Praça São Francisco, São Cristovão- SE

Praça São Francisco, São Cristovão- SE
Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

domingo, 18 de dezembro de 2016

A ficha caiu

Ricardo Lacerda*
Depois de um terceiro trimestre com resultados muito ruins, a economia brasileira iniciou o ultimo trimestre de 2016 confirmando a trajetória de aceleração do ritmo de queda do nível de atividade, enquanto o aguardado choque de confiança simplesmente faltou ao encontro marcado.
Comércio varejista, indústria e serviços recuaram no mês de outubro e as edições dos índices setoriais de expectativas de outubro e novembro oscilaram entre estagnação ou queda na confiança de consumidores e empresas. Crise política e recessão se reforçam mutuamente e já ninguém arrisca prognóstico de quando o nível de atividade chegará ao fundo do poço.
A mudança do humor é patente, sendo constatada tanto nas sondagens de mercado quanto nas pesquisas de opinião junto aos eleitores. Com o chão abrindo aos seus pés depois de delações de crimes de corrupção envolvendo a alta cúpula da administração, o governo federal recorreu às pressas a arremedos de estímulos à economia por meio de alguma recomposição do poder de compra de famílias e de empresas, asfixiado pelo alto nível de endividamento.  
As medidas anunciadas contemplam a reestruturação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), renegociação de dívida com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o diferimento no pagamento de tributos por parte das empresas. Em uma segunda etapa, poderá ser regulamentada a utilização de parcela do FGTS para abater dívidas das famílias.
Reação tardia
Analistas próximos ao governo alertavam já há alguns meses que o ritmo de atividade da economia sinalizava o aprofundamento da recessão no terceiro trimestre e recomendavam que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (COPOM) acelerasse o ritmo de redução da taxa básica de juros da economia. Por duas reuniões subsequentes, o comitê decidiu por limitar a queda dos juros em 0,25 ponto percentual.
Na reunião dos dias 18 e 19 de outubro, o Copom literalmente fez pouco caso do agravamento do quadro recessivo, comunicando na ata da reunião que não se impressionava com os números ruins do nível de atividade no terceiro trimestre e que, apesar da queda dos índices de preço ao consumidor, os preços dos serviços ainda resistiam a cair, exigindo “persistência” na política monetária.  Ao final da reunião, o Copom decidiu pela redução de 0,25 pp na taxa básica, o que na prática sinalizou a elevação na taxa de juros reais, frente à perspectiva de queda acentuada nos índices de preço. Na reunião seguinte, nos dias 29 e 30 de outubro, mesmo com a forte deterioração desde a reunião anterior, o Copom manteve a política de redução de 0,25 pp, com a diferença que agora reconhecia o agravamento do quadro recessivo. Vale a pena comparar o item que trata do nível de atividade econômica nas atas das duas reuniões.
Na Ata da 202ª reunião do COPOM, de 18 e 19 de outubro de 2016, o Copom registrava que 3. Oscilações no atual estágio do ciclo econômico são comuns e provavelmente explicam os resultados recentes. No seu conjunto, a evidência disponível é compatível com estabilização recente da economia brasileira. Índices de confiança, expectativas de crescimento do PIB para 2017 apuradas pela pesquisa Focus e o comportamento de prêmios de risco e preços de ativos apontam para uma possível retomada gradual da atividade econômica.”
Seis semanas depois, na 203ª reunião do COPOM de 29 e 30 de novembro, reconhecia-se que os recuos dos indicadores de atividade não eram meramente flutuações naturais do ciclo de negócios “3. Após os recuos dos indicadores de atividade econômica relativos a agosto, a ausência de uma reversão nos meses seguintes torna menos provável o cenário em que esses movimentos refletiriam oscilações naturais da atividade econômica em torno de momentos de estabilização. Aumenta, portanto, a probabilidade de que a retomada da atividade econômica seja mais demorada e gradual que a antecipada previamente”.
Apesar do reconhecimento da piora do cenário, o Copom persistiu no ritmo de redução da taxa básica. Em eventos posteriores, o presidente do Banco Central teria declarado que estava sofrendo horrores de pressão para acelerar a queda da taxa de juros nas próximas reuniões do Copom.
Outubro
No mês de outubro, os indicadores do nível de atividade sinalizaram a continuidade do agravamento do quadro recessivo. O volume de vendas do comércio varejista recuou 0,8%, na série livre de efeitos sazonais, no pior resultado para o mês desde 2008. O volume de serviços e a produção industrial despencaram, respectivamente, 2,4% e 1,1%.
O Índice de Atividade do Banco Central sintetiza o movimento recente registrando a aceleração do ritmo de queda no cálculo trimestral. Na comparação entre o trimestre agosto-outubro e o trimestre anterior (maio-julho) o IBC-BR caiu 1%, quando havia se retraído 0,6% no trimestre encerrado em setembro. Na comparação do trimestre agosto-outubro com o trimestre móvel anterior (julho-setembro), o IBC-BR recuou 0,5%, frente a queda de 0,3% no trimestre encerrado em setembro (ver Gráfico).
Frente ao agravamento da crise política, a equipe econômica corre atrás do prejuízo. O prazo para mostrar resultados positivos na atividade econômica encurtou, a ficha caiu, e a equipe econômica soma-se à operação deflagrada para salvar o governo Temer.

 Fonte. Banco Central do Brasil.

Publicado no Jornal da Cidade, em 18/12/2016

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

2016, o ano terrível


Ricardo Lacerda

Aproximando-se do fim, o ano 2016 não vai deixar saudades. Na política, o ano se iniciou com o cerco final ao governo eleito e está findando com uma crise entre os poderes da república reveladora do grau de esgarçamento institucional do país. Nessa dimensão, 2016 talvez possa ser sumariamente caracterizado como o ano do golpe parlamentar que afastou a presidente da república e como o ano em que a Operação Lava Jato acuou o mundo político e sua interface empresarial. É no mínimo difícil antecipar quais serão os desdobramentos da crise política e institucional em que estamos enredados, da mesma forma como o roteiro da crise tem fugido ao controle dos principais atores intervenientes.
Na dimensão econômica, o ano de 2016 ficou marcado pelo aprofundamento da recessão e pela nova tentativa de aprovar no congresso nacional as duras medidas de ajuste fiscal, em meio a quedas contínuas nas receitas públicas. Frente ao quadro de recessão profunda, restou a opção de adotar uma estratégia de ajuste gradualista em que os resultados fiscais somente começarão a ser produzidos ao custo de duradoura recessão.
A síntese do ano em termos sociais é o ingresso de 2,96 milhões de pessoas no contingente de trabalhadores desocupados. Em termos empresariais, a retração no faturamento e o crescimento do endividamento consolidaram perspectivas difíceis.
Recessão longa e abrangente
Não bastassem os efeitos da compressão da demanda e da crise de confiança sobre o nível de atividade, a estiagem que assola o país fez com que a safra de grãos recuasse mais de 10% em comparação ao ano anterior e, no caso da região Nordeste, que a queda na produção do setor alcançasse cerca de 40%. Ao fim de 2016, indústria, agricultura e serviços, solidariamente, terão despencados na comparação com o ano anterior, em uma queda simultânea inédita na série estatística iniciada em 1996. No acumulado de quatro trimestres completados no 3º trimestre, em relação ao mesmo período anterior, o PIB agropecuário declinou 5,6%, a atividade industrial, 5,4%, e o setor de serviços, 3,2%.
Do ponto de vista do dispêndio, nessa série de quatro trimestres acumulados, até o mês de setembro o consumo das famílias encolheu 5,2%, o investimento em capital fixo, 13,5%, e o consumo do governo, 0,9%.
O setor exportador, ainda que não tenha concorrido para deprimir o PIB, não foi capaz de gerar um impulso de maior significado sobre o conjunto da economia. Nessa série, o PIB total manteve quedas de mais de 4% ao longo de todo o ano de 2016 (ver Gráfico).
Fonte: IBGE-CNT
Chances de reversão
É sempre custoso interromper o ciclo vicioso de declínio do nível de atividade a fim de retomar o crescimento e dar início a um novo ciclo virtuoso. Algumas abordagens mais pessimistas apontam que o caminho do crescimento é como “o fio da navalha”, ao longo do qual pequenos desvios para baixo poderiam dar origem a mecanismos de autorreforço que empurrariam a economia mais e mais para a recessão. Somente fatores exógenos ao sistema, como a melhoria do cenário internacional ou a ação de estímulo promovida pelo setor público, seriam capazes de sustar o declínio. Ou que, pelo menos, a duração e o custo da recessão seriam muito maiores na ausência desses estímulos.
Outras abordagens, menos pessimistas, argumentam que o ciclo de negócios conta com mecanismos próprios de amortecimento da crise que, com o tempo, seriam capazes de reverter a trajetória de descendente para ascendente. A crise seria uma oportunidade para sanear finanças públicas e privadas para que o peso do passado não restringisse a retomada da economia e para que ela voltasse a crescer em bases mais saudáveis, no novo ciclo que se avizinhasse. O período de ajuste é, também, o momento em que se definem os ganhadores e perdedores no ciclo seguinte, em termos de setores, segmento de classes sociais e regiões. Em outras palavras, quem paga o pato do ajuste e quem se beneficiará mais no período seguinte.
Ao findar 2016, estaremos ainda na metade do percurso entre a interrupção do ciclo vicioso e as bases de uma retomada. São muitos, incertos e potencialmente desestabilizadores os percalços nesse caminho, tanto os de origem externa quanto os oriundos do cenário doméstico, dentre os quais, certamente, o mais grave é o esgarçamento do ambiente político e institucional. Meus votos para que, ao final de 2017, tenhamos um balanço mais promissor de nossas perspectivas.


Publicado o Jornal da Cidade, em 11 de dezembro de 2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

Recessão e mercado de trabalho no Nordeste

Ricardo Lacerda

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil recuou 0,8% no terceiro trimestre de 2016, em relação ao segundo trimestre, em uma nova aceleração no ritmo de queda da atividade econômica, depois de quatro trimestres em que a taxa de retração vinha encolhendo.
É a sétima redução consecutiva do PIB quando se compara com o trimestre imediatamente anterior e a décima seguida em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. As projeções mais recentes apontam para a estabilização do nível de atividade para algum trimestre ainda indefinido do próximo ano. Nessa semana, a OCDE reviu de 0,3% para zero o crescimento do PIB do Brasil para 2017 e o Bradesco, de 1% para 0,3%. 
O desempenho da economia do Nordeste, a região mais pobre do país, tem se apresentado ainda pior do que a média nacional. O Índice de Atividade do Banco Central da economia do Nordeste recuou quase dois pontos percentuais a mais do que a média do país, na comparação entre o terceiro trimestre de 2016 e o mesmo período de 2015.
Nessa série que compara com o mesmo trimestre do ano anterior, desde o trimestre fevereiro-abril de 2016 a economia do Nordeste apresenta desempenho pior do que a média do Brasil e desde o trimestre junho-agosto de 2015 que o desempenho da região é inferior ao do Sudeste, a região mais rica e industrializada do país.  
Parte desempenho pior do Nordeste decorre dos efeitos da seca que assola a região, mas uma parte expressiva do ritmo mais acentuado de queda da economia regional está associada à crise da construção civil e  e dos efeitos sobre o setor serviços decorrentes da intensificação da deterioração do mercado de trabalho iniciada em outras atividades. Há, portanto, em andamento um ciclo intensamente vicioso no mercado de trabalho da região que vai se disseminando pelo vários setores de atividade.
Mercado de trabalho
Enquanto na média do país o contingente de pessoas ocupadas encolheu 2,4% na comparação do 3º trimestre de 2016 e o mesmo trimestre de 2015, no Nordeste a retração atingiu 6,4%, mais do que o dobro.  Nessa comparação, das 2,26 milhões ocupações perdidas no país, simplesmente 1,46 milhão, equivalente a 65% do total se concentrou no Nordeste, uma distribuição inteiramente desproporcional ao peso regional no mercado de trabalho brasileiro. A queda do emprego com carteira assinada no Nordeste foi ainda mais acentuada do que a da ocupação total e também superior à média nacional, atingindo 7,9%, frente ao encolhimento em 3,7% da média do país (ver Gráfico 1).


Fonte: IBGE- PNAD Contínua

Declínio acentuado em 2016
Ao longo de 2016, o mercado de trabalho no Nordeste foi se desmanchando em ritmo mais intenso do que no ano anterior. A queda na ocupação regional se iniciou na construção civil e na agropecuária ainda no 1º trimestre de 2015 e estendeu-se para a indústria geral (indústria de transformação e extração mineral) no segundo semestre de 2015. A contínua deterioração da economia regional se disseminou de forma crescente entre a miríade de ocupações das atividades de serviços e, já em 2016, atingiu o segmento de maior peso na ocupação regional, representado pelas atividades de comércio, transporte e armazenagem, responsável por cerca de 25% do total (ver Gráfico 2). Em meio à crise das finanças de estados e municípios, a ocupação na administração pública também começa a declinar.

Fonte: IBGE- PNAD Contínua
Com a deterioração do mercado de trabalho, a taxa de desocupação do Nordeste saltou de 10,8%, em julho-setembro de 2015, para 14,1%, em julho-setembro de 2016. Nesse último trimestre, quase 1/3 da força de trabalho da região se encontrava subutilizada, entre pessoas desocupadas, desalentadas e pessoas que estavam disponíveis para trabalhar mais horas, cerca do dobro do peso desse contingente na região Centro-Oeste e mais do que duas vezes no caso da região Sul, ainda que o mercado de trabalho venha se deteriorando em ritmo intenso em todas as regiões.


Publicado o Jornal da Cidade, em 04/12/2016

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

Varejo em queda livre


Ricardo Lacerda*
Desde o 1º trimestre de 2015, quando as medidas de ajuste da economia brasileira começaram a ser implementadas, que o comércio varejista vem decaindo. São sete trimestres subsequentes de encolhimento no volume de vendas. O dado novo do 3º trimestre de 2016 é que o ritmo de queda acentuou-se, registrando recuo de 1,7%, quando no 2º trimestre havia se retraído em 0,5%. No acumulado de janeiro a setembro, o volume de vendas do varejo caiu 6,5% em comparação com o mesmo período de 2015, queda muito superior à retração do PIB, quase dois pontos percentuais a mais. O varejo ampliado, que agrega ainda as vendas de veículos e peças automotivas e de materiais de construção, recuou incríveis 9,2% no acumulado do ano.
Sob o regime de ajuste, a economia brasileira enfrenta situação inversa a do período imediatamente anterior quando o varejo e o consumo cresciam à frente do PIB; no período de ajuste, consumo e varejo encolheram em ritmo mais acentuado do que o nível de atividade.
Restrições ao crédito, juros muito elevados, intensa deterioração do mercado de trabalho e a frustração em relação aos efeitos da melhoria confiança causada pela mudança de governo são alguns dos principais motivos que explicam o desempenho ruim do varejo e dificuldade em estabilizar o nível de vendas. A eles devem ser agregados outros fatores associados ao declínio do nível de atividade e à crise política, como a forte deterioração das finanças de estados e municípios que vem provocando atraso no pagamento do funcionalismo e dos fornecedores, os colapsos na construção civil e na construção naval e as dificuldade enfrentadas no setor de petróleo e gás.
Renda corrente e confiança
Os segmentos do varejo cujas vendas são mais dependentes de crédito e da confiança das famílias em relação ao futuro apresentaram quedas muito mais acentuadas do que aqueles que comercializam bens considerados mais essenciais e mais associados à renda corrente auferida. A perda de renda e a insegurança sobre o futuro estão fazendo com que as famílias cortem em profundidade as despesas que podem ser adiadas.
Assim, enquanto as vendas em hipermercados e supermercados, de produtos alimentícios, cigarros e bebidas e a de produtos farmacêuticos e cosméticos declinaram respectivamente 2,9% e 1,1% no acumulado de janeiro a setembro, na comparação com igual período do ano anterior, as vendas de bens de consumo duráveis apresentaram retrações bem mais acentuadas: o volume de vendas de veículos e peças caiu 14,6%; de móveis e eletrodomésticos, 12,8% e 13.9%; e de material de escritório, informática e comunicação (aparelhos celulares), 14,7% (ver Gráfico). Mesmo as vendas de bens semiduráveis como calçados e vestuário e do segmento de outros bens de uso pessoal ou doméstico vêm despencando, - 11,3% e -11,7% no acumulado de 2016.
As vendas de veículos e peças caíram 14,6% e as de materiais de construção no varejo, 12%.


Fonte: IBGE. PMC

3º trimestre
Na maioria das principais atividade do varejo a retração no 3º trimestre foi mais acentuada do que no 2º trimestre. As vendas no segmento de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo que haviam crescido no segundo trimestre do ano voltaram a cair na 3º trimestre.
As vendas do 3º trimestre foram especialmente ruins nos segmento de tecidos, calçados e vestuários (-5,5%), de móveis e eletrodomésticos (-5,5%) e no segmento de veículos e peças, com retração de 4,33%, depois de já terem se retraído 7,24% no trimestre anterior. Na tabela, foram marcadas as células em que a evolução no 3º trimestre foi pior do que no 2º trimestre.

Tabela. Taxa de crescimento do volume de vendas no varejo por atividades (%)
ATIVIDADES
2º T 2016
3º T_2016
Hiper, supermercados, alimentos, bebidas e fumo
0,47
-0,72
Combustíveis e lubrificantes
-1,12
-2,19
Tecidos, vestuário e calçados
0,75
-5,50
Móveis e eletrodomésticos
-2,07
-3,67
Farmacêuticos e cosméticos
-3,21
-2,10
Livros, jornais, revistas e papelaria
-6,96
-2,95
Mat de escritório, informática e comunicações
-6,77
-1,41
Outros produtos de uso pessoal e doméstico
-0,77
-2,22
Varejo 
-0,48
-1,66
Veículos e peças
-7,24
-4,43
Materiais de construção
-3,04
-1,83
Fonte: IBGE. PMC


O terceiro trimestre de 2016 indicou reversão ou pelo menos estancamento na trajetória de estabilização do nível de atividade da economia brasileira. Varejo, serviços e indústria frustraram as expectativas de que parariam de cair e retomariam o crescimento. Até o momento, o governo tem se manifestado mais preocupado com a trajetória da inflação do que com a nova aceleração da queda do nível de atividade.

domingo, 13 de novembro de 2016

Ruim por muito tempo

Ricardo Lacerda
Ao final de 2014, a economia brasileira iniciou um processo de ajuste fiscal que tem se revelado longo e penoso e que deverá se estender ainda por alguns anos. A economia brasileira ainda não atingiu o “fundo do poço” e, na verdade, nos últimos meses o processo de estabilização foi interrompido; indústria e comércio voltaram a acentuar a queda.

Longa recessão
O Gráfico apresentado acompanha a evolução do PIB nas quatro principais economias latino-americanas (Brasil, México, Colômbia e Argentina) depois da crise financeira internacional de 2008.  A Colômbia registrou comportamento bem superior às outras três economias. O PIB do Brasil parou de crescer desde 2014, e em 2015 e 2016 decresceu mais de 3% ao ano. Em 2017, deveremos parar de cair.

Fonte: FMI-WEO.
A economia brasileira não deverá deslanchar antes de 2018. Ainda assim a retomada vai depender de uma série de variáveis internas, como a instabilidade política associada aos processos de investigação criminal de políticos e do mundo corporativo, e externas, o que vai acontecer com as economias dos EUA, União Europeia e China.
Há consenso sobre a necessidade do país realizar o ajuste de suas contas públicas. As discordâncias dizem respeito: a) ao caminho a ser trilhado; b) ao custo social e econômico do ajuste e, sobretudo; c) quais segmentos sociais vão arcar com a maior parte do ônus.
A principal dificuldade de ordem prática é como inverter de negativo para positivo o resultado primário quando a arrecadação federal vem despencando a taxas muito acentuadas.  Frente à continuidade da queda nas receitas públicas, o governo federal provavelmente deverá recorrer a aumentos de tributação.

Do ponto de vista do longo prazo, o problemático não é fazer o ajuste fiscal e sim a transição que se esconde por trás dele, desde a implementação de um amplo corte nas políticas sociais, passando pela precarização do mercado de trabalho e alcançando seu objetivo primordial, o encolhimento do peso do estado da economia e regressão parcial do estado de bem-estar.

Muito provavelmente, após o ajuste fiscal, o Brasil terá transitado para um novo formato do estado, mais parecido com o que tínhamos nos anos noventa. Caso isso de fato seja concretizado, não há dúvida de quem serão os perdedores em termos regionais, o Nordeste e o Norte, muito especificamente as pessoas e as sub-regiões que mais dependem da ação do estado.
O ajuste fiscal
O Banco Central esclareceu na ata da última reunião do COPOM e nas comunicações de seu presidente que não se impressiona com os números muitos ruins do nível de atividade no terceiro trimestre e que vai continuar perseguindo a meta de inflação para 2017, seja a que custo for. O custo não é difícil de dimensionar: continuidade por alguns trimestres da deterioração do mercado de trabalho, agravamento das dificuldades na situação das finanças nas três esferas de governo e o acúmulo de dificuldades nas finanças empresariais.  
Nessa estratégia, o processo de estabilização e de início da retomada será necessariamente muito gradual. Decorrerá não de medidas de impulso à demanda interna, que se revelaram pouco eficazes no passado recente. Tampouco será impulsionado pelas vendas ao exterior que abortaram a esperança de um crescimento robusto, em parte por conta do comportamento do recente do câmbio.
A retomada, portanto, ficará na dependência, de um lado, do próprio mecanismo de amortecimento do ciclo de negócios, relacionado à interação entre o acelerador e o multiplicador, em que progressivamente as quedas do consumo e a deterioração do mercado de trabalho vão se tornando menos acentuadas, até que em algum momento se atinge um piso, que não se sabe exatamente qual é.  De outro lado, a recuperação dependeria ainda dos efeitos positivos dos ganhos de confiança entre investidores externos e entre famílias e empresas associados à demonstração de compromisso do governo com a austeridade fiscal e monetária. À medida que a inflação convirja para a meta projetada os juros nominais deverão declinar.  Parece pouco, e de fato é.

 Publicado no Jornal da Cidade, em 13/11/2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Reversão da indústria no 3º trimestre

Ricardo Lacerda
Quando o então ministro da fazenda Joaquim Levy iniciou seu programa de ajuste fiscal e de correção do câmbio, na passagem de 2014 para 2015, o impacto sobre o nível de atividade foi muito mais rápido e intenso do que se previra. A queda abrupta do nível de atividade não demorou a repercutir na arrecadação das três esferas de governo acentuando celeremente a deterioração das contas públicas.
Não tardou a ficar patenteado que o ajuste duro e de duração relativamente curta imaginado pelo ministro Levy não funcionou, em parte por conta do cerco político ao governo que impediu a aprovação das propostas de ajuste pelo parlamento. Àquela altura dos acontecimentos, ampla coligação entre parcelas crescentes da classe política, empresariado, sistema judiciário e grande mídia, cada segmento com suas próprias motivações, havia dobrado a aposta no colapso da governabilidade a fim de provocar a derrubada do governo recém-eleito.
O sucessor de Joaquim Levy, o ministro Nelson Barbosa, enunciou na sua posse nos últimos dias de 2015 que era urgente estabilizar o nível de atividade e que o ajuste fiscal necessariamente deveria ser gradual. Em linhas gerais, a equipe de Meirelles, que assumiu o comando da economia no início de maio de 2016, deu sequência a essa estratégia, com a vantagem de contar com o apoio político que o establishment negara a seus antecessores mas com a brutal desvantagem de que a situação fiscal havia se degradado muito nesse interregno de quase um ano e meio de forte queda do PIB.
Ao final de 2016, quase seis meses depois de afastada a presidente eleita e completando cerca de dois anos do início das políticas de ajuste fiscal, o nível de atividade econômica ainda não se estabilizou. O comportamento da atividade industrial, parece-nos, reflete as dificuldades encontradas em estabilizar a economia e, ao mesmo tempo, concorre para postergar o início da a estabilização.
Produção industrial
A publicação da Pesquisa Industrial Mensal de agosto, indicando queda no volume de produção de 3,8% em relação a julho, abriu a temporada de revisão para baixo das projeções de evolução do PIB brasileiro de 2016 e de postergação do início da recuperação, mesmo que em ritmo muito gradual, do nível de atividade econômica. O anuncio de crescimento de 0,5% na produção industrial de setembro não foi suficiente para injetar otimismo nas perspectivas de crescimento.
A produção industrial do terceiro trimestre recuou 1,1% em relação ao trimestre imediatamente anterior. Com esse resultado, inverteu-se a tendência de estabilização do nível de atividade do setor que no 1º trimestre de ano havia reduzido pela primeira vez o ritmo de queda e no segundo trimestre obteve crescimento de 1,1% (ver Gráfico 1).

Fonte: IBGE-PIM
O resultado da produção industrial do terceiro trimestre foi muito ruim, especialmente porque a retração na produção foi disseminada, abrangendo dezessete dos vinte e quatro ramos pesquisados.
Ocupação, renda e câmbio
Pelos menos três fatores foram determinantes na reversão da tendência de estabilização da atividade industrial: a necessidade de ajustar os estoques em um cenário de queda acentuada do poder de compra da população; a restrição e o custo do crédito, e; a forte apreciação da moeda e os seus efeitos sobre a competividade do setor no mercado interno e no mercado externo. Um quarto fator pode estar associado aos efeitos da estiagem sobre a produção agroindustrial.
Em relação ao comércio exterior de produtos industrializados, é importante frisar que não se trata apenas do desempenho ruim do setor exportador brasileiro. De fato, se o valor exportado pelo Brasil recuou no terceiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, as exportações produtos industrializados aumentaram 6,5% nessa comparação, mesmo que a base de comparação seja muito rebaixada. Há, ainda, que se considerar a perda de competitividade no mercado interno e o declínio no valor das vendas no mercado externo em termos do equivalente em moeda nacional, por conta da forte apreciação do real no período.
A produção física da indústria iniciou sua trajetória de declínio acentuado no último trimestre de 2014. Quando a produção do setor nos dois primeiros trimestres de 2016 parecia que iria se estabilizar, no terceiro trimestre ela voltou a apresentar declínio acentuado. Nos quatro trimestre acumulados até setembro, o setor registrou queda de 8,8%, na comparação com igual período anterior. Mais grave é que a produção nos quatro trimestre acumulados em setembro de 2016 é praticamente a mesma do ano de 2004 (ver Gráfico 2).


 Fonte: IBGE-PIM



Publicado no Jornal da Cidade, em 06/11/2016 com o título A Indústria em jogo

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Descendo a ladeira


A opção do Conselho de Política Monetária


Ricardo Lacerda


A ata da reunião do Conselho de Política Monetária (COPOM) do Banco Central dos dias 18 e 19 de outubro minimizou o significado dos resultados setoriais de nível de atividade muito ruins nos últimos meses, dentre os quais a queda de 3,8% na produção industrial e de 2% no varejo ampliado em agosto. 

A opção manifestada pelo COPOM foi de continuar perseguindo a desaceleração da inflação a fim de consolidar a percepção do mercado sobre o seu compromisso com o atingimento da meta estipulada para 2017, mesmo à custa da continuidade do agravamento do desemprego e da prostração dos negócios.  Não teria chegado o momento, na perspectiva do comitê, de promover reduções mais expressivas na taxa básica de juros porque a trajetória da inflação ainda não aponta para uma convergência para a meta de 4,5% no próximo ano.

Para o Banco Central, apesar do forte declínio do IPCA em agosto, os preços dos serviços ainda resistem a cair, exigindo “persistência” na política monetária. Em bom português significa que o COPOM deverá manter nos próximos meses os juros reais em patamar muito elevado com o propósito de acentuar o desemprego e deprimir a demanda a fim de forçar a queda dos preços no setor. Para o BC "há sinais de uma pausa recente no processo de desinflação dos componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, o que pode sinalizar convergência mais lenta da inflação à meta".


Na reunião de outubro, o COPOM decidiu pela redução de apenas 0,25 p.p. na taxa básica de juros, o que significa manter os juros reais muito elevados e possivelmente, a depender da velocidade da queda do IPCA, em elevação, apesar de a atividade econômica continuar declinando mês a mês.

O recado foi dado e é claro. Os juros permanecerão em patamar muito elevado enquanto os preços não convergirem para a meta de inflação. E o país pagará o custo necessário para que isso seja alcançado.


Riscos de reversão


Textualmente, os membros do COPOM afirmaram que não consideram haver maiores riscos de a economia interromper a trajetória de estabilização e a retomada do nível de atividade, apesar dos resultados muito ruins dos últimos meses. 

Mesmo reconhecendo que “a economia segue operando com alto nível de ociosidade dos fatores de produção, refletido nos índices de utilização da capacidade da indústria e, principalmente, na taxa de desemprego... oscilações no atual estágio do ciclo econômico são comuns e provavelmente explicam os resultados recentes.

Para o COPOM, os resultados setoriais ruins seriam normais e não poriam em risco o cenário de estabilização e retomada: “No seu conjunto, a evidência disponível é compatível com estabilização recente da economia brasileira. Índices de confiança, expectativas de crescimento do PIB para 2017 apuradas pela pesquisa Focus e o comportamento de prêmios de risco e preços de ativos apontam para uma possível retomada gradual da atividade econômica”.

Para não deixar margem à dúvida, manifestaram a posição de que “os membros do Comitê concordaram que a evidência disponível é compatível com estabilização recente da economia brasileira e possível retomada gradual da atividade econômica”. Não haveria, pois, risco da recessão se agravar a ponto de inviabilizar a estabilização e a retomada, mesmo que essa se dê em ritmo muito lento.



Choque de confiança

A aposta do COPOM é de que o compromisso demonstrado em alcançar a meta de inflação e a aprovação pelo congresso nacional ainda em 2016 do Projeto de Emenda à Constituição que impõe um teto real aos gastos públicos por 20 anos (a PEC-241) vão se traduzir em novos ganhos de confiança e com isso o consumo e o investimento privados retomarão em um segundo momento. Quando as novas edições das pesquisas de preço sinalizarem de forma consistente a convergência da inflação para a meta, o ritmo de redução dos juros poderá ser acentuado.


A ata deixou claro portanto que a política monetária vai continuar priorizando os ganhos provenientes da melhoria da confiança do mercado associados ao comprometimento das autoridades monetárias com a redução da inflação. E que a equipe econômica acredita que, mesmo que o mercado de trabalho e o nível e atividade mantenham-se prostrados por mais alguns trimestres, esse seria o preço a pagar para demonstrar o compromisso das autoridades monetárias com a perseguição da meta de inflação.

No Gráfico são apresentadas as evoluções da SELIC, do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) acumulado nos doze meses anteriores e da diferença entre eles, que representa o que chamamos de juros reais anualizados, não necessariamente auferidos. Ainda que a SELIC tenha se mantido em 14,25% entre janeiro e setembro de 2016, os juros reais anualizados saltaram mais de 2 pontos percentuais, diante da redução do IPCA em doze meses. Frente ao aprofundamento recente da recessão muitos analistas defenderam que o COPOM decidisse por acentuar o ritmo de queda dos juros a fim de aliviar o endividamento de empresas e famílias e atenuar a perda de dinamismo da economia. Mas o COPOM deixou muito claro quais são suas prioridades. Aguardemos as próximas reuniões do comitê.





Fonte: IBGE e Banco Central.


Publicado no Jornal da Cidade, em 30/10/2016

P.S