Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O IDH e outros indicadores



Ricardo Lacerda

O debate sobre desenvolvimento remete aos fundadores da economia política, desde os fisiocratas e Adam Smith, no século XVIII, a David Ricardo e Karl Marx, no século XIX. É no século XX, em plena grande depressão dos anos trinta, que foi elaborado o primeiro indicador abrangente de desenvolvimento dos países e regiões, o PIB. A medição do Produto Interno Bruto foi desenvolvida pelo economista Simon Kuznets, em 1934, e foi adotada de forma generalizada pelos países no após segunda guerra mundial. A série do PIB brasileiro se inicia em 1947. O PIB e o seu derivado, o PIB per capita, se estabeleceram como medidas do nível de bem estar das sociedades.

IDH e IPM

O Índice do Desenvolvimento Humano- IDH foi elaborado em 1990 pelo paquistanês Mahbubul Haq com a colaboração do Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, com o intuito de focar nas pessoas, e não na riqueza gerada, o parâmetro de avaliação do desenvolvimento econômico e social. Assim como o PIB eo PIB per capita têm importantes limitações e imperfeições, dentre as quais duas se destacam: não levar em conta as desigualdades de renda entre as pessoas e não descontar da valoração da riqueza os impactos negativos (as externalidades negativas) gerados pela atividade econômica sobre o bem estar, o IDH também as tem.

Do ponto de vista formal, a principal limitação do IDH, diferentemente do que ocorre com o PIB per capita, é que um índice de 0,800 não significa que um país ou estado apresenta o dobro do desenvolvimento humano de outro com 0,400. Em outras palavras, o valor do índice em si não tem grande significado, a não ser que o IDH de 0,800 é bem melhor do que o de 0,400. Isso decorre do caráter multidimensional do IDH que procurou traduzir em um único indicador o poder aquisitivo, o desenvolvimento educacional e as condições de saúde de uma população. Para superar tal limitação, foram criadas faixas de IDH indicando se um país se encontra em situação de alto, médio ou baixo desenvolvimento humano. As faixas não consideram os valores absolutos do IDH e sim a posição relativa na escala dos países.

Desde 2010, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em seu Relatório de Desenvolvimento Humano, vem adotando, ao lado do IDH, o índice de Pobreza Multidimensional – IPM que confere, segundo a instituição, uma visão mais adequada das privações que as famílias estão sujeitas, incluindo variáveis como o acesso a saneamento e as condições ambientais. Atua, portanto, no sentido de orientar as políticas públicas na superação das privações que afetam as parcelas mais pobres da população.

IDH Sergipe

A primeira medição do IDH dos estados brasileiros foi elaborada em 1998, com dados fornecidos pelo censo demográfico de 1991, a partir do cálculo dos IDHs municipais (IDH-M). Em 1991, Sergipe apresentava o IDH-M de 0,597, na 3ª posição do Nordeste, atrás de Pernambuco e Rio Grande do Norte.  Naquele ano, nosso estado se situava em 2º lugar em renda, 3º lugar em educação e 3º lugar em longevidade.

Com os dados do censo demográfico de 2000, o PNUD voltou a calcular o IDH-M. Sergipe, como os demais estados, avançou nas três dimensões. O IDH-M de 2000 referente a Sergipe alcançou 0,682, mas sua posição no ranking ao longo da década de noventa recuou para o 5º lugar, com a ascensão da Bahia e do Ceará aos 3º e 4º lugares, respectivamente. O PNUD efetuou outra medição com dados de 2005, com o IDH de Sergipe atingindo de 0,742, o 2º da região Nordeste, depois da Bahia. 

Em 2009, o Banco Central do Brasil, utilizando a metodologia do PNUD, calculou a partir dos dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar os IDHs dos estados brasileiros referentes ao ano de 2007, mostrando conquistas importantes. Sergipe apresentou o IDH de 0,770, a 1ª posição no ranking regional, seguido pela Bahia e Rio Grande do Norte. Sergipe se apresenta como 2º lugar em renda, depois do Rio grande do Norte, 1º em escolaridade e 2º em longevidade, depois da Bahia. Em 2013, o PNUD publicará o IDH-M com os dados do censo demográfico de 2010, que poderão ser comparados com os resultados de 2000, também calculado com dados censitários.



Fonte:Boletim Regional do Banco Central do Brasil. Janeiro de 2009


Do ponto de vista prático, a ampla disseminação do IDH constitui em ganho importante por que colocou no centro do debate democrático o desenvolvimento humano e o IDH passou a orientar as políticas públicas em um número crescente de países. A sua força e a sua debilidade decorrem de sua simplicidade. Se o IDH permite a comparação entre os países e regiões, ele se apoia em apenas algumas poucas das variáveis que podem ser consideradas relevantes na avaliação do desenvolvimento humano.

Com muito caminho ainda a trilhar, Sergipe, a exemplo de outras unidades da federação, vem avançando a passos firmes no desenvolvimento humano, seja quando são consideradas as dimensões do IDH, seja em outras dimensões de privações das famílias mais pobres.



Publicado no Jornal da Cidade em 27/08/2012

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O pior já passou (?)



Ricardo Lacerda

O ministro Guido Mantega deve ter respirado aliviado. Na semana que passou foram publicados indicadores que deram alento ao seu otimismo arraigado. Os dados sobre emprego e rendimentos referentes ao mês de julho, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do MTE, o resultado das vendas no varejo do IBGE e o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), referentes a junho, sinalizam que o mecanismo econômico pode ter começado a operar no sentido de acelerar o crescimento, depois de meses da baixa rotação que frustrava a esperança de que as medidas que vinham sendo adotadas tivessem eficácia.
Os resultados de junho e julho podem ser os primeiros sinais de que o ritmo de crescimento alcançou um patamar sustentado acima de 3% ao ano, deixando para trás o período de descrença e desânimo dos agentes econômicos.
Indicadores
A expansão do volume de vendas no varejo atingiu 1,5% em junho na comparação com maio, livre de efeitos sazonais, no melhor resultado desde janeiro (ver Gráfico 1).  Na comparação com junho de 2011, o volume de vendas no varejo atingiu 9,5% e nos últimos doze meses cresceu 7,5%. O mais significativo é que a aceleração do crescimento nas vendas não se limitou aos setores recentemente incentivados pela redução de impostos, como alguns analistas apostavam que o resultado de junho revelaria. A expansão das vendas no varejo foi abrangente, atingindo nove dos dez setores pesquisados. Aponta-se que as melhorias nas condições do crédito finalmente superaram os entraves à reaceleração das vendas no varejo. 
O comportamento do mês de junho confirmou que o consumo das famílias continua sendo uma das forças que empurram para cima o crescimento econômico, sepultando algumas crenças pouco aderentes com a realidade de que seu poder de empuxe já teria chegado ao limite.
 Fonte: IBC-BR, Banco Central do Brasil. Volume de vendas no varejo, IBGE.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

100 mil acessos

Na semana que passou, o blog Cenários de Desenvolvimento completou 100 mil acessos desde sua criação em maio de 2008. O recorde de acesso se deu em maio último, 12 mil e quebrados, uma média diária superior a 400.

Atribuo  à greve dos sistema federal de ensino superior e, em menor grau, às ferias escolares, a queda abrupta que ocorreu em junho e em julho, quando o acesso diário caiu para a faixa de 120 a 150. Agora em agosto os acessos começam a se recuperar, tendo atingido  280 no dia de ontem. (P.S. 358 acessos no dia 14.)

Enfim, acredito que superados os eventos que contiveram a demanda, retornaremos em breve ao patamar de abril e maio, com possibilidade de retomar a trajetória de expansão dos acessos.  Penso que mudanças estruturais no mercado, como o aumento da audiência do facebook frente à visitação de blogs, e restrições do lado da oferta que limitam o crescimento da produtividade do blog, não têm sido os principais limitantes da expansão (rsrsrs).

Gracias a todos!






segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O que esperar de 2012 e 2013



Ricardo Lacerda

É notório o empenho do governo brasileiro em deixar para trás o baixo dinamismo em que se arrasta a economia brasileira. Desde meados de 2011, quando ficou claro que a deterioração do cenário europeu contaminaria as perspectivas de crescimento doméstico,o governo fez uso de um amplo leque de ações com o propósito de aquecer a economia por meio do aumento da demanda das famílias e das empresas preservando, todavia, os gastos públicos.

Apesar dos reiterados anúncios do Ministério da Fazenda de que a retomada da economia já estaria em curso, sinais mais consistentes são ainda esparsos e convivem com a piora de alguns indicadores. A persistente turbulência na Zona do Euro, de desfecho imprevisível, e a titubeante recuperação do nível de atividade da economia americana, somadas a restrições internas, têm segurado a reaceleração do nível de atividade, gerando dúvidas sobre o que é possível esperar da economia brasileira no segundo semestre de 2012 e em 2013.

Estímulos

As medidas de estímulo ao crescimento contemplaram todo um arsenal de instrumentos para recuperar a capacidade de endividamento das famílias, para desonerar o consumo, reduzir o custo dos empréstimos e elevar a competitividade da produção interna frente aos produtos importados.

Vários instrumentos foram utilizados para alcançar esse objetivo: desvalorização cambial, desonerações tributárias e redução do custo do dinheiro, prioridade de fornecimento interno nas compras públicas.


domingo, 5 de agosto de 2012

Ocupação em Aracaju e em alguns dos maiores municípios sergipanos



Ricardo Lacerda

Os dados sobre a estrutura da ocupação da força de trabalho nos municípios sergipanos em 2010 oferecem um cenário que confirma alguns fatos já conhecidos, mas traz também novidades. Assim, reafirma-se o perfil acentuadamente comercial do município de Itabaiana, que lidera em termos de participação da força de trabalho ocupada nessa atividade, 23,7%, quase uma em cada quatro pessoas ocupadas no comércio ou em reparação de veículos.

O município agrestino também se situa entre os primeiros na ocupação de pessoas nas atividades de transporte e armazenagem, 6% da força de trabalho local, mas quem lidera em termos proporcionais é Carmópolis, com 9,7% das pessoas dedicadas a esta atividade, certamente por conta da demanda gerada pela Petrobras. Alerta-se que as informações dizem respeito ao local de residência das pessoas e não do município onde desenvolvem as atividades.

Uma síntese da composição da ocupação em 2010 nos vinte principais municípios nesse critério se encontra na Tabela 1. A Lista completa para os 75 municípios sergipanos pode ser acessada no endereço eletrônico que se segue. http://www.4shared.com/office/wb_byCLT/Anexo-_Ocupao_Municipios_2010.html.

Setorial

Entre os vinte municípios selecionados, Poço Redondo, Porto da Folha e Poço Verde contam com as maiores participações de sua população ocupada no setor agropecuário. Itabaianinha, Tobias Barreto, Nossa Senhora do Socorro, Capela e Itaporanga apresentam as participações mais elevadas no setor industrial, sendo que na indústria de transformação Itabaianinha e Tobias Barreto lideram, enquanto na construção civil são os municípios da região metropolitana, Nossa Senhora de Socorro e São Cristóvão, seguidos por Canindé do São Francisco, Itaporanga e Capela, que abrigam as maiores proporções de trabalhadores ocupados (ver Tabela 1).


Fonte: Censo demográfico de 2010


segunda-feira, 30 de julho de 2012

A ocupação nos territórios sergipanos

Ricardo Lacerda

Com a publicação de resultados da amostra do censo demográfico de 2010, disponibilizou-se um conjunto de dados muito amplo sobre a situação econômica e social nos municípios, permitindo a agregação de indicadores de desenvolvimento em níveis de microrregiões e territórios de Sergipe. 

Em 2010, havia 832.455 habitantes de 10 anos ou mais de idade ocupados na semana de referência da pesquisa, com ou sem vínculos empregatícios formais.

Ocupação 

A distribuição dos residentes em Sergipe entre as ocupações está apresentada na Tabela 1. Mais da metade da população ocupada (55,3%) tinha como principal atividade o setor de serviços, frente aos 22,8% que trabalhavam no setor agropecuário e 16,7% no setor industrial. 

Eram cerca de 460 mil nas atividades de serviço, cerca de 189 mil na agropecuária e 139 mil na indústria. Há ainda um contingente de 43.604 pessoas, equivalentes a 5,2% em atividades maldefinidas, em geral vinculadas ao setor de serviços. 

 No setor secundário, a construção civil concorria com a indústria de transformação pela liderança da ocupação, essa última com 62.996 pessoas ocupadas e a primeira já alcançando 60.674 pessoas. A indústria extrativa mineral, que inclui a extração de petróleo e gás natural, ocupava diretamente apenas 7.097 trabalhadores, 0,9% do total, apesar de responder por quase a mesma parcela da indústria de transformação no PIB estadual e por demandar ocupações em outros segmentos. 

No setor de serviços, destacavam-se o comércio, a administração pública e os serviços domésticos. Vale destacar os segmentos de alojamento e alimentação, que já ocupavam 24.803 pessoas, em parte por conta das atividades vinculadas ao turismo, em parte pelo crescimento do hábito de fazer refeições fora de casa. Os contingentes de pessoas ocupadas nas atividades de educação e de saúde e serviços sociais também eram muito expressivos (ver Tabela 1). 
 Fonte: Censo demográfico de 2010 


quinta-feira, 26 de julho de 2012

Cenários de Desenvolvimento no Facebook

Abri uma página anexa ao Facebook, intitulada Cenários de Desenvolvimento que é o 1º passo para migrar o Blog para a nova plataforma, sem desativar o blog atual. É uma página de acesso aberto contendo artigos e informações econômicas. Quem quiser acompanhar, basta entrar na página e clicar curtir. Ver o link abaixo. Abs http://www.facebook.com/CenariosDeDesenvolvimento

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O ciclo, a crise e a arrecadação federal


Ricardo Lacerda

 Cada ciclo de crescimento econômico tem uma combinação própria de fatores que o impulsiona. O início do ciclo expansivo pode ser motivado por uma força externa, como a expansão na procura mundial por produtos em que o país é especializado, ou em razão da exploração de uma nova fronteira de recursos naturais que crie oportunidades para ampliar os investimentos voltados para as exportações. 

 Os ciclos de crescimento também podem ser movidos pela ampliação do mercado interno, seja em função de inovações institucionais como aquelas que propiciem a expansão do crédito, seja por conta do incremento da renda da população, ampliando o poder de compra interno. Ou ainda engendrados por investimentos que expandam e diversifiquem a capacidade do parque produtivo, acompanhados de melhorias na infraestrutura econômica ou impulsionados pelas inovações tecnológicas que habilitem a explorar oportunidades em novos segmentos. 

Ciclo virtuoso 

Em sua essência, o crescimento tende a provocar desequilíbrios porque altera as proporções entre setores e as posições relativas das classes sociais, alguns setores crescendo mais rapidamente, outros mais lentamente, criando oportunidades e estrangulamentos, e novas demandas sociais. 

O ciclo de crescimento da economia brasileira iniciado em 2004 contou com uma combinação de melhoria no cenário externo, proporcionada principalmente pelo efeito da ascensão da China sobre os preços das commodities alimentícias e minerais, com a expansão do poder de compra interno, movida pelos incrementos dos salários, pela ampliação do crédito para as famílias e pelo aumento das transferências de rendas aos grupos mais vulneráveis. 

Depois de encetado o crescimento, formou-se um ciclo virtuoso em que o aumento do emprego, da renda e do crédito e o desempenho das exportações propiciaram a expansão do mercado interno e a melhoria das contas públicas e das contas externas, o que em conjunto elevou as expectativas e a confiança das famílias e empresas. Como esses movimentos contam com mecanismos de autoreforço, atinge-se uma situação em que a própria expansão da economia motiva o crescimento nos períodos seguintes. 


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Câmbio e os juros


Ricardo Lacerda

O valor da moeda nacional frente às dos demais países com os quais o Brasil efetua transações econômicas é um dos fatores mais fundamentais na determinação não apenas do nível atual da atividade econômica, quanto, por meio de diversos canais, do desenvolvimento do país no longo prazo.   

Em situações como a presente, de desaceleração do crescimento econômico convivendo com uma trajetória declinante da inflação, abre-se uma janela de oportunidade para promover uma acentuada correção do câmbio que deve ser em grau suficiente para reverter a situação de declínio da competitividade relativa da produção industrial brasileira frente aos produtos importados e no mercado externo.

O Gráfico 1 apresenta o comportamento da taxa de câmbio real efetiva, corrigida pelo IPCA, desde o final o final de 1993, até maio de 2012, delimitado pelos períodos de governo. Observe-se que a desvalorização do real no corrente ano, apesar de forte, é ainda relativamente pouco expressiva quando comparada à valorização de períodos anteriores. 


Fonte: BCB-Depec

Desorganização da produção

Manter o câmbio valorizado significa em primeiro lugar subsidiar o consumo de produtos importados, tornando-os artificialmente baratos, em detrimento da produção industrial doméstica existente ou potencial, o que pode ou não atender objetivos da política econômica em determinadas etapas do desenvolvimento.

Em uma conjuntura recessiva da demanda externa como a que se vivencia hoje, o câmbio valorizado induz a transferência de milhares de empregos para o exterior, sem a compensação de mesma qualidade ou quantidade promovida pela expansão das exportações. Mesmo com o mercado de consumo interno mantendo expansão robusta nos últimos meses, uma parcela maior do acréscimo de consumo vem sendo atendida pelo fornecimento de produtos elaborados lá fora. O consumidor fica satisfeito com o câmbio valorizado, mas a produção interna corre o risco de se desorganizar. 

Ainda no curto prazo, o valor do câmbio é importante na medida em que o preço dos produtos importados afeta o comportamento da inflação interna. É observando esses dois efeitos, sobre o ritmo da atividade e sobre os preços, que a autoridade econômica estipula os objetivos que vão guiar as políticas de curto prazo que afetam o valor do câmbio. No longo prazo, muitos outros aspectos estão em jogo e o essencial é equilibrar os graus de modernização e de exposição à competição desejados para a matriz produtiva interna, de um lado, e sua expansão e diversificação em direção a novos setores, de outro.

Os juros

Uma desvalorização pronunciada do câmbio torna-se factível em função da queda recente das taxas de juros internas. Como alguns especialistas têm assinalado, a valorização do real nos últimos anos deveu-se apenas parcialmente à entrada de divisas proporcionada pela elevação dos preços de commodities minerais e alimentares em que o Brasil responde por parcela importante da demanda mundial. Parcela significativa da valorização decorreu do fluxo de capital internacional atraído pelo diferencial de juros pagos internamente.  

A queda acentuada na taxa básica real de juros desde o segundo semestre de 2011 (ver Gráfico 2), que deve ter continuidade nos próximos meses, amortece um dos principais vetores de valorização cambial na medida em que estreita o diferencial de juros.

Fonte: BCB- Relatório de inflação, junho de 2012.

Na situação atual de desaquecimento dos mercados externos e de perda de competitividade da produção nacional no mercado interno, manter o câmbio valorizado implicaria exposição da produção interna em grau desmedido, muito além do que preceitua o convencional receituário de abertura à competição externa.

Por tudo que avançou na primeira década do século XXI, o Brasil se encontra em condições ainda excepcionais para enfrentar a nova onda de turbulência dessa já longa crise internacional. Medidas adicionais que visem promover a desvalorização da moeda não são indolores, mas são decisivas para reaquecer o nível de atividade e recuperar a competitividade da estrutura industrial.


Publicado no Jornal da Cidade em 16/07/2012 
Para baixar o arquivo em PDF clique aqui.

domingo, 8 de julho de 2012

Nordeste- Mudanças na especialização industrial na década de 2000

Ricardo Lacerda

No debate sobre a desindustrialização do país, vale a pena considerar as especificidades regionais. Ao longo da primeira década do século XXI, a indústria de transformação do Nordeste cresceu a taxas superiores à media do Brasil na ampla maioria das atividades. 

Tendo em vista a descontinuidade da série histórica em 2007, com a alteração da Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE), é necessário quebrar a análise em dois subperíodos, 2000-2007 e 2007-2010. 

 Entre 2000 e 2007, a participação da região no Valor da Transformação Industrial (VTI) da indústria de transformação brasileira ampliou-se de 8,5% para 9,4%. Depois de 2007, até 2010, em um período já marcado pela crise financeira internacional e pela perda de dinamicidade da atividade industrial do Brasil, a indústria de transformação regional também se ressentiu, o que fez com que estancasse a ampliação de sua participação no VTI em 9,5% em 2010, igual à participação de 2007 na nova classificação das atividades. 

Avançando no entendimento do significado do intenso crescimento econômico do Nordeste na primeira década do século atual em termos de mudanças em sua estrutura industrial, cabe examinar os setores em que o Valor da Transformação Industrial (VTI) apresentaram maior expansão, inferindo as variações dos pesos na composição da indústria regional e no total da atividade no Brasil. 

Estrutura

 Em 2010, os segmentos de maior peso na estrutura industrial do Nordeste eram a fabricação de alimentos, de derivados de petróleo e biocombustíveis (etanol) e o de produtos químicos, inclusive fertilizantes. Cada uma dessas divisões respondia por mais de 10% do VTI da indústria de transformação regional. Na sequência, representavam mais de 5% do VTI industrial a fabricação de calçados, de bebidas, metalurgia, minerais não-metálicos e a fabricação de veículos. 

 O setor têxtil, desde 2007, não consta mais na lista dos dez segmentos mais importantes no valor da produção regional da indústria de transformação. Cabe assinalar, que, em 2000, a fabricação de produtos têxteis participava com 7% do VTI regional e se situava na 5ª posição (Ver Tabela). 


domingo, 1 de julho de 2012

Especialização e crescimento do emprego regional na indústria



Ricardo Lacerda

Ao longo da década de 2000, o movimento de desconcentração da atividade industrial no território brasileiro teve continuidade, com a região (Sudeste) e o estado (São Paulo) mais industrializados perdendo participações no Valor Adicionado Bruto do setor industrial, conceito próximo ao PIB, em favor dos estados de regiões menos industrializadas, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste e dos demais estados da região Sudeste.

De acordo com as contas regionais do IBGE, o estado de São Paulo perdeu 4,6 pontos percentuais de participação na indústria brasileira entre 2000 e 2009, considerando a indústria de transformação, a indústria extrativa mineral, a construção civil e os serviços industriais de utilidade pública. Entre 1995 e 2009, essa perda teria alcançado 9,1 p.p., o que representa uma fatia muito expressiva, ainda que a desconcentração na indústria de transformação não tenha sido acentuada.

A desconcentração territorial do emprego industrial foi bem mais ampla, com a região Sudeste tendo reduzido, entre 2000 e 2010, em 3,5 pontos percentuais a participação do emprego formal considerando apenas a indústria de transformação, segundo os dados do MTE-RAIS.

Certamente muitos fatores contaram para tal espraiamento da atividade industrial no território brasileiro, entre eles as deseconomias de aglomeração dos principais polos industriais situados naquele estado (salários e alugueis mais altos), os atrativos oferecidos no âmbito das disputas fiscais entre as unidades da federação, a montagem de novos polos industriais fora das regiões Sudeste e Sul, as novas oportunidades de exploração de recursos naturais, a expansão mais rápida do mercado de consumo nas regiões mais pobres e as próprias mudanças na estrutura industrial brasileira.


domingo, 24 de junho de 2012

Crescimento e redistribuição regional do emprego formal na década de 2000.


Ricardo Lacerda

A intensa geração de emprego formal é um dos aspectos mais virtuosos do crescimento econômico na década de 2000. O contingente de emprego formal no Brasil cresceu à taxa média de 5,3% ao ano entre dezembro de 2000 e dezembro de 2010, bem superior à expansão média do PIB e do crescimento da População Economicamente Ativa, fazendo com que a parcela dos vínculos formais no total do emprego tenha se ampliado significativamente.

Em 2010, a quantidade de pessoas inseridas no mercado formal brasileiro era cerca de 2/3 maior do que em 2000. A geração de emprego manteve-se robusta nos anos mais recentes, apesar dos impactos da crise financeira internacional.  Mesmo em anos ruins, de PIB estagnado, como 2009, ou de baixo crescimento, como 2011, o emprego formal aumentou a taxas superiores a 4% e 5%, respectivamente. 

Em 2012, de forte desaceleração do nível de atividade, a taxa de crescimento do emprego formal em doze meses completados em maio alcançou 4,3%, o que não significa que o mercado de trabalho esteja blindado em relação à crise, pois as taxas de geração de emprego vêm caindo.

Desconcentração
A expansão do emprego formal tem sido célere em todas as regiões brasileiras. As regiões mais pobres e com mercado de trabalho mais frágil, como o Norte e o Nordeste, apresentaram taxas de expansão do emprego formal ainda mais elevadas, enquanto as regiões mais ricas e com mercado de trabalho mais estruturado registraram taxas de expansão abaixo da média brasileira (ver Gráfico). No período 2000-2010, o emprego formal se expandiu a taxas anuais de 8,2% na Região Norte, de 6,2%, no Nordeste, e 5,7% no Centro-Oeste, frente aos 5% na região Sul e 4,8% no Sudeste.

O mais interessante é que a desconcentração do emprego formal em direção às regiões mais pobres não pode ser atribuída a nenhum setor específico, posto que se verificou em praticamente todos os setores de atividade econômica.

domingo, 17 de junho de 2012

As forças que derrubaram o PIB



Ricardo Lacerda

Desde meados de 2011 que o governo federal vem adotando uma série de medidas visando reverter a intensa desaceleração do ritmo de crescimento da economia brasileira. As medidas abrangeram um amplo leque de instrumentos para desvalorizar o câmbio, reduzir juros, ampliar crédito, defender o mercado interno de setores especialmente atingidos pelo intenso crescimento das importações, reduzir tributos de bens de consumo, sem que o ritmo de atividade tenha, até o momento, dados sinais de reanimação. Ver no Gráfico 1 o declínio acentuado da taxa de crescimento do PIB no acumulado de quatro trimestres.

Reação

Diferentemente da reação adotada em 2009, muito mais incisiva frente a um quadro mais agudo da crise naquele momento, as medidas vem sendo tomadas de forma progressiva, agregando novos instrumentos quando se conclui que os estímulos anteriores não foram suficientes para reaquecer a demanda agregada da economia.

Também diferentemente de 2009, o governo optou, até o momento, por não utilizar uma política de gasto público de caráter anticíclico, colocando suas fichas na recuperação na demanda das famílias e das empresas. Atento à intensificação dos sinais de instabilidade nos países com situações fiscais mais fragilizadas da Zona do Euro, o governo brasileiro vem buscando preservar a meta de superávit primário estabelecida para o ano, como forma de assegurar a trajetória declinante das taxas de juros.  

Quando se decide por intensificar os gastos, busca destravar o investimento público e não as despesas correntes, inclusive com a ampliação da oferta de crédito para os estados, como foi anunciada em reunião na última sexta-feira sobre a disponibilidade de 20 bilhões de reais por meio do programa de Pro-Invest, voltado para as obras de infraestrutura.    


Fonte IBGE: Contas trimestrais


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Como foi construído o Brasil Moderno

Entrevistas com ex-presidentes, diretores do BNDES e lideranças empresariais, no âmbito do projeto O papel do BNDE na industrialização do Brasil – Os anos dourados do desenvolvimentismo – 1952-1980, foram publicadas pelo Centro Internacional Celso Furtado em 2009. 

Lucas Lopes, Roberto Campos,Celso Furtado, Ignácio Rangel, Conceição Tavares, dentre outros, apresentam suas visões sobre um período muito rico da história econômica do país.

O documento mostra um pouco como foi construído o Brasil Moderno.  Ver link a seguir.

http://www.centrocelsofurtado.org.br/interna.php?ID_M=138

domingo, 10 de junho de 2012

Exportações sergipanas batem recorde em doze meses



Ricardo Lacerda


As exportações sergipanas finalmente se recuperaram de forma robusta em 2012, depois de terem sido fortemente atingidas pela crise financeira internacional de setembro de 2008. Muito dependentes do desempenho das vendas de suco concentrado de laranja, as exportações sergipanas se ressentiram profundamente da baixa cotação do produto no mercado internacional. O preço médio da tonelada exportada por Sergipe de suco concentrado de laranja em 2009 caiu a menos da metade da cotação de 2007. Porém, desde meados de 2010, o preço do produto apresentou notável recuperação no marcado internacional, criando estímulo para a retomada das exportações sergipanas.

Entre janeiro e maio de 2012, as exportações sergipanas alcançaram US$ 66 milhões, frente aos US$ 38,6 milhões do mesmo período de 2011, uma expansão de 71%. Nos doze meses completados em maio de 2012, as exportações sergipanas somaram US$ 149,8 milhões, o mais alto resultado alcançado para o período e 63% superiores aos US$ 91,7 milhões dos doze meses completados em maio de 2011, superando ainda em 13% o recorde anterior, de maio de 2008 (ver Gráfico 1).


Fonte: MDIC/SECEX


terça-feira, 5 de junho de 2012

Visitações em maio

O numero de visitações ao blog Cenários de Desenvolvimento bateu recorde em maio: 12.313. O pico se deu no dia 28, com 633 visitações. Deve vigorar alguma Lei de crescimento da clientela adaptada a ambientes virtuais para explicar a expansão geometrica. Obrigado a todos os visitantes, intencionais ou ocasionais!

domingo, 3 de junho de 2012

A Usina de Biomassa Gentil Barbosa e a agroindústria canavieira em Sergipe

Ricardo Lacerda

Foi inaugurada na última terça-feira, no município de Nossa Senhora das Dores, a Usina Elétrica Renovável Gentil Barbosa, com capacidade de gerar 34 MW a partir do aproveitamento da biomassa da cana, oferta suficiente para atender as necessidades do complexo agroindustrial e o equivalente ao consumo conjunto dos municípios de Lagarto e Itabaiana.

A implantação da unidade de biomassa do grupo Agroindustrial Campo Lindo simboliza a nova etapa que vivencia a agroindústria canavieira em Sergipe, que procura se afastar do modelo tradicional e estigmatizado do setor e enveredar para a formação de um complexo produtor de energia. O investimento na unidade geradora de energia a partir de biomassa, da ordem de R$ 100 milhões, eleva para R$ 300 milhões o investimento realizado no complexo, com a criação de três mil empregos diretos formais, com grande impacto na economia da região. Em uma terceira fase, o grupo efetuará investimentos na produção de energia elétrica de origem eólica, com a implantação de mais de cinquenta torres em meio ao canavial.

Sucroenergético

Alerta-nos Marco Aurélio Déda, que desenvolve estudo instigante sobre a competitividade das atividades da agroindústria canavieira no Nordeste, que a tradicional indústria açucareira brasileira desde 2010 passou a ser referida como indústria sucroenergética para caracterizar mais adequadamente os mercados em que as empresas atuam. Na safra 2008/9, 61% do chamado ATR- Açúcar Total Recuperável da cana brasileira foram destinados à produção de etanol e os demais 39% à produção de açúcar. Trata-se, portanto, de, crescentemente, competir no mercado de combustíveis, ainda que o mercado do açúcar deva continuar respondendo por uma parcela ampla da atividade.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Nordeste e a Crise

Ricardo Lacerda

Os mecanismos pelos quais os estímulos (e os desestímulos) à demanda agregada operam sobre o nível de atividade econômica das regiões nunca foram suficientemente investigados. A redução do IPI na aquisição de veículos, por exemplo, certamente tem impactos maiores sobre o nível de atividade nos estados que sediam as montadoras do que nos demais, ainda que não se saiba exatamente como se distribuem espacialmente os efeitos diretos e indiretos da medida.

No primeiro momento, perdem os estados mais pobres, com a redução de aporte de recursos para o FPE e FPM (fundos de participação dos estados e dos municípios, respectivamente), os maiores beneficiários dos fundos, enquanto os mais ricos não apenas deixam de ter o vazamento de renda com o recolhimento do tributo, como têm uma resposta mais imediata em termos de geração de emprego, recuperação do comércio e na arrecadação de ICMS.

Mas os efeitos não se limitam aos impactos mais diretos. A recuperação do nível de atividade da indústria automobilística pode ajudar a reverter o marasmo econômico atual e afastar os riscos da estagnação, e termina, por uma multiplicidade de canais, repercutindo positivamente no nível de atividade dos estados mais pobres, ainda que menos do que proporcionalmente.

Oscilações no câmbio, na taxa de juros, no volume de crédito, nos gastos públicos, aumentos reais no salário mínimo etc repercutem de formas distintas entre as regiões, mesmo considerando que o grau de integração produtiva e comercial entre elas e os mecanismos de transferências de renda funcionem como contrapeso, e venham assegurando taxas de crescimento relativamente próximas entre os estados da federação.

Nordeste

Desde o inicio do ciclo expansivo, em 2004, as regiões mais pobres vêm apresentando taxas de crescimento mais elevadas do que as alcançadas nos estados mais industrializados. Gastos federais em infraestrutura, elevação real do salário mínimo, expansão do crédito, bancarização da população e diversas modalidades de transferência de rendas foram alguns dos mecanismos que incidiram mais intensamente no Norte, Nordeste do que nas regiões Sul e Sudeste. O crescimento do Centro-Oeste é ainda estimulado pela valorização das commodities no mercado internacional.

Quando em 2008 a crise financeira internacional impactou fortemente o nível de atividade interna, a resposta do governo brasileiro centrada no estímulo ao mercado de consumo novamente favoreceu as economias das regiões mais pobres, mas isso não significou que o setor produtivo delas não tenha sido afetado.

domingo, 20 de maio de 2012

O consumo e a queda na produção industrial


Ricardo Lacerda

Analistas têm repetido que o modelo de crescimento puxado pelo consumo, marca do governo Lula, teria se exaurido e que o governo Dilma somente engrenaria novo ciclo de altas taxas de crescimento se a economia passar a ser movida por incrementos de produtividade que elevassem a competitividade da produção doméstica, notadamente no setor industrial. Não estou tão seguro quanto a esse esgotamento do ‘modelo de crescimento”. Não acredito mesmo que existam evidências que autorizem tal tipo de conclusão. Além disso, esse argumento já foi utilizado anteriormente e se mostrou equivocado.

De fato, a ampliação do poder de compra das famílias, por meio de aumentos reais de salário mínimo, das transferências de renda e da ampliação do crédito, pôs em movimento, ainda em 2004, um ciclo expansivo que se realimentava na medida em que o emprego e o poder de compra se ampliavam. É a combinação do aumento do poder e compra das famílias com os preços favoráveis das commodities brasileiras no mercado internacional que deram partida ao ciclo de crescimento.

Quando a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, prenuciou o fim dos tempos, o governo brasileiro dobrou a aposta na ampliação do mercado de consumo, promovendo a redução de tributos incidentes sobre os bens duráveis, mantendo os aumentos reais de salário e irrigando os canais de crédito, o que permitiu uma recuperação rápida e exemplar da atividade econômica ainda em 2009.

Desaceleração

O que sustou a continuidade do ciclo expansivo em meados de 2011, portanto já no governo Dilma, não foi nenhum esgotamento do potencial de crescimento puxado pela expansão do consumo e sim a excessiva retração dos gastos decorrente da sobreposição da nova fase da crise internacional com as medidas restritivas adotadas internamente.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nova queda da produção industrial no 1º trimestre



Ricardo Lacerda

A economia mundial experimenta tempos extraordinários, enfrentando desde meados de 2011 uma recidiva da crise iniciada ainda em 2007. A resposta brasileira à forte deterioração do cenário internacional no final de 2008, com o estímulo ao poder de compra interno, propiciou que a nossa economia recuperasse rapidamente a trajetória de crescimento e venha mantendo taxas elevadas de geração de emprego.

Acompanhando atenta a Europa se desmanchar nessa nova etapa da crise, a gestão da política econômica tornou-se mais complexa no seu intento manter a sustentabilidade do crescimento econômico, mesmo a taxas mais modestas. Como é recorrente nesses momentos, alguns especialistas reagem negativamente às medidas menos ortodoxas adotadas e clamam por mais juros e menos ações de defesa da indústria, paladinos que são da austeridade e do livre comércio. Em um momento em que os reflexos da crise mundial ameaçam não apenas a continuidade do crescimento mas a própria integridade de nossa estrutura industrial, não se sabe se tais posicionamentos são um caso de oportunismo ou de dissociação da realidade.

Produção trimestral

Os números da produção física da indústria brasileira, apresentados pelo IBGE na semana que passou, ilustram o momento difícil do setor. A produção física recuou 2,1% em março de 2012 em relação ao mesmo mês do ano anterior. No trimestre, a retração atingiu 3% e nos últimos doze meses a queda foi de 1,1%. Em relação a fevereiro, na série livre de efeitos sazonais, a produção industrial de março caiu em 18 dos 27 ramos pesquisados. A tabela apresentada resume a extensão e a profundidade da retração:no 1º trimestre a produção física de bens capital caiu 11,4%, a de bens duráveis, 11,6%, de bens intermediários, 1,3%, e apenas os não duráveis e semiduráveis apresentaram modesto crescimento, de 0,9%.

domingo, 6 de maio de 2012

A cultura do milho e a seca

Ricardo Lacerda

A cultura do milho tem grande significado para o semiárido nordestino. Tradicional cultura da região, ao lado da mandioca e do feijão, a produção de milho se expandiu intensamente na última década, mais do que dobrando a quantidade produzida, enquanto as outras duas culturas apresentaram evoluções mais modestas.

Entre as médias de 1998-2000 e 2008-2010, a produção de milho do Nordeste aumentou 126%, frente a 26% de incremento da cultura da mandioca e 6% do feijão. Com a elevação do preço internacional do produto, em grande parte associada à expansão da fabricação de etanol nos Estados Unidos, o cultivo de milho acelerou seu ritmo de crescimento no Brasil. O Departamento de Agricultura americano estima mesmo que a utilização de milho na safra 2011/2012 para a produção de combustível deverá superar o montante consumido na fabricação de rações.

Nordeste

A produção de milho do Nordeste vem crescendo em ritmo mais acelerado do que a média do Brasil, com taxas de expansão somente inferiores às alcançadas pelo Centro-Oeste. A constatação vale tanto para o período mais recente, pós-2008, quanto para a última década como um todo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A geração de emprego no 2º trimestre


Ricardo Lacerda

A expansão da atividade sucroalcooleira nos últimos anos em Sergipe propiciou a ampliação de emprego formal no setor agropecuário e na fabricação do açúcar e do álcool. Também foi fundamental para a interiorização do emprego com carteira assinada, com a criação de milhares de ocupações nos territórios do Leste e do Médio Sertão, notadamente nos municípios de Capela e de Nossa Senhora das Dores.  

O crescimento dessa atividade, com o aumento do seu peso no emprego total, teve como efeito colateral a intensificação da variação sazonal na geração de emprego, aumentando a participação das contratações a partir de junho de cada ano, mas diminuindo a ocupação nos primeiros meses do ano e muito particularmente entre março e maio. Esse comportamento sazonal se verifica em todos estados do leste nordestino, sendo mais acentuado em Alagoas e Pernambuco, detentores das maiores áreas de cultivo de cana. Com o crescimento dessa lavoura em Sergipe, elevou-se a participação do 3º trimestre no total de contratação anual e, em menor escala, do 4º trimestre, enquanto reduziu-se o peso do 2º trimestre.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O emprego no 1º trimestre: a força da construção civil


Ricardo Lacerda

O comportamento do emprego formal em Sergipe permaneceu muito positivo nesse início de 2012. Entre janeiro e março foram criados 2.977 empregos formais, o melhor resultado já registrado para o 1º trimestre. Nos doze meses completados em março foram criados 18.537 novos empregos com carteira assinada na série estatística do MTE com ajustes, que considera as declarações fora de prazo.

A taxa de crescimento do emprego formal nesses doze meses alcançou notáveis 7,12%, muito elevada, considerando o ritmo relativamente menor do crescimento econômico desde meados de 2011. Foi a segunda taxa mais alta de crescimento do emprego formal do Nordeste, depois de Pernambuco, e a sexta do país (ver Gráfico 1). Na média do Nordeste, o emprego formal cresceu 5,29% e no Brasil, 4,82%.

Fonte: MTE- CAGED
1º trimestre

A geração de emprego no 1º trimestre do ano é sempre menos intensa do que no restante do ano. Em geral a indústria de transformação inicia o desligamento de parcela do pessoal contratado para abastecer as vendas de final de ano ainda em novembro e somente tende a reiniciar a contratação no segundo trimestre. O comércio promove corte acentuado no final de dezembro e retoma de forma crescente a admissão também no 2º trimestre, alcançando o pico de contratação nos últimos meses do ano. Some-se a esses desligamentos à redução de pessoal do setor sucroalcooleiro por ocasião do final da safra e se tem delineado o cenário do mercado de trabalho no 1º trimestre de cada ano.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ocupação e estabilidade no emprego

O ciclo de crescimento econômico iniciado em 2004 produziu forte impacto sobre a ocupação formal e informal. Mais brasileiros de todas as regiões conseguiram se inserir no mercado de trabalho em condições melhores do que em períodos anteriores.

O aspecto mais significativo foi a queda do desemprego aberto. A taxa de desocupação das regiões metropolitanas caiu de 12,4%, na média de 2003, para 6,0%, em 2011, o melhor resultado da série histórica. Mesmo com a desaceleração do crescimento econômico desde meados de 2011, a taxa de desocupação manteve sua trajetória de declínio (ver Gráfico 1).


Fonte: IBGE- PME.

Especialmente benvindo foi o aumento da taxa de formalização do emprego que subiu 10,1 pontos de porcentagem, passando de 43,5% da população ocupada de 2003 para 53,6% em 2011. Quando são considerados apenas os trabalhadores do setor privado, a taxa de formalização alcançou 48,5%, em 2011, frente a 39,7%, em 2003. Mesmo em ano de queda do PIB, como em 2009, ou de crescimento mais modesto, como em 2011, a geração de emprego formal manteve-se firme, alcançando 4,4%, no primeiro, e 5,5%, no último, na série Caged sem efeito sazonal.

De natureza diferente tem sido a relação entre crescimento econômico e estabilidade no emprego. Tida pelo senso comum como um bem para o trabalhador, a estabilidade média no emprego tem sido menor e não maior, mesmo com o emprego em forte expansão, é o que indica o aumento da rotatividade.

domingo, 8 de abril de 2012

A estagnação da produção industrial

Mudanças de grande vulto estão em andamento na economia mundial. As economias dos países ricos enfrentam em 2012 o quinto ano de baixo crescimento, a contar de 2007. Apenas em 2010, quando parecia que o pior da crise financeira internacional já havia passado, o produto interno dessas economias alcançou taxa de crescimento de 3%. A projeção do FMI, elaborada em setembro de 2011 e naturalmente sujeita a revisões, é de que o ritmo lento nas economias centrais deverá se estender até 2016.

Enquanto isso, a China mudou o seu peso e o seu papel na economia global. No período 2007-2011, as economias avançadas tiveram crescimento de apenas 3,7%, a Zona do Euro, de 2,4%. A China cresceu 65% e o Brasil e a América Latina, um pouco acima de 20%. A economia da China em 2011 era cerca de três vezes maior do que em 2000, a da América Latina, 45% maior, a do Brasil, 47% maior, enquanto nas economias avançadas o PIB era apenas 19% superior e na Zona do Euro, 14%.

O acelerado avanço do gigante asiático vem transformando as relações entre as economias nacionais, com grande impacto sobre o Brasil, impulsionando intensamente a produção de commodities agrícolas e minerais, mas com efeitos perversos sobre a indústria de transformação.

É difícil estimar o quanto das dificuldades atuais da nossa indústria de transformação se deve à desaceleração do crescimento econômico desde meados de 2011 e o quanto cabe às transformações na economia mundial. Há, assim, fatores estruturais e conjunturais atuando no atual quadro de estagnação da indústria brasileira.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Densidade populacional e desenvolvimento (final)

Ricardo Lacerda



A distribuição da população no território sergipano apresenta algumas características similares às dos demais estados localizados nas áreas mais orientais do Nordeste, marcados pelo processo de ocupação a partir da implantação da economia canavieira, mas guarda também algumas peculiaridades. As terras mais férteis das regiões mais próximas do litoral apresentam maior densidade populacional enquanto aquelas situadas no agreste e no sertão contam com população relativamente mais dispersa. Com base nas características naturais, foram implantados, ao longo do tempo, sistemas de produção agrícola com distintos padrões de ocupação de terras e que resultaram na formação de diferentes redes de cidades. É a evolução desses sistemas de produção e o crescimento das cidades que explicam parte considerável da distribuição da população entre as regiões sergipanas.

Evolução

Desde o início da década de setenta, as atividades urbanas vêm ganhando peso na economia sergipana, em ritmo acelerado, incorporando novos determinantes à distribuição espacial da população. A aceleração da industrialização e a implantação de grandes empreendimentos para a exploração de riquezas minerais, em parte por meio da geração de emprego direto, mas, sobretudo, pela injeção de renda que proporcionam para as famílias e para o setor público, passam a ter um papel crescente na distribuição da população. Empreendimentos vinculados à exploração de petróleo e gás, do potássio, do calcário para a fabricação de cimento e a instalação da Usina Hidroéletrica de Xingó tornaram-se vetores que, direta e indiretamente, atraíram populações para municípios que os sediam. Para alguns municípios, a instalação de fábricas de calçados e de usinas de açúcar, tem concorrido, nos últimos anos, para o crescimento populacional

Mas não desprezemos a força da expansão de sistemas agrícolas, como a citricultura no Sul do Estado nos anos setenta e oitenta, e mais recentemente dos assentamentos rurais no Alto Sertão, como fatores que atuaram sobre a distribuição espacial da população.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Densidade populacional e desenvolvimento

Ricardo Lacerda
É do senso comum que regiões e localidades com melhores recursos naturais atraem mais pessoas, formando maiores aglomerações populacionais e redes de cidades de malha mais estreita, com menores distâncias entre os centros urbanos. Não custa lembrar o contraste entre a elevada densidade populacional na Zona da Mata, com solos mais adequados para a agricultura e menos sujeita a estiagens, e a população relativamente rarefeita do semi-árido nordestino, com características climáticas mais inóspitas. 
Além da geografia, a história também conta. Uma vez criadas as aglomerações humanas, a partir de um evento inicial de motivação econômica, política ou religiosa, operam-se mecanismos de autorreforço que podem as fazer crescer cumulativamente. Novos eventos ao longo da história, como mudanças econômicas, tecnológicas ou institucionais (de caráter endógeno ou exógeno), a exemplo do efeito do surgimento da indústria de pneumáticos na virada para o século XX sobre a extração do látex das seringueiras da Amazônia, abrem possibilidades de mudar a distribuição espacial da população.
A evolução dos meios de transporte e as mudanças nas restrições legais à migração cumprem seu papel, o que deixa a nossa análise referenciada apenas a movimentações internas. Ficando posta a questão, passemos a observar os indicadores de densidade populacional dos estados brasileiros e dos territórios e municípios sergipanos.

domingo, 18 de março de 2012

O curto e o longo prazos

Ricardo Lacerda
O Brasil vive tempos extraordinários, com imensas oportunidades e algumas incertezas inquietantes. O ciclo expansivo recente, iniciado em 2004, incluiu 17 milhões de trabalhadores no mercado formal, retirou da pobreza extrema mais de 30 milhões de pessoas, elevou o rendimento médio do trabalho e mais do que duplicou o acesso das famílias ao crédito fatores que, no conjunto, propiciaram taxas de crescimento sustentadas que não se viam desde meados dos anos oitenta e que causaram forte ampliação do mercado do interno.
O aspecto inclusivo desse ciclo virtuoso, de sua essência mesmo, pode ser sintetizado no crescimento de maior intensidade nas regiões mais pobres e entre as pessoas de renda mais baixa, diferenciando-se dos ciclos de crescimento dos anos sessenta e setenta. Os programas de transferência de renda também foram importantes nesse aspecto.
Convergência
Levantamento do CPS/FGV, com base nos dados da PNAD, informa que o rendimento per capita domiciliar cresceu 24,4% no Brasil, entre 2001 e 2009, sendo que no Nordeste essa taxa alcançou 43,2%, e no Sudeste, a região mais rica, 16,4%. Ou seja, enquanto o rendimento per capita familiar na média nacional cresceu 2,7% ao ano, o do Nordeste aumentou 4,6%. Sergipe liderou o crescimento entre os estados, com expansão de 58,6%, no período, ou 5,9% ao ano (ver Gráfico 1).
Fonte: CPS/FGV,com dados da PNAD.
Esse ciclo é extraordinário, repito, porque ampliação tão intensa no mercado interno dá uma outra dimensão ao país e cria oportunidades de investimento na expansão e diversificação dos negócios, inclusive nas regiões mais pobres. São mais pessoas consumindo, com emprego mais estável e rendimentos mais elevados (Gráfico 2).
Fonte: Extraído de Ministério da Fazenda. Economia brasileira em perspectiva. 14.
 Ed. Especial de fevereiro de 2012, com dados da PNAD.

As oportunidades estão relacionadas, também, à exploração de recursos naturais para a expansão da produção de commodities agrícolas e minerais cujas demandas passam por um longo ciclo de aquecimento associado ao crescimento dos países emergentes puxado, principalmente, pela economia chinesa.
Incertezas
Incertezas relativas a questões externas e internas podem perturbar o ciclo de crescimento, algumas delas mais associadas ao curto prazo e outras a aspectos mais estruturais. No curto prazo, o desafio é manter o crescimento da economia e a inflação sob controle em um cenário de crise prolongada na Europa e de recuperação ainda titubeante da economia americana.