descontam nas transações interestaduais, abatendo do imposto pago onde os produtos serão comercializados. Com isso, os produtos importados podem pagar uma parcela menor do tributo do que o produto nacional, estabelecendo-se um processo de competição desleal e predatória.

Há um amplo consenso entre os Estados de que tal prática é injusta e deve ser abolida. Em um momento em que a indústria nacional se encontra fragilizada por conta da forte valorização cambial, a concessão de incentivos fiscais aos importados indica o grau de desrespeito aos princípios de cooperação e solidariedade federativa.

Desenvolvimento regional

A proposta do governo é, progressivamente, reduzir as duas alíquotas atuais de cobrança na origem, de 12% para os Estados Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e de 7%, para os Estados do Sul e Sudeste, até atingir 2% ao final de três anos.

Doutrinariamente, não há como discordar do princípio de tributação do ICMS no destino, com um percentual mínimo na origem, para não desmobilizar a fiscalização. O problema central é que a mudança no ICMS retira poder de atratividade de investimentos dos Estados de menor base industrial, sem que o Governo Federal tenha apresentado propostas concretas em relação aos instrumentos que colocará no lugar. Nesse sentido, a mudança do ICMS é um tema estratégico, com elevada influência sobre as potencialidades de desenvolvimento industrial dos Estados.

Em passos acelerados, debate-se a reforma tributária, de forma fatiada, sem apresentar medidas concretas que compensem os Estados com mercados de consumo mais estreitos pela perda de atratividade de novos investimentos. É necessário inaugurar uma nova geração de políticas de desenvolvimento regional no Brasil. A longevidade da Guerra Fiscal, por si, é prova viva da dificuldade para encontrar novos mecanismos que permitam a adoção de políticas mais racionais e sustentáveis de desenvolvimento regional.



Publicado no Jornal da Cidade em 12/06/2011



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quarta-feira, 8 de junho de 2011

O PIB do 1º trimestre de 2011 e a política econômica

Ricardo Lacerda

O IBGE apresentou, na última sexta-feira, a taxa de crescimento do PIB brasileiro do primeiro trimestre de 2011, notícia aguardada com ansiedade, visto que três dias antes havia sido anunciada a forte queda da produção industrial de abril (-2,1%), na comparação com o março, na série sem efeitos sazonais, sugerindo que a economia poderia estar iniciando um movimento em direção à recessão.

Com a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, marcada para essa semana, mercado, analistas e autoridades econômicas esquadrinham os indicadores de nível de atividade e de preço que balizarão a decisão de aumentar, ou não, a taxa básica de juros da economia.
Constatados, no início do ano,o excessivo aquecimento do nível de atividade e a elevação de preços decorrentes não apenas de fatores externo, como também da pressão de demanda no mercado interno, foram adotadas diversas medidas restritivas de crédito que se somaram às rodadas de elevação da taxa básica de juros em 2011. Ao lado das políticas monetárias, foram anunciadas medidas de contenção do gasto público.

O PIB trimestral

O PIB brasileiro do 1º trimestre de 2011 alcançou R$ 939,6 bilhões em valores correntes, correspondentes a um crescimento de 1,3%,em relação ao quarto trimestre de 2010, feitos os ajustes sazonais. A taxa do 1º trimestre de 2011, quando anualizada, atinge 5,3%, indicando que a atividade econômica continuou aquecida.

O valor adicionado do setor agropecuário teve, no trimestre, incremento de 3,3%, o da indústria de 2,2% e o dos serviços, 1,1%.O PIB do 1º trimestre apresentou maior crescimento do que no 3º e 4º trimestres de 2010: 0,4% e 0,7%, respectivamente, confirmando a percepção predominante de que a economia entrara o ano de 2010 evoluindo a taxas elevadas (ver Gráfico 1).

Na série que compara os últimos quatro trimestres em relação ao mesmo período do ano anterior, o PIB cresceu 6,2%, taxa ainda muito elevada,mesmo considerado que verificou-seuma desaceleração importante em relação aos 7,5% dos dois trimestres anteriores.


Fonte: IBGE- Contas trimestrais

Consumo das famílias

O resultado que mais chamou atenção foi a forte desaceleração do crescimento do principal item do PIB sob a ótica da despesa, os dispêndios de consumo das famílias, que respondiam por 64% do total no ano de 2010. Depois de terem crescido1,8% no 1º trimestre de 2010, 1,1% no 2º trimestre, retornado à taxa de 1,8% no 3º trimestre e alcançado o notável crescimento de 2,5% no último trimestre daquele ano, os gastos das famílias tiveram crescimento modesto no 1º trimestre de 2011, apenas 0,6%, sugerindo que as medidas de restrição adotadas,ao lado do grau de endividamento das famílias e, mesmo, da corrosão do poder de compra derivada da alta dos preços,concorreram para o resultadodo dispêndio de consumo.


Fonte: IBGE- Contas trimestrais

No momento atual, há mais dúvidas do que certezas em relação ao grau de desaceleração do nível de atividade e do seu efeito sobre o comportamento dos preços nos próximos meses.
Conta para a elevação da taxa de juros na reunião da próxima semana, além das turbulências no mercado internacional, a percepção de que, mesmo com a desaceleração do ritmo de crescimento, o aquecimento do mercado de trabalho e as despesas de consumo das famílias continuam pressionando os preços para cima. Sugere cautela em relação à nova elevação da taxa de juros, a compreensão de que as medidas prudenciais de contenção do créditoe de restrição do consumo, ao lado dos efeitos da própria inflação sobre o poder de compra, já estariam fazendo o trabalho de por a inflação nos trilhos, e que restrições adicionais aos gastos poderiam limitar o crescimento mais do que o necessário.

Publicado no Jornal da Cidade 08/06/2011


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segunda-feira, 30 de maio de 2011

O peso do emprego público nos estados

Ricardo Lacerda

Decano dos economistas sergipanos, Dilson Menezes Barreto escreve comentando o artigo da semana passada sobre a geração de emprego formal na economia brasileira. Pareceu-lhe acima do desejável o peso da administração pública, em suas três esferas, no emprego formal da economia sergipana, 118.554 empregos, equivalentes a 32,1% do total de 369.579.

Instigado pelo comentário do eminente economista, levantei os dados por unidades da federação para verificar o peso do emprego público, nos anos de 2000 e de 2010, em relação ao emprego total, e a relação entre o emprego público e a população economicamente ativa referente ao ano de 2009.

O emprego público

Em dezembro de 2010, segundo o Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego, as três esferas de governo empregavam no Brasil 8.763.970 pessoas, equivalentes a 20,2% do total de pessoas com emprego formal, cerca de 1 em cada 5 empregados formalizados. Esta participação já foi maior, alcançou 22,4% em 2000.

O gráfico, a seguir, não deixa dúvida sobre a relação entre o peso do setor público e o grau de maturidade do desenvolvimento econômico. Nos estados da região Norte e Nordeste, o setor público tem uma participação relativamente maior do que nas áreas mais desenvolvidas do país. É importante destacar que tal fato não permite inferir o gigantismo do emprego público em determinado lugar, pois o dado diz mais respeito ao grau de desenvolvimento das forças produtivas do setor privado, frente ao tamanho do setor público.

Enquanto nas regiões Norte e Nordeste, as participações do emprego público alcançavam, respectivamente, 37,6% e 31,1% do emprego formal, nas regiões Sul e Sudeste estas participações se situavam a menos da metade das primeiras, 14,5% e 15,2%. Observe-se que as maiores participações do emprego público verificavam-se nos ex-territórios federais, por ordem, Roraima, 49% dos empregos formais, Acre, 47,7%, e Tocantins, 47,1%.

Fonte: MTE-RAIS

No outro extremo geográfico e econômico do país, encontravam-se os estados de menores participações da administração pública no emprego total, Santa Catarina (11,8%), São Paulo (12,6%), Paraná (15,1%) e Rio Grande do Sul (15,9%). Mesmo estados com forte presença do setor público, como Rio de Janeiro (18,2%) e Minas Gerais (19%), por contarem com setor produtivo mais desenvolvido, apresentavam participações menores. (Ver gráfico)

Nordeste

Na região Nordeste, os estados economicamente mais expressivos registravam as menores taxas de participação da administração pública no emprego formal, Pernambuco, com 25,8%, Bahia, 28,6% e Ceará, 29,2%. Sergipe, com seus 32,1% se situava em uma posição intermediária, 12º no ranking nacional, em ordem decrescente de participação, e 4º lugar no Nordeste, abaixo da Paraíba (42,5%), Maranhão (40,1%), Piauí (37,3%).

Variação

Ao longo da década, a forte expansão do emprego no setor privado, mesmo diante de um aumento expressivo do emprego público, fez com que caísse a participação da administração pública no total do emprego formal no país, de 22,4%, em 2000 para os já citados 20,2%, em 2010. A queda de 2,2 pontos percentuais pode não parecer grande, mas ela significa que, caso tivesse crescido às mesmas taxas do emprego privado no período, teriam sido criados 1.237.927 empregos adicionais na administração pública.


PEA

Uma outra dimensão é a importância do emprego público como proporção da População Economicamente Ativa (PEA). Em 2009, o emprego formal na administração pública correspondia a 8,7% da PEA brasileira. O emprego público no Distrito Federal alcançava 30,8%, e no outro extremo, representava apenas 6,2% da PEA catarinense. Nesta comparação, o estado de Sergipe aparece em segundo lugar na região Nordeste, atrás da Paraíba, e em oitavo lugar no país, com o emprego público equivalendo a 11,8% da PEA. (Ver tabela).

Em termos regionais, o Centro-Oeste, por conta do peso do Distrito Federal, tem a maior porcentagem, 13,1%, seguido pelas regiões Norte, 11,2% e Nordeste, 9,1%. Observe-se que neste tipo de comparação as discrepâncias entre as regiões são bem menores do que quando se compara o peso do emprego público no total do emprego formal.


Fonte: MTE-RAIS e PNAD.


Respondendo ao ilustre economista, o peso do emprego público no total do emprego formal na economia sergipana não distoa muito da média dos demais estados nordestinos. Enquanto proporção da População Economicamente Ativa, o resultado indica que o emprego público em Sergipe se encontra acima da média da região e entre os maiores do país.



Publicado no Jornal da Cidade em 29/05/2011


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quinta-feira, 26 de maio de 2011

A geração de emprego em Sergipe na primeira década do novo século

Ricardo Lacerda

Um dos aspectos mais notáveis da evolução recente da economia brasileira foi o descolamento entre a geração do emprego e o crescimento do PIB. Entre 2000 e 2010, o PIB brasileiro teve um incremento de 42%, enquanto o emprego formal aumentou 68%. O crescimento médio anual do PIB foi de 3,6%, o do emprego formal alcançou 5,3%.

Em Sergipe, como em outros estados do Nordeste, o emprego formal cresceu a taxas superiores à média brasileira. O emprego com carteira assinada em Sergipe passou de 206.054 para 369.579, ou seja, foram criados 163.525 empregos adicionais em 10 anos, incremento de 79% e média anual de 6,0%. É importante destacar que todos os dados citados dizem respeito à situação de dezembro de cada ano.

Setores

Em 2010, os setores de atividade com maior número de emprego formal em Sergipe eram a administração pública, com 118.554 pessoas, equivalentes a cerca de 1/3 do total (32,1%), o setor de serviços, com 100.189 vínculos empregatícios (27,1%), o comércio, com 56.221 (15,2%), e a indústria de transformação, 41.477 (11,2%).
O setor agropecuário contava com 13.730 empregos formais, apenas 3,7% do total, ainda que este segmento respondesse por 22% da população ocupada no Estado de Sergipe, com ou sem vínculo empregatício formal, posto que parte expressiva da força de trabalho rural desenvolve produção familiar ou mantém relação de trabalho informal.

A construção civil empregava 28.713 pessoas, 7,8% do total, e a indústria extrativa mineral, que inclui a exploração de petróleo e gás natural, 4.600 pessoas, diretamente, por que, certamente, parte expressiva das pessoas empregadas em segmentos de serviços e na construção civil também integra a cadeia de petróleo e gás.


Fonte: MTE-RAIS


Crescimento
Ainda que se situasse no topo de empregos formais, a administração pública perdeu a primazia na geração de empregos adicionais entre 2000 e 2010, o que é positivo por que mostra o amadurecimento do setor privado local. Dos 163.525 novos postos de trabalho criados, o setor serviços foi responsável por 47.469 novos empregos, ou 29% do incremento total, mais do a administração pública, em suas três esferas, que ampliou o número de vagas em 39.421, ou 24,1% do incremento total. Percebam nas duas últimas colunas da tabela 1 que a administração pública, apesar de ter registrado a menor taxa de crescimento do emprego, teve o crescimento não desprezível de 4,1% anuais. O comércio sergipano abriu 27.058 novas vagas.

Dois segmentos apresentaram crescimento espetacular do emprego, com taxa anual igual ou superior a 10%, a indústria extrativa mineral, que ampliou as vagas de 1.287, em 2000, para 4.600, 257% no período, ou 13,6% ao ano, e a construção civil, que ampliou o contingente empregado em 17.682 postos de trabalho, 160,3% no período, ou 10% ao ano. Não menos significativo foi o fato de o setor agropecuário ter criado 6.357 empregos formais no período, 6,4% ao ano, em grande parte por conta da implantação nos últimos anos de duas novas usinas de cana de açúcar.


Atividades
A tabela 2, a seguir, apresenta um maior detalhamento setorial dos empregos criados na economia sergipana entre 2000 e 2010. São muitas as informações. Algumas valem a pena serem destacadas, como os 5.205 empregos criados pelas indústrias de calçados, os 5.870 no segmento de alojamento e alimentação, que devem ser somados aos 1.217 empregos nos serviços auxiliares de transporte e agencia de viagens, que sugerem a ampliação do setor de turismo no Estado, os 3.452 novos empregos na indústria química, que inclui o segmento de etanol, e a ampliação de 2.534 empregos na extração de petróleo.
Fonte: MTE-RAIS

Os dados sobre a geração de emprego na primeira década do novo século revelam uma evolução positiva da economia sergipana que nem mesmo as turbulências da crise financeira internacional conseguiram empanar. Em 2011 e 2012, novos desafios estão postos, ainda em razão do desdobramento da crise.


Publicado no Jornal da Cidade em 22/05/2011


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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Acessos ao Blog

Prezados,

Ontem, 17 de maio, pela primeira vez o blog superou a marca de 100 visitas diarias, foram 124 acessos. Nos últimos 30 dias o numero de visitantes também foi recorde, 1.812. Desde a sua criação, em 03/08/2010, tivemos 8.450 acessos. Sei que os números não são espetaculares, mas fico satisfeito de ver que o objetivo do blog está sendo alcançado, acima mesmo de minhas expectativas.

No inicio, os acessos eram quase totalmente locais. Hoje os acessos de fora do Estado de Sergipe já respondem por cerca de 2/3 do total, o que mostra que os temas abordados têm interessado a pessoas de outros estados e também a residentes de alguns outros países de lingua portuguesa.

Os artigos com maior número de acesso neste periodo foram, por ordem, Expectativas e projeções para 2011; Preço e produção de petróleo em Sergipe; O Nordeste no Atual Ciclo Industrial; A expansão da pecuária de leite em Sergipe; Situação financeira e expectativas das famílias brasileiras; O Petróleo na economia sergipana e A ascensão da Classe “C” e a elevação da renda em Sergipe.


Ricardo

terça-feira, 17 de maio de 2011

Quem são os sergipanos que se encontram na pobreza extrema

Ricardo Lacerda


A focalização das políticas sociais nas populações mais vulneráveis tem gerado importantes resultados no Brasil, muito especialmente nos estados da região Nordeste. Ao lado do crescimento do emprego, impulsionado pela expansão econômica, as políticas sociais têm permitido que milhões de brasileiros superem os níveis mais degradantes da pobreza e tenham atendidas algumas das necessidades básicas de alimentação e moradia.

No dia 02 de maio, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS) apresentou o perfil do que foi chamado de extrema pobreza no Brasil, já com base nos dados preliminares do Censo Demográfico de 2010.

O universo dos brasileiros que se encontravam, em 2010, na situação de extrema pobreza, segundo a nova metodologia do MDS, é aquele composto por pessoas que residem em domicílios que não obtiveram rendimentos em julho daquele ano, ou cujos rendimentos por pessoa não ultrapassaram R$ 70,00. Todavia, o IBGE identificou que parcela expressiva dos domicílios sem rendimento no mês da pesquisa não tinha perfil de extrema pobreza.

Foi feita, então, uma triagem, entre esses domicílios, com base em alguns indicadores de vulnerabilidade, como a falta de acesso à rede geral de esgoto, falta de acesso à energia elétrica, presença de analfabetos e de idosos, ou de três ou mais moradores acima de 14 anos, e mais alguns outros critérios para buscar identificar as famílias com o perfil pretendido. (Ver anota metodológica em http://www.mds.gov.br/saladeimprensa/noticias/2011/maio/arquivos/11.05.02_Nota_Tecnica_Perfil_A.doc/at_download/file).

Distribuição regional

Mesmo com valor muito baixo do critério de renda adotado, delimitou-se o universo de 16.267.197 brasileiros com perfil de extrema pobreza. A ampla maioria deste contingente, 9.609.803 pessoas, residia no Nordeste, respondendo por 59,1% do total, 2.725.532 no Sudeste, 16,8%, 2.658.452 no Norte, 16,3%, 715.961 na região Sul, 4,4%, e 557.449 na região Centro-Oeste, 3,4%.(Ver gráfico).

As pessoas que se encontravam na pobreza extrema, de acordo com os critérios utilizados, respondiam por 8,6% da população brasileira de 2010. Três estados tinham mais de 20% da população no perfil da extrema pobreza, Maranhão com 25,7%, ou seja, cerca de uma em cada quatro pessoas, Piauí, com 21,4%, e Alagoas com 20,3%, uma em cada cinco pessoas. A média dos estados nordestinos, 18,1%, foi a mais elevada entre as regiões.

Fonte: IBGE- Censo Demográfico de 2010.

Sergipe

Sergipe contava com 311.162 pessoas no perfil de extrema pobreza, o que representava 15,7% de sua população em 2010, a segunda menor porcentagem do Nordeste. Quem são estes sergipanos que se encontram no grau mais alto de vulnerabilidade social? Um pouco mais da metade são pessoas que residem no meio rural, 158.223, frente aos 152.939 que vivem em áreas urbanas, apesar do total da população urbana alcançar 1.520.366 e a população rural 547.651, pouco mais de 1/3 da primeira. Assim, enquanto 10,1% das pessoas que moram nas áreas urbanas se situariam no perfil de extrema pobreza, este percentual alcança 28,9% no meio rural. (Ver quadro).

Fonte: IBGE- Censo Demográfico de 2010.

O censo permite observar o numero de pessoas em situação de extrema pobreza de acordo com a raça/cor declarada. A ampla maioria das pessoas nesta condição informou ter a cor parda, 206.505 indivíduos, ou 66,3% do total. Chama a atenção, todavia, que não é muito forte a discrepância entre as percentagens de pessoas com perfil de extrema pobreza de acordo com esse critério, variando de 11,6%, entre os indígenas e 12,4% entre os brancos a 15,2% e 16,3% nos grupos de cor preta e parda, respectivamente. Mesmo quando se observa apenas a população urbana tal padrão se repete, variando entre 8% e 11,2%.

Inclusão

O critério de delimitação da pobreza extrema utilizado pelo MDS tem gerado controvérsias de diversas naturezas, dentre as quais, duas são dignas de maior atenção. Em primeiro lugar, o critério de baixa renda monetária cria um viés rural, posto que parcela da renda dessa população tem como fonte atividades não monetárias. Segundo, não levou em consideração o custo de vida significativamente mais elevado nos grandes centros urbanos.

O governo federal adotou o lema País rico é país sem pobreza. Em Sergipe, o compromisso do governo estadual é o de Incluir pelo direito e pela renda os sergipanos que se encontram em situação mais vulnerável. A delimitação da linha de pobreza extrema, identificando 16.267.197 brasileiros e 311.162 sergipanos, vai ajudar a orientar as ações de inclusão social e produtiva nos próximos quatro anos.


Publicado no Jornal da Cidade em 15/05/2011

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segunda-feira, 9 de maio de 2011

A desconcentração regional do emprego industrial

Ricardo Lacerda


Ao longo da primeira década do século XXI,o emprego da indústria de transformação brasileira aumentou em mais de 50%. Enquanto no ano 2000 o emprego formal do setor era de 4,9 milhões de pessoas, em 2009 o contingente de empregados atingiu 7,4 milhões. O emprego na indústria de transformação cresceu mais rápido nas regiões menos industrializadas e menos aceleradamente nas regiões mais industrializadas.

Desconcentração

Ainda que não tenha havido grandes mudanças nas participações das regiões no total do emprego da indústria de transformação, como mostra o gráfico 1, as taxas de crescimento entre 2000 e 2009 foram muito diferenciadas, destacando-se os incrementos de 93% no Centro-Oeste, 70% no Norte, e 69% no Nordeste. No Sudeste, região que responde por mais da metade do emprego do setor, o emprego cresceu 42%. O emprego industrial na região Sul se expandiu às mesmas taxas do Brasil, 51%.

Para que os mais apressados não atribuam tal desconcentração do emprego industrial aos impactos da crise financeira internacional, convém observar que entre 2000 e 2007, portanto antes destes impactos se manifestarem, o padrão do crescimento do emprego regional na industrial de transformação seguiu esse mesmo comportamento, ou seja, o emprego industrial desconcentrou-se da região Sudeste em direção às regiões e Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Ao longo da década, algo em torno de 3% do emprego industrial brasileiro se deslocou do Sudeste para aquelas três regiões. (Ver gráfico 1)

O emprego na indústria de transformação do Nordeste passou de 585 mil no primeiro ano, para 991 mil, em 2009, fazendo com a sua participação tenha passado de 12% para 13,5%.

Fonte: RAIS-MTE.


Subsetores

A desconcentração regional do emprego da indústria de transformação em direção as regiões menos industrializadas foi generalizada, tanto quando se observa o período 2000 e 2009, quanto entre 2000 e 2007. Dentre os doze subsetores de atividades da indústria, a região Sudeste ganhou participação somente no segmento de madeiras e móveis.

A região Nordeste, por sua vez, entre 2000 e 2009, perdeu participação no emprego da indústria de alimentos e bebidas e manteve a sua fatia no emprego da indústria têxtil. E aumentou as participações em todos os demais subsetores. Notável foi o crescimento da participação da região Nordeste no emprego da indústria de calçados, em que já ultrapassou o número de empregos da região Sudeste e se aproxima dos números da indústria calçadista da região Sul, com a particularidade de que o emprego na indústria de calçados, em termos absolutos, vem crescendo no Nordeste e caindo, no Sul e no Sudeste. Em 2009, o Nordeste já respondia por 36,5% do emprego da indústria de calçados, frente a 37,9% da região Sul. Em 2000, o Nordeste contava com 20% do emprego do setor e a região Sul com 52,4%.

A participação do Nordeste no emprego da indústria de minerais não metálicos, da indústria química, do subsetor de papel e gráfica, da indústria mecânica e da fabricação de material de transporte tiveram crescimento significativo no período.

Sudeste

A região Sudeste vem perdendo participação na geração de emprego não apenas nos setores mais tradicionais da indústria de transformação, como também em segmentos importantes da chamada indústria pesada brasileira, a exemplo da fabricação de produtos metalúrgicos, minerais não metálicos, material elétrico e de comunicação e em material de transporte, seja quando se considera o período mais longo, 2000-2009, seja quando se observa o período mais curto, 2000-2007. (Ver gráfico 2).

Fonte: RAIS-MTE.

É fato que regiões mais industrializadas foram especialmente afetadas pela crise financeira internacional, mas a recente desconcentração regional do emprego industrial vai além deste fenômeno. Parece refletir um novo ciclo de espraiamento do desenvolvimento industrial brasileiro movido pela busca dos mercados regionais que se encontram em forte ampliação, pela disponibilidade de recursos naturais e de força de trabalho.


Publicado No Jornal da Cidade em 08/05/2011



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segunda-feira, 2 de maio de 2011

As disparidades regionais no Brasil e a geração de emprego.

Ricardo Lacerda


Inicio com o presente artigo, uma pequena série de análises sobre a evolução das desigualdades entre as regiões brasileiras na primeira década do século XXI. Alguns pesquisadores têm apontado que, ao longo dos últimos anos, as largas disparidades econômicas e sociais entre as regiões brasileiras se reduziram de forma significativa, ainda que os indicadores regionais de desenvolvimento mantenham diferenças muito amplas, como ilustra o fato de a renda familiar per capita no Nordeste se limitar a 53% da média da região Sudeste, em 2009.

Para exemplificar como as disparidades regionais de renda vêm diminuindo, basta observar que a renda per capita familiar do Nordeste, em 2001, representava 43% da média do Sudeste, segundo estudo da FGV. No caso de Sergipe, o movimento de convergência foi mais rápido do que o da média da região Nordeste, passando de 44% da renda per capita do Sudeste, em 2001, para 62%, em 2009.

O ritmo de convergência dos indicadores tem acelerado nos últimos anos, ainda que haja muito terreno pela frente até estreitar tais disparidades a níveis civilizados. No artigo de hoje, será examinado um aspecto dos mais interessantes deste processo de convergência: a evolução do emprego formal nas regiões brasileiras.

Emprego formal

Entre 2000 e 2009, o número de brasileiros com emprego formal aumentou 57%, com uma expressiva taxa de incremento anual médio de 5,1%, passando de 26,2 milhões para 42,2 milhões de pessoas. O ritmo de geração de emprego formal se intensificou a partir de 2004, fazendo com que a taxa de crescimento anual médio tenha subido para 5,7%. Os dados são do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego

Nas regiões mais pobres, Nordeste, Norte e Centro- Oeste,a geração de emprego formal foi mais acelerada do que nas regiões de rendas per capita mais elevadas, o Sudeste e o Sul. Desde 2004, o emprego formal cresceu anualmente, em média, 8% na região Norte, 6,5% na região Nordeste, 5,9% no Centro-Oeste, frente às taxas de 5,4% na região Sudeste e 5,1%, na região Sul.

Inversão
A geração mais intensa de emprego nas regiões mais pobres provocou mudançasnão desprezíveis nas participações no total do emprego formal no país. Entre 2000 e 2009, a participação da região Sudeste caiu 2,3 pontos percentuais, passando de 53,5% para 51,2%, a região Sul teve um pequeno recuo, de 17,6% para 17,2%, enquanto as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste aumentaram seus pesos.
Nesta trajetória, a região Nordeste superou, desde 2006, a região Sul no que se refere ao contingente de pessoas com emprego formal. Em 2009, o Nordeste já representava 18% do total de emprego formal do Brasil, contra 17,2% daquela região. (Ver gráfico 1). O número de pessoas com emprego formal no Nordeste saltou de 4,4 milhões em 2000, para 7,4 milhões, em 2009, enquanto na região Sul este montante passou de 4,6 milhões para 7,1 milhões.

Fonte: RAIS-MTE
Setorial

Um aspecto significativo da evolução do emprego na região Nordeste em relação à média do país reside no fato de que a taxa de crescimento da região foisuperior em quase todos os segmentos econômicos. No período 2000-2009, o crescimento do emprego formal no Nordeste somente ficou abaixo da média nacional no segmento de Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP) que abrange os serviços de fornecimento de saneamento, energia e telecomunicações. (Ver gráfico 2). Enquanto o crescimento total do emprego formal no Brasil alcançou 57%, o do Nordeste foi de 70%, treze pontos percentuais acima. Entre os setores de maior peso no emprego, a diferença favorável ao Nordeste atingiu 15 p.p. nos serviços, 17 p.p. no comércio, 11 p.p. na administração pública. Na indústria de transformação, a diferença alcançou notáveis 18 pontos percentuais.


Fonte: RAIS-MTE

2010

O Nordeste continuou criando emprego em ritmo mais acelerado do que a média do Brasil no período mais recente. No ano de 2010, em que a geração de empregos formais bateu recorde na série do CAGED-MTE, com 2.136.947 novos postos de trabalho no país, a região Nordeste respondeu por 17,9% do total,equivalentes a 382.050 novas vagas, muito acima dos 14,6% da média da região para o período 2003-2009.

A geração do emprego formal na última década representa uma das dimensões mais representativas do ciclo recente de crescimento da economia brasileira. É sintoma de um conjunto de políticas públicas nacionais e regionais que tiveram maior impacto relativo nas áreas mais pobres do país.

Publicado no Jornal da Cidade em 01/05/2011


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segunda-feira, 25 de abril de 2011

A ascensão da Classe “C” e a elevação da renda em Sergipe

Ricardo Lacerda

O economista Marcelo Néri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/FGV), denominou de Nova Classe Média, correspondente à classe C, o estrato médio da população brasileira que se situava, grosso modo, acima dos 50% mais pobres e abaixo dos 10% mais ricos, estes últimos integrantes das classes A e B, isto no ano de 2001. Em 2009, foram consideradas como pertencentes à classe C as famílias cuja renda domiciliar variava entre R$ 1.126 e R$ 4.854. A classe C seria média no sentido estatístico, ou seja, aufere a renda média da sociedade, noção diversa do que se convencionou chamar de classe média no Brasil, aquelas famílias que tinham acesso aos bens e conforto da modernidade, filhos em escolas particulares, casa própria, automóvel e empregado doméstico.

Estratos de renda

A emergência desta nova classe média, em que teriam ingressado 29 milhões de brasileiros entre 2003 e 2009, consistiria no evento de maior relevância na estrutura social brasileira, pois refletiria, na visão daquele pesquisador, o contingente de pessoas que deixou o lado Índia da nossa estrutura social. Nesse período, a classe C passou de 66 milhões para 95 milhões, mais de metade da população brasileira em 2009.

O crescimento da nova classe média, além de retratar a ascensão social de milhões de brasileiros, refletiu a criação de um mercado de consumo de massa na economia brasileira, que se constituiu em um dos elementos centrais do ciclo expansivo recente.

A publicação “A nova classe média: o lado brilhante dos pobres”, (http://www3.fgv.br/ibrecps/ncm2010/NCM_Pesquisa_FORMATADA.pdf), delimita as classes sociais segundo a renda mensal familiar total. Em 2009, foram classificadas como classe E, cujos integrantes são considerados pobres, as famílias com ganho mensal de até R$ 705; a classe D teria como limite superior a renda familiar mensal de R$ 1.126; a classe C tem como limites esse valor e R$ 4.854; a classe B, até R$ 6.329, e; a classe A, acima desse valor. (Ver quadro).



Fonte: CPS/FGV, com base em dados da PNAD do IBGE.

Classe C em Sergipe

A figura a seguir apresenta o numero de integrantes de cada uma desses estratos de renda em Sergipe, em milhares de pessoas, nos anos de 2001 e 2009, com base nos dados fornecidos pelo estudo do FGV.
Ao longo da última década, considerando os anos de 2001 e 2009, a nova classe média sergipana, identificada como classe C, passou de 23,4% para 38,4% do total da população, tornando-se o estrato de renda com maior contingente populacional.

Em termos absolutos, ver figura, o número de pessoas pertencentes a esse segmento saltou de 431 mil para 788 mil, um incremento de 83%. Nesse período, mais 357 mil pessoas passaram a fazer parte da classe C, o maior incremento entre os segmentos considerados, tanto em termos relativos, quanto em termos absolutos. O estrato referente às classes A e B que, em 2001, contava com 75 mil pessoas registrou, em 2009, 132 mil pessoas, 56 mil pessoas a mais, enquanto a classe D foi ampliada em 54 mil pessoas.

Gráfico. Sergipe: Composição da população por Estratos de Renda. 2001 e 2009.
(Em mil pessoas)
Fonte: CPS/FGV, com base em dados da PNAD do IBGE.

Pobreza

Para o estudo da FGV, o estrato E representa a população que se encontra abaixo da linha de pobreza. As famílias pobres em Sergipe representavam em 2001, 43,83% do total, equivalentes a 806 mil pessoas. Na média, essa participação se aproximava da metade da população da região nordestina (49%). Em 2009, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza em Sergipe caiu para 551 mil pessoas, ou 26,8% da população na estimativa do estudo da FGV. Isso significa que ao longo deste período, à força do crescimento da economia e das políticas sociais, 255 mil pessoas deixaram a pobreza no Estado.

O crescimento da classe C deve ser comemorado como um importante resultado alcançado no combate à pobreza e sintoma da inserção econômica e social dos brasileiros. Nos próximos anos, a prioridade das políticas é erradicar da pobreza os mais de 500 mil sergipanos, 15 milhões de nordestinos e 29 milhões de brasileiros que ainda se encontram nesta situação.
Publicado no Jornal da Cidade em 24/04/2011


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segunda-feira, 18 de abril de 2011

As exportações nordestinas na primeira década do novo século (Parte 2)

Ricardo Lacerda

A primeira década do século XXI foi marcada pelo forte incremento das exportações brasileiras, favorecidas pela expansão da demanda mundial por alimentos e minérios. O Nordeste registrou, no período, o terceiro maior crescimento das vendas externas entre as regiões brasileiras, superando as regiões Sul e Sudeste, mas abaixo do desempenho do Centro-Oeste e do Norte

As exportações nordestinas saltaram de US$ 4,0 bilhões, em 2000, para US$ 15,9 bilhões em 2010, fechando a década com crescimento 10% acima da média do país. (Ver gráfico). Com a exceção do Rio Grande do Norte, os estados da região aumentaram as exportações em mais de 100% no período. O grande destaque, todavia, é o estado da Bahia, que já representava 48% das exportações regionais, em 2000, e passou a responder por 56% do total, em 2010.


Fonte: MDIC-SECEX

Orientação externa

Desde os anos setenta, com a implantação de grandes projetos industriais produtores de bens intermediários das indústrias química, petroquímica e de minerais não metálicos, a maioria dos estados nordestinos voltou-se para o mercado nacional, deixando para trás a especialização exportadora em produtos agrícolas como algodão, babaçu, açúcar e cacau. Nas últimas décadas, três estados têm se distinguido dos demais quanto à orientação para o exterior por diferentes fatores: o Maranhão, a Bahia e Alagoas. O Maranhão, por conta das exportações de produtos metalúrgicos e de grãos, a Bahia, com uma pauta exportadora mais diversificada, com destaque para minérios, químicos, celulose e grãos, e o estado de Alagoas, com as exportações de açúcar.
Em todos os demais estados da região, as participações nas exportações regionais são menores do que no Produto Interno Bruto regional. Sergipe, inclusive, em razão do peso dos grandes empreendimentos nos setores de petróleo e gás, minerais não metálicos, fertilizantes e energia, é entre os estados da região, o mais voltado para o mercado nacional.

Pauta exportadora

Em 2010, os principais produtos da pauta exportadora do Nordeste eram, por ordem, óleo combustível, celulose, açúcar, soja, minério de ferro, automóveis, alumínio, produtos de algodão, metais preciosos, castanha de caju, produtos químicos e calçados. Ou seja, ao lado de tradicionais produtos de exportação regional, como açúcares, tecidos de algodão e castanha de caju, sobressaem-se os setores produtores de bens intermediários como minérios de ferro, alumínio, celulose e produtos químicos, e produtos que entraram mais recentemente na pauta exportadora da região, como soja e automóveis. Alguns bens de consumo não duráveis também ganharam participação, na pauta exportadora, como os calçados, enquanto outros perderam peso, como os produtos têxteis.

Alguns desses setores foram fortemente favorecidos pela elevação dos preços das commodities alimentícias e minerais no mercado internacional. A tonelada do açúcar bruto, por exemplo, cotada a US$ 216 em 2000, registrou preço médio de US$ 496, em 2010, mais do que o dobro, e o óleo combustível, principal produto da pauta exportadora, saltou de US$ 150, em 2000, para US$ 456, em 2010.

Na tabela a seguir, resumem-se as participações dos setores nas exportações nordestinas de 2010 e suas participações no aumento das vendas externas entre 2000 e 2010.
Os produtos minerais responderam por 18,6% das exportações regionais de 2010 e por quase ¼ do seu crescimento na década. As exportações de alimentos e bebidas representavam 14,2%, com grande destaque para o açúcar, 7,1% do total. Responderam, ainda, por uma fatia superior a 10% das exportações regionais, os segmentos de produtos químicos, uma ampla seção denominada produtos do reino vegetal e as atividades de papel e celulose.




Fonte: MDIC-SECEX

A última coluna da tabela apresenta, entre as seções de maior peso na pauta exportadora, aquelas que cresceram mais do que a média da região e, portanto, aumentaram suas participações, e aquelas seções cujos crescimentos ficaram abaixo dessa média. Além dos produtos minerais, o grande destaque, cabe mencionar positivamente o crescimento do segmento de papel e celulose, de material de transporte, por conta da implantação da Ford, de calçados, de produtos vegetais, em razão do crescimento das exportações de soja, e curiosamente, de metais preciosos.

As seções que apresentaram as maiores perdas de participação no período foram os metais comuns e os produtos têxteis.


Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/

Publicado no Jornal da Cidade em 17/04/2011

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Desenvolvimento e Urbanismo

José Manuel Pinto Alvelos– Prof. Economia/UFS; Pro Reitor de Administração.

Lá pelos idos de 1959_1960, quando eu era menino de “calças curtas” na cidade de Estância, fazendo o primário na Escola de D. Joaquina na Rua da Baixa (Rua General Pedra) quase em frente ao “velho” Hospital Amparo de Maria ao fim da tarde quando se encerravam as aulas, em grupo íamos caminhando pelo “Beco do Cruzeiro” que findava no cemitério, apreciar numa alegria incontida as caçambas, máquinas, tratores, rasgando e trabalhando para construir o “asfalto”, que hoje se intitula a BR-101, no contorno da cidade e margeando o Rio Piauitinga. Nossas excursões se estendiam desde a “velha ponte de pau” da cachoeira, passando pela centenária “ponte do Bomfim”, até o limite da cidade na “granja”, onde hoje se localiza o Distrito Industrial de Estância.

Passados então 40_50 anos, pelo espírito empreendedor de sua gente a cidade se expandiu criando ruas, avenidas e bairros como Alagoas; Conjunto Pedro Barreto; Conjunto Valadares; Bairro Valter Cardozo; Conjunto Paulo Amaral e outros, integrando pelo lado leste da BR-101 a cidade a esta. Já pelo lado oeste, pelo contorno natural do Rio Piauitinga, ergueram-se além de bairros como Alecrim; Piauitinga; Camaçari, sobretudo a expressiva estrutura industrial de Estância destacando-se firmas como: S/A CONSTÂNCIO VIEIRA; GUFI; SULGIPE; MARATÁ; FRUTOS TROPICAIS; BRAHMA; EVEL; CROWN QUÍMICA; DUAS RODAS; TOPFRUIT; etc. Percebe-se assim que a BR-101, além da integração nacional do eixão Nordeste/ Sudeste/ Sul, para cargas e passageiros terrestres, tornou-se um divisor da cidade em sua urbanidade de trabalho, saúde, lazer, cultura, comércio, educação, .

Hoje em 2011 é o tempo da duplicação da BR-101, assim novos desafios se colocam e merecem serem avaliados. Para simplificar faremos 03 (três) hipóteses:

A) duplicação pelo leito existente; B) duplicação pelo lado Oeste (Conjunto Alecrim/ Bonfim/ Zona industrial); C) duplicação pelo lado Leste (por trás do Conjunto Paulo Amaral; Bairro Valter Cardozo; Forródromo).

Mas por que fazer o exercício das respostas a estas hipóteses? Para enfrentarmos o título deste artigo: Desenvolvimento e Urbanismo. Assim, avancemos preliminarmente em três pontos.

Em primeiro lugar, a natureza do Desenvolvimento e do Urbanismo, pode dar-se tanto de forma “espontânea” como “induzida”. Pela primeira, o caráter empreendedor, a visão e o acerto na aposta do mercado, podem traduzir-se em progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social etc. Já pela segunda, o planejamento dos agentes públicos, o caráter regulatório do estado, o bem público, também pode traduzir-se em progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social, etc. Certamente o que não deve acontecer é a contradição quanto aos resultados a serem alcançados. Portanto, para ser repetitivo o objetivo central é obter progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social, etc. Feita esta qualificação, avancemos sobre outro tema.

Em segundo lugar, a Universidade Federal de Sergipe, através do Magnífico Reitor Prof. Dr. Josué, quando da sua posse em 2004 propôs um pacto com a sociedade sergipana para fazer avançar o Ensino Superior Público no Estado de Sergipe, naturalmente compondo esforços com o Governo Federal, com o MEC, Governo Estadual, Governos Municipais, com a Classe Política, com a Sociedade Civil, as Forças Eclesiásticas, os Agentes Econômicos, dentre outros, para levar a interiorização da UFS para Propriá; Glória; Itabaiana; Lagarto; Estância. Após muitos esforços, estão instalados os Campi de Itabaiana, Laranjeiras e Lagarto.

Já o de Estância merece um aprofundamento. Sendo um Campus focado nas Engenharias, em função da natureza industrial da Cidade e da polarização sobre o Centro-sul sergipano e norte do estado da Bahia, especialmente Camaçari/Aratu, deverá ter 10 Engenharias, a saber: Civil; Mecânica; Elétrica/Eletrônica; Computação; Química; Minas; Naval; Petróleo; Produção; Materiais. Quando plenamente instalado, para um horizonte de 3 a 5 anos deverá ter de 6.000 a 7000 alunos, 250 professores PhD., 80 técnicos administrativos, um investimento global de R$60.000.000,00 e um requerimento de 100 a 120 hectares para a sua implantação física agregando uma “incubadora” e um “parque tecnológico”. Daí, a importância deste Campus para Desenvolvimento e Urbanização de Estância e vice-versa.

Em terceiro lugar, a ligação de Estância com o seu litoral é sonho de mais de 40 anos. Um primeiro passo dessa epopéia deve-se ao Prefeito Raimundo Souza, Seu Bedóia, Rubens Silva, que resultou na “ponte de Pau” e a ligação ao litoral. Um segundo passo completou-se com a “ponte de concreto” o asfaltamento da via até ao Abaís e entroncamento com a “Linha Verde de SE”, atravessando os governos Augusto Franco, João Alves, Albano Franco. Um terceiro passo deu-se com a edificação das Pontes “Joel Silveira” (Mosqueiro/ Caueira) e “Gilberto Amado” (Estância/ Indiaroba) já no governo Deda e com o rasgo e alargamento de estradas vicinais a partir do Bairro Botequim, no sentido leste com construção de pontes, restando uma última Sobre a maré do Rio Fundo, para a qual já esta alocada uma Emenda Parlamentar do ex-deputado Albano Franco no Valor de R$20.000.000,00, que deixa Estância a 15_17 km do litoral. E aqui temos que ter um entroncamento desta estrada vindo do litoral com a cidade.

Portanto, colocados estes três pontos, voltemos à duplicação da BR-101 e às hipóteses, A); B); C); e suas repercussões sobre o Desenvolvimento e a Urbanismo de Estância.

Na hipótese, A) duplicação pelo leito existente – constata-se que pelo intenso trânsito de hoje a BR-101 tem uma dupla função: servir de eixão Nordeste/ Sudeste/ Sul para cargas e de avenida central para Estância e cidades circunvizinhas que dela utilizam o seu aparato urbano. As áreas físicas em seu entorno, encontram-se edificadas e em alguns pontos até saturadas, sendo as vias de acesso ao núcleo central da cidade, limitadas e estranguladas. Esta opção aparta a cidade, ficando a maior malha urbana na parte leste e na oeste a estrutura industrial (para entrega de insumos e saída de produtos industriais) e a ligação da estrada SE que vai para Boquim. Criam-se evidentes riscos para pedestres e veículos, com crescentes chances de acidentes, atropelamentos e óbitos, ademais não se agrega emprego, renda ou riqueza nova, equivalente ao investimento a ser realizado, perdendo-se a oportunidade única do Estado “induzir” a geração de riqueza “nova”.

Já na hipótese, B) duplicação pelo lado Oeste (Conjunto Alecrim/ Bonfim/ Zona industrial) – esta por sua natureza está definida no Plano Diretor da Cidade de Estância, desde a época do extinto CONDESE (Conselho de Desenvolvimento Econômico de SE) como a zona de expansão industrial da cidade, posto que além dos vazios no espaço, incorpora mão de obra especializada e tem farta disponibilidade de água a partir dos Rios Piauitinga e Piauí e portanto não merece uma ação “induzida” do Estado que comprometa as suas potencialidades para o Anti-Desenvolvimento e o Anti-Urbanismo.

Por fim, resta a hipótese, C) duplicação pelo lado Leste (por trás do Conjunto Paulo Amaral; Bairro Valter Cardozo; Forródromo) – aqui se trata de um “anel viário” que circunscreva todo o espaço urbano atual de Estância criando uma nova “perimetral”. Aquilo que nos anos 1959_1960 foi cumprido pelo atual traçado da BR-101, que hoje se tornou avenida urbana. Além de criar um espaço urbano para novos bairros, ruas, praças e atividades econômicas, de lazer, educacionais e sociais, entrelaçam pelo lado Leste no sentido do litoral com a futura estrada ligando a Praia à cidade no já citado percurso de 15_17 km. Neste sentido, a ação “indutora” do gasto público gera “ progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social, etc”, trazendo uma “taxa interna de retorno positiva na relação custo/ benefício social”, como a exemplo ocorreu em Feira de Santana (BA) com o seu “anel viário” e/ou em São Paulo (SP) com o “Rodoanel”.

Com certeza, assim os meninos de 9_10 anos de hoje não mais de ”calças curtas”, mas de “bermudas”, antes de partir para o mundo, sentirão um brilhar nos olhos como aquelas alegrias dos anos idos vividas por mim e meus colegas, por respirar progresso e os de 18_23 anos por poder aspirar ser “Engenheiro” e ter um futuro promissor.

Para terminar, que a duplicação da BR-101 e o Campus de Engenharias da UFS em Estância, seja, a partir da Política e da Cultura, como sujeitos da história, temas para pavimentar o Desenvolvimento e Urbanismo, trazendo “ progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social”, porque como fala Fernando Pessoa “...navegar é preciso; viver não é preciso...”.



segunda-feira, 11 de abril de 2011

As exportações nordestinas na primeira década do novo século

Ricardo Lacerda

As exportações brasileiras apresentaram desempenho exuberante na primeira década do século XXI. O valor das exportações brasileiras saltou de US$ 55,1 bilhões em 2000 para US$ 201,9 bilhões em 2010, um incremento de 267% no período, equivalente a uma taxa anual de 13,9% em dólares correntes.


O comportamento das nossas vendas externas foi fator determinante no ciclo expansivo iniciado no ano de 2004, o mais longo desde a crise do endividamento externo nos anos oitenta. Com uma taxa anual tão elevada de expansão, as exportações puxaram para cima o ritmo de crescimento do PIB em todos os anos desde 2003, com a notória exceção do ano de 2009, marcado pelos efeitos da crise financeira internacional sobre o fluxo do comércio mundial. (Ver gráfico 1).



Fonte: MDIC-SECEX

Regiões

Menos conhecidas são as trajetórias das exportações regionais ao longo da década. O gráfico 2 a seguir apresenta os índices acumulados de crescimento do valor das exportações das regiões brasileiras ao longo da primeira década do século, comparando com a média trienal 1999-2001. Todas as regiões registraram crescimentos superiores a 10% ao ano, durante esse período.

A região Centro-Oeste mereceria uma análise à parte, tendo apresentado taxas anuais de crescimento do valor exportado acima de 20%, multiplicando 7,3 vezes as suas exportações no período. O comportamento das exportações do Centro-Oeste foi tão extraordinário que, em 2009, quando as exportações brasileiras recuaram 22,7%, naquela região a retração se limitou a 0,4%. Note-se no gráfico que a inclinação fortemente ascendente da curva do Centro-Oeste obscurece mesmo os índices também muito elevados das demais regiões.

As exportações da região Nordeste, representadas pela linha tracejada, alcançou o índice de 412 em 2010, bem acima da média brasileira de 378. Nesta comparação entre a média trienal de 1999-2001 e o ano de 2010, as exportações nordestinas apresentaram taxa anual de expansão de 15,2%. As regiões de maior participação nas exportações brasileiras, o Sudeste (58%, em 2010), e, notadamente, o Sul, (18,6%, em 2010) tiveram crescimento abaixo das regiões com menores participações.

Fonte: MDIC-SECEX


Preços

Um outro aspecto interessante é o comportamento do preço médio das exportações nordestinas. Analistas têm destacado o comportamento favorável dos preços dos produtos exportados brasileiros na última década, em grande parte por conta intenso crescimento da demanda por alimentos e minérios no mercado mundial. Pouco tem se observado, todavia, sobre o valor médio das exportações das regiões brasileiras.

No gráfico 3, a seguir, apresenta-se uma medida grosseira do valor médio das exportações do Brasil e do Nordeste entre 2001 e 2010, dividindo-se o valor total das exportações pelas toneladas embarcadas. Evidentemente, tal indicador pode, com freqüência, se revelar traiçoeiro, principalmente por que, no período, verificaram-se importantes mudanças na composição da pauta exportadora, tanto do Brasil, como do Nordeste. Estudos mais apurados podem fazer os ajustes necessários. Feitas estas observações, é fácil perceber como o preço médio por tonelada exportada apresentou crescimento sustentado ao longo da década, tanto para o Brasil, quanto para o Nordeste. No caso desse último, o valor das exportações por tonelada pulou de US$ 326, em 2004, para US$ 595, em 2008.
É curioso observar que o valor médio não caiu em 2009 para as exportações nordestinas, em plena conjuntura de crise, diferentemente do que ocorreu nas exportações totais brasileiras. Em 2010, o valor médio das exportações brasileiras esboçou uma reação, enquanto a média nordestina despencou. Tal queda, aparentemente contraditória em um ano de recuperação dos preços no mercado internacional, se deveu quase integralmente ao peso que as exportações de minérios, produtos de baixo valor por peso contido, ganhou na pauta exportadora nordestina naquele ano.

Fonte: MDIC-SECEX

Ainda que o comércio exterior tenha um peso muito menos importante para a economia do Nordeste do que para a média do país, o coeficiente de exportações da região é cerca da metade do nacional, a região participou de forma significativa do impulso exportador brasileiro dos últimos anos. No próximo artigo, examinam-se os principais mercados e a composição desse crescimento.


Publicado no Jornal da Cidade em 10/04/2011.


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