Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 2 de maio de 2011

As disparidades regionais no Brasil e a geração de emprego.

Ricardo Lacerda


Inicio com o presente artigo, uma pequena série de análises sobre a evolução das desigualdades entre as regiões brasileiras na primeira década do século XXI. Alguns pesquisadores têm apontado que, ao longo dos últimos anos, as largas disparidades econômicas e sociais entre as regiões brasileiras se reduziram de forma significativa, ainda que os indicadores regionais de desenvolvimento mantenham diferenças muito amplas, como ilustra o fato de a renda familiar per capita no Nordeste se limitar a 53% da média da região Sudeste, em 2009.

Para exemplificar como as disparidades regionais de renda vêm diminuindo, basta observar que a renda per capita familiar do Nordeste, em 2001, representava 43% da média do Sudeste, segundo estudo da FGV. No caso de Sergipe, o movimento de convergência foi mais rápido do que o da média da região Nordeste, passando de 44% da renda per capita do Sudeste, em 2001, para 62%, em 2009.

O ritmo de convergência dos indicadores tem acelerado nos últimos anos, ainda que haja muito terreno pela frente até estreitar tais disparidades a níveis civilizados. No artigo de hoje, será examinado um aspecto dos mais interessantes deste processo de convergência: a evolução do emprego formal nas regiões brasileiras.

Emprego formal

Entre 2000 e 2009, o número de brasileiros com emprego formal aumentou 57%, com uma expressiva taxa de incremento anual médio de 5,1%, passando de 26,2 milhões para 42,2 milhões de pessoas. O ritmo de geração de emprego formal se intensificou a partir de 2004, fazendo com que a taxa de crescimento anual médio tenha subido para 5,7%. Os dados são do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego

Nas regiões mais pobres, Nordeste, Norte e Centro- Oeste,a geração de emprego formal foi mais acelerada do que nas regiões de rendas per capita mais elevadas, o Sudeste e o Sul. Desde 2004, o emprego formal cresceu anualmente, em média, 8% na região Norte, 6,5% na região Nordeste, 5,9% no Centro-Oeste, frente às taxas de 5,4% na região Sudeste e 5,1%, na região Sul.

Inversão
A geração mais intensa de emprego nas regiões mais pobres provocou mudançasnão desprezíveis nas participações no total do emprego formal no país. Entre 2000 e 2009, a participação da região Sudeste caiu 2,3 pontos percentuais, passando de 53,5% para 51,2%, a região Sul teve um pequeno recuo, de 17,6% para 17,2%, enquanto as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste aumentaram seus pesos.
Nesta trajetória, a região Nordeste superou, desde 2006, a região Sul no que se refere ao contingente de pessoas com emprego formal. Em 2009, o Nordeste já representava 18% do total de emprego formal do Brasil, contra 17,2% daquela região. (Ver gráfico 1). O número de pessoas com emprego formal no Nordeste saltou de 4,4 milhões em 2000, para 7,4 milhões, em 2009, enquanto na região Sul este montante passou de 4,6 milhões para 7,1 milhões.

Fonte: RAIS-MTE
Setorial

Um aspecto significativo da evolução do emprego na região Nordeste em relação à média do país reside no fato de que a taxa de crescimento da região foisuperior em quase todos os segmentos econômicos. No período 2000-2009, o crescimento do emprego formal no Nordeste somente ficou abaixo da média nacional no segmento de Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP) que abrange os serviços de fornecimento de saneamento, energia e telecomunicações. (Ver gráfico 2). Enquanto o crescimento total do emprego formal no Brasil alcançou 57%, o do Nordeste foi de 70%, treze pontos percentuais acima. Entre os setores de maior peso no emprego, a diferença favorável ao Nordeste atingiu 15 p.p. nos serviços, 17 p.p. no comércio, 11 p.p. na administração pública. Na indústria de transformação, a diferença alcançou notáveis 18 pontos percentuais.


Fonte: RAIS-MTE

2010

O Nordeste continuou criando emprego em ritmo mais acelerado do que a média do Brasil no período mais recente. No ano de 2010, em que a geração de empregos formais bateu recorde na série do CAGED-MTE, com 2.136.947 novos postos de trabalho no país, a região Nordeste respondeu por 17,9% do total,equivalentes a 382.050 novas vagas, muito acima dos 14,6% da média da região para o período 2003-2009.

A geração do emprego formal na última década representa uma das dimensões mais representativas do ciclo recente de crescimento da economia brasileira. É sintoma de um conjunto de políticas públicas nacionais e regionais que tiveram maior impacto relativo nas áreas mais pobres do país.

Publicado no Jornal da Cidade em 01/05/2011


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segunda-feira, 25 de abril de 2011

A ascensão da Classe “C” e a elevação da renda em Sergipe

Ricardo Lacerda

O economista Marcelo Néri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/FGV), denominou de Nova Classe Média, correspondente à classe C, o estrato médio da população brasileira que se situava, grosso modo, acima dos 50% mais pobres e abaixo dos 10% mais ricos, estes últimos integrantes das classes A e B, isto no ano de 2001. Em 2009, foram consideradas como pertencentes à classe C as famílias cuja renda domiciliar variava entre R$ 1.126 e R$ 4.854. A classe C seria média no sentido estatístico, ou seja, aufere a renda média da sociedade, noção diversa do que se convencionou chamar de classe média no Brasil, aquelas famílias que tinham acesso aos bens e conforto da modernidade, filhos em escolas particulares, casa própria, automóvel e empregado doméstico.

Estratos de renda

A emergência desta nova classe média, em que teriam ingressado 29 milhões de brasileiros entre 2003 e 2009, consistiria no evento de maior relevância na estrutura social brasileira, pois refletiria, na visão daquele pesquisador, o contingente de pessoas que deixou o lado Índia da nossa estrutura social. Nesse período, a classe C passou de 66 milhões para 95 milhões, mais de metade da população brasileira em 2009.

O crescimento da nova classe média, além de retratar a ascensão social de milhões de brasileiros, refletiu a criação de um mercado de consumo de massa na economia brasileira, que se constituiu em um dos elementos centrais do ciclo expansivo recente.

A publicação “A nova classe média: o lado brilhante dos pobres”, (http://www3.fgv.br/ibrecps/ncm2010/NCM_Pesquisa_FORMATADA.pdf), delimita as classes sociais segundo a renda mensal familiar total. Em 2009, foram classificadas como classe E, cujos integrantes são considerados pobres, as famílias com ganho mensal de até R$ 705; a classe D teria como limite superior a renda familiar mensal de R$ 1.126; a classe C tem como limites esse valor e R$ 4.854; a classe B, até R$ 6.329, e; a classe A, acima desse valor. (Ver quadro).



Fonte: CPS/FGV, com base em dados da PNAD do IBGE.

Classe C em Sergipe

A figura a seguir apresenta o numero de integrantes de cada uma desses estratos de renda em Sergipe, em milhares de pessoas, nos anos de 2001 e 2009, com base nos dados fornecidos pelo estudo do FGV.
Ao longo da última década, considerando os anos de 2001 e 2009, a nova classe média sergipana, identificada como classe C, passou de 23,4% para 38,4% do total da população, tornando-se o estrato de renda com maior contingente populacional.

Em termos absolutos, ver figura, o número de pessoas pertencentes a esse segmento saltou de 431 mil para 788 mil, um incremento de 83%. Nesse período, mais 357 mil pessoas passaram a fazer parte da classe C, o maior incremento entre os segmentos considerados, tanto em termos relativos, quanto em termos absolutos. O estrato referente às classes A e B que, em 2001, contava com 75 mil pessoas registrou, em 2009, 132 mil pessoas, 56 mil pessoas a mais, enquanto a classe D foi ampliada em 54 mil pessoas.

Gráfico. Sergipe: Composição da população por Estratos de Renda. 2001 e 2009.
(Em mil pessoas)
Fonte: CPS/FGV, com base em dados da PNAD do IBGE.

Pobreza

Para o estudo da FGV, o estrato E representa a população que se encontra abaixo da linha de pobreza. As famílias pobres em Sergipe representavam em 2001, 43,83% do total, equivalentes a 806 mil pessoas. Na média, essa participação se aproximava da metade da população da região nordestina (49%). Em 2009, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza em Sergipe caiu para 551 mil pessoas, ou 26,8% da população na estimativa do estudo da FGV. Isso significa que ao longo deste período, à força do crescimento da economia e das políticas sociais, 255 mil pessoas deixaram a pobreza no Estado.

O crescimento da classe C deve ser comemorado como um importante resultado alcançado no combate à pobreza e sintoma da inserção econômica e social dos brasileiros. Nos próximos anos, a prioridade das políticas é erradicar da pobreza os mais de 500 mil sergipanos, 15 milhões de nordestinos e 29 milhões de brasileiros que ainda se encontram nesta situação.
Publicado no Jornal da Cidade em 24/04/2011


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segunda-feira, 18 de abril de 2011

As exportações nordestinas na primeira década do novo século (Parte 2)

Ricardo Lacerda

A primeira década do século XXI foi marcada pelo forte incremento das exportações brasileiras, favorecidas pela expansão da demanda mundial por alimentos e minérios. O Nordeste registrou, no período, o terceiro maior crescimento das vendas externas entre as regiões brasileiras, superando as regiões Sul e Sudeste, mas abaixo do desempenho do Centro-Oeste e do Norte

As exportações nordestinas saltaram de US$ 4,0 bilhões, em 2000, para US$ 15,9 bilhões em 2010, fechando a década com crescimento 10% acima da média do país. (Ver gráfico). Com a exceção do Rio Grande do Norte, os estados da região aumentaram as exportações em mais de 100% no período. O grande destaque, todavia, é o estado da Bahia, que já representava 48% das exportações regionais, em 2000, e passou a responder por 56% do total, em 2010.


Fonte: MDIC-SECEX

Orientação externa

Desde os anos setenta, com a implantação de grandes projetos industriais produtores de bens intermediários das indústrias química, petroquímica e de minerais não metálicos, a maioria dos estados nordestinos voltou-se para o mercado nacional, deixando para trás a especialização exportadora em produtos agrícolas como algodão, babaçu, açúcar e cacau. Nas últimas décadas, três estados têm se distinguido dos demais quanto à orientação para o exterior por diferentes fatores: o Maranhão, a Bahia e Alagoas. O Maranhão, por conta das exportações de produtos metalúrgicos e de grãos, a Bahia, com uma pauta exportadora mais diversificada, com destaque para minérios, químicos, celulose e grãos, e o estado de Alagoas, com as exportações de açúcar.
Em todos os demais estados da região, as participações nas exportações regionais são menores do que no Produto Interno Bruto regional. Sergipe, inclusive, em razão do peso dos grandes empreendimentos nos setores de petróleo e gás, minerais não metálicos, fertilizantes e energia, é entre os estados da região, o mais voltado para o mercado nacional.

Pauta exportadora

Em 2010, os principais produtos da pauta exportadora do Nordeste eram, por ordem, óleo combustível, celulose, açúcar, soja, minério de ferro, automóveis, alumínio, produtos de algodão, metais preciosos, castanha de caju, produtos químicos e calçados. Ou seja, ao lado de tradicionais produtos de exportação regional, como açúcares, tecidos de algodão e castanha de caju, sobressaem-se os setores produtores de bens intermediários como minérios de ferro, alumínio, celulose e produtos químicos, e produtos que entraram mais recentemente na pauta exportadora da região, como soja e automóveis. Alguns bens de consumo não duráveis também ganharam participação, na pauta exportadora, como os calçados, enquanto outros perderam peso, como os produtos têxteis.

Alguns desses setores foram fortemente favorecidos pela elevação dos preços das commodities alimentícias e minerais no mercado internacional. A tonelada do açúcar bruto, por exemplo, cotada a US$ 216 em 2000, registrou preço médio de US$ 496, em 2010, mais do que o dobro, e o óleo combustível, principal produto da pauta exportadora, saltou de US$ 150, em 2000, para US$ 456, em 2010.

Na tabela a seguir, resumem-se as participações dos setores nas exportações nordestinas de 2010 e suas participações no aumento das vendas externas entre 2000 e 2010.
Os produtos minerais responderam por 18,6% das exportações regionais de 2010 e por quase ¼ do seu crescimento na década. As exportações de alimentos e bebidas representavam 14,2%, com grande destaque para o açúcar, 7,1% do total. Responderam, ainda, por uma fatia superior a 10% das exportações regionais, os segmentos de produtos químicos, uma ampla seção denominada produtos do reino vegetal e as atividades de papel e celulose.




Fonte: MDIC-SECEX

A última coluna da tabela apresenta, entre as seções de maior peso na pauta exportadora, aquelas que cresceram mais do que a média da região e, portanto, aumentaram suas participações, e aquelas seções cujos crescimentos ficaram abaixo dessa média. Além dos produtos minerais, o grande destaque, cabe mencionar positivamente o crescimento do segmento de papel e celulose, de material de transporte, por conta da implantação da Ford, de calçados, de produtos vegetais, em razão do crescimento das exportações de soja, e curiosamente, de metais preciosos.

As seções que apresentaram as maiores perdas de participação no período foram os metais comuns e os produtos têxteis.


Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/

Publicado no Jornal da Cidade em 17/04/2011

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Desenvolvimento e Urbanismo

José Manuel Pinto Alvelos– Prof. Economia/UFS; Pro Reitor de Administração.

Lá pelos idos de 1959_1960, quando eu era menino de “calças curtas” na cidade de Estância, fazendo o primário na Escola de D. Joaquina na Rua da Baixa (Rua General Pedra) quase em frente ao “velho” Hospital Amparo de Maria ao fim da tarde quando se encerravam as aulas, em grupo íamos caminhando pelo “Beco do Cruzeiro” que findava no cemitério, apreciar numa alegria incontida as caçambas, máquinas, tratores, rasgando e trabalhando para construir o “asfalto”, que hoje se intitula a BR-101, no contorno da cidade e margeando o Rio Piauitinga. Nossas excursões se estendiam desde a “velha ponte de pau” da cachoeira, passando pela centenária “ponte do Bomfim”, até o limite da cidade na “granja”, onde hoje se localiza o Distrito Industrial de Estância.

Passados então 40_50 anos, pelo espírito empreendedor de sua gente a cidade se expandiu criando ruas, avenidas e bairros como Alagoas; Conjunto Pedro Barreto; Conjunto Valadares; Bairro Valter Cardozo; Conjunto Paulo Amaral e outros, integrando pelo lado leste da BR-101 a cidade a esta. Já pelo lado oeste, pelo contorno natural do Rio Piauitinga, ergueram-se além de bairros como Alecrim; Piauitinga; Camaçari, sobretudo a expressiva estrutura industrial de Estância destacando-se firmas como: S/A CONSTÂNCIO VIEIRA; GUFI; SULGIPE; MARATÁ; FRUTOS TROPICAIS; BRAHMA; EVEL; CROWN QUÍMICA; DUAS RODAS; TOPFRUIT; etc. Percebe-se assim que a BR-101, além da integração nacional do eixão Nordeste/ Sudeste/ Sul, para cargas e passageiros terrestres, tornou-se um divisor da cidade em sua urbanidade de trabalho, saúde, lazer, cultura, comércio, educação, .

Hoje em 2011 é o tempo da duplicação da BR-101, assim novos desafios se colocam e merecem serem avaliados. Para simplificar faremos 03 (três) hipóteses:

A) duplicação pelo leito existente; B) duplicação pelo lado Oeste (Conjunto Alecrim/ Bonfim/ Zona industrial); C) duplicação pelo lado Leste (por trás do Conjunto Paulo Amaral; Bairro Valter Cardozo; Forródromo).

Mas por que fazer o exercício das respostas a estas hipóteses? Para enfrentarmos o título deste artigo: Desenvolvimento e Urbanismo. Assim, avancemos preliminarmente em três pontos.

Em primeiro lugar, a natureza do Desenvolvimento e do Urbanismo, pode dar-se tanto de forma “espontânea” como “induzida”. Pela primeira, o caráter empreendedor, a visão e o acerto na aposta do mercado, podem traduzir-se em progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social etc. Já pela segunda, o planejamento dos agentes públicos, o caráter regulatório do estado, o bem público, também pode traduzir-se em progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social, etc. Certamente o que não deve acontecer é a contradição quanto aos resultados a serem alcançados. Portanto, para ser repetitivo o objetivo central é obter progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social, etc. Feita esta qualificação, avancemos sobre outro tema.

Em segundo lugar, a Universidade Federal de Sergipe, através do Magnífico Reitor Prof. Dr. Josué, quando da sua posse em 2004 propôs um pacto com a sociedade sergipana para fazer avançar o Ensino Superior Público no Estado de Sergipe, naturalmente compondo esforços com o Governo Federal, com o MEC, Governo Estadual, Governos Municipais, com a Classe Política, com a Sociedade Civil, as Forças Eclesiásticas, os Agentes Econômicos, dentre outros, para levar a interiorização da UFS para Propriá; Glória; Itabaiana; Lagarto; Estância. Após muitos esforços, estão instalados os Campi de Itabaiana, Laranjeiras e Lagarto.

Já o de Estância merece um aprofundamento. Sendo um Campus focado nas Engenharias, em função da natureza industrial da Cidade e da polarização sobre o Centro-sul sergipano e norte do estado da Bahia, especialmente Camaçari/Aratu, deverá ter 10 Engenharias, a saber: Civil; Mecânica; Elétrica/Eletrônica; Computação; Química; Minas; Naval; Petróleo; Produção; Materiais. Quando plenamente instalado, para um horizonte de 3 a 5 anos deverá ter de 6.000 a 7000 alunos, 250 professores PhD., 80 técnicos administrativos, um investimento global de R$60.000.000,00 e um requerimento de 100 a 120 hectares para a sua implantação física agregando uma “incubadora” e um “parque tecnológico”. Daí, a importância deste Campus para Desenvolvimento e Urbanização de Estância e vice-versa.

Em terceiro lugar, a ligação de Estância com o seu litoral é sonho de mais de 40 anos. Um primeiro passo dessa epopéia deve-se ao Prefeito Raimundo Souza, Seu Bedóia, Rubens Silva, que resultou na “ponte de Pau” e a ligação ao litoral. Um segundo passo completou-se com a “ponte de concreto” o asfaltamento da via até ao Abaís e entroncamento com a “Linha Verde de SE”, atravessando os governos Augusto Franco, João Alves, Albano Franco. Um terceiro passo deu-se com a edificação das Pontes “Joel Silveira” (Mosqueiro/ Caueira) e “Gilberto Amado” (Estância/ Indiaroba) já no governo Deda e com o rasgo e alargamento de estradas vicinais a partir do Bairro Botequim, no sentido leste com construção de pontes, restando uma última Sobre a maré do Rio Fundo, para a qual já esta alocada uma Emenda Parlamentar do ex-deputado Albano Franco no Valor de R$20.000.000,00, que deixa Estância a 15_17 km do litoral. E aqui temos que ter um entroncamento desta estrada vindo do litoral com a cidade.

Portanto, colocados estes três pontos, voltemos à duplicação da BR-101 e às hipóteses, A); B); C); e suas repercussões sobre o Desenvolvimento e a Urbanismo de Estância.

Na hipótese, A) duplicação pelo leito existente – constata-se que pelo intenso trânsito de hoje a BR-101 tem uma dupla função: servir de eixão Nordeste/ Sudeste/ Sul para cargas e de avenida central para Estância e cidades circunvizinhas que dela utilizam o seu aparato urbano. As áreas físicas em seu entorno, encontram-se edificadas e em alguns pontos até saturadas, sendo as vias de acesso ao núcleo central da cidade, limitadas e estranguladas. Esta opção aparta a cidade, ficando a maior malha urbana na parte leste e na oeste a estrutura industrial (para entrega de insumos e saída de produtos industriais) e a ligação da estrada SE que vai para Boquim. Criam-se evidentes riscos para pedestres e veículos, com crescentes chances de acidentes, atropelamentos e óbitos, ademais não se agrega emprego, renda ou riqueza nova, equivalente ao investimento a ser realizado, perdendo-se a oportunidade única do Estado “induzir” a geração de riqueza “nova”.

Já na hipótese, B) duplicação pelo lado Oeste (Conjunto Alecrim/ Bonfim/ Zona industrial) – esta por sua natureza está definida no Plano Diretor da Cidade de Estância, desde a época do extinto CONDESE (Conselho de Desenvolvimento Econômico de SE) como a zona de expansão industrial da cidade, posto que além dos vazios no espaço, incorpora mão de obra especializada e tem farta disponibilidade de água a partir dos Rios Piauitinga e Piauí e portanto não merece uma ação “induzida” do Estado que comprometa as suas potencialidades para o Anti-Desenvolvimento e o Anti-Urbanismo.

Por fim, resta a hipótese, C) duplicação pelo lado Leste (por trás do Conjunto Paulo Amaral; Bairro Valter Cardozo; Forródromo) – aqui se trata de um “anel viário” que circunscreva todo o espaço urbano atual de Estância criando uma nova “perimetral”. Aquilo que nos anos 1959_1960 foi cumprido pelo atual traçado da BR-101, que hoje se tornou avenida urbana. Além de criar um espaço urbano para novos bairros, ruas, praças e atividades econômicas, de lazer, educacionais e sociais, entrelaçam pelo lado Leste no sentido do litoral com a futura estrada ligando a Praia à cidade no já citado percurso de 15_17 km. Neste sentido, a ação “indutora” do gasto público gera “ progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social, etc”, trazendo uma “taxa interna de retorno positiva na relação custo/ benefício social”, como a exemplo ocorreu em Feira de Santana (BA) com o seu “anel viário” e/ou em São Paulo (SP) com o “Rodoanel”.

Com certeza, assim os meninos de 9_10 anos de hoje não mais de ”calças curtas”, mas de “bermudas”, antes de partir para o mundo, sentirão um brilhar nos olhos como aquelas alegrias dos anos idos vividas por mim e meus colegas, por respirar progresso e os de 18_23 anos por poder aspirar ser “Engenheiro” e ter um futuro promissor.

Para terminar, que a duplicação da BR-101 e o Campus de Engenharias da UFS em Estância, seja, a partir da Política e da Cultura, como sujeitos da história, temas para pavimentar o Desenvolvimento e Urbanismo, trazendo “ progresso, renda, emprego, riqueza, bem estar social”, porque como fala Fernando Pessoa “...navegar é preciso; viver não é preciso...”.



segunda-feira, 11 de abril de 2011

As exportações nordestinas na primeira década do novo século

Ricardo Lacerda

As exportações brasileiras apresentaram desempenho exuberante na primeira década do século XXI. O valor das exportações brasileiras saltou de US$ 55,1 bilhões em 2000 para US$ 201,9 bilhões em 2010, um incremento de 267% no período, equivalente a uma taxa anual de 13,9% em dólares correntes.


O comportamento das nossas vendas externas foi fator determinante no ciclo expansivo iniciado no ano de 2004, o mais longo desde a crise do endividamento externo nos anos oitenta. Com uma taxa anual tão elevada de expansão, as exportações puxaram para cima o ritmo de crescimento do PIB em todos os anos desde 2003, com a notória exceção do ano de 2009, marcado pelos efeitos da crise financeira internacional sobre o fluxo do comércio mundial. (Ver gráfico 1).



Fonte: MDIC-SECEX

Regiões

Menos conhecidas são as trajetórias das exportações regionais ao longo da década. O gráfico 2 a seguir apresenta os índices acumulados de crescimento do valor das exportações das regiões brasileiras ao longo da primeira década do século, comparando com a média trienal 1999-2001. Todas as regiões registraram crescimentos superiores a 10% ao ano, durante esse período.

A região Centro-Oeste mereceria uma análise à parte, tendo apresentado taxas anuais de crescimento do valor exportado acima de 20%, multiplicando 7,3 vezes as suas exportações no período. O comportamento das exportações do Centro-Oeste foi tão extraordinário que, em 2009, quando as exportações brasileiras recuaram 22,7%, naquela região a retração se limitou a 0,4%. Note-se no gráfico que a inclinação fortemente ascendente da curva do Centro-Oeste obscurece mesmo os índices também muito elevados das demais regiões.

As exportações da região Nordeste, representadas pela linha tracejada, alcançou o índice de 412 em 2010, bem acima da média brasileira de 378. Nesta comparação entre a média trienal de 1999-2001 e o ano de 2010, as exportações nordestinas apresentaram taxa anual de expansão de 15,2%. As regiões de maior participação nas exportações brasileiras, o Sudeste (58%, em 2010), e, notadamente, o Sul, (18,6%, em 2010) tiveram crescimento abaixo das regiões com menores participações.

Fonte: MDIC-SECEX


Preços

Um outro aspecto interessante é o comportamento do preço médio das exportações nordestinas. Analistas têm destacado o comportamento favorável dos preços dos produtos exportados brasileiros na última década, em grande parte por conta intenso crescimento da demanda por alimentos e minérios no mercado mundial. Pouco tem se observado, todavia, sobre o valor médio das exportações das regiões brasileiras.

No gráfico 3, a seguir, apresenta-se uma medida grosseira do valor médio das exportações do Brasil e do Nordeste entre 2001 e 2010, dividindo-se o valor total das exportações pelas toneladas embarcadas. Evidentemente, tal indicador pode, com freqüência, se revelar traiçoeiro, principalmente por que, no período, verificaram-se importantes mudanças na composição da pauta exportadora, tanto do Brasil, como do Nordeste. Estudos mais apurados podem fazer os ajustes necessários. Feitas estas observações, é fácil perceber como o preço médio por tonelada exportada apresentou crescimento sustentado ao longo da década, tanto para o Brasil, quanto para o Nordeste. No caso desse último, o valor das exportações por tonelada pulou de US$ 326, em 2004, para US$ 595, em 2008.
É curioso observar que o valor médio não caiu em 2009 para as exportações nordestinas, em plena conjuntura de crise, diferentemente do que ocorreu nas exportações totais brasileiras. Em 2010, o valor médio das exportações brasileiras esboçou uma reação, enquanto a média nordestina despencou. Tal queda, aparentemente contraditória em um ano de recuperação dos preços no mercado internacional, se deveu quase integralmente ao peso que as exportações de minérios, produtos de baixo valor por peso contido, ganhou na pauta exportadora nordestina naquele ano.

Fonte: MDIC-SECEX

Ainda que o comércio exterior tenha um peso muito menos importante para a economia do Nordeste do que para a média do país, o coeficiente de exportações da região é cerca da metade do nacional, a região participou de forma significativa do impulso exportador brasileiro dos últimos anos. No próximo artigo, examinam-se os principais mercados e a composição desse crescimento.


Publicado no Jornal da Cidade em 10/04/2011.


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terça-feira, 5 de abril de 2011

O IPCA e as expectativas de mercado

Ricardo Lacerda


Nas últimas semanas predomina certo mal estar na relação do Banco Central com o chamado mercado, que vem a ser essencialmente constituído por operadores no mercado financeiro, como corretoras, bancos e gestoras de recursos. O principal ponto da discórdia diz respeito às avaliações feitas pelo Copom (Comitê Política Monetária do Banco Central) sobre a trajetória do IPCA nos próximos meses e a defesa da instituição de uma estratégia de combate gradual à inflação, aguardando que surtam os efeitos das medidas de políticas macroprudenciais recentes que buscaram desacelerar o ritmo do nível de atividade por meio da restrição ao crédito, além das medidas de corte do gasto público e dos últimos aumentos da taxa básica de juros, antes de adotar novas medidas restritivas que findem por abortar continuidade do ciclo de expansão econômica.

O mercado avalia que a ata da última reunião do Copom, corroborada pelo relatório de inflação de março do Banco Central, reflete uma mudança do entendimento da autoridade monetária em relação ao sistema de meta de inflação. O Banco Central teria reduzido o seu compromisso em repor o IPCA ao centro da meta inflacionária (4,5%). Mais grave, o Copom estaria sendo leniente com o combate à inflação quando indica aceitar com naturalidade que a inflação somente se aproxime do centro da meta em meados do próximo ano.

Trocando em miúdos, os agentes mercado entendem que fazia parte da regra do jogo, do jogo deles, o Banco Central manter, dentro do ano, a inflação no nível contratado e que os desvios da inflação do centro da meta devem ser respondidos com elevações na taxa básica de juros.


IPCA


A partir de setembro do ano passado, o IPCA acumulado em doze meses iniciou uma trajetória de crescimento, passando de 4,70%, naquele mês, para 5,20% em outubro, 5,64%, em novembro, e encostou os 6% em dezembro e janeiro, atingindo 6,01% no mês de fevereiro. Ainda que o ímpeto de elevação do índice tenha se dissipado nos últimos meses, o mercado considera o patamar muito elevado. (Ver gráfico 1)

Fonte: IBGE


O ponto de vista do Banco Central é o de que a aceleração dos preços ao consumidor nos últimos meses se deveu, em parte, a pressões sazonais, seja nos preços de alimentos in natura, por conta das recentes inundações na região Sudeste, seja nas tarifas, especialmente de transportes públicos. A elevação nas cotações das commodities no mercado internacional seria um fator adicional. Aumentos na taxa de juros pouco poderiam atuar no sentido de combater tais pressões, [a não ser que em doses cavalares].

Reconhece, todavia, a persistência de descompasso entre a oferta e a demanda agregadas, ou seja, que a economia estaria excessivamente aquecida, fato evidenciado na evolução dos preços de serviços, mas que este desequilíbrio estaria sendo combatido pelas medidas adotadas e que, no segundo semestre, o IPCA acumulado de doze meses começará a refluir, até voltar a convergir ao centro da meta em 2012. As análises do Banco Central destacam ainda que o crescimento do nível de atividade vem desacelerando já há meses e que isso se refletirá, com alguma defasagem temporal, na evolução do IPCA.

A exposição desses argumentos foi entendida pelo mercado como uma sinalização de que o ciclo recente de elevação das taxas de juros não teria continuidade nas próximas reuniões do Copom e o mercado quer mais altas nos juros.

O gráfico 2 a seguir resume a expectativa de mercado desde agosto do ano passado em relação ao IPCA de dezembro de 2011. As projeções mais recentes apontam para a mediana de 6% para o índice no final do ano.


Fonte: Banco Central. Focus- Relatório de Mercado


Termômetro


O Banco Central tem emitido enfáticos sinais de que não tem visto com bons olhos as projeções do mercado. Para alguns analistas, a piora nas expectativas poderia refletir as insatisfações dos agentes do mercado com a mudança na postura do Banco Central, que diferentemente de situações pretéritas, não deverá responder à pressão inflacionária com novas rodadas de elevação da taxa Selic, contrariando as apostas que estas instituições fizeram em suas aplicações financeiras.

Há no momento uma tensão entre Banco Central e o mercado que somente será dissipada nas próximas semanas, à medida que os dados da inflação mostrarão quem está certo sobre a projeção do índice de inflação, o Banco Central ou o mercado. Eu aposto que o Banco Central dobra o mercado. Os agentes reelaborarão suas expectativas, convergindo com as projeções da autoridade financeira e ficarão felizes com os resultados alcançados.


Publicado no Jornal da Cidade em 03/04/2011.


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terça-feira, 29 de março de 2011

O Consumo de gás natural em Sergipe

Ricardo Lacerda

A produção nacional de gás natural, combustível de origem fóssil, voltou a crescer em 2010, após ter recuado em 2009 por conta da redução do consumo provocada pela crise econômica. Em uma perspectiva de prazo um pouco mais longo, desde a eclosão dos problemas com o fornecimento pela Bolívia em 2006, o Brasil tem buscado acelerar o crescimento da produção de gás natural, ainda que a oferta de gás importado venha evoluindo em um ritmo um pouco superior. A produção nacional subiu do patamar de 48,9 milhões de m3 diários entre 2005 e 2007, para 59,55 milhões de m3 diários, em 2008, recuou para 57,91 milhões de m3/dia, em 2009, e atingiu 62,84 milhões de m3/dia, em 2010, um incremento de 28% entre a média 2005-2007 e o resultado de 2010, enquanto o volume de gás importado aumentou 30%.

A oferta de gás natural, todavia, representa ainda uma parcela relativamente pequena da oferta de energia no Brasil. De acordo com o Balanço Energético Nacional 2010 (ano base 2009), o gás natural respondeu por apenas 8,7% da produção de energia primária produzida no país, frente a 42% do petróleo, 14% da energia hidráulica, 18% dos derivados da cana de açúcar e 1,7% da energia nuclear.

Os grandes consumidores de gás natural não são nem os veículos automotivos, nem as residências, e sim alguns segmentos da indústria pesada intensivos em consumo energético (e do uso como matéria prima, em alguns casos), na siderurgia, química, petroquímica e fabricantes de minerais não metálicos.

Sergipe

Depois de atingir 873,6 milhões de m3, no ano de 2000, a produção de gás natural em Sergipe entrou em uma trajetória de declínio que se estendeu até 2007, quando foram explorados 547,1 milhões de m3. Em 2010, a produção somou 1.101,7 milhões de m3, confirmando a trajetória expansiva iniciada em 2008. (Ver gráfico 1).

Fonte: ANP

Consumo

Em janeiro de 2011, último mês com dados disponíveis, a empresa distribuidora de gás natural em Sergipe possuía 6.249 clientes. O uso industrial se limitou a apenas 34 empresas. O gás para consumo automotivo era fornecido por 34 postos de abastecimentos e o maior número de clientes era do segmento de unidades domiciliares, 6.130.
O consumo médio diário de gás natural em Sergipe, no ano de 2010, foi de 268,2 mil m3. O consumo residencial é ainda muito baixo, representando apenas 0,7% do total. As empresas industriais responderam por 59,4% do consumo total, o consumo automotivo, por 35,7%, o comercial por 0,6%, a cogeração, 0,6%, e os demais usos, 3%. (Ver gráfico 2).

Fonte: Abegas

A evolução do consumo de gás natural depende de alguns fatores: Em primeiro lugar, da capacidade de oferta do produto e da capilaridade da rede de gasodutos; em segundo lugar, da competitividade do produto nos dois mercados principais em que atua, o mercado industrial e o mercado automotivo, nos quais disputa os clientes com outras fontes de energia, desde a fonte hidrelétrica, até os óleos combustíveis, etanol e gasolina.
O gráfico 3 apresentado a seguir, mostra que o gás natural tem conseguido manter sua competitividade no mercado industrial, mas vem, rapidamente, perdendo vendas no mercado automotivo, apesar do forte incremento da frota de veículos no Estado. No caso do consumo industrial, a média móvel trimestral passou 128,3 mil m3/dia, em janeiro de 2009, no auge da crise, para 146,8 mil m3/dia, em janeiro de 2010, e alcançou 161, 9 mil m3/dia, em janeiro de 2011. Ou seja, na comparação da média móvel de janeiro de 2011 em relação a janeiro de 2010, o consumo industrial de gás natural cresceu 10,3%, um excelente resultado.
Diferente tem sido a trajetória do consumo automotivo de gás natural. Depois de somar 116,8 mil m3/dia na média móvel trimestral de janeiro de 2009, caiu para mil 109,3 em janeiro de 2010, e em janeiro de 2011, nessa série, caiu novamente para mil 94,3 m3/dia.

Fonte: Abegas

Em 2010, o mercado de consumo de gás natural em Sergipe teve uma evolução modesta, com crescimento de apenas 3%, por conta da queda do consumo automotivo. O Consumo industrial, por sua vez, teve o expressivo aumento de 11% no período. As perspectivas do mercado nos próximos anos vão depender, além dos fatores de oferta, da implementação dos grandes projetos industriais no Estado e da maior exploração de mercados que hoje se encontram em segundo plano.

 

Publicado no Jornal da Cidade em 27/03/2011

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segunda-feira, 21 de março de 2011

A retomada da economia canavieira em Sergipe

Ricardo Lacerda

A produção sergipana de açúcar restou estagnada por um longo período que se seguiu ao final da segunda guerra mundial. Na safra canavieira de 1948/49, a produção de açúcar no Estado alcançou 47,8 mil toneladas. Em 1974/75, vinte e seis anos depois, a produção sergipana de açúcar somou 46,5 mil toneladas, situando-se no mesmo patamar daquela obtida no primeiro registro do pós-guerra.

Ao longo de todo esse período, a produção estadual somente logrou superar a barreira de 50 mil toneladas em duas safras. A história da crise canavieira, inclusive com o fechamento de usinas nesse período, é conhecida e, ainda que semelhante a de outros estados da região, pareceu mais profunda, fazendo cristalizar a percepção de falta de perspectiva para a atividade em Sergipe, frente a outras culturas, como a laranja e o coco que se expandiam.


Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Próalcool

Desde meados dos anos setenta, todavia, o cenário da cultura canavieira no Brasil foi radicalmente transformado, com o início da implementação do Plano Nacional do Álcool- Proálcool cujos principais marcos são a produção de carros movidos a álcool hidratado e, mais adiante, a produção de veículos bicombustíveis.

A produção do açúcar que respondeu, na safra 1974/75, por 87% do chamado Açúcar Total Recuperável (ATR), contra 13% da soma do álcool anidro e do álcool hidratado perdeu rapidamente espaço no complexo sucroalcooleiro brasileiro, até atingir sua menor participação em 1989/90, quando representou tão somente 27% do total, contra 64% do álcool hidratado e 9% do álcool anidro. (Ver gráfico 1).

No início dos anos noventa, a ameaça de desabastecimento de álcool hidratado para mover a frota de veículos pôs em risco o programa nacional de álcool, crise que somente foi superada com a fabricação e a disseminação do uso dos motores híbridos (flexíveis), movidos a álcool e a gasolina, já na virada para o novo século.

A parcela do álcool hidratado no ATR, que recuou até 20% na produção de 2004/2005, na safra de 2008/2009 já atingia 39%, a mesma porcentagem da produção do açúcar. (Ver gráfico 1). Com o estímulo da produção crescente do álcool, a atividade canavieira assumiu dimensão muito mais significativa para a economia brasileira, pois se tratava a partir de então não apenas da tradicional atividade açucareira, mas de um complexo sucroalcooleiro, fundamental como fonte de energia e de produção de derivados químicos para o país.

A quantidade de cana moída que se situava em torno de 30 milhões de toneladas no inicio dos anos setenta, multiplicou cerca de dez vezes até a safra de 2008/09, quando atingiu 312 milhões de toneladas. A montagem do complexo sucroalcooleiro criou importantes sinergias para a atividade canavieira, que passa a contar com os dois mercados, o de combustíveis e o de açúcar, permitindo o produtor direcionar a produção para o mais atrativo deles. Com isso, não apenas a produção de álcool cresceu no período, como também a produção de açúcar, que passou de 5,4 milhões de toneladas, na safra 1971/72, para 29,9 milhões de toneladas na safra 2008/2009.

Sergipe

A produção canavieira em Sergipe, depois do impulso dos primeiros anos do Proálcool, entrou em declínio nos anos noventa. Depois de atingir 2,2 milhões de toneladas em 1990, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal, recuou para 1,17 milhões de toneladas em 2002, quando o preço do açúcar atingiu o fundo do poço no mercado internacional.
Desde 2004, todavia, impulsionada pela expansão da frota nacional de veículos bicombustíveis e pela trajetória ascendente do preço do açúcar no mundo, a atividade canavieira de Sergipe iniciou um ciclo de recuperação que veio a ser consolidado nos últimos anos com a implantação das usinas de Campo Lindo e Taquari, localizadas, respectivamente, em Nossa Senhora das Dores e em Capela.
Em 2009, último ano com dados disponíveis, a produção canavieira de Sergipe atingiu 2,7 milhões de toneladas. Já na segunda metade dos anos setenta, o volume de produção teve forte incremento, e na safra de 2008/2009 alcançou 89,8 mil toneladas, deixando para trás o patamar das 50 mil toneladas.
Ainda que a produção de cana de açúcar de Sergipe represente apenas 3,7% do total do Nordeste, esse ciclo recente confirmou um novo espaço para atividade canavieira no Estado, que em 2002, havia chegado a participar com apenas 2,2% da produção regional.
O gráfico 2 a seguir apresenta o índice de evolução da produção da cana de açúcar no Brasil, Nordeste e Sergipe, entre 1995 e 2009. Fazendo a média do triênio 1994-96 igual a 100, o índice de produção sergipana, depois de alcançar 135 em 2004, conheceu sucessivos saltos nos anos seguintes até atingir 198 em 2009. Note-se, no gráfico, que a produção açucareira do Nordeste não teve o mesmo impulso nos últimos anos.


Fonte: IBGE: Pesquisa Agrícola Municipal.

A combinação de preços muito favoráveis no mercado internacional do açúcar com a expansão do mercado brasileiro de biocombustíveis abriu novas oportunidades para a retomada da atividade canavieira em Sergipe. Municípios como Capela, Japaratuba, Laranjeiras, Pacatuba, Japoatã, Nossa Senhora das Dores, Riachuelo e Siriri têm sido os mais favorecidos por esta expansão.

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Publicado no Jornal da Cidade em 20/03/2011

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segunda-feira, 14 de março de 2011

O nível de atividade da economia sergipana no início de 2011

Ricardo Lacerda



Quando os temas econômicos mais palpitantes são o forte aquecimento da economia brasileira e as medidas adotadas para desacelerar o seu crescimento, vale a pena buscar indicações sobre o nível de atividade da economia sergipana entre o final de 2010 e o inicio de 2011.

Para avaliar as atividades comerciais, dois são os indicadores mais significativos: as vendas no varejo e o saldo de crédito de operações com as famílias. O volume de vendas do varejo sergipano, medido pela Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, teve incremento de 12,74% em 2010, enquanto a taxa de crescimento em dezembro de 2010 alcançou 10,9% sobre uma base já bastante elevada de dezembro de 2009. Ainda que a taxa de dezembro de 2010 tenha ficado um pouco abaixo da taxa média anual, não se pode falar em desaquecimento na atividade comercial, que se manteve firme.

Mais surpreendente é a evolução do saldo de operações de crédito de pessoas físicas que aumentou 32,7% na comparação entre dezembro de 2010 e dezembro de 2009. O volume de crédito registrou mesmo uma aceleração do crescimento nos últimos meses dos anos, quando comparados com iguais meses do ano anterior, série que permite isolar os efeitos da sazonalidade. Convém lembrar que a expansão dos empréstimos foi acompanhada pela queda da taxa de inadimplência no período, o que revela uma situação sadia no mercado de crédito.

Outro indicador muito importante para sentir o nível geral de atividade da economia é o consumo de cimento. Infelizmente, este indicador tem uma defasagem temporal grande, somente estando disponíveis, até o momento, os dados do mês de novembro. No acumulado de 2010, até aquele mês, o consumo aparente de cimento em Sergipe aumentou 18,6%, e o consumo do mês ficou 12% acima do resultado de novembro de 2009.

Energia

O consumo de energia se relaciona com o nível de atividade econômica ainda que não se possa buscar uma identidade entre a taxa de crescimento de um com a do outro. Em 2010, o consumo total da energia elétrica em Sergipe, na área de concessão da Energisa, cresceu 7,7%, uma taxa bastante expressiva.

Quando se trata do setor industrial, o consumo de energia é um bom indicador do nível de produção física. Em 2010, o consumo industrial de energia da área de concessão da Energisa representou 13% do total consumido. A essa fatia deve ser somada a do grupo de consumo livre, que se refere às compras realizadas por grandes consumidores, em sua ampla maioria do segmento industrial, que negociam diretamente contratos de fornecimento com as empresas distribuidoras de energia no mercado livre. Essa fatia representou 24% do consumo total de energia na área da Energisa. (Ver gráfico 1)



Fonte: Energisa.

O consumo industrial somado a energia do mercado livre atingiu 642,3 GWh em 2010, um crescimento de 12,4% em relação aos 571,2 GWh de 2009. É importante destacar que em 2009, em função da crise, a soma do consumo industrial e do consumo livre havia recuado 6,1%. O Gráfico 2, a seguir, apresenta a média mensal móvel de três meses do consumo industrial e do consumo livre. Este consumo somou 85,1 GWh na média móvel em dezembro de 2010, 7,6% acima dos 79,1 GWh de dezembro de 2009. Em janeiro de 2011, a média mensal do trimestre foi de 84,2 GWh, 6,3% superior ao resultado de janeiro de 2010. Ainda que a taxa de crescimento desta média tenha chegado atingir 16,2% em setembro de 2010 na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o crescimento do consumo de energia pelo setor produtivo continuou robusto no final de 2010 e no primeiro mês de 2011, principalmente quando se leva em conta que a base de comparação é maior.



Fonte: Energisa.

2011

Alguns indicadores de arrecadação tributária, como o comportamento do ICMS e de tributos federais que incidem sobre a atividade econômica de Sergipe, como a receita de IPI que subiu 17% no ano passado e 20% em janeiro de 2011, também confirmam um final de 2010 e um início de 2011 de nível de atividade elevado e em crescimento.

Em parte por contar com uma base de comparação mais elevada (2010), em parte por conta das políticas macroprudenciais voltadas para a redução da taxa de expansão do crédito e dos gastos públicos, além de reajuste do salário mínimo substancialmente menor do que em anos anteriores, o nível de atividade da economia sergipana, apesar de se manter aquecido, certamente, não repetirá em 2011 a taxa de incremento que conheceu em 2010.


Publicado no Jornal da Cidade em 13/03/2011


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segunda-feira, 7 de março de 2011

O PIB de 2010 e a desaceleração da economia no 4º trimestre


Ricardo Lacerda



O anúncio na semana passada do crescimento do Produto Interno Brasileiro (PIB) de 2010 foi, ao mesmo tempo, motivo de comemoração e de alguma preocupação. Comemoração porque a taxa de 7,5% é a mais elevada desde 1986, ano marcado pela explosão de consumo do Plano Cruzado, confirmando a força da recuperação da economia brasileira após a crise financeira que prostrou a economia mundial ao final de 2008. O setor industrial, o mais atingido pela crise em 2009, quando caiu 6,4%, apresentou a taxa setorial mais elevada em 2010, 10,1%. O setor agrícola reverteu o recuo de 4,6% em 2009, com 6,5% de crescimento em 2010, e o setor de serviços, o único com resultado positivo em 2009, 2,2%, alcançou 5,4%.
O mais significativo no resultado do PIB de 2010 é o fato de que, com ele, a economia brasileira retomou a trajetória de expansão iniciada no ano de 2004, estabelecendo no período uma taxa de crescimento médio anual de 4,4%, há muito desconhecida no Brasil, em um intervalo relativamente longo, de sete anos.

Trajetória

A primeira década do novo século teve resultados superiores à última do século anterior. Entre 2001 e 2010, o crescimento anual médio foi de 3,6%, enquanto no período 1991-2000, o PIB cresceu, em média, 2,6% ao ano. A diferença pode parecer pequena, mas significa que, na primeira década dos anos 2000, a economia brasileira cresceu 42,4%, contra 29,3 % no período anterior e que, nos anos noventa, o PIB por habitan te subiu apenas 1,1% ao ano, frente aos 2,4% ao ano da primeira década dos anos 2000, implicando que, no ritmo anterior, seriam necessários 63 anos para dobrar a renda média do país, e às taxas mais recentes este prazo se reduziria para 29 anos.

O gráfico 1 a seguir apresenta as taxas de crescimento do PIB brasileiro entre 1996 e 2010. Saltam aos olhos a dinâmica mais intensa de crescimento desde 2004 e que, após o resultado ruim de 2009, foi retomada a expansão no ano passado.



Fonte: IBGE: Contas Nacionais Trimestrais

Alerta

A preocupação é de duas naturezas: de um lado, no quarto trimestre a economia brasileira registrou uma forte desaceleração, com crescimento de 0,7% em relação ao trimestre anterior, na série livre de efeitos sazonais, equivalentes a apenas 2,8% anualizados; e do outro, o consumo continuou muito forte neste quarto trimestre, crescimento de 2,5% ou 10,4% em termos anualizados, indicando que as medidas macroprudenciais de contenção da demanda ainda não tiveram o poder de fazer refluir a taxa de expansão desta variável e, ao mesmo tempo, que outras variáveis da demanda agregada tiveram um desempenho pífio.

O gráfico 2, a seguir, resume a evolução do PIB trimestral ao longo de 2010, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, observando os componentes da demanda agregada. Um primeiro aspecto que chama a atenção é que houve uma sensível melhoria nas trajetórias das taxas de importações (que contam negativamente) e de exportações de bens e serviços (que contam positivamente), amplamente desfavoráveis às exportações no primeiro trimestre e que foram aproximando os ritmos de crescimento ao longo do ano.

Entre as variáveis da demanda interna, o consumo das famílias não apenas comandou a expansão no 4º trimestre, como apresentou uma evolução ascendente ao longo do ano. O Consumo da Administração Pública (Cons. APU), que foi muito importante para a expansão do PIB no segundo trimestre, perdeu o ímpeto de crescimento nos terceiro e quarto trimestre, mostrando-se comportado no período. Especialmente, houve certa decepção com o comportamento dos investimentos, medidos pela Formação Bruta do Capital Fixo (FBCF), que desaceleraram fortemente no quarto trimestre, após três períodos de intenso crescimento, mesmo considerando que esta variável tenha aumentado 21,8% na comparação, entre 2010 e 2009, e que a taxa de investimento da economia tenha subido para 18,4%.




Fonte: IBGE: Contas Nacionais Trimestrais

Em relação ao consumo das famílias, os indicadores de crédito de 2011 apontam para uma trajetória menos acelerada, o mesmo devendo ocorrer com o consumo da administração pública.

A preocupação decorre do fato de que as pressões inflacionárias permaneceram fortes nos últimos meses, mesmo com a economia crescendo a taxas menores. Ainda que fatores importantes de elevação dos preços se originem de fontes externas, o raio de manobra para manter taxas elevadas de crescimento se estreitou. A lição parece ser que o crescimento sustentável requer, nos próximos trimestres, alterações mais aceleradas entre as proporções das taxas de consumo e das taxas de investimento, públicos e privados, na economia brasileira.


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Publicado no Jornal da Cidade, em 06/03/2011


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domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Taxa de desocupação da economia brasileira

Ricardo Lacerda



A taxa de desocupação nas regiões metropolitanas brasileiras se situou em 6,1% em janeiro de 2011, extraordinariamente baixa para um mês tradicionalmente ruim para o mercado de trabalho. Recorrentemente, a imprensa tem noticiado a escassez de mão de obra em atividades da construção civil, da indústria de transformação e, mais recentemente, para o trabalho doméstico nas grandes metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Desde quando foi anunciado o resultado de dezembro de 2010, de 5,3%, a menor taxa de desocupação desde o inicio do registro estatístico, que alguns especialistas têm afirmado que a economia brasileira alcançou o pleno emprego do fator trabalho. Tal assertiva decorre, em parte, da associação que se faz entre a taxa de desemprego de 5% com a noção de pleno emprego, posto que resta sempre um contingente de pessoas desocupadas que está saindo de uma ocupação, antes de encontrar outra. Para alguns analistas, o pleno emprego teria sido alcançado na economia brasileira no sentido de que, para um grande e expressivo grupo de ocupações, não estão disponíveis pessoas com o perfil de qualificação para preencher as vagas.

Portanto, pleno emprego não significa que todos aqueles que procuram trabalho estejam ocupados, e sim que uma parcela muito expressiva da força de trabalho está ocupada e que a desocupação persistente, não devo usar residual, decorre de fatores como tempo de rotação entre uma ocupação e outra, ou desproporções do perfil de qualificação ou na estrutura setorial da demanda e da oferta de trabalho, de modo que incrementos adicionais da demanda por trabalho se traduzirão mais em elevação dos rendimentos do que em novas oportunidades de ocupação.

Queda da desocupação

A queda da taxa de desocupação na economia brasileira tem sido, de fato, notável. Em janeiro de 2003, a taxa de desocupação nas regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE havia alcançado 11,2%, frente aos atuais 6,1%. O Gráfico a seguir, mostra a evolução da taxa de desocupação nos mês de janeiro, entre 2003 e 2011. A trajetória é fortemente declinante.

Não há dúvida de que o mercado de trabalho brasileiro se encontra aquecido, o que inclusive tem proporcionado ganhos reais nos rendimentos em uma série de ocupações, mas, mesmo nesse sentido elástico, há que se considerar as diferenças regionais nas taxas de desocupação.


Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio

Regiões

A taxa de desocupação é calculada para seis regiões metropolitanas brasileiras: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Essencialmente por conta de um excedente de mão de obra, acumulado ao longo da história e que a expansão do setor moderno no pós-guerra não logrou absorver, a taxa de desocupação é estruturalmente mais elevada nas regiões metropolitanas do Nordeste, do que naquelas situadas nas regiões Sudeste e Sul. Este é o padrão geral, somente não observado quando crises agudas atacam intensamente o mercado de trabalho mais estruturado do centro dinâmico da economia brasileira, isto é, o da região Metropolitana de São Paulo. A menor taxa de desocupação em janeiro de 2011 foi registrada na Região Metropolitana de Porto Alegre, 4,2%, seguida, pelo Rio de Janeiro, 5,1%, Belo Horizonte (5,3%) e São Paulo (6,0%).

Em janeiro de 2011, a taxa de desocupação nas regiões metropolitanas de Recife e Salvador eram, respectivamente, de 7,1% e 10,7%, também as mais baixas da série histórica. Em janeiro de 2006 as taxas de desocupação daquelas regiões metropolitanas haviam alcançado, respectivamente, 15,3% e 14,9%. (Ver tabela).


Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio

As taxas de desocupação são mais elevadas para os jovens do que para pessoas com mais experiência, apontando a urgência de expandir os cursos de capacitação profissional.

Se fatos extraordinários, como a crise política do mundo árabe ou a deterioração da situação fiscal em nações europeias, não trouxerem efeitos muitos negativos para a economia mundial, o mercado de trabalho brasileiro deve seguir aquecido em 2011, com novas reduções na taxa de desocupação, mesmo que em ritmo menos acelerado. Vamos torcer para que nada atrapalhe esse momento especial do mercado de trabalho no Brasil.


Publicado no Jornal da Cidade em 27/02/2011

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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Realidade e paraíso

Ricardo Lacerda de Melo (Assessor Econômico do Governo de Sergipe)

O editorial do prestigioso periódico Jornal da Cidade de 17 de fevereiro de 2011 tece comentários sobre a mensagem do Governador Marcelo Déda durante a abertura dos trabalhos da Assembleia Legislativa de Sergipe no ano de 2011, sob o título O paraíso não é aqui. No seu direito inalienável de livre manifestação, procura argumentar que aquela mensagem passou a ideia de que a gente sergipana vive no paraíso, quando, assinala o editorial, a realidade dos fatos é outra.
O editorial não foi feliz em sua tarefa de avaliação, por não ter conseguido captar o cerne da mensagem ali pronunciada. A mensagem hora nenhuma traçou um cenário paradisíaco sobre a situação econômica e social de Sergipe. Na verdade, a mensagem fez um amplo relato das realizações do Governo de Sergipe no período 2007-2010, como exige o artigo 84 da Constituição Estadual, apresentou a situação das finanças públicas, mostrou os avanços obtidos em vários campos, reconheceu a persistência de problemas na saúde, na educação, na segurança pública e na infraestrutura, e apontou os desafios e os eixos de atuação do segundo mandato popular. Não fugiu dos problemas e das insuficiências das políticas públicas. Renovou, todavia, a confiança de que as dificuldades estão sendo enfrentadas e que Sergipe vai continuar seguindo em frente.
A mensagem tem como eixo central a renovação do compromisso do Governo de Sergipe com a inclusão social dos mais pobres. Mostrou com indicadores concretos os avanços obtidos, alguns deles os maiores já alcançados por Sergipe, na geração de emprego e renda, na interiorização do desenvolvimento, nas políticas educacionais e de saúde, enfim na inclusão social da gente sergipana mais pobre por meio do acesso às políticas públicas e da geração de oportunidades de trabalho - Inclusão pelo Direito e pela Renda.
Não traçou cenário de paraíso. Apresentou, sim, dados concretos de que o número de famílias em situação de pobreza extrema, a exemplo do que acontece em todo território nacional, vem caindo ano a ano, em função do conjunto de políticas públicas adotadas pelo governo estadual, em parceria com o governo federal, e do crescimento da nossa economia. Mostrou também, com dados concretos de conceituadas instituições nacionais, como a Fundação Getúlio Vargas(FGV) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que Sergipe tem avançado em indicadores econômicos e sociais e que, pela primeira vez na história, está no seu horizonte erradicar da pobreza extrema as famílias sergipanas que se encontram em tal situação, que são aquelas cujos rendimentos por membro integrante é inferior a ¼ do salário mínimo, até o ano de 2016
Com essa constatação, a mensagem faz um chamamento aos poderes e à sociedade para se somarem a essa missão, que, sintetiza, vai nortear todas as ações do governo nos próximos quatro anos.
O editorial não captou a o aspecto central da mensagem. Perdeu uma oportunidade de engrandecer o debate sobre as perspectivas da gente sergipana, que argumento, têm avançado significativamente nos últimos anos.

Publicado no Jornal da Cidade em 18/02/2011

O comércio varejista em 2010

Ricardo Lacerda

A expansão do consumo das famílias tem sido um dos aspectos mais marcantes crescimento recente da economia brasileira. O volume de vendas do comércio varejista no Brasil, em 2010, cresceu 10,87% na comparação com 2009, o melhor resultado da série histórica iniciada em 2001. Entre 2004 e 2010, o mercado de consumo brasileiro cresceu 70,8%, ou seja, o tamanho do mercado de consumo é hoje mais de 2/3 maior do que no início da década. A força da recuperação do mercado de varejo desde o início de 2009 fez com que o volume de vendas em dezembro de 2010 se situasse 17,1% acima do patamar anterior à crise econômica internacional, em setembro de 2008.

2010


A expansão do comércio em 2010 foi movida pelo crescimento do emprego, da renda e do crédito. Segundo o IBGE, as atividades comerciais que mais contribuíram para o incremento do volume de vendas no varejo foram aquelas integrantes do segmento de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo que, com o crescimento de 8,96% no ano, responderam por 39,9% do total do crescimento.
As atividades que tiveram as taxas de crescimento mais elevadas no ano, na comparação com 2009, foram as de comercialização de material de informática, de escritório e de comunicação, que abrangem as vendas de celulares, notebooks, tablets, entre outros, que registraram incremento de 24,1%, apesar de não terem pesos tão expressivos nas vendas totais quantos os segmentos de alimentação, de vestuário ou de produtos farmacêuticos. O comércio varejista de móveis eletrodoméstico, outro segmento muito dependente de crédito, alcançou o crescimento de 18,31% no ano.
As vendas de produtos farmacêuticos e cosméticos tiveram incremento de 11,87%, e os produtos de papelaria, jornais e revistas, 11,95%. Na verdade, todas as atividades pesquisadas apresentaram aumentos muito elevados nas vendas. As atividades de menor crescimento foram as agrupadas no item outros artigos de uso pessoal e domésticos, que aumentaram 8,78%. (Ver gráfico 1).


Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio


Ritmo de crescimento


O crescimento do volume de vendas do comércio desacelerou-se nos últimos meses. Na série de dados que isola os efeitos sazonais, o comércio varejista cresceu 1,9% em agosto, 0,4%, em setembro, 0,1% em outubro, 0,8% em novembro e manteve-se no mesmo nível em dezembro (0,0%), o que significa que a taxa de crescimento anualizado que desde agosto vem se mantendo acima de 10%, deverá se retrair rapidamente nos próximos meses. (Ver gráfico 2).



Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio


Com as medidas recentes do governo federal de restrição e de encarecimento do crédito, e mesmo com o reajuste menor do salário mínimo em 2011, o crescimento das vendas no comércio varejista deverá desacelerar nos próximos meses. Isso deve acontecer, todavia, em um patamar bastante elevado de vendas, mantendo aquecidas as atividades comerciais. No próximo artigo, examinaremos as diferenças nas taxas de crescimento recentes no comércio varejista de estados e regiões.


Publicado no Jornal da Cidade em 20/02/2011

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A inflação e o preço dos alimentos

Ricardo Lacerda


O governo federal iniciou o ano de 2011 com a adoção de uma série de medidas restritivas na política econômica que, certamente, não tem agradado a população brasileira. A percepção de que a inflação se distancia rapidamente da meta de 4,5% ao ano, acionou o sistema de alerta, fazendo com que o governo tenha respondido com medidas monetárias, de redução da liquidez e de elevação da taxa básica de juros, e medidas fiscais, com anúncios de corte de gastos previstos no orçamento, além de ter adotado uma posição menos flexível nas negociações relativas ao reajuste anual do salário mínimo. Tais atitudes, em conjunto, apontam para a percepção do governo da necessidade de desacelerar o crescimento da economia nesse início de ano.
O IPCA
A meta central de inflação para 2010 e 2011 foi fixada pelo governo federal em 4,50%, com uma margem de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. No acumulado de doze meses completados em janeiro, o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 5,99%. Ainda que dentro da margem, a combinação da aceleração da taxa de inflação nos últimos meses, do forte incremento do consumo e de indicadores de pressão no mercado de trabalho e no nível de capacidade ocupada conformou um cenário de urgência no enfrentamento da questão inflacionária, inclusive para sinalizar, interna e externamente, o compromisso do novo governo com a estabilidade econômica.

Fonte: IBGE- IPCA

Um motivo de preocupação adicional é que a variação nos preços dos alimentos tem sido o principal fator de pressão sobre o IPCA. No acumulado de doze meses, completados em janeiro, o preço da alimentação e das bebidas aumentou 10,42%, quase o dobro do índice geral e quase três vezes o índice acumulado em janeiro de 2010, que havia se situado em 3,56%.

Alguns analistas têm apontado que a pressão inflacionária tem sido sentida também nos preços de bens e serviços não transacionáveis, ou seja, bens e serviços que o consumidor não tem a opção de adquirir de fornecedores situados em outros mercados, como são os casos das despesas pessoais, cujos preços médios subiram 7,42% nos últimos doze meses, os gastos com habitação, 5,33%, e os de saúde e cuidados pessoais, 5,18%.

O gráfico 1, todavia, mostra, sem sombra de dúvidas, que o preço dos alimentos tem sido, de fato, o cerne do problema inflacionário mais recente. Os demais itens praticamente repetiram os números de janeiro de 2010, ainda que alguns venham se mantendo acima da meta para o índice geral.

Alimentos
O preço dos alimentos sofreu forte aceleração a partir de setembro de 2010. Nos acumulado de doze meses de janeiro de 2011, o índice de preços de alimentos consumidos nos domicílios subiu 10,68% e o de alimentação fora dos domicílios teve incremento de 9,9%. O grupo de cereais, leguminosas e oleaginosas aumentou 9,47%, o feijão subiu mais de 30% e o preço da carne, 27%.

A rápida aceleração nos preços dos alimentos tem alguns componentes internos e outros internacionais. Problemas climáticos na Rússia têm causado forte impacto no preço do trigo, e na Índia, sobre o preço do açúcar, que subiu mais de 20% nos últimos doze meses no mercado interno. Mas o fato mais significativo tem sido a retomada do aumento da demanda por alimentos no mercado internacional, puxada pela expansão nos mercados emergentes, com destaque para a China, e no mercado interno.

O gráfico 2 ilustra o comportamento do IPCA-Geral e do IPCA- Alimentação e Bebidas, desde janeiro de 2008. A linha contínua representa a evolução do IPCA-Alimentação e Bebidas, no acumulado de doze meses, e a linha pontilhada a evolução do IPCA- Geral. A partir do segundo trimestre de 2008, o índice de alimentação e bebida, em doze meses, empinou fortemente, até atingir 15,79%, em junho. Nos meses seguintes, com a queda abrupta nas cotações das commodities alimentares por conta da crise internacional, a variação positiva deste índice de preço, em doze meses, chegou a cair para o patamar de 3,19%, em dezembro de 2009.

No primeiro semestre de 2010, o IPCA- Alimentação e Bebidas foi fortemente pressionado pelas inundações em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas passou a ter um comportamento mais suave já a partir de junho. Desde setembro de 2010, todavia, este índice entrou em uma trajetória perigosamente ascendente, até atingir os 10,42% já citados, no acumulado de doze meses em janeiro de 2011.

Em parte por problemas climáticos externos, em parte por conta do aquecimento do consumo no mercado interno e no mercado internacional, os preços dos alimentos no Brasil, no início de 2011, retomaram a trajetória ascendente tal como ocorria no período imediatamente anterior à crise financeira internacional, pressionando o IPCA dos últimos meses. Frente a este quadro, o governo acendeu o sinal de alerta e acionou as políticas de contenção fiscal e monetária.


Fonte: IBGE- IPCA


Publicado no Jornal da Cidade, em 13/02/2011


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A interiorização do emprego formal em Sergipe

Ricardo Lacerda

Um dos mais aspectos mais interessantes do ciclo expansivo atual da economia brasileira é o processo de criação de empregos com carteira de trabalho nos municípios do interior. Ainda que, na maioria dos estados, o emprego metropolitano tenha crescido, nos últimos quatro anos, a taxas superiores as médias dos estados, o emprego fora das regiões metropolitanas aumentou consideravelmente em termos absolutos. Em 2010, foram criados no Brasil mais de 1 milhão de empregos nos municípios não pertencentes a regiões metropolitanas.

Geração de Emprego

Desde 2007, o emprego formal no interior do Estado, entendido como integrado pelos municípios não pertencentes ao aglomerado urbano da Grande Aracaju (além da capital, os municípios de Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros e São Cristovão) vem aumentando progressivamente. Depois dos 2.003 empregos gerados no interior no ano de 2006, o número de novos empregos cresceu para 3.903, em 2007, e alcançou 5.016, em 2008. Por conta da crise financeira internacional, houve certo recuo em 2009, quando foram criados 3.359 empregos formais, e, finalmente, o resultado exuberante de 2010, até o mês de novembro, com a geração de 9.506 empregos no interior do Estado. (Ver Gráfico).


Fonte: MTE- CAGED. Obs. * Municípios não pertencentes a Grande Aracaju (N. Sra. D Socorro; Aracaju, B. dos Coqueiros; e São Cristovão). ** Os dados de 2010 são relativos ao período jan-nov.

O emprego formal nos municípios do interior de Sergipe vem, em média, crescendo a taxas mais elevadas do que as apresentadas por Aracaju e pelos demais municípios da região metropolitana, fazendo com que a participação dos primeiros tenha aumentado no total do emprego formal gerado no Estado. Ou seja, não apenas o emprego formal vem se acelerando nos municípios do interior, como ele vem aumentando a participação no emprego formal que vem sendo gerado em Sergipe.

O movimento de expansão mais acelerada do emprego no interior fica mais bem ilustrado quando são comparados os quadriênios 2003-2006 e o 2007-2010, até o mês de novembro desse último ano. Enquanto no primeiro período foram criados 7.724 empregos nos municípios não integrantes da Grande Aracaju, entre 2007 e 2010, o número de empregos formais criados nestes municípios quase triplicou, na verdade cresceu 181%, alcançando o montante de 21.684 novas vagas.

No primeiro período, em torno de 2/3 dos empregos (68%) foram criados em Aracaju e 72% na Grande Aracaju. Entre 2007 e 2010, apesar da geração de emprego ter sido maior em todas as áreas do que no período anterior, a Capital respondeu por menos da metade do emprego gerado em Sergipe, 48%, e na soma de Aracaju com os demais municípios da região metropolitana, alcançou-se 58%. A outra face é de que, entre 2003 e 2006, o emprego formal no interior representou apenas 28% do total do Estado, e, entre 2007 e 2010, essa participação foi alçada para 42%. (Ver Tabela)


Fonte: MTE- CAGED. Obs. * Municípios não pertencentes a Grande Aracaju (N. Sra. D Socorro; Aracaju, Barra dos Coqueiros; e São Cristovão). ** Os dados de 2010 são relativos ao período jan-nov.

Municípios e Setores

Nos últimos quatro anos, os municípios sergipanos, não pertencentes à Região Metropolitana de Aracaju, que mais criaram emprego foram, por ordem, Capela e Nossa Senhora das Dores, por conta da instalação de Usinas Processadoras de Cana-de-Açúcar; Itabaiana, com destaque para o comércio, extração mineral, alojamentos e comunicação e outras atividades, e Frei Paulo, com a indústria de calçados.

Criaram contingentes também expressivos de novos empregos os municípios de Itaporanga D´Ajuda, com a construção civil, indústria de alimentos e profissões técnico-administrativas; Lagarto, com comércio varejista, indústrias de calçados e de alimentos, e serviços de alojamento e comunicação; Simão Dias, calçados e construção civil; Estância, comércio, construção civil, indústria de bebidas e metalúrgica; Laranjeiras, construção civil e agricultura; Propriá, construção civil, comércio varejista e indústria de alimentos e bebidas; Carmópolis, administração técnico-profissionais, transporte e comunicação, construção civil e metalúrgica; e, Nossa Senhora da Glória, comércio, industria de mobiliário e alojamento e comunicação.

A interiorização do emprego formal concorre para o desenvolvimento mais equilibrado territorialmente. O ciclo expansivo de geração de emprego nos últimos teve como um das características fundamentais a criação de tais empregos mais estruturados também em municípios não pertencentes á região metropolitana, em segmentos diversos da atividade econômica, mas com concentração nas indústrias de calçados e de alimentos e bebidas, na agroindústria canavieira, no comércio, e na construção civil.



Publicado no Jornal da cidade, em 05/02/2011

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