Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Republicação: A gestão da economia sob um governo sitiado

Publicado em 17 de abril de 2016


Ricardo Lacerda
Vivemos tempos extraordinários. Desde as mobilizações de rua de junho de 2013, o Brasil experimenta um processo de ebulição social que vai exigir o transcorrer de muito tempo para ser compreendido em sua inteireza. Muito mais insondáveis são os desdobramentos da crise atual em termos de desenvolvimento econômico e social em um horizonte de 20 ou 30 anos.
Já foi dito que a história é escrita pelos vencedores mas é impossível antecipar qual vai ser a narrativa predominante nas décadas de 2030 e 2040 sobre a crise atual.
Escrevo no calor dos acontecimentos, mais com o intuito de fazer um registro para a posteridade do que com a pretensão de interferir no debate corrente sobre as causas da crise econômica que paralisa o crescimento e joga o país em uma conflagração entre blocos de poder das mais acirradas do seu período republicano. Não tenho a veleidade de estar certo e de que outros estão errados. Faço meramente um registro de minha percepção sobre a crise atual.
O cerco político
A votação do impedimento da presidente Dilma Rousseff pela câmara federal no dia de hoje culmina o sítio que foi formado em torno ao seu governo desde o dia seguinte à eleição para o segundo mandato em outubro de 2014. O agravamento da crise econômica deu o lastro para a disseminação da insatisfação popular.
A questão que se coloca é como a situação política e o quadro econômico foram se deteriorando, em um processo de alimentação mútua, até chegar ao cenário do dia de hoje.
Diria que há duas ordens de questões, uma decorrente da insatisfação gerada pela crise econômica que se estende e outra atinente ao ressentimento que foi se acumulando em segmentos sociais tradicionalmente privilegiados como reação às massivas políticas de inclusão social adotadas pelo bloco político liderado pelo Partido dos Trabalhadores.
Irresignados com o resultado das eleições de 2014, muitos segmentos do empresariado, da classe política, do sistema judiciário e a totalidade da grande mídia, formaram um bloco de ataque ao poder que não deu trégua um só dia, desde antes mesmo de a Presidente tomar posse do seu segundo mandato consagrado pelas urnas.
O cerco formado no parlamento impediu na prática a gestão da economia. Além de não colocar em votação as medidas de ajuste necessárias à retomada da confiança em relação à gestão fiscal, o parlamento acenava a todo momento com a adoção de medidas de uma “pauta bomba”, e outras manobras, com o propósito explícito de erodir a já reduzida capacidade do poder executivo de governar.
Nas semanas mais recentes, a atuação de setores do sistema judiciário atingiu as raias do deboche, com a interdição da possibilidade de uma presidente legitimamente constituída nomear seu ministro da justiça. Frente a um cerco dessa força e abrangência, o governo restou sitiado, sem recursos políticos para se contrapor à maré montante de insatisfação instigada pela mídia, em que escândalos de corrupção eram seletivamente vazados com o claro intuito de atingí-lo.    
Foram desferidos pelo bloco de poder antagônico ataques impensáveis, incompatíveis com o regime democrático e o estado de direito, até o ponto de serem instaladas “escutas oficiais” nas dependências do gabinete presidencial. Nessa quadra, as forças de oposição, apesar de derrotadas nas urnas, estavam prontas para a tentativa do assalto final ao poder. Para tanto, recorreram a artifícios para dar ares de legalidade à derrubada do governo.
Os desequilíbros econômicos
A resposta expansionista da política econômica interna, após a crise financeira internacional atingir fortemente os países emergentes a partir de 2013, acionou uma série de desequilíbrios macroeconômicos, dentre os quais, aqueles de mais graves consequências foram a deterioração da situação fiscal e a fragilização do balanço de pagamentos.
O maior equívoco da gestão da economia, em sua ânsia de amortecer os efeitos recessivos, foi não dar transparência aos desequilíbrios que foram se formando, inclusive pela adoção de uma série de mecanismos ad hoc de estímulos setoriais que concorreram para a fragilização da situação fiscal.
As medidas de ajustes, postergadas para 2015, agudizaram a insatisfação popular na medida que corroeram o poder de compra e atingiram fortemente o mercado de trabalho, enquanto a situação fiscal se agravou muito com a queda da arrecadação.
Por mais graves que tenham sido os descontroles, a crise econômica per si não teria sido causa suficiente para inviabilizar a reorganização das finanças e promover uma retomada moderada do crescimento, não fosse a acelerada deterioração do quadro político. Relativamente ao cenário de 1999, a situação estritamente econômica no início de 2015 poderia ser enfrentada com sacrifícios infinitamente menores, não fosse o ataque sistemático do bloco de oposição, que recorrentemente fez uso de instrumentos inaceitáveis em um regime democrático.
Foi o cerco político que progressivamente asfixiou a capacidade do governo gerir a economia.
Perspectivas
Seja qual for o desfecho do processo impedimento da Presidente, não vai ser fácil reverter a realimentação mútua entre a crise política e a deterioração do quadro econômico. O fosso que foi aberto na sociedade e o esgarçamento do aparato institucional apontam para um cenário ainda nebuloso de como reconstruir a confiança nas instituições.
A construção de uma nação solidária exige, é fato, responsabilidade na condução de assuntos de natureza fiscal. Tampouco prescinde da observação do princípio da soberania popular.



quinta-feira, 9 de abril de 2020

Sergipe no século XXI: crescimento, crise e reposicionamento da estratégia de desenvolvimento econômico (1)

Inicio com o artigo de hoje uma série que pretende examinar a evolução da economia sergipana ao longo das duas primeiras décadas do século XXI. Em sua íntegra, trata-se de um ensaio que busca acompanhar o comportamento da economia de Sergipe durante a ascensão e crise da economia brasileira no período e identificar os principais desafios que se colocam para que Sergipe volte a apresentar um novo ciclo virtuoso de crescimento, com geração de emprego e inclusão social.
Desde a década de 1970, a dinâmica de crescimento da economia sergipana está associada, à semelhança da maioria dos estados da federação, mas com algumas especificidades, ao movimento geral da economia brasileira, acompanhando em linhas gerais os seus períodos de prosperidade e de recessão (Ver GUIMARÃES NETO, 1989; GUIMARÃES NETO, 1993; ARAÚJO, T., 1995). Nesse sentido, o desenvolvimento da economia sergipana tem como seu principal determinante o ritmo e a natureza da expansão da economia brasileira e a incidência regional das políticas nacionais, sejam elas de cortes setorial, social ou de infraestrutura.
Um segundo conjunto de determinantes do crescimento da economia estadual está associado à exploração de suas riquezas minerais. O crescimento da economia sergipana depende, em grande parte, do comportamento das suas atividades de extração mineral, particularmente da produção de petróleo e gás natural, ainda realizada quase exclusivamente pela Petrobras, apesar de importantes novos campos de exploração, que ainda não se encontram em estágio operacional, contarem com investimentos de empresas internacionais. A presença da atividade petrolífera é tão marcante que o sergipano médio tem plena consciência da importância da Petrobras na economia estadual.
Quando, nos anos noventa, a cotação mundial do barril de petróleo despencou, os investimentos na exploração e produção de petróleo sofreram forte retração em Sergipe, com impactos muito significativos sobre o emprego, a renda e as finanças públicas.
A economia sergipana que, nas décadas de 1970 e 1980, havia acelerado seu crescimento e passado por radical transformação na sua estrutura produtiva, com a implantação de grandes plantas produtivas de propriedade estatal para exploração de petróleo e para produção de fertilizantes nitrogenados e de potássio, desacelerou o crescimento nos anos noventa e inverteu ao longo daquela década a marca de crescer sistematicamente acima das médias do crescimento regional e do país. Alguns estudos são fundamentais para compreender as transformações econômicas de Sergipe a partir da década de 1970. Entre outros, Melo, R. (2012a e 2012b), Feitosa, C. (2007), Santana, N. (1991). Melo, M. (2012) e Barreto, D. (2013).
Um terceiro conjunto de determinantes está associado ao desempenho do setor agrícola, em grande parte dependente da combinação de preços favoráveis, disponibilidade de crédito e regime de chuvas.  A esse respeito, é importante destacar que o semiárido sergipano vem enfrentando um longo período de estiagem, à semelhança do que vem ocorrendo em quase toda extensão do polígono da seca, cujo início remete ao ano de 2011, mesmo que de forma intermitente. Os efeitos da estiagem sobre a produção de grãos e oleaginosas foram recorrentemente devastadores, com retração de safra de mais de 70%, como foi o caso de 2016.  O comportamento pluviométrico é ainda fundamental na atividade de geração de energia hidroelétrica, que responde por parcela significativa do PIB estadual. Um regime de chuva desfavorável nas cabeceiras do rio São Francisco pode reduzir em até quatro vezes a participação da geração de energia elétrica no Valor Adicionado Bruto (VAB) da economia sergipana.
Finalmente, a articulação externa da base produtiva sergipana é essencialmente nacional, seja extra regional, seja regional. O peso do setor externo na economia sergipana é muito reduzido. A economia do estado tem um dos menores coeficientes de exportação do país. São orientadas para o comércio exterior apenas as atividades de produção de suco concentrado de laranja, parcelas da produção de calçados e açúcar e, em proporção bem inferior, a fabricação de produtos têxteis.
O ciclo e a crise
Durante a etapa ascendente do ciclo econômico brasileiro, iniciado em 2004, a economia de Sergipe acelerou o crescimento, diversificou sua estrutura produtiva por meio de atração de empresas, intensificou a geração de emprego formal na região metropolitana e no interior e ampliou os investimentos em infraestrutura produtiva e social. Todavia, quando a economia brasileira desacelerou em 2014, o nível de atividade estadual entrou em queda livre, entre 2015 e 2016, e manteve-se estagnado, nos anos de 2017 e 2018. A economia de Sergipe foi duramente atingida: a construção civil e a produção de cimento despencaram; e, a Petrobras desmobilizou ativos, reduziu a produção de petróleo e gás e desativou a unidade de produção de fertilizantes nitrogenados. Com os ventos adversos, a recessão não tardou em contaminar o mercado de trabalho e as finanças públicas.
Perspectivas
Em termos de perspectivas, o principal projeto estruturador do estado de Sergipe está associado à consolidação do seu Complexo Industrial-Portuário, tendo como indústrias-chave a Usina Termoelétrica Porto de Sergipe e a Unidade de Regaseificação de Gás Natural a ela associada, que podem abrir oportunidades de implantação de indústrias e empresas de prestação de serviços em seu entorno.
Também se revelou muito promissora a exploração de petróleo e gás natural em águas profundas na bacia de Sergipe-Alagoas, apontada como a mais importante fronteira de exploração da produção petrolífera no país, depois do pré-sal.
Nos artigos subsequentes, iremos examinar as especificidades que distinguem a economia sergipana das demais economias estaduais da região Nordeste e iniciar a avaliação do comportamento dos principais setores de atividade nas duas primeiras décadas do século XXI

Referências Bibliográficas
ARAÚJO, T. (1995) Nordeste, nordeste: que Nordeste? In: AFFONSO, R. & SILVA, P (Orgs). Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo. Fundap/Unesp.
BARRETO, D. (2013). A Construção do Desenvolvimento de Sergipe e o Papel do Condese (1964-1982). Editora Diário Oficial.
FEITOSA. C. As transformações recentes da economia sergipana (1970-2004). 2007. 228 f. Dissertação de Mestrado – Instituto de Economia, Unicamp, Campinas, 2007.
GUIMARÃES NETO, L. (1989) Introdução à formação econômica do Nordeste. Recife. Fundaj.
GUIMARÃES NETO, L. (1995) Desigualdades regionais e federalismo. In: AFFONSO, R. & SILVA, P (Orgs). Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo. Fundap/Unesp.
MELO, M. (2012). O legado desenvolvimentista do governo Augusto Franco. Editora Criação.
MELO, R. (2012a)  O ciclo desenvolvimentista em Sergipe:1970-2000. Economia Política do Desenvolvimento, v. 5, p. 10-68.
MELO, R. (2012b). Economia Sergipana Contemporânea (1970/2010). Editora UFS e Editora Diário Oficial.
SANTANA, N. (1991). A INSERÇÃO DO Estado de Sergipe na política de incentivos fiscais do Nordeste:1963-1988. Monografia (Especialização em Ciências Sociais)-UFS. Aracaju.


Publicado no Jornal da Cidade, de Aracaju, em junho de 2019

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Mercado de trabalho entra 2019 em desaceleração


Ricardo Lacerda

O mercado de trabalho brasileiro vem desacelerando a geração de novas ocupações ao longo dos últimos trimestres. Depois de encerrar o ano de 2017 com as ocupações totais registrando crescimento de 2,05%, o último trimestre de 2018 mostrou incremento de apenas 0,97% nas ocupações totais, sempre na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Em termos absolutos, foram criadas 1,89 milhão de novas ocupações na comparação entre os últimos trimestres de 2016 e 2017, e 890 mil novas ocupações na comparação dos mesmos períodos entre 2017 e 2018, menos da metade.
O fato é que em todos os principais tipos de inserção no mercado de trabalho os resultados mais recentes vêm apresentando melhorias mais lentamente do que há um ano atrás, refletindo a desaceleração no ritmo de crescimento econômico. A grande interrogação é se as fortes elevações dos índices de confiança nos últimos meses terão ou não o condão de estimular a retomada do crescimento econômico e, assim, impulsionar a criação de empregos em 2019.
Precarização
Após sete semestres subsequentes de crescimento do PIB, a taxa de desocupação na economia brasileira se mantém muito elevada. No trimestre móvel outubro-dezembro de 2018 a taxa de desocupação se situou em 11,6%, apenas 0,2 pontos percentuais abaixo do resultado do mesmo período do ano anterior. Em relação a quatro anos antes, trimestre outubro-dezembro de 2014, a taxa mais recente se posicionou 5,1 pontos percentuais acima (ver Gráfico 1).

Além da lentidão na queda da taxa de desocupação, chama a atenção a qualidade ruim das novas inserções no mercado de trabalho. O emprego formal no setor privado continuou declinando em 2018, registrando retração de novas 324 mil ocupações com carteira de trabalho. As novas ocupações, por sua vez, revelam inserções precárias: em 2018, a ocupação por conta própria respondeu por quase 50% do total criado e quase 1/3 das novas ocupações correspondem a empregos sem carteira assinada no setor privado.
Em termos de grupamentos de atividades no trabalho principal, chama a atenção a concentração das ocupações criadas nos segmentos de serviços sociais e outros serviços. Permanece grave a situação da ocupação na construção civil, que ainda não estabilizou o contingente de trabalhadores empregados; o setor vem apresentando sucessivas quedas na série que compara com mesmo período do ano anterior desde o trimestre móvel junho-agosto de 2016.



Fonte: IBGE, PNADC

Desaceleração

Além dos fatos relatados acima, relativamente bem conhecidos pelo público, há um dado novo e preocupante: a desaceleração na geração de novas ocupações nos últimos trimestres entre as ocupações consideradas mais precárias.
O Gráfico 2 apresenta as taxas de crescimento da ocupação total e do número de pessoas nos tipos de ocupações de maior de peso no mercado de trabalho, na comparação com iguais trimestres móveis do ano anterior. Observando-se a ocupação total indica-se que depois de crescerem 2,05% no último trimestre móvel de 2017, em relação a igual período de 2016, no trimestre móvel janeiro-março de 2018 essa taxa recuou para 1,84%; no segundo trimestre móvel (abril-junho de 2018), refletindo os efeitos da paralisação dos caminhoneiros, a taxa recuou ainda mais célere, para 1,11%. Na segunda metade do ano, apesar de alguma retomada no incremento na geração de ocupação no trimestre julho-setembro, a linha de tendência é claramente declinante, registrando-se nova forte desaceleração no último trimestre móvel de 2018.
Observando-se as evoluções dos principais tipos de ocupação, contata-se que a desaceleração foi generalizada entre os vínculos precários que vinham sustentando a retomada da ocupação, enquanto a ocupação formal no setor privado não mostrou sinal de animação maior, continuando a apresentar quedas sucessivas e ainda expressivas no número de pessoas ocupadas.
Assim, os empregos sem carteira de trabalho assinada que finalizaram o ano de 2017 apresentando taxa de crescimento de 5,69%, no último trimestre de 2018 registraram incremento de 3,84%; a taxa de crescimento dos empregadores, que cresceu 6,34% no final de 2017, no último trimestre de 2018 revelava forte desaceleração para 2,79%. Mesmo as ocupações por conta própria, último reduto de sobrevivência das famílias empobrecidas pela crise, já não cresciam em 2018 na mesma intensidade de 2017.
A desaceleração da retomada do mercado de trabalho a partir do segundo trimestre de 2018 pode ser atribuída, no primeiro momento, à paralisação dos caminhoneiros e, no segundo semestre, à instabilidade política interna e à piora relativa do cenário internacional. A expectativa para 2019 é de certa retomada no ritmo na geração de ocupações, apesar de todas as incertezas reinantes. 


Fonte: IBGE, PNADC

Publicado no Jornal da Cidade, em 03 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Nuvens no cenário externo


Ricardo Lacerda
Depois de um período, entre 2017 e parte de 2018, de aceleração e de sincronização de crescimento entre as maiores economias mundiais, o ano de 2018 se encerrou com moderação e assincronia no ritmo de crescimento entre os países líderes, limitando a retomada da atividade econômica nos mercados emergentes e países em desenvolvimento. 
Em 2019, China, Estados Unidos e Zona Europeia deverão registrar reduções na taxa de incremento do PIB, enquanto o Japão deverá manter o desempenho já rebaixado de 2018. A moderação no crescimento nas grandes economias, as novas rodadas de elevação nos juros básicos nos Estados Unidos e o recrudescimento das disputas comerciais são as principais ameaças à retomada do crescimento das economias em desenvolvimento, notadamente entre aquelas exportadoras de commodities, como são os casos dos países latino-americanos.
Exportadores de commodities
A edição de janeiro de 2019 do relatório Perspectivas Econômicas Globais, do Banco Mundial, aponta o aparecimento de horizonte nublado no cenário econômico em 2019, como resultado da combinação de certa moderação no ritmo de crescimento e condições financeiras menos favoráveis no cenário internacional. Os riscos afetariam especialmente Mercados Emergentes e Economias em Desenvolvimento (EMDEs, na sigla em inglês).
Alguns dos principais EMDEs já estariam se ressentindo de substanciais pressões do mercado financeiro, como são os casos da Argentina e da Turquia. A situação externa menos favorável vem afetando o crescimento dessas economias, retirando impulso na retomada do crescimento dos países exportadores de commodities, enquanto as economias emergentes importadoras desses bens apresentam desaceleração nos seus ritmos de crescimento. O relatório do Banco Mundial é seco nas suas conclusões sobre as perspectivas da economia mundial: o céu está escurecendo e a retomada dos Mercados Emergentes e das Economias em Desenvolvimento simplesmente parou.
O PIB argentino, depois de crescer 2,9%, em 2017, deve ter recuado 2,8%, em 2018, e, em 2019, deverá apresentar nova forte retração, projetada em 1,7%. No caso do Brasil, o relatório reviu para metade a projeção feita no meio do ano, de crescimento de 2,4% para 2018; a nova estimativa de crescimento para 2018 é de 1,2%, adição de apenas de 0,1 ponto percentual em relação ao PIB de 2017 (Ver Quadro).

Quadro. Taxa de crescimento do Produto Interno Bruto no Mundo e algumas áreas selecionadas, 2016-2020 (%)
Áreas
2016
2017
2018
2019
2020
Mundo
2,4
3,1
3
2,9
2,8
Economias Avançadas
1,7
2,3
2,2
2
1,6
EUA
1,6
2,3
2,9
2,5
1,7
Zona do Euro
1,9
2,4
1,9
1,6
1,5
Japão
0,6
1,9
0,8
0,9
0,7
China
6,7
6,9
5,8
5,5
5,6
América Latina e Caribe
-1,5
0,8
0,6
1,7
2,4
Brasil
-3,3
1,1
1,2
2,2
2,4
Argentina
-1,8
2,9
-2,8
-1,7
2,7
Índia
7,1
6,7
7,3
7,5
7,5
Fonte: Banco Mundial, GEP janeiro de 2019
Ameaças
Dois tipos de ameaças podem ter maiores impactos sobre as economias dos países em desenvolvimento: o acirramento e a difusão das disputas comerciais e o fim do impulso causado pelo miniciclo de valorização das commodities, sem que os EMDEs tenham aproveitado o período favorável para sanear a situação fiscal de suas economias e realizarem esforços para torná-las mais competitivas. A desaceleração no crescimento de algumas maiores economias do mundo, em especial da China, já se reflete nos preços das commodities, fechando uma janela de oportunidade para os EMDEs. Em outras palavras, a moderação no crescimento global restringe a retomada no crescimento desses países.
O relatório destaca que o aperto mais acentuado do que esperado anteriormente nas condições de financiamento poderá impactar desfavoravelmente a atividade econômica dos EMDEs e assinala que a escalada das tensões comerciais é outra grande ameaça para a perspectiva global. Os gráficos 1 e 2 apresentam a evolução do PIB de algumas das principais economias entre 2016 e 2018 e as projeções do Banco Mundial para 2019 e 2020.



Fonte: Banco Mundial, GEP janeiro de 2019



Fonte: Banco Mundial, GEP janeiro de 2019



Publicado no Jornal da Cidade, em 20/01/2019