Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O esmagamento do consumo

Ricardo Lacerda

O chamado ajuste econômico é apresentado como um ajuste fiscal, de redução dos gastos do governo, com o propósito de ampliar o superávit primário e de estancar o crescimento da dívida bruta do setor público enquanto proporção do PIB. Não deixa de sê-lo, mas ele é principalmente um ajuste dos gastos das famílias. A contenção dos gastos públicos é, sob certo sentido, apenas o veículo que vai entregar a compressão do poder de compra das famílias. Isso já foi feito anteriormente. Na verdade, é feito periodicamente e está associado não apenas às nossas mazelas internas como também à inserção subalterna de nossa economia no sistema internacional. Outros países periféricos passam por agruras semelhantes.

Em geral a compressão dos gastos das famílias tem como causa primeira a deterioração do cenário externo. Após um período, mais longo ou mais curto, com maior ou menor intensidade, em que a política econômica procura se contrapor aos efeitos contracionistas da crise internacional, as contas públicas e as contas externas se deterioram, amplificando e desequilibrando os déficits gêmeos. Na sequência, a política econômica se reverte na direção contracionista. Foi assim nos anos oitenta, nos anos noventa e está sendo agora.

Não é, todavia, monótono ou repetitivo. Cada ajuste tem sua própria história para contar. O saldo de benefícios e custos de cada política anticíclica pode ser avaliado  pelos resultados que obteve em promover o crescimento e pelas transformações estruturais de natureza econômica e social que realizou versus a herança de desequilíbrios deixada para os governos subsequentes. A execução do ajuste costuma ser alvo de intensa polêmica e tem sido, ao longo do tempo, um dos principais temas de enfrentamento das forças políticas. Como a reversão do cenário externo raramente é suave, tampouco há aterrizagem confortável, o ajuste é sempre dolorido. 

O Consumo e o PIB

O gráfico a seguir apresenta os índices de crescimento do consumo das famílias e do PIB da economia brasileira entre o final de 1998 e o segundo trimestre de 2015. Apenas por curiosidade, consta também a evolução do PIB das sete maiores economias avançadas, o chamado G7, entre 1998 e 2014. Em todas as séries, o ano base é 1995, com o índice igualado a 100 e os valores são de quatro trimestres acumulados.

O consumo das famílias cresceu muito pouco no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002). Com a crise cambial de 1998, o país iniciou um forte ajuste do poder de compra interno a partir do ano seguinte. A mudança na rota da política econômica abrangeu o abandono da âncora cambial (com a abrupta depreciação da moeda nacional) e a adoção do regime de metas de inflação, praticando-se juros estratosféricos nos primeiros anos. Foi um período duro. Nesse segundo mandato, o incremento do consumo das famílias ficou abaixo mesmo do crescimento do PIB, 6,4% e 9,5%, respectivamente, em quatro anos. Nos últimos dois anos da gestão, 2001 e 2002, o consumo ficou praticamente estagnado (crescimento de 1,8%), o que muito concorreu para a frustração na corrida presidencial do bloco político então no poder e para os baixos índices alcançados de aprovação com que FHC deixou o governo. Apenas para comparação, o consumo das famílias cresceu 25,5% no segundo mandato do presidente Lula (2007-2010), frente à expansão de 19,5% do PIB.

No primeiro ano do Governo Lula (2003), o consumo das famílias manteve-se estagnado, como resultado da continuidade na política contracionista. Mas em 2004, o consumo das famílias deu início a um longo período de crescimento acelerado que não foi interrompido nem mesmo durante o cataclisma que abalou a economia mundial no final de 2008. A partir de 2006, a expansão do consumo, alem de sofrer nova aceleração,  passou a apresentar taxas mais elevadas do que as do PIB.

Depois que a crise financeira internacional foi deflagrada, em setembro de 2008, o incremento do consumo foi fundamental para sustentar o ciclo expansivo da economia brasileira de forma consistente até o segundo trimestre de 2011, quando a economia mundial mergulhou novamente na crise. A partir de então, a política anticíclica começou a mostrar seus limites, o que foi acentuado em 2013 e 2014.

O ajuste de 2015

A partir de meados de 2011, a taxa de crescimento do consumo das famílias descolou da trajetória de crescimento do PIB (Ver Gráfico). A economia brasileira desacelerou fortemente mas o consumo das famílias continuou se expandindo a taxas muito expressivas, mesmo que declinantes, até o primeiro trimestre de 2014.

Em 2015, o consumo das famílias caiu por dois trimestres sucessivos. As medidas de ajustes farão com que os gastos de consumo continuem declinando nos próximos trimestres e a política econômica atua para que a queda nesses dispêndios seja mais acentuada do que a do PIB, o que ocorreu pela primeira vez no atual ciclo descendente, no segundo trimestre. A linha contínua do gráfico já mostra a curva do consumo se voltando para baixo. É o início do ajuste, ainda que os resultados fiscais não tenham aparecido.


Fonte: CNT do IBGE para o PIB e o Consumo das Famílias do Brasil. WEO do FMI para o PIB do G7.




Publicado no Jornal da Cidade, em 20/09/2015 

domingo, 13 de setembro de 2015

O PIB do 2º trimestre de 2015

Ricardo Lacerda

É preciso dizer que o período de ajuste da economia brasileira está ainda na sua primeira etapa. Os efeitos da redução em curso da demanda agregada por meio dos cortes no poder de compra da população, da redução dos gastos públicos e das mudanças do câmbio, apesar de já terem se manifestado com muita intensidade no primeiro semestre de 2015, devem se acentuar nos próximos três ou quatro trimestres, antes que a fase mais dura do ajuste fique para trás.

A economia brasileira parou de crescer no segundo trimestre de 2014. Naquele trimestre, na série do PIB que compara o crescimento com o mesmo período do ano anterior, o setor agrícola caiu 1,5%, o setor serviços recuou, o que não acontecia desde o quarto trimestre de 1996, e a atividade industrial despencou 3,6%. Em nenhum outro trimestre da série, iniciada em 1996, os três setores (agricultura, indústria e serviços) apresentarem queda simultaneamente. O início da estagnação coincidiu com a acentuada deterioração dos termos de trocas do comércio exterior, decorrente da queda nos preços de nossas principais commodities, e o resultado da agricultura esteve associado à estiagem de 2014.

A taxa do PIB, nessa série, foi rebaixada do patamar médio de 2,5% para abaixo zero. Na segunda metade de 2014, o nível de atividade apresentou taxas de crescimento trimestrais ligeiramente abaixo de zero, mesmo com a multiplicação de estímulos a setores específicos (ver Gráfico).

Em 2015, a série do PIB trimestral declinou novamente, refletindo imediatamente as medidas de ajustes que comprimiram o poder de compra da população e a redução dos gastos do governo: o PIB trimestral, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, caiu 1,6%, no 1º trimestre e 2,6% no segundo trimestre.

A levar em consideração as projeções de mercado (de 4 de setembro, anterior à reclassificação das dívidas brasileiras pela Standard & Poor's), o impacto do ajuste sobre o nível de atividade deverá se acentuar nos dois últimos trimestres de 2015, depois será atenuado no primeiro semestre de 2016 e o nível de atividade deixará de cair no segundo semestre daquele ano (Ver Gráfico).



Fonte: IBGE-CNT. As projeções são do relatório de mercado do Banco Central de 04 de setembro de 2015.

Setores

Os resultados do segundo trimestre de 2015 foram muito ruins, com a exceção do setor agrícola, que superou os efeitos mais graves da estiagem no centro-sul, e da indústria extrativa mineral, impulsionada pelo crescimento da produção do petróleo do pré-sal.

Cinco atividades apresentaram desempenhos especialmente críticos, sendo três do setor industrial e duas no setor de serviços: a indústria de transformação, a oferta de energia e água, a construção civil e o comércio e as atividades de transporte (ver Tabela). Entre as cinco atividades, apenas o fornecimento de energia e água não não acentuou o ritmo de queda no segundo trimestre de 2015.

O conjunto da atividade industrial recuou 5,2% em relação ao mesmo trimestre de 2014. Somente a atividade extrativa mineral foi poupada. A indústria de transformação caiu 8,3%, o setor de energia e água, 4,7%, e a construção civil, 8,2%. Nesses três segmentos, o nível de produção vem caindo trimestre a trimestre, na série que compara com o mesmo período do ano anterior, desde o segundo trimestre de 2014.

Entre as atividades de serviços, o comércio apresentou o pior resultado, queda de 7,2%, sempre na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, e as atividades de transportes recuaram 6,0%. O início da retração do nível de atividade do comércio remonta também ao segundo trimestre de 2014, mas o declínio se acentuou muito depois que foram adotadas as medidas de compressão do poder de compra pela nova equipe econômica. E o setor de transporte, que se manteve em crescimento até o final do ano passado, registrou dois trimestres de quedas muito acentuadas em 2015.

O período mais duro do ajuste deverá se alongar por mais trimestres porque os efeitos das medidas adotadas sobre a demanda agregada da sociedade ainda estão se manifestando e a agenda do ajuste prevê novos cortes nas despesas públicas e de poder de compra da população.



Fonte: IBGE-CNT

Publicado no Jornal da Cidade, em 13 de setembro de 2015 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

De olho no comércio exterior

Ricardo Lacerda

Sob praticamente todos os aspectos, de natureza política, econômica ou social, o ajuste recessivo em execução pela equipe econômica tem se revelado mais problemático do que era previsto no final do ano passado e os resultados têm ficado aquém do esperado: as dificuldades se acumulam na tramitação das medidas no congresso; nos efeitos sobre a arrecadação; na deterioração do mercado de trabalho; e na perda de renda impigida à população; e nos fins últimos do próprio ajuste, a melhoria da situação fiscal e a desaceleração da inflação.

Especialmente instigante tem sido o comportamento da balança comercial. Se as importações têm despencado ao longo de 2015, à força da queda do poder de compra interno e da desvalorização do real, as exportações de bens ainda não começaram a apresentar sinais de recuperação.

Um olhar especial sobre a evolução do comércio e serviços com o exterior é fundamental para tentar dimensionar os efeitos da mudança nos preços relativos promovida pela depreciação da moeda sobre esses componentes da demanda agregada e o que se poderá esperar de impulso de crescimento oriundo de processos de substituição de produtos e serviços importados pela oferta interna e do crescimento das exportações.

PIB trimestral

No desastroso resultado do PIB do segundo trimestre, queda de 1,9% em relação ao primeiro trimestre (com os ajustes sazonais) e de 2,6% em relação ao mesmo trimestre de 2014, os componentes do dispêndio interno apresentaram resultados mais desfavoráveis do que os componentes externos.

Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, o consumo das famílias, o consumo do governo e o investimento despencaram 2,7%, 1,1% e 11,9%, respectivamente. Os fluxos de bens e serviços com o exterior atenuaram a queda do PIB, com crescimento das exportações de bens e serviços da ordem de 7,5% e recuo das importações de 11,7%, refletindo os efeitos da recessão interna e da alteração do patamar do câmbio sobre eles.

A evolução das trajetórias trimestre a trimestre dos componentes do dispêndio (na série livre de efeitos sazonais) está apresentada no gráfico abaixo. Em linhas gerais, o PIB registrou queda acentuada nos últimos dois trimestres, o consumo das famílias e o consumo do governo que o sustentavam deixaram de fazê-lo e o acirramento da crise da indústria e a deterioração da confiança fizeram despencar o investimento. As exportações de bens e serviços cresceram nessa série e as importações de bens e serviços registraram quedas quase tão notáveis quanto as dos investimentos.


Fonte: IBGE. CNT

Importações de bens e serviços

A queda abrupta do poder de compra interno e o câmbio mais caro, aliados à deterioração da confiança nos cenários interno e externo, fizeram despencar as importações de bens de bens e serviços. Em relação ao mesmo trimestre de 2014, as importações de bens se retraíram 23,4%. No mês de agosto, o valor das importações de bens recuou notáveis 33,7%, ou seja, um em cada três dolares deixou de ser utilizado na aquisição de bens no exterior.

Em relação ao fluxos de serviços, o recuo foi menos acentuado porque, em alguns casos, as aquisições envolvem contratos relativamente mais longos. Na comparação entre o segundo trimestre de 2015 e o mesmo trimestre de 2014, as despesas com serviços adquiridos no exterior recuaram 16,4% e o saldo negativo da conta de serviços caiu em US$ 1,1 bilhão no período, equivalente a recuo de 16,8%. Entre os dois componentes de maior peso na conta de serviços, as viagens internacionais apresentaram retração de 28,2% na comparação entre o segundo trimestre de 2015 e o de 2014, mas os desembolsos com aluguel de equipamentos, associados a contratos de prazo mais longo somente apresentaram redução no mês de julho.

Categorias de uso

A queda do poder de compra interno repercutiu sobre a importação em todas as categorias de uso. Entre janeiro e agosto de 2015, em relação ao mesmo período de 2014, as importações de bens de capital caíram 15,8%, as de matérias-primas recuaram 17,8% e as de bens de consumo, 14,6%. 

Em termos absolutos, os recuos mais expressivos se verificaram nas categorias que refletem mais diretamente a retração da produção industrial e dos investimentos, como as matérias-primas e os bens de capital, e a de combustíveis, resultante das quedas nas cotações internacionais e no consumo interno. Em termos relativos, as maiores retrações foram registradas nas importações de bens de consumo duráveis, com destaque para automóveis, e novamente nos combustíveis.




TABELA: importação brasileira por categoria de uso. EM US$ milhões
Janeiro-Agosto de 2015
Janeiro-Agosto de 2014
Diferença
Taxa de crescimento (%)
Bens de Capital
26.862
31.912
-5.050
-15,8
Matérias-Primas e interm.
56.947
69.274
-12.327
-17,8
Bens de Consumo
22.230
26.019
-3.789
-14,6
-Bens de C. Não duráveis
11.295
12.224
-929
-7,6
-Bens de C. duráveis
10.935
13.795
-2.860
-20,7
-Automóveis
3.774
5.200
-1.426
-27,4
Combustíveis
15.011
26.608
-11.597
-43,6
-Petróleo
4.199
10.119
-5.920
-58,5
Total
121.050
153.813
-32.763
-21,3
Fonte: MDIC/SECEX

Publicado no Jornal da Cidade, em 06 de setembro de 2015

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O câmbio e o futuro da indústria (final)


Ricardo Lacerda

A manutenção do real apreciado por um período muito longo, como vimos nos dois artigos anteriores, encareceu a produção industrial brasileira e solapou progressivamente a sua competitividade tanto no mercado doméstico quanto no mercado internacional. Em magnitude expressiva, o Brasil perdeu participação no comércio mundial de produtos manufaturados, enquanto no mercado doméstico o coeficiente de penetração das importações registrou crescimento generalizado. A produção física da indústria de transformação brasileira deixou de crescer desde o final de 2008, quando foi deflagrada a grande recessão que marca o cenário atual da economia mundial.
Desindustrialização precoce
A manutenção do real apreciado por tantos anos, apesar das evidências da deterioração da atividade industrial foi, tanto nos anos noventa quanto no período mais recente, uma opção feita pelo governo em privilegiar o consumo em relação à produção e de favorecer as atividades de serviço em prejuízo das atividades manufatureiras.
De uma parte, o acesso a bens importados a preços artificialmente baixos, posto que não sustentável no longo prazo, inflou o poder de compra da população, mesmo que a custa da produção interna. De outra parte, enquanto o ciclo de crescimento acelerado da renda interna perdurou, os preços dos bens não comercializáveis descolaram em relação aos preços dos produtos manufaturados, transferindo renda do setor industrial para o setor de serviços.
O gráfico abaixo resume duas faces da perda de competitividade da atividade industrial brasileira entre 2007 e 2014. Nesse período, a participação da indústria de transformação no Valor Adicionado caiu de 16,6% para 10,9%, enquanto o peso dos produtos importados na oferta interna de produtos manufaturados (o coeficiente de penetração das importações) cresceu de 15,3% para 20%. À semelhança de outros países de renda média, o Brasil enfrenta um processo de desindustrialização precoce, caracterizado pela queda da participação do valor industrial na geração de riqueza antes mesmo de ter alcançado patamares de renda mais elevados.

Fonte: CNT do Banco Central; Coeficientes do comércio exterior da Funcex.
O ajuste e a depreciação do real
Ao longo de 2015 a situação da indústria de transformação se agravou. As medidas de adotadas pela equipe econômica de compressão da demanda agregada foram muito fortes e fizeram despencar o poder de compra da população. A elevação nas tarifas de energia elétrica, o ajuste nos preços dos combustíveis, as restrições à demanda e à oferta de crédito e a elevação nas taxas de juros provocaram queda acentuada na renda disponível das famílias. 
A transição para um novo patamar de câmbio que favoreça a competitividade da atividade industrial não é indolor. Na verdade, os custos sociais são imediatos e bastante elevados, não havendo outra razão para os governos a adiarem enquanto for possível. Se valorização da moeda nacional incrementa o consumo das famílias e infla a popularidade, a  depreciação da paridade faz o trabalho contrário.
A desvalorização da moeda tem como impacto imediato a pressão sobre os preços e a perda do poder de compra da população e foi determinante para derrubar a popularidade do segundo governo FHC e tem sido um dos principais fatores de insatisfação com a administração de Dilma Rousseff. A aceleração da desvalorização do real desde meados de 2014, que foi intensificada ao longo de 2015, foi mais um fator a agravar a situação da indústria. Como era esperado, os efeitos negativos sobre a inflação e sobre o poder de compra da população se manifestaram inicialmente com maior intensidade do que os efeitos positivos sobre a sua competitividade. A produção industrial do primeiro trimestre de 2015 ficou 7,9% abaixo do mesmo período do ano passado e a do segundo semestre, 8,7%, na mesma comparação. 
Isso não significa, todavia, que as condições da competitividade da indústria já não estejam sendo impactadas favoravelmente pela mudança da paridade cambial.    
Publicado no Jornal da Cidade, em 30/08/2015

domingo, 23 de agosto de 2015

O câmbio e o futuro da indústria (2)

Ricardo Lacerda

No artigo da semana passada, sustentei a posição de que a crise atual da indústria brasileira decorreu fundamentalmente da manutenção por longos anos de uma taxa cambial que encareceu a produção interna de manufaturados vis a vis a produção de outros países de nível de produtividade semelhante.
Afirmar, todavia, a prevalência da taxa de câmbio entre os determinantes da crise industrial não equivale a desprezar outros fatores, exatamente aqueles que influenciam a produtividade e que são decisivos, dentro de certas condições que precisam ser explicitadas.
Entendo como mistificadoras as análises que não reconhecem o caráter determinante do câmbio nas dificuldades de nossa atividade industrial, atribuindo-as a aspectos que limitariam o incremento da produtividade do setor, como o fechamento da economia do país, excessos de regulamentação ou outros componentes do chamado custo Brasil. Não porque tais fatores não sejam relevantes e até mesmo determinantes do crescimento industrial no longo prazo e sim porque não há passe de mágica que promova em pouco tempo incrementos de produtividade de 20% ou 30%, suficientes para compensar uma forte defasagem cambial.
Tampouco tais análises enunciam as implicações por trás das medidas de redução do custo Brasil ou de desregulamentação da economia sobre a distribuição de renda do país ou sobre a qualidade de inserção internacional.
Muitas vezes o caminho proposto para elevar a produtividade da indústria escamoteia os efeitos de medidas que na verdade ampliam as desigualdades sociais, pois pressupõem a precarização do mercado de trabalho, inviabilizam o financiamento de políticas sociais ou, em outros casos, promovem uma inserção de baixa qualidade nas cadeias produtivas globais. E por tais motivos devem ser rechaçadas. Vamos tentar explicitar a seguir, dentro das limitações do espaço que disponho, o que está em jogo.
Câmbio e produtividade
Desvalorizações cambiais competitivas são práticas adotadas rotineiramente pelos países que apresentam perda de dinamicidade no crescimento econômico e que contam com recursos produtivos, capital e trabalho, ociosos.
A manutenção do real apreciado, como sucedeu entre 1994 e 1998 e entre 2006 e 2011, inviabiliza a produção interna de uma série de bens manufaturados que sofrem competição com a produção de outros países. É possível imaginar um gradiente de produtos industriais (ordenados com base no comparativo internacional de custo unitário do trabalho) que, à medida que a nossa moeda vai se se apreciando, um a um vai deixando de ser vantajoso produzir internamente.
Se a apreciação da moeda nacional for acompanhada por incrementos reais de salários superiores ao aumento da produtividade do trabalho no setor manufatureiro, como aconteceu a partir de 2006, se torna crescentemente mais difícil competir tanto no mercado externo como no mercado doméstico, e avança-se mais celeremente no gradiente de bens que deixam de ter a produção interna competitiva. O encolhimento do mercado, decorrente de estagnação da demanda no mercado mundial ou do poder de compra interno adiciona restrições à expansão do setor.
Se ao lado da apreciação do real, a produtividade de nossa indústria crescer mais lentamente do que nos principais competidores teremos problemas duplicados.
Para ser sustentável, os incrementos dos salários reais na atividade industrial deveriam ter sido acompanhados por uma desvalorização do poder de compra do real que compensasse o diferencial entre a produtividade interna do setor industrial e a dos principais competidores do país, e não pela apreciação do poder de compra da moeda nacional como foi feito, que elevou o custo unitário do trabalho no país medido em uma cesta de moeda.
Considere-se, ainda, que a apreciação do real exerceu papel decisivo para retardar o incremento da produtividade do setor industrial brasileiro porque simplesmente o elevado custo de produzir internamente não habilitou o país a receber investimentos integrados às cadeias globais de produção e comercialização. Em sua grande maioria, os investimentos diretos ingressaram no país, como nos casos das montadoras, com foco no atendimento à demanda interna que crescia em velocidade incomum.
A agenda da produtividade
O gráfico a seguir apresenta a evolução da produção da indústria de transformação brasileira e a taxa de câmbio efetiva e real de nosso comércio exterior. Ele pode ser interpretado da seguinte maneira: a manutenção do câmbio depreciado em meio a uma crise mundial que se estende desde setembro de 2008 condenou à estagnação a nossa indústria de transformação.
A valorização recente do câmbio/depreciação do real promovida pelo Ministro Levy deverá ter efeitos importantes no médio prazo sobre a competitividade da atividade industrial brasileira mas a recuperação da indústria somente se efetivará em um segundo momento, quando o período mais duro do ajuste tiver ficado para trás.
A agenda da produtividade é de máxima importância para o futuro da indústria no Brasil. Não há como sustentar no longo prazo aumentos reais de rendimentos e melhorias nas condições de vida da população que não sejam acompanhados pelo incremento da produtividade do trabalho, o que deve contemplar a agenda já conhecida de elevação da escolaridade, investimentos em ciência e tecnologia, melhoria do ambiente de negócios, aprimoramento das instituições, melhoria na qualidade da regulação, modernização de nossa infraestrutura.
Mas a verdade é que a agenda da produtividade não se sustenta com taxas de câmbio em patamar irreal, que inviabilizam a produção industrial em termos competitivos.


Fonte: Banco Central, taxa de câmbio efetiva real; IBGE, produção Industrial.

Publicado no Jornal da Cidade, em 23/08/2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O câmbio e o futuro da indústria (1)

Ricardo Lacerda
O debate sobre a crise atual da indústria e sobre o movimento de mais longo prazo de perda de sua participação na riqueza nacional - o chamado processo de desindustrialização, é ruim, por ser pouco esclarecedor e ser permeado por posições ideologizadas.
Há uma dimensão do desenvolvimento industrial que diz respeito a atuação dos grandes oligopólios e as suas cadeias de fornecimento espalhadas pelo mundo. A qualidade da inserção de um país nessa rede mundial depende da existência de grupos econômicos robustos e com capacidade de inovação.
É uma agenda necessária mas não é fácil de ser enfrentada. Poucos países logram sucesso em entrar no clube fechado de produtores de tecnologias inovadoras. E, nesse quesito, o Brasil não vai bem. Em geral, as empresas do país têm uma presença forte no mercado mundial apenas nos segmentos intensivos em recursos naturais, como minérios e agroindústrias e, até recentemente, em alguns segmentos intensivos em trabalho, como calçados.
Um outro segmento competitivo é o da indústria da construção, em função do tamanho alcançado pelas empresas e do aprendizado acumulado internamente em obras públicas que habilitaram algumas delas a competir em diversos mercados. Tais empresas, como vemos, estão indo para o ralo, enredadas em contratos públicos suspeitos, situação similar às empresas da cadeia de petróleo e gás.
É sempre possível citar a Embraer e uma ou outra empresa de maior aprendizado tecnológico, mas são exceções e não a regra.
Custos e preços
Além dessa dimensão mais estrutural, que define a qualidade de inserção de empresas nacionais nas cadeias produtivas globais, há uma outra que diz respeito ao custo de produzir vis a vis outros países de nível de produtividade semelhante, habilitando empresas instaladas internamente a participarem do mercado global ou mesmo de se manterem no mercado doméstico.
Nessa dimensão, preços chaves como salários e juros são decisivos, mas o câmbio é que faz toda a diferença. É a paridade do câmbio que define o poder de compra externo de nossa moeda e informa se o país “está caro” ou não. E o Brasil vem se revelando um país caro para produzir bens industrializados desde os anos noventa.
Câmbio e transações correntes
O Gráfico a seguir apresenta duas curvas. A linha continua mostra a evolução de uma cesta de moedas frente ao real, já descontadas as inflações interna e externa. Quanto menor o valor de um ponto na curva, a cesta de moeda externa é mais barata e portanto mais o poder de compra do real está elevado.
A linha pontilhada mostra o saldo da conta de transações correntes com o exterior enquanto proporção do PIB (%). A ideia é que a uma taxa de câmbio equilibrada, nem cara nem barata, corresponde uma conta de transação corrente também equilibrada. Portanto, quanto maior o déficit nas transações correntes, em percentual do PIB, maior o desequilíbrio externo, indicando que a nossa moeda ou está ou esteve cara até recentemente, com uma defasagem temporal que pode ser mais ou menos extensa.
Entre julho de 1994 e janeiro de 1999, a supervalorização do real (o barateamento da cesta de moeda) produziu crescentes déficits na conta de transações, com danos intensos sobre a estrutura industrial. Na sequência, o real teve dois episódios de intensa depreciação, em fevereiro de 1999 e ao longo de 2002, que propiciaram inicialmente estagnar o déficit na conta de transações correntes e depois uma melhoria muito acentuada desse indicador.  Em relativamente pouco tempo, entre setembro de 2001 e junho de 2003, o país passou de um déficit de transações correntes de 4,5% do PIB, para uma situação de  superávit.

O cenário externo favorável foi determinante para a rápida melhoria de nossas contas externas nesse período. O ciclo de commodities puxado pela demanda da China impulsionou o valor das nossas exportações e permitiu a manutenção do superávit em transações correntes mesmo quando o real iniciou uma apreciação acelerada a partir do segundo semestre de 2004.

Durante sete longos anos o real elevou seu poder de compra frente a uma cesta de moedas, entre meados de 2004 e de 2011. Não havia como a estrutura industrial não ser atingida.


Fonte: Banco Central do Brasil

Três fases
Desde 2004, a evolução do setor industrial pode ser demarcada em três fases bem distintas, no que tange a relação entre taxa de câmbio e o crescimento da produção.
Na primeira fase, entre meados de 2004 e setembro de 2008, enquanto a elevação do poder de compra externo de nossa moeda conviveu com o mercado externo favorável e com o crescimento do mercado interno, a indústria brasileira encontrou espaço para continuar crescendo. Na segunda fase, entre o último trimestre de 2008 e meados de 2011, quando o poder de compra apreciado foi acompanhado, nos primeiros anos da crise financeira internacional, pela expansão do mercado interno a indústria de transformação entrou em estagnação da qual não mais se recuperou. Mas quando a falta de competitividade no mercado externo se somou ao mercado interno estagnado, já na terceira fase, o resultado é o nosso quadro atual: queda da produção industrial de 4,6%, em 2014, nova queda de 6,8% no primeiro semestre de 2015. Tendo em vista que o mercado externo se encontra especialmente ruim, os efeitos da desvalorização recente do real talvez ainda demorem a estimular a recuperação do setor.

Publicado no Jornal da Cidade, em 16/08/2015


domingo, 9 de agosto de 2015

As pedras no caminho de Levy

Ricardo Lacerda

Passou relativamente desapercebido o artigo do ministro da fazenda Joaquim Levy, veiculado na Folha de São Paulo no dia 03 de agosto. Em estilo sóbrio, em harmonia com seu perfil baixo, o ministro apresenta de forma sucinta, mas muito bem estruturada, a sua compreensão a respeito do momento atual da economia brasileira e traça as linhas gerais por meio das quais pretende reencontrar o caminho do crescimento. O título do artigo é Uma nova etapa.

Reequilíbrio

O ministro assinala que o ajuste já se encontra em pleno andamento e que a economia brasileira caminha em direção a um novo equilíbrio, no sentido de superar as turbulências e inseguranças que paralisam o país. O reequilíbrio conta com uma dimensão fiscal e uma dimensão externa. Algumas forças já foram mobilizadas a fim de alcançar esse objetivo.


É peça importante do reequilíbrio a mudança dos termos de troca do comércio exterior, decorrente da forte elevação do câmbio, com seus efeitos no médio prazo sobre a sustentabilidade das contas externas. Outra linha fundamental é o ajuste fiscal e financeiro do setor público, com o abandono das políticas anticíclicas de estímulo à demanda por meio de gastos e de créditos públicos, que já não surtiriam efeitos líquidos positivos.   

Incertezas externas e domésticas

As medidas adotadas visam retirar o país da rota de vulnerabilidade e conferir confiança aos agentes privados domésticos e externos. O ministro lembra que o caminho do reequilíbrio enfrenta dificuldades tanto de ordem interna quando de ordem internacional. O fim do ciclo de commodities derrubou os preços de nossos principais produtos exportados e elevou as retrições externas da economia brasileira. Além disso, o ambiente externo é de volatilidade e de fragilidade em algumas das principais economias. Resume tais dificuldades assinalando que “o quadro externo não é simples”.

Do lado interno, somam-se aos percalços econômicos o ambiente político instável, afetando a confiança das empresas e famílias. Não bastassem tais dificuldades, a ocorrência de chuvas muito abaixo da média pressiona as tarifas de energia, elevando os custos das empresas e comprimindo o poder de compra das famílias, e dificulta a eliminação dos subsídios que oneram as contas públicas.

O ministro não deixa dúvida de que o caminho já foi tomado e que as dificuldades atinentes aos custos da transição não o afastarão de realizar as mudanças estruturais vistas como inadiáveis, diante da impossibilidade de continuar contando com os bonus do ciclo de commodities. Encerrada a fase de preços internacionais favoráveis, o momento é de transição para um novo caminho que não pode ser sustentado, como anteriormente, pelo estímulo ao poder de compra das famílias, simplesmente porque as contas não fecham, nem a da situação fiscal, nem a das relações externas.

O ministro imagina que o caminho da retomada passa por três pontos fundamentais: passar um pente fino nas despesas do governo a fim de elevar a qualidade dos gastos públicos, com o que se espera obter melhores resultados para o mesmo volume de gastos; repartir com o setor privado a responsabilidade pela ampliação dos investimentos em infraestrutura e; aquilo que ele chama de compromisso com a excelência, estímulos para elevar a produtividade do setor público e do setor privado com o propósito de elevar a competitividade externa de nossa economia. Parece pouco para desarmar a crise e apontar o caminho do crescimento? Sim, parece pouco, e o caminho será árduo.

As pedras do caminho

São muitas as pedras no caminho do ministro. Frente ao peso das commodities na pauta de exportação, os efeitos da depreciação do real são pouco efetivos no que tange às vendas externas. As melhorias do saldo da balança comercial nos últimos meses decorreram exclusivamente do recuo das importações, fruto da redução do poder de compra interno e da elevação nos preços dos importados.

Do lado do ajuste das contas públicas, as medidas de contenção dos gastos e de restrição do crédito provocaram recuo no nível de atividade além do projetado, prejudicando as receitas públicas e com isso tornando o ajuste fiscal menos efetivo.

A mensagem do ministro no artigo é direta. O poder de compra deve se ajustar às restrições do cenário externo e interno. A hora chegou, não há mais como adiá-lo, por mais duro que o ajuste esteja sendo e por mais que a recuperação tarde.

A ideia-força, correta ou equivocada, parece ser que o ativismo governamental, em razão de sua perda de efetividade e da inexistência de espaço fiscal, deve se retrair e ceder lugar a ação do setor privado, mesmo que o custo de transição para o direcionamento pretendido se mostre elevado socialmente.


 Publicado no Jornal da Cidade em 09 de agosto de 2015