Praça São Francisco, São Cristovão- SE

Praça São Francisco, São Cristovão- SE
Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A recessão e a arrecadação federal



Ricardo Lacerda



O governo federal se defronta com um dilema de difícil solução. Como realizar o ajuste das contas públicas quando a recessão faz despencar a arrecadação, inclusive em ritmo mais acelerado do que o da queda do nível de atividade econômica.

O dilema consiste em que o esforço de contenção de despesas primárias (excluído o pagamento de juros) se defronta com uma queda ainda mais acentuada da arrecadação. Com o crescimento exponencial das despesas com pagamento de juros, a situação fiscal somente piora, apesar da contenção realizada nas despesas operacionais do governo.

A evolução dos resultados desde o início de 2015, quando a crise começou a se agravar, parece sugerir que a situação fiscal do governo não deve apresentar melhoria sem que o nível de atividade econômica se estabilize e depois volte a crescer. As chamadas reformas estruturais somente gerariam efeitos no médio e longo prazos.

Resultado primário

As despesas primárias do governo central no primeiro semestre de 2016 cresceram meros 0,3% em termos reais (já descontado o IPCA), enquanto as receitas se retraíram 6,1%, sempre em comparação ao mesmo período de 2015.  Com isso, o déficit primário do governo central, em valores de junho de 2016, saltou de R$ 1,52 bilhão no primeiro semestre de 2015 para R$ 32,69 bilhões no primeiro semestre de 2016 (ver Tabela).



Tabela: Resultado do Governo Central: acumulado entre janeiro e junho. (Em R$ milhões de junho de 2016)


Fonte: Extraído do relatório Resultado do Governo Central. Tesouro Nacional. Junho de 2016.



O dilema fica ainda mais patenteado quando excluímos as contas previdenciárias, cujas despesas apresentam maior rigidez para baixo no longo prazo do que aquelas despesas custeadas com as receitas tributárias. Nesse novo calculo é possível constatar que o esforço de contenção do governo central no primeiro semestre do ano foi de fato expressivo, com recuo de 2,8%, destacando que as despesas com pessoal e encargos caíram 2,9% em termos reais. Todavia, frente a tal contenção de despesas, a arrecadação direta da Receita Federal se retraiu muito mais, notáveis 7,7%.

Quatro anos sem crescimento

Uma perspectiva de prazo mais longa propicia melhor entendimento de como desaceleração seguida pela retração do nível de atividade vem impactando a arrecadação tributária federal.

Na série acumulada em doze meses, a preços de junho de 2016, a arrecadação tributária federal não apresenta crescimento sustentado desde meados de 2012; a arrecadação federal se apresentou estagnada até o final de 2014 e desde então iniciou trajetória fortemente declinante, não interrompida até o momento (ver Gráfico). 

A crise da atividade industrial cumpriu papel importante na evolução da arrecadação tributária do país. Na série acumulada em doze meses, a receita do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) interrompeu seu crescimento desde a deflagração da crise financeira internacional em setembro de 2008 (ver Gráfico). Em meados de 2012, a receita de IPI em doze meses se encontrava no mesmo patamar de setembro de 2008.

 Em meados de 2012, a arrecadação com IPI iniciou uma trajetória de declínio seguida por uma estabilização em um patamar muito rebaixado entre o segundo trimestre de 2013 e final de 2014. No último um ano e meio as quedas na receita de IPI têm sido assustadoramente acentuadas.  

O conjunto da receita tributária federal, arrecadada pela Receita Federal e por outros órgãos, caiu 8,2% no primeiro semestre de 2016, na comparação ao mesmo período de 2015, bem mais do que a estimativa de queda do PIB, de cerca de 5%.

O dilema com que o governo se defronta é o de compatibilizar a urgência em estabilizar o nível de atividade econômica, sem o que a arrecadação vai continuar despencando, com a pressão do mercado por austeridade fiscal e com a política de juros altos. O governo ainda não mostrou como pretende fechar essa conta, nem em que horizonte temporal pretende fazê-lo. As finanças de estados e municípios são levadas de arrastão.




Fonte: Tesouro Nacional





Publicado no Jornal da Cidade, em 32/07/2016

domingo, 17 de julho de 2016

Confiança e nível de atividade


Ricardo Lacerda

Uma nova onda de projeções trouxe à tona, mais uma vez, a perspectiva de que a economia brasileira deverá finalmente interromper a trajetória de queda em algum momento dos próximos meses, dando início a um período de estabilização ao qual se seguirá uma elevação muito tímida da atividade econômica, que poderá ser sustentável ou não.

Diante dos resultados ainda muito ruins nos indicadores de consumo, do setor de serviços e do mercado de trabalho, os vaticínios que apontam a aproximação do momento de recuperação da economia se apoiam na evolução de dois grupos de indicadores: a desaceleração do ritmo de queda da atividade industrial, sinalizando a proximidade do fundo do poço nesse segmento, e a elevação, já por alguns meses, dos indicadores de confiança de empresas e consumidores.

À semelhança de ocasiões anteriores, fatos, desejos e posicionamentos políticos se misturam na eloquência com que essas projeções são apresentadas.

Choque de confiança

Especialmente os indicadores de confiança estariam calçando as projeções de retomada do nível de atividade. Diante do fato de que a crise de confiança cumpriu papel importante nas atuais dificuldades da economia brasileira não é prudente menosprezar os efeitos positivos que a melhoria no grau de confiança pode trazer, da mesma forma que também não o é superestimá-los.

Em artigo publicado no jornal Valor Econômico no dia 07 de julho, Ricardo de Menezes Barboza e Gilberto Borça Jr, economistas do BNDES e do grupo de conjuntura da UFRJ, apresentaram algumas conclusões de estudo que realizaram a respeito das relações entre o aumento da confiança das famílias e dos empresários industriais e o incremento do nível de atividade.

Os economistas informam que as simulações por eles realizadas confirmam os estudos recentes do Banco Central de que “choques na confiança da indústria parecem ter efeitos positivos e estatisticamente significativos sobre a atividade econômica no Brasil ... [e] que o mesmo não vale para choques na confiança do consumidor, embora esta variável contribua para melhorar a previsão do consumo agregado.”

Os testes realizados pelos autores indicaram que “um choque padrão na confiança da indústria faz a produção de bens de capital aumentar em cerca de 2% num horizonte de seis meses à frente, quando o efeito é máximo e começa a perder força”.
Portanto, a constatação dos autores é que a elevação da confiança entre os empresários industriais, tudo o mais permanecendo constante, impulsiona a retomada do investimento no horizonte indicado, engendrando forças favoráveis a recuperação do nível de atividade.
A confiança dos agentes econômicos (empresários e consumidores) se encontra em alta desde abril, como decorrência direta do afastamento da presidente Dilma Rousseff e da nomeação de uma equipe econômica tida e havida como determinada a realizar o ajuste nas finanças públicas.
Como assinalam os dois economistas, a melhoria nos indicadores de confiança desde então se baseia quase exclusivamente nos componentes relativos ao Índice de Expectativa (IE) enquanto que os índices de Situação Atual (ISA) ainda não revelam melhoria expressiva, tomando por base os indicadores elaborados pela Fundação Getúlio Vargas,
A elevação da confiança, aliada há alguns outros fatores como a recuperação parcial nos preços das commodities, deverá, segundo os autores do artigo, traduzir-se em incremento no nível de atividade em algum momento entre o final de 2016 e início de 2017, mesmo que a situação presente continue no mesmo atoleiro.
Em outras palavras, empresários da indústria, construção, comércio e serviços, além das famílias, não sentiram ainda melhorias significativas nos últimos meses, mas creem que a vida vai melhorar.
É crer para ver. Curiosamente, bancos e empresas de consultorias locais têm se mostrado mais otimistas do que instituições multilaterais, como o Fundo Monetário e a OCDE, e agências de riscos.
Nível de atividade
Mesmo que a atividade industrial apresente, a partir de uma base de comparação muito rebaixada, um modesto crescimento nos próximos meses, o que não é consenso entre os analistas, o setor de serviços e o mercado de trabalho não dão sinais de que vão melhorar. Há ainda a incógnita do câmbio, cuja valorização recente alivia as pressões inflacionárias e estimula o consumo mas coloca um enorme interrogação sobre as perspectivas da retomada da indústria e sobre a sustentabilidade das contas externas no médio prazo.
Aparentemente, a equipe de Meirelles, com maior apoio político, adota nesse primeiro momento uma gestão macroeconômica mais próxima da executada por Nelson Barbosa do que do aperto promovido por Joaquim Levy. Emite sinais de que vai buscar de imediato a estabilização do nível de atividade, antes de adotar cortes mais profundos nos gastos públicos. A questão é como a confiança dos agentes vai reagir a essa estratégia.
Para finalizar, a publicação do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR) de maio funcionou como uma ducha fria para as projeções mais otimistas. Na série livre de efeitos sazonais, o IBC-BR caiu 0,51% entre abril e maio. Em termos trimestrais, o declínio do nível de atividade não deu mostra de maiores arrefecimentos. A economia recuou 1% entre o trimestre imediatamente anterior e o trimestre encerrado em maio. Na série que compara com o mesmo trimestre do ano anterior, a queda foi de 5,5% (ver Gráfico)


Fonte: Banco Central do Brasil

Publicado no Jornal da Cidade, em 17/07/2016

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Importações e saldo comercial no primeiro semestre de 2016

Ricardo Lacerda

A intensa depreciação da moeda nacional e a também impactante recessão interna, em meio a um quadro de nova debilidade do comércio mundial, foram os determinantes do resultado da balança comercial brasileira no 1º semestre de 2016. O saldo comercial brasileiro alcançou US$ 23,6 bilhões no semestre, frente a US$ 2,2 bilhões no mesmo período de 2015.
O salto do superávit comercial entre o 1º semestre de 2015 e o 1º trimestre de 2016 foi, portanto, de US$ 21,4 bilhões, mais do que o dobro do que qualquer incremento anterior, na série de dados de comércio exterior iniciada em 1989.
Foi o mais elevado saldo comercial do 1º semestre na série iniciada em 1989. Talvez tenha sido, não tive tempo para conferir, o maior saldo comercial já obtido no 1º semestre na história do país. 
As importações despencam
O mais notável é que o incremento do superávit comercial se deveu integralmente à redução do valor das importações (em 27,7%), porquanto as exportações também declinaram, em 4,3% no período.
Queda tão pronunciada das compras internacionais se deveu em parte à recessão, principalmente a retração nas atividades industriais e no consumo das famílias, mas certamente decorreu em parcela bem maior dos efeitos combinados da substituição de importação de produtos importados pelos produzidos internamente e pela queda nas cotações internacionais dos produtos importados pelo país.
Esse último aspecto põe em destaque o fato nem sempre percebido de que não apenas as cotações de nossos produtos de exportação declinaram no mercado internacional, como também que as cotações dos produtos importados apresentaram expressiva redução. Ainda que a resultante desses dois movimentos deva ser amplamente desfavorável aos termos de troca do país, a retração nas cotações internacionais da pauta de importações não pode ser negligenciada na avaliação da evolução do comércio exterior do período.
Valor e quantidade
Assim, enquanto a queda no valor das importações no 1º semestre de 2016 alcançou os já citados 27,7%, a retração do volume físico importado, apesar de bem pronunciada, foi bem menor, de 10,8%. O Gráfico 1  apresenta a evolução dos índices de valor e de quantidade de importações no acumulado em doze meses entre o final de 2010 e junho de 2016.
Em termos de valor, as importações brasileiras no acumulado de doze meses vêm declinando desde o início de 2014, enquanto a quantidade importada somente começou sua trajetória de queda cerca de um ano depois, no início de 2015, quando a recessão se instalou internamente.
O efeito combinado entre recessão interna, depreciação da moeda nacional (e a consequente substituição de importações) fez com que ao final do 1º trimestre de 2016, o volume físico das importações brasileiras no acumulado de doze meses retornasse ao patamar do final de 2010. O valor das importações se igualou ao de dezembro de 2010 entre outubro e novembro de 2015 e despencou nos meses seguintes, até atingir 20% a menos em junho de 2016, sempre na série acumulada em doze meses. Certamente, a retração acima da média nas importações de bens de capital responde por parte da explicação.


Fonte: MDIC
Importações segundo uso dos bens
Ainda que a retração no valor das importações tenha atingido todos os grupos segundo o uso dos bens, há algumas especificidades que merecem ser mencionadas.
As importações de bens de capital, relacionadas à aquisição de máquina e equipamentos que comporão o investimento interno no país, recuaram 18,6% no semestre, em relação a igual período do ano anterior, abaixo da média do conjunto das importações, em razão de já se encontrarem muito deprimidas.
As importações de bens de consumo (duráveis e não duráveis) que serão vendidos às famílias no mercado interno recuaram 26,5% e os bens intermediários, utilizados na produção interna, principalmente nas atividades industriais, recuaram 25,6%.
As importações de combustíveis e lubrificantes, em parte por conta da queda no quantitativo, em parte por conta da forte redução nas cotações médias, caíram 48%.
O Gráfico 2 apresenta os índices do valor importado segundo as categorias de uso entre o final de 2010 e junho de 2016, na série acumulada em doze meses. Alguns fatos chamam a atenção.
Nessa série de doze meses, as principais categorias de importados segundo o uso dos bens iniciam a trajetória de declínio, em termos de valor, no início de 2014, com a notória exceção de combustíveis e lubrificantes.
Todavia, as importações de bens de capital, associadas aos investimentos das empresas, apresentam no ano de 2014 queda bem mais acentuada do que as das categorias associadas ao consumo das famílias (Bens de consumo) e ao uso intermediário para atender as necessidades de produção das empresas (bens intermediários).
Os valores das importações dessas duas categorias de bens, todavia, aprofundarão seus declínios a partir de 2015, quando a crise no mercado interna se agrava. Já as importações de combustíveis e lubrificantes despencam desde o final de 2014, diante, inicialmente, da queda nas cotações do produto e depois, também pela redução no consumo interno.

Fonte: MDIC
Publicado no Jornal da Cidade, em 10/07/2016

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Câmbio e esforço exportador

Ricardo Lacerda

Mesmo com a intensa depreciação da moeda nacional desde o final de 2014, as exportações brasileiras nos primeiros cinco meses de 2016 foram inferiores às do mesmo período de 2015. Até maio as exportações de 2016 medidas em valor se situaram 1,6% abaixo do resultado de 2015. Nos doze meses acumulados até maio de 2016, as exportações brasileiras se situaram 9,4% abaixo das do mesmo período anterior.
É provável que nos primeiros meses da segunda metade do ano, as exportações de 2016 comecem a superar os resultados acumulados de 2015 e até o final do ano seja interrompida a queda iniciada ainda em setembro de 2014 na série acumulada em doze meses.
Divergência entre valor e quantidade
Em volume físico, todavia, as exportações apresentaram um outro comportamento, tendo reagido favoravelmente desde o início da aceleração da mudança no patamar do câmbio. Nos primeiros cinco meses de 2016, a quantidade exportada aumentou 15,4% em relação ao mesmo período de 2015.
No Gráfico 1, podemos observar que o valor das exportações acumuladas em doze meses de maio de 2016 encontrava-se bem abaixo da situação de julho de 2014, quando se iniciou a sua queda acelerada, exatamente 21% abaixo. De outra parte, desde o final de 2014 a curva do volume físico de exportações, também no acumulado de doze meses, aponta incisivamente para cima, de tal forma que o volume exportado em maio de 2016, nessa série, é 18,4% superior ao de novembro de 2014.
Evidentemente a divergência entre a evolução das exportações em termos de valor e de volume físico decorre do comportamento desfavorável nas cotações internacionais dos principais produtos de nossa pauta exportadora, muito particularmente do minério de ferro, mas não exclusivamente.
O que é menos evidente é que a depreciação de nossa moeda, apesar de intensa, não tem sido suficiente, na média de nossa pauta de exportações, para compensar em moeda nacional a perda decorrente da queda da cotação dos nossos produtos medida em uma cesta de moeda no mercado mundial.

 Fonte: MDIC

Câmbio e valor médio das exportações
Na média de doze meses, o valor da tonelada exportada pelo Brasil em dólares correntes aumentou continuamente desde meados meados de 2003 até o início de 2012, desconsiderando-se a forte queda entre o final de 2008 e meados de 2009. As exportações do Brasil desde 2003 foram fortemente favorecidas pelo que ficou conhecido como o longo ciclo de valorização das commodities no mercado mundial, em grande parte causado pela intensa demanda da China por essas mercadorias.
A partir de 2012, todavia, o valor médio das exportações brasileiras, nessa média móvel de doze meses, passou a declinar continuamente. Nesse sentido, a piora do cenário externo a partir de 2011 e depois em novos mergulhos em 2013 e em 2015 tiveram sim papel determinante na evolução desfavorável de nossas vendas externas, contaminando o quadro econômico interno. Portanto, os efeitos da nova e profunda crise no cenário mundial não são invenção para retirar responsabilidade em relação as desmandos na condução da política econômica do país.
O Gráfico 2 apresenta os índices de evolução da média móvel de doze meses do câmbio real e efetivo do comércio exterior brasileiro, do valor médio das exportações por tonelada, também na média de doze meses, e um terceiro índice, elaborado por nós, desse valor médio das exportações por tonelada, corrigido pela variação cambial, com base no câmbio real e efetivo.
A ideia desse último índice é de informar se a variação do câmbio (já descontadas as inflações interna e externa) foi suficiente ou insuficiente para compensar as quedas na cotação média de nossas exportações. Trata-se, evidentemente, de um índice aproximado, sujeito a intercorrências diversas, mas que pode ser útil para observar o comportamento do nosso comércio exterior. Todos índices têm como base a média de doze meses de dezembro de 2010.
Perceba-se que o câmbio real e efetivo das exportações brasileiras começa a subir tão logo as cotações médias dos nossos produtos de exportação iniciam o declínio. No Gráfico 2, a curva do câmbio real e efetivo, na média de doze meses, inicia a trajetória de elevação a partir o início de 2012, como resposta à queda acentuada da cotação externa dos nossos principais produtos (linha dupla), que afetou o desempenho de nossas exportações em termos de valor (no Gráfico 1).
A cotação média de nossas exportações, nessa série de doze meses, manteve-se em declínio durante todo o período entre o início de 2012 e maio de 2016. Não são poucos os efeitos desfavoráveis de um período tão longo de queda. A partir de meados de 2014 a curva da cotação média aponta fortemente para baixo, em decorrência do agravamento das dificuldades na economia chinesa. Com alguma defasagem temporal, ao final de 2014 inicia-se o movimento recente de forte elevação do câmbio.
Finalmente, quando se corrige a cotação média de nossas exportações pela variação cambial percebe-se que é atenuada a perda dos exportadores mas não o suficiente para recompor o nível anterior ao início da queda no início de 2014.

Fonte: MDIC

Publicado no Jornal da Cidade, em 03 de julho de 2016

segunda-feira, 20 de junho de 2016

As exportações regionais em 2016

Ricardo Lacerda

O comportamento das exportações brasileiras nos últimos dois anos tem sido intrigante e decepcionante. Diante da intensa desvalorização da moeda nacional desde agosto de 2014, com nova aceleração da depreciação a partir do início do segundo semestre de 2015, era de se esperar uma retomada mais forte de nossas vendas externas. Na verdade, na comparação entre os doze meses completados em maio de 2016 e o mesmo período anterior, o valor das exportações brasileiras continuou recuando (-9,4%).
É fato que os últimos dois resultados mensais saíram do campo negativo, com crescimento de 1,4%, em abril, e 4,8%, em maio, em relação aos mesmos períodos do ano anterior, mas na comparação entre janeiro-maio de 2016 e o mesmo período de 2015, as exportações brasileiras ainda se situaram 1,6% inferiores. Repito, esperava-se resposta mais rápida do desempenho de nossas vendas externas.
Comportamento intrigante
O comportamento das exportações brasileiras é intrigante porque, além do forte impulso de competitividade decorrente da valorização cambial, a profunda recessão no mercado interno colocou à disposição das atividades exportadoras capacidade produtiva ociosa e força de trabalho disponível e a custo mais baixo.
Parte importante da explicação para a falta de uma resposta mais forte no crescimento das vendas externas decorre da evolução desfavorável das cotações de nossos principais produtos de exportação, notadamente do minério de ferro. Assim, frente ao recuo de 9,4% no valor das exportações nos últimos doze meses, a quantidade exportada apresentou crescimento de 11,8%.
Todavia, mesmo o incremento físico das exportações foi bem inferior à depreciação do real frente a uma cesta de moeda que alcançou, na média de doze meses, cerca de 25% no período, já descontada a inflação.
Analistas têm destacado dois outros outros fatores que explicariam a lentidão da resposta do drive exportador brasileiro, além dos efeitos da debilidade da demanda externa por conta da continuidade da recessão mundial: a extensa desestruturação da atividade industrial brasileira que limita a capacidade do setor em reagir aos estímulos cambiais e redirecionar recursos ociosos para as vendas externas, como acontecera em momentos anteriores de maxidesvalorizações.
O segundo fator decorre da incerteza em relação ao patamar que o câmbio deverá se estabilizar, o que restringe as decisões de voltar a investir com vistas ao mercado externo. Um terceiro fator, certamente, está associado às incertezas em relação ao cenário político interno.

Exportações regionais
Um aspecto significativo da evolução recente das exportações brasileira é o seu perfil regional. A Tabela e o Gráfico apresentados trazem dados elucidativos a respeito das exportações regionais. Entre as cinco regiões brasileiras, apenas o Centro-Oeste apresentou crescimento no valor exportado nos cinco primeiro meses do ano, em relação ao mesmo período do ano anterior, com o incremento notável de 27,5%, devido principalmente aos desempenhos dos estados de Mato Grosso e Goiás. No caso da região Sul há quase empate nessa comparação, com um ligeiro recuo de 0,4%. As demais regiões registraram ainda quedas expressivas; Norte, de 9,9%, Nordeste, de 4,2%, e Sudeste, de 8,3%.
Em termos de volumes exportados, a região Centro-Oeste continuou se distinguindo das demais, apresentando taxa de incremento de 57,6%, seguida pelos 24,9% da região Norte e 16,6% da região Sul.
A última coluna da tabela registra a variação do valor médio da tonelada exportada na comparação entre jan-mai de 2015 e jan-mai de 2016. As regiões mais dependentes de exportações de minérios, como o Norte, ou de commodities agrícolas, como o Centro-Oeste e, em menor grau, a região Sul, se defrontaram com quedas mais acentuadas no preço médio exportado do que as regiões Nordeste e Sudeste. No caso da região Norte, o volume exportado cresceu 24,9%, enquanto o valor caiu 9,9%.

Tabela: Taxas de crescimento das exportações regionais em valor e em quantidade entre jan-mai de 2015 e jan-mai de 2016 (%)
Regiões
Taxa de crescimento da Exportações Jan- Mai de 2016/ Jan-Mai de 2015 (%)
Variação do Valor médio por tonelada no período (%)
Em US$
Em toneladas
Norte
-9,9
24,9
-27,8
Nordeste
-4,2
7,7
-11,1
Sudeste
-8,3
4,9
-12,6
Sul
-0,4
16,6
-14,6
Centro-Oeste
27,5
57,6
-19,1
Oper Especiais
12,3
-15,6
33,1
Brasil
-1,6
15,4
-14,7
Fonte: MDIC-SECEX

O Gráfico apresentado auxilia a examinar o movimento das exportações regionais em uma perspectiva de prazo mais longa. Ele compara a taxa de crescimento do valor exportado pelas regiões em doze meses, em relação ao mesmo período anterior.
Nessa série, apenas a região Centro-Oeste já deixou para trás o período de retração no valor exportado, enquanto a região Sul parece caminhar celeramente nessa direção. As exportações das regiões Norte e Sudeste, mais diretamente afetadas pela crise industrial e/ou pela queda nas cotações das commodities minerais, ainda registram quedas muito expressivas, enquanto as exportações do Nordeste, aparentemente, ainda encontram dificuldades para reagir aos estímulos criados pela maxidesvalorização.

Fonte: MDIC-SECEX

Publicado no Jornal da Cidade, em 19/06/2016 



segunda-feira, 13 de junho de 2016

O comportamento dos componentes do PIB

Ricardo Lacerda
Do ponto de vista das despesas ou da demanda agregada, o PIB é igual à soma dos seus cinco componentes, a saber: o Consumo das Famílias, o Consumo do Governo, a Formação Bruta de Capital Fixo- FBCF (incluindo a variação dos estoques), as Exportações de Bens e Serviços e o quinto fator são as Importações de Bens e Serviços com sinal negativo, dado que significam despesas que vazam para o resto do mundo. Em termos algébricos,  PIB= Cons das Familias + Cons do Governo + FBCF + (Saldo das Exp – Imp de B e S).
Há pelo menos duas formas de interpretar a relação entre o PIB e os componentes da demanda agregada. No sentido mais restrito é apenas uma igualdade contábil. Assim, ao final de um determinado período, são somados todos os componentes da demanda e o valor obtido é igual da soma de tudo que foi produzido nos setores primário, secundário e terciário. No sentido mais amplo, busca-se identificar uma relação causal entre a variação de cada um dos componentes e os demais para explicar o comportamento do PIB.
Em um sentido ou em outro vale a pena examinar a evolução dos componentes da demanda agregada a fim de buscar entender o período recente de retração do PIB e as possibilidades de recuperação do níveld e atividade econômica.
Peso dos componentes
Evidentemente, variações nos componentes que apresentam participações mais elevadas tendem a causa maior impacto no resultado do PIB. Há, todavia, interações entre eles que também devem ser observadas.
No acumulado dos quatro trimestres encerrados no 1º trimestre de 2016, em termos correntes, o Consumo das Famílias respondeu por 63,5% do PIB, o Consumo do Governo, por 20,3%, a FBCF, por 16,6%, e o Saldo entre as exportações e as importações de bens e serviços por -0,4% (decorrente da diferença entre 13,7% e -14,1%).
Na série que compara com o trimestre imediatamente anterior, descontados os efeitos sazonais, o PIB vem desacelerando o ritmo de queda; de 2,0% no segundo trimestre de 2015, para 1,6% no terceiro trimestre, 1,3% no quarto trimestre de 2015.
No 1º trimestre de 2016, a a queda foi bem mais atenuada, 0,3% (ver Gráfico 1). Como os componentes da demanda agregada contribuíram para a desaceleração expressiva da queda do PIB no 1º trimestre?
Consumo das famílias e do governo
Em linhas gerais, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, apenas dois componentes da demanda agregada registraram crescimento; o Consumo do Governo, com incremento de 1,1% e as Exportações de Bens e Serviços, com o extraordinário crescimento de 6,5%.
Todavia, na avaliação dos fatores que explicam a desaceleração da queda do PIB há que se considerar não apenas a variação para cima ou para baixo dos componentes de um trimestre para o outro. É necessário ponderar também se aqueles componentes ampliaram ou reduziram a variação em relação ao período anterior. O Gráfico 1 apresenta esses resultados.
O Consumo das Famílias não apenas caiu muito no primeiro trimestre de 2016 (1,7%) como sua queda foi bem mais acentuada do que a do último trimestre de 2015, quando a retração fora de 0,9%. Ou seja, observando-se exclusivamente a evolução do Consumo das Famílias, o PIB teria acentuado e não atenuado a queda nesse início de 2016.
Curiosamente, a contribuição do componente Consumo do Governo para atenuar a retração do PIB no 1º trimestre foi da mesma dimensão do papel das Exportações de Bens e Serviços, que tem sido mais propalada. Afinal, respondendo por cerca de 20% da demanda agregada, o consumo do Governo, que havia caído 2,9% no último trimestre de 2015, inverteu sua trajetória e se expandiu 1,1%, enquanto as exportações de bens e serviços, com cerca de 14% da demanda agregada, ampliou o crescimento de 0,1% para 6,5%. Cabe indagar se é razoável esperar que nos próximos trimestres o Consumo do Governo continue a dar contribuição positiva na evolução do PIB.
Investimentos e Setor Externo
Os investimentos na Formação Bruta de Capital Fixo continuaram despencando no 1º trimestre de 2016, mas o ritmo de queda foi bem menos acentuado do que no trimestre anterior, 2,7% e 4,8%, respectivamente, contribuindo também expressivamente para a redução da queda do PIB (um pouco mais de 1/3 das contribuições das Exportações ou do Consumo do Governo).
Finalmente, as Importações de Bens e Serviços não apresentaram variação significativa no ritmo de queda na comparação entre os dois trimestres.
O Fundo do poço
Em termos contábeis, para que o PIB trimestral pare de cair, atingindo o fundo do poço, e se inicie em seguida a sua recuperação, mesmo que em ritmo anêmico, é necessário que haja uma melhoria no comportamento dos componentes (na média ponderada), com a redução da queda ou reversão para o crescimento daqueles que se encontram ainda em trajetória declinante e a intensificação do incremento daqueles que cresceram no trimestre anterior.
É difícil imaginar que as Exportações e as Importações de Bens e Serviços possam acelerar, respectivamente, os seus ritmos de incremento e de queda que, em termos anualizados, se aproximaram de 30% no primeiro trimestre. O Consumo do Governo, por sua vez, deverá contribuir negativamente para a evolução do PIB nos próximos trimestre, a acreditar na sinalização da nova equipe econômica.
A melhoria do PIB dependerá, portanto, de dois fatores básicos que já haviam sido apontados pelo ex- ministro Nelson Barbosa: o primeiro é que o Consumo das Famílias, que responde por mais de 60% do PIB, pelo menos reduza seu ritmo de queda nos próximos trimestres. O comportamento desse componente, como se sabe, vai depender da evolução do mercado de trabalho, da confiança das famílias e da situação do crédito e dos juros.
O outro componente determinante é a Formação Bruta de Capital Fixo, incluindo a variação dos Estoques. Duas considerações a fazer: esse componente vem despencando continuamente desde o segundo trimestre de 2014, acompanhando em grande parte a trajetória declinante da atividade industrial. É razoável esperar que o ritmo de queda da FBCF se atenue muito nos próximos trimestres e mesmo passe a apresentar crescimento em algum momento entre o final de 2016 e início de 2017. Podem contribuir para isso, além do próprio movimento do ciclo econômico, resultante da combinação entre o acelerador e o multiplicador, a elevação progressiva da confiança no ambiente de negócios. A retomada do nível de atividade, todavia, não está ainda assegurada, como mostraram as projeções mais recentes da OCDE e do Banco Mundial para a economia brasileira.



Fonte: IBGE- CNT






segunda-feira, 6 de junho de 2016

O PIB do 1º trimestre de 2016 e o fundo do poço

Ricardo Lacerda

No 1º trimestre de 2016, o PIB brasileiro recuou pela quinta vez seguida, na série trimestral com ajuste sazonal. Ressalte-se, todavia, que, nessa série, desde o 2º trimestre de 2013 a economia brasileira deixou de apresentar crescimento relevante e a trajetória de declínio do PIB trimestral se iniciou de fato no segundo trimestre de 2014 (ver Gráfico).
O que teve início no 1º trimestre de 2015 e completou cinco trimestres no primeiro resultado de 2016 foi o seu declínio contínuo e, na média do período, muito acentuado. No acumulado de quatro trimestres, o PIB também computou cinco quedas seguidas.
A nova fase da crise econômica iniciada no primeiro trimestre de 2015 resultou de uma combinação especificamente extraordinária: de adoção de fortes medidas de contenção de dispêndios e de correção dos preços administrados e do câmbio que fizeram despencar a renda da população; de colapso da confiança decorrente dos desdobramentos das operações jurídico-policiais e do sitiamento político ao governo; e, subsidiariamente, de novo agravamento, em 2015, de um cenário internacional já bastante adverso desde 2013.
Completam-se, portanto, nesse início de 2016, dez trimestres sem crescimento, oito trimestres de trajetória de declínio do PIB e cinco trimestres de quedas contínuas. Não é pouca coisa.


Fonte: IBGE. CNT

O fundo do poço
Os resultados do 1º trimestre de 2016 trouxeram à tona o debate sobre quando o nível de atividade vai atingir o fundo do poço, estancando as quedas, e qual o horizonte para que se inicie a retomada da economia, mesmo que em ritmo muito suave.
Dois aspectos têm sido destacados: o primeiro é que o ritmo de retração vem desacelerando nos últimos três trimestres; depois de cair 2% no segundo trimestre de 2015, a economia recuou 1,6%, no terceiro trimestre, 1,3%, no quarto trimestre e agora a queda foi bem menos acentuada, de 0,3%, relativamente próxima de uma situação de estabilização.
O segundo aspecto é que a indústria de transformação, um dos segmentos mais atingidos pela crise juntamente com a construção civil, já apresenta sinais de estabilização. Depois de um longo período de queda livre desde o último trimestre de 2014, a produção industrial registrou no primeiro trimestre de 2016 retração bem menos intensa do que nos períodos anteriores, de apenas 0,3%, quando a retração havia sido de 3,5% e 2,3%, respectivamente, nos terceiro e quarto trimestres de 2015.
A atividade manufatureira, alguns analistas têm assinalado, teria atingido o fundo do poço, seja por conta da própria operação do ciclo de negócios, com o ajuste dos estoques, seja em função dos estímulos oriundos da mudança do câmbio sobre diversos ramos de atividade, alguns dos quais já apresentando crescimento nos últimos meses.
A expectativa predominante no mercado é de que o declínio do PIB deverá estancar em algum momento do segundo semestre e o seu incremento, mesmo em ritmo muito modesto, deverá iniciar entre o final de 2016 e o primeiro trimestre de 2017. Ainda assim, o crescimento no próximo ano, se se confirmar, deverá ser muito modesto.

Limites e incertezas
Persistem, todavia, muitas interrogações e incertezas em relação às projeções de estabilização e posterior retomada do nível de atividade, algumas relativas ao cenário político interno e outras referentes à propria robustez e significado dos resultados do PIB do primeiro trimestre.
Em relação ao quadro político, as incertezas vão desde a continuidade do atual governo, passam pelos desdobramentos das investigações criminais em curso, com a possibilidade de alcançar lideranças políticas e empresariais muito expressivas, até a questões como a capacidade política do governo em implementar as medidas de ajuste fiscal e realizar as reformas de longo prazo demandadas pelo mercado.
Em relação à interpretação dos resultados do PIB, tem sido lembrado, em primeiro lugar, que os comportamentos de alguns componentes da demanda continuaram muito ruins no primeiro trimestre: o consumo das famílias, que representa cerca de 60% do PIB, registrou nova queda acentuada; e os investimentos (FBCF) despencaram mais uma vez.
A suavização da queda do nível de atividade no 1º trimestre se deveu, primordialmente, ao incremento das exportações e encolhimento das importações de bens e serviços e, secundariamente, com impacto muito menor, quase inexpressivo, do aumento do consumo do setor público, que não se sabe se vai perdurar nos próximos trimestres.
Ainda que a evolução das exportações e a da substituição de importações continuem ampliando suas contribuições para o incremento do PIB nos próximos trimestres, isso poderá não ser suficiente caso o desemprego continue crescendo, de modo a postergar a e estabilização e posterior recuperação do consumo das famílias. O comportamento ruim do mercado de trabalho poderá também refrear a melhoria da confiança do mercado, tida como crucial para impedir a continuidade da derrocada dos investimentos.
As próximas publicações de indicadores setoriais, coincidentes e antecedentes, inclusive daqueles relativos ao quadro da economia mundial, e os desdobramentos do cenário político deverão proporcionar informações mais robustas sobre as perspectivas de enfim estancar a queda no PIB.


Publicado no Jornal da Cidade, em 05/06/2016