Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 12 de março de 2012

O PIB e os juros

Ricardo Lacerda
O IBGE anunciou durante a semana o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2011. A modesta taxa de crescimento, de 2,7%, na comparação com o ano anterior confirma as piores estimativas de desaceleração do nível de atividade econômica no segundo semestre de 2011. Foram dois trimestres de economia estagnada: retração de 0,07% no 3º trimestre, no dado revisado, e crescimento de 0,34% no 4º trimestre (ver Gráfico 1).
Ainda que alguns analistas tenham assinalado que o resultado de 2011já não refletiria o ritmo de atividade atual e que o país já teria reencontrado a trajetória de recuperação nos primeiros meses de 2012, com projeção de crescimento de até 5% ao longo do ano, as autoridades econômicas não parecem tão confiantes, a julgar pelo conjunto de medidas que vêm sendo adotadas para reanimar o nível de atividade. É importante ter em mente que o crescimento pífio do último trimestre de 2011 resulta em uma taxa anualizada de apenas 1,36%.
Fonte: Contas trimestrais. IBGE

segunda-feira, 5 de março de 2012

A desaceleração do nível de atividade no 2º semestre de 2011



Ricardo Lacerda

Foi intensa a desaceleração do nível de atividade da economia brasileira no segundo semestre de 2011, na esteira das medidas restritivas adotadas pelo governo para fazer frente à pressão nos preços, associada, em parte, ao excessivo aquecimento do ano anterior. Com a piora do cenário externo, a desaceleração foi mais forte do que a pretendida, provocando uma reversão na política monetária a partir de meados de 2011 para reanimar o nível de atividade, e levando à adoção de uma série de medidas defensivas, de espectro relativamente amplo, voltadas para o setor industrial, que simplesmente parara de crescer.

Depois de atingir 4,2% no 1º trimestre do ano, a taxa de crescimento do PIB passou a apresentar uma trajetória fortemente declinante, até atingir 2,1% no 3º trimestre de 2011, em relação ao mesmo período do ano anterior. Para a média do ano, as estimativas apontam para uma expansão do PIB de 2,8%, portanto, um pouco abaixo do patamar de 3% que, informalmente, o governo considera necessário para sinalizar, interna e externamente, que terá continuidade o ciclo pujante de transformações econômicas e sociais pelo qual vem se notabilizando o país desde 2004.

Nordeste

A evolução do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), que busca antecipar os resultados do PIB, sintetiza o desaquecimento da economia brasileira no segundo semestre de 2011.

Depois de iniciar o ano de 2011 com taxa de crescimento de 4,81%, o IBC-BR, já livre de efeitos sazonais, desacelerou fortemente a partir de agosto (situação agravada por problemas de estoque na indústria automobilística), atingindo o fundo do poço no mês de outubro, quando o crescimento em relação ao mesmo mês do ano anterior se limitou a 0,4% (ver Gráfico 1). Nos meses de novembro e dezembro, já como resposta aos estímulos da política monetária, o IBC-BR ensaiou uma retomada moderada.

A desaceleração do nível de atividade também atingiu a economia dos estados nordestinos. As medidas de restrições ao crédito, a elevação na taxa de juros, a moderação na expansão dos gastos federais, o crescimento mais modesto do salário mínimo e a piora nas expectativas levaram a que a economia da região tivesse, também, uma forte desaceleração, que foi agudizada pelo impacto do aumento das importações de têxteis e de calçados sobre a sua produção industrial.

Ainda assim, durante todo o ano, a taxa de crescimento do IBC-NE se manteve acima do IBC-BR, como mostra o Gráfico 1, o que antecipa para 2011 uma taxa de expansão do PIB também superior para o Nordeste.

Fonte: Banco Central

sexta-feira, 2 de março de 2012

Visitação

Talvez pela vigencia da Lei da acumulação de clientela, a visitação ao blog Cenarios de Desenvolviimento vem em trajetória crescente. Atingiu o pico de 255 visitas no dia 28 de fevereiro. Ao longo do mês de fevereiro o blog recebeu 4.285 visitas. O recorde é do mês de novembro, com 5.521.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O comportamento do FPE e as finanças estaduais



Ricardo Lacerda

O Fundo de Participação dos Estados (FPE) é um dos principais instrumentos de descentralização tributária que conta a federação brasileira. É, de fato, um dos instrumentos mais efetivos de solidariedade entre as unidades federativas, na medida em que mobiliza valores expressivos e em que os maiores contribuintes dos fundos são os estados mais ricos e os maiores beneficiários são os de menor renda per capita, localizados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, concorrendo para a redução das disparidades regionais de desenvolvimento nos últimos decênios.

FPE e ICMS

Com essas características, o FPE é muito mais significativo para as finanças dos estados menos industrializados e de menor renda per capita do que para os estados com base produtiva mais ampla, em que outras receitas ganham maior expressão. O Gráfico 1 apresenta uma comparação entre os valores do FPE e do ICMS para os estados brasileiros, com dados de 2010, ordenando-os segundo o peso do FPE na soma dessas duas fontes de receita.



Fonte: ICMS (Cotepe-Confaz); FPE (STN), deduzidos os repasses do FUNDEB.

Em alguns estados da Região Norte, como Amapá, Roraima e Acre, com estreita base industrial, a receita do FPE em 2010 representou mais do que o dobro arrecadado com o ICMS. Para a maioria dos estados do Nordeste, já descontados os 20% para o Fundo de Educação do Ensino Básico (FUNDEB), o FPE participou com uma parcela muito significativa da receita corrente, respondendo por mais de 30% da soma do agregado FPE-ICMS. Diferentemente, nos estados mais ricos ou mais industrializados, o FPE é uma parcela infirma desse agregado, como no caso de São Paulo, em que não atingia 1% (Ver Gráfico 1).

Evolução

Para aqueles estados, como Sergipe, em que o FPE representa uma parcela elevada da receita corrente, os anos de 2009 e 2010 foram muito ruins, com uma perda de recursos que mesmo o bom desempenho de 2011 não conseguiu compensar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O projeto carnalita



Ricardo Lacerda

A Vale e a Petrobras anunciaram no inicio de fevereiro o fechamento do acordo para o arrendamento por 30 anos das reservas de carnalita em Sergipe. Não foi uma negociação fácil. A própria Presidente da República Dilma Rousseff, por interveniência do Governador Marcelo Déda, precisou aproximar as partes para que a negociação chegasse a bom termo, depois de um longo impasse sobre a extensão das reservas, em virtude de sobreposição de jazidas de petróleo e de carnalita em algumas áreas, e sobre as contrapartidas envolvidas. Segundo a imprensa, o acordo não passou por desembolso financeiro imediato ou cessão de patrimônio pela Vale e sim pelo compartilhamento de receitas futuras do empreendimento, mas essa informação ainda carece de confirmação.

O Projeto Carnalita, como explica a Vale, tem como objetivo a produção de cloreto de potássio (KCl) por meio de “lavra de dissolução”, produzindo uma salmoura rica de sais de potássio, sódio e magnésio.

Para Sergipe, o Projeto Carnalita, em primeiro lugar, assegura a continuidade da produção de potássio por mais 30 anos. A produção hoje realizada a partir da silvinita deverá entrar em processo de declínio nos próximos anos. Mas outros aspectos também são relevantes.

Os números do projeto são de impressionar: o investimento deve alcançar US$ 4 bilhões, montante muito superior a qualquer outro já realizado em Sergipe por uma empresa privada e a empresa prevê a geração de até 4 mil empregos durante a implantação e cerca de mil empregos na operação. O leitor pode avaliar o impacto que tal empreendimento deverá ter sobre o mercado de trabalho e sobre o volume de recursos circulando na economia sergipana. Por tudo isso, não é exagero afirmar que se trata do mais importante empreendimento produtivo já realizado em Sergipe, depois da exploração de petróleo.

Outro aspecto é que o Projeto Carnalita integra o plano da empresa Vale de ampliar os seus investimentos na área de fertilizantes, em que o país é altamente dependente de importações.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Balança comercial e transações correntes em 2011

Ricardo Lacerda

A temática do setor externo da economia brasileira não tem recebido muita atenção por parte dos analistas e do público em geral. Afinal, a posição de nossas reservas internacionais que, no conceito de liquidez, atingiram o montante de US$ 352 bilhões ao final de 2011, propicia uma sensação de conforto nas relações externas, deixando para trás, espera-se que definitivamente, os tempos mais duros de intensa instabilidade, de forma que assistimos com relativo distanciamento, como em um filme que mostra uma paisagem exótica, os abalos financeiros dos países da periferia européia.

Todavia, acompanhar com acuidade as relações econômicas externas é importante não apenas nos momentos de crise aguda, seja porque elas afetam a dinâmica econômica interna do momento atual, seja porque antecipam os possíveis desdobramentos nos anos seguintes. Em geral, o público presta mais atenção ao saldo da balança comercial, que compara exportações e importações, e a variação das reservas internacionais, não se detendo na conta de serviço e na conta das transações de capital.

No final de janeiro, o Banco Central publicou a Nota do Setor Externo referente ao ano de 2011. O balanço de pagamentos registrou superávit de US$ 58,6 bilhões, impactando positivamente no volume de nossas reservas internacionais. A balança comercial, em 2011, apresentou uma importante melhoria, alcançando o saldo de US$ 29,8 bilhões, frente aos US$ 20,1 bilhões do ano anterior, por conta do excelente desempenho das exportações que bateram recorde, alcançando o montante de US$ 256 bilhões, um incremento de 26,%. As importações também tiveram crescimento robusto em 2011, de 24,5%.

Déficit corrente

Os resultados muito favoráveis na balança comercial e no saldo final do balanço de pagamento deixaram em segundo plano o fato de que a conta de transações correntes atingiu o maior déficit já registrado, U$ 52,6 bilhões. Como a conta de transações correntes é a soma da balança comercial e da balança de serviços e rendas, e como o saldo comercial foi muito favorável, isso implica que o saldo de serviços e rendas foi desfavorável e de dimensão muito grande (US$ 85,3 bilhões). Desse total, US$ 39,9 bilhões correspondem ao déficit que tivemos nos chamados serviços produtivos, incluindo turismo, seguro, aluguel de máquinas e equipamentos, frete, consultoria, entre outros, e o déficit US$ 47,3 bilhões de rendas, incluindo pagamento de juros e remessas de lucro. Não são valores desprezíveis.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Produção industrial e desindustrialização

Ricardo Lacerda

A crise financeira internacional vem impondo novos desafios para a indústria brasileira. A estagnação da produção industrial em 2011, com taxa de crescimento de apenas 0,3%, gerou uma onda de pessimismo sobre o futuro da indústria e reabriu a temporada de vaticínios sobre a desindustrialização do país.

O debate, da forma como vem se desenvolvendo, produz mais calor do que luz. É muito difícil captar o quanto das dificuldades recentes da indústria brasileira decorre de fatores conjunturais, como a valorização do real, a queda da demanda nos mercados centrais e o recrudescimento do protecionismo comercial, e quanto se relaciona com transformações mais estruturais, como a ascensão da China no cenário mundial, o deslocamento da indústria manufatureira do ocidente para o extremo-oriente e mesmo de uma mudança de mais longo prazo do patamar do câmbio e dos salários reais no Brasil.

Em outros termos, cabe perguntar quais são as possibilidades de crescimento da indústria brasileira quando as economias centrais retomarem um ritmo de crescimento de 3% ao ano e as medidas de proteção aos mercados internos refluírem. Assim como não está fora do horizonte os Estados Unidos se reinventarem enquanto nação manufatureira, o Brasil poderá retomar a trajetória expansão sustentada e menos errática da produção industrial. O câmbio faz muita diferença.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O emprego formal em 2011


Ricardo Lacerda

O Ministério do Trabalho e do Emprego apresentou os dados de geração de emprego celetistas de 2011, fornecidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). Foram criados no Brasil 1.944.560 empregos formais celetistas, sem considerar os vínculos do regime estatutário do setor público. Foi um bom resultado. Ainda que a criação de novos empregos tenha sido 23,5% inferior aos 2.543.177 de 2010, o ano de 2011 apresentou a segunda melhor geração de emprego da série histórica.

Formalização

O ciclo expansivo da economia brasileira, iniciado em 2004, promoveu melhoras substantivas na situação do mercado de trabalho, como demonstra a queda da taxa de desocupação nas regiões metropolitanas de 12,4%, em 2003, para 6%, em 2011, segundo a pesquisa mensal do emprego do IBGE. A melhoria no mercado de trabalho propiciou, entre outras coisas, que o percentual de empregados formais do setor privado nessas áreas tenha passado, nesse período, de 39,7% para 48,5%, mesmo considerando que a porcentagem ainda muito elevada de pessoas na informalidade denuncie a fragilidade estrutural da ocupação no Brasil.

O movimento em direção à maior formalização na atividade privada tem se refletido também em certo descolamento da taxa de crescimento do emprego formal em relação ao crescimento do PIB, em parte por conta da expansão maior de atividades mais intensivas em trabalho, como as do setor de serviços, comparativamente ao setor industrial (ver gráfico). Em 2011, o emprego formal celetista aumentou em 5,4%, frente ao crescimento estimado de 2,9% no PIB.


Fonte: IBGE e MTE-CAGED.
Obs*: Estimativa de mercado para o crescimento do PIB em 2011.

Sergipe

Nos últimos anos, o emprego formal em Sergipe também vem crescendo acima do PIB. Entre 2007 e 2011, o emprego formal celetista em Sergipe apresentou uma taxa anual de incremento de 7,9%, frente à média nacional de 6% e à média nordestina de 7%.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Índice de pobreza e vulnerabilidade das famílias

Ricardo Lacerda

 O IPEA publicou na semana passada o Índice de Vulnerabilidade das Famílias, com recortes por região, unidade da federação, rural/urbano e metropolitano/ não metropolitano. O objetivo do índice é o de tentar identificar os perfis das famílias brasileiras a partir do conceito de vulnerabilidade, que considera a pobreza como um fenômeno multidimensional, em que a carência de renda é apenas uma das dimensões. Também são consideradas as dimensões da própria estrutura da família, o acesso ao trabalho, o desenvolvimento infanto-juvenil e as condições habitacionais.

Os estudos sobre desenvolvimento e pobreza avançaram muito nas últimas décadas. Há muito tempo que a renda per capita e o PIB per capita deixaram de ser a expressão que sintetizava o grau de desenvolvimento econômico e social de um país ou de uma região. A simples troca de indicadores de rendimentos médios, que escondem as situações extremas (os muito ricos e os muito pobres), por indicadores que consideram a distribuição já permite identificar o quantitativo de pessoas em situação de pobreza e abre a possibilidade de localizar as famílias que deverão se constituir alvos prioritários das políticas públicas.

Laranjas e maçãs

Mas, até esse ponto, nosso índice conta apenas com uma variável (rendimento familiar per capita) e apenas uma dimensão (o rendimento). Mais complexo vai se tornando quando outras variáveis e outras dimensões vão sendo agregadas. É isso o que faz a medida de vulnerabilidade do IPEA; é um índice que sintetiza 6 dimensões, 26 componentes e 48 indicadores para caracterizar a situação de pobreza e vulnerabilidade das famílias (ver em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/120117_comunicadoipea131.pdf).

Quando aprendemos contabilidade social nas escolas de economia nos ensinam que não é possível somar maçãs com laranjas no cálculo do Produto Interno Bruto. É necessário reduzir todos os bens e serviços que o compõem a uma unidade comum para se obter o resultado agregado, o PIB, expresso em termos monetários. Como, então, agregar a estrutura das famílias, os seus rendimentos, as condições de habitação etc? Com o avanço dos métodos quantitativos, os economistas foram elaborando índices multivariados, somando maçãs, laranjas, presença de idosos e crianças na família e existência de esgotamento sanitário no domicílio em um único índice, por meio da padronização e da estipulação de peso para cada componente.

Fiz este longo percurso explicativo para situar o leitor em relação aos diversos índices que pululam no nosso cotidiano, desde os mais reconhecidos, como o IDH, até os índices de desenvolvimento municipal, de transparência pública, de qualidade de vida, de ambiente favorável de negócios, de competitividade e de atratividade de países e regiões etc.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Composição etária e razão de dependência em Sergipe



Ricardo Lacerda

Com a queda da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida tem havido importantes mudanças na composição da população brasileira, com a elevação da participação das faixas etárias mais elevadas e a redução nas faixas de menor idade. Muitos especialistas têm destacado o significado econômico do período de bônus demográfico que o país atravessa por conta da redução, em termos absolutos e relativos, da população de menos de 15 anos, enquanto engrossa a fatia da população que se encontra em idade ativa. O período de bônus se encerra quando o incremento no contingente de pessoas idosas superar a redução da população inativa mais jovem, como proporção da população total.

Demógrafos e economistas entendem que o bônus demográfico é uma força poderosa na elevação dos níveis médios de renda da população, na medida em que significa diminuição na faixa de população que depende de renda gerada por outros grupos etários. Convencionou-se chamar de razão de dependência o peso da população considerada inativa (0 a 14 anos e 65 anos e mais de idade) sobre a população potencialmente ativa (15 a 64 anos de idade).

Sergipe

A distribuição etária da população sergipana também tem passado por transformações estruturais, com importantes implicações econômicas. Em 2010, residiam em Sergipe 556.222 pessoas com menos de 15 anos de idade, representando 27% da população total de 2.068.017. No ano de 2000, o contingente de pessoas com menos de 15 anos era de 595.327 e representava 33% da população total (ver Gráfico). Ou seja, essa faixa etária encolheu, ao longo da década, o equivalente a 39.105 pessoas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A recuperação das exportações sergipanas em 2011

Ricardo Lacerda
Qualquer avaliação do comportamento do comércio exterior sergipano não deve desconhecer o peso pouco expressivo que tem o setor externo na dinâmica de crescimento da economia estadual. Considerando a soma das exportações e das importações (a chamada corrente de comércio) e comparando-a com o PIB, é possível afirmar que o comércio exterior é cerca de sete vezes menos importante para Sergipe do que para a média do país (calculando com o PIB de 2009 e o comércio exterior de 2011).
Isso se deve ao fato de que os segmentos mais importantes da economia sergipana, vinculados à sua base de recursos minerais, foram erigidos ao longo das últimas quatro décadas visando o atendimento do mercado nacional.  Se o coeficiente de abertura da economia brasileira é relativamente restrito, a economia sergipana depende ainda mais do comportamento do mercado interno brasileiro para crescer.  
Ainda assim, algumas atividades da economia sergipana, como a citricultura, a fabricação de calçados e a fabricação de açúcar são muito dependentes do mercado externo, de forma que, quando as exportações dos seus produtos vão mal, as áreas que concentram tais atividades perdem ocupação e renda, e quando as exportações retomam a trajetória de crescimento, o emprego e renda tendem a reagir positivamente nas economias locais.
É nesse sentido, que devemos comemorar a continuidade da recuperação das exportações sergipanas em 2011, notadamente a expansão nas vendas do suco concentrado de laranja.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

As perspectivas econômicas para 2012



Ricardo Lacerda

A economia brasileira deverá apresentar uma aceleração moderada do crescimento em 2012, na comparação com 2011, mesmo enfrentando um cenário de deterioração do setor externo.

A economia mundial terminou o ano de 2011 pior do que começou. No relatório de abril sobre as perspectivas econômicas do ano, o FMI assinalava que estava em curso uma recuperação do nível de atividade, ainda que de forma débil e desequilibrada, mais forte nas economias em desenvolvimento e menos intensa nas economias avançadas.

Ao longo do ano o quadro foi se tornando mais difícil. Com a deterioração da situação econômica europeia e a emergência da crise das dívidas soberanas no segundo semestre, o relatório de setembro destacava a desaceleração do crescimento e o aumento dos riscos sistêmicos na economia mundial. Na retrospectiva de 2011, em 21 de dezembro, o economista-chefe Olivier Blanchard resume o cenário em termos nada otimistas: “a recuperação de muitas economias avançadas está estancada e alguns investidores contemplam as implicações de uma possível ruptura da Zona do Euro, sendo real a possibilidade de as condições se tornarem piores que as de 2008”.

Além de as condições na Europa virem se deteriorando mês a mês por meio do contágio da crise de confiança, há muita incerteza sobre quais vão ser os seus desdobramentos no futuro próximo, tornando ainda mais frágeis as projeções para a economia mundial em 2012.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Os PIBs dos municípios sergipanos em 2009 (2)

Ricardo Lacerda

O plebiscito para aprovação da criação de dois novos estados a partir do desmembramento do Pará mobilizou não apenas a população local, como suscitou debates acalorados em todo o país. Do que foi possível captar, a grande maioria daqueles que se manifestaram na grande imprensa ou nas redes sociais era contrária à constituição dos novos estados, percebida ou como esperteza dos políticos para aumentarem os cargos públicos ou como sacrifício das demais unidades da federação, que teriam que sustentar as novas estruturas administrativas.
Tais preocupações são legítimas e encontram fundamento em experiências passadas em que foram criados estados e municípios que não contavam com autonomia financeira para se manter. Mas, um pressuposto geral, frequentemente, é causa de decisões estreitas em que deixam de ser observadas as especificidades das situações. Não é difícil perceber as dificuldades do Pará em ofertar políticas públicas de segurança, saúde, educação e de infraestrutura em um estado que tem dimensão territorial superior a muitos países. Particularmente na região sul do Pará, há uma notória carência de ordem pública. É um quadro, não resta dúvida, em que é necessário aumentar a presença do estado.
Há casos evidentes abusos na criação de municípios em  que o estado da  Paraíba é um dos exemplos mais nefastos. Com dimensão territorial relativamente modesta, a Paraíba conta com 223 municípios, dos quais 68 tinham, em 2009, menos de cinco mil habitantes e 137, menos de dez mil habitantes. Gerou-se um cenário em que mais de 2/3 dos municípios paraibanos são extremamente dependentes das transferências governamentais: em 158 dos 223 municípios (70,8%), a administração pública, incluindo a seguridade social, respondia por mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB).

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Os PIBs dos municípios sergipanos em 2009 (1)

Ricardo Lacerda

O IBGE anunciou na semana passada os valores e a composição dos PIBs municipais do Brasil referentes a 2009, ano em que o PIB brasileiro apresentou recuo de 0,3% em razão do impacto da crise financeira internacional. Levando em conta tal cenário, o crescimento de 4,4% da economia sergipana foi um resultado extraordinário, o quarto maior crescimento do país, muito superior ao 1% alcançado pelo conjunto da região Nordeste (ver Gráfico).


 IBGE: Contas regionais 2009

O PIB municipal corresponde ao valor das riquezas produzidas ao longo do ano, considerando tudo o que foi produzido naquele território nos setores agropecuário, industrial e de serviços. Não mede, todavia, a riqueza que fica no município e sim aquela que é ali produzida. Para medir a riqueza que circula no próprio município, os indicadores de renda são mais apropriados. Assim, as parcelas do valor da extração de potássio explorada pela companhia Vale ou do valor da exploração de petróleo e gás, pela Petrobrás, que são remunerações de pessoas ou empresas não domiciliadas no Estado, fazem parte do PIB municipal, ainda que não signifiquem renda internalizada no próprio município.

Tampouco os tributos federais ou estaduais que incidem sobre essa produção ficam na íntegra no próprio município. Da mesma forma, o PIB per capita municipal é principalmente um indicador de produtividade média, e não necessariamente da riqueza média das pessoas que residem no município. Portanto, para se avaliar o grau de pobreza ou o de bem estar das pessoas, a renda per capita ou a renda familiar per capita são indicadores mais adequados do que o PIB per capita.

Mesmo assim, a não ser em situações muito excepcionais, a elevação do PIB per capita de um município tende a ser seguida pelo crescimento da renda per capita, por meio de mecanismos diversos, como incremento de tributos e elevação da massa de salários. Os valores do PIB per capita e da renda per capita municipais estão tanto mais correlacionados quanto mais a estrutura produtiva tem predominância de empresas de pequeno e médio portes, em sua maioria sediadas no próprio município.

Finalmente, a distância entre o PIB per capita e a renda per capita diminui quando se lida com agregados territoriais maiores, como estados e países.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A taxa nula de crescimento do PIB no 3º trimestre de 2011



Ricardo Lacerda

A taxa nula de crescimento do PIB do 3º trimestre de 2011, em relação ao trimestre anterior, sem efeitos sazonais, confirmou os temores de que o agravamento da crise européia potencializaria a desaceleração econômica já em curso.

Ao final de 2010, o governo brasileiro percebia que o ritmo acelerado de crescimento naquele ano não teria como se sustentar em 2011. A expansão do PIB de 2010 era atípica porque incidia sobre a base rebaixada de 2009, em que o produto interno havia recuado 0,3%. A aceleração da inflação nos últimos meses de 2010, que se afastava rapidamente do centro da meta, em doze meses, tendia a se agravar, diante da maior velocidade de crescimento na demanda do que na oferta, notadamente nos segmentos em que a produção interna não poderia ser complementada pela importação, como na maioria dos serviços. O quadro que se desenhava era de uma situação de crescimento econômico acima do potencial do país, com efeitos danosos sobre os preços e sobre o saldo de transações do país, em um cenário de dificuldades na economia mundial.

As medidas macroprudenciais adotadas pelo Banco Central, restringindo a oferta de crédito, e a sucessivas elevações na taxa básica de juros fizeram o trabalho de desacelerar rapidamente o crescimento econômico em 2011. O agravamento do quadro europeu no segundo semestre incorporou expectativas negativas a um cenário interno de desaceleração e pôs em dúvida a capacidade do Brasil continuar crescendo em meio a uma crise que se arrasta já por quatro anos nos países avançados, produzindo o resultado nulo do 3º trimestre.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O nível de atividade da economia sergipana ao final de 2011

Ricardo Lacerda

Na próxima terça-feira, 6 de dezembro, o IBGE deverá anunciar a evolução do PIB do terceiro trimestre de 2011. As especulações que circulam na imprensa são de que a economia brasileira estagnou no período, em comparação com o trimestre anterior, na série livre de efeitos sazonais.

O governo federal já vem reagindo à piora do cenário, a partir do entendimento de que a rápida deterioração da situação européia vem contaminando o ambiente empresarial com uma dose de pessimismo que impacta o nível de atividade interna.

Estão sendo acionados os botões das políticas monetárias e fiscais para estimular, de forma moderada, o crescimento do consumo em grau suficiente para sepultar a maré pessimista, mas sem perder de vista a necessidade de manter a inflação bem comportada. Como a situação não é de pânico, como o foi no final de 2008, as medidas até agora são menos radicais.

Sergipe

Os indicadores mais representativos do nível de atividade da economia sergipana permanecem bons ou mesmo muito bons, com exceção dos resultados da Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE. A soma do consumo industrial e do consumo livre, na área da Energisa, cresceu 4,3% entre janeiro e outubro de 2011, em relação ao mesmo período de 2010.

No trimestre agosto-outubro, o crescimento desse agregado foi de notáveis 7,1%, em relação ao mesmo trimestre de 2010. O emprego na atividade industrial continua firme. Nos últimos doze meses encerrados em outubro foram gerados 4.349 empregos formais, taxa de crescimento de 10,37%.

Apenas no setor têxtil, entre os ramos mais importantes da indústria sergipana, o emprego gerado em doze meses foi negativo, o que é compreensível por se tratar de atividade muito vulnerável à valorização cambial e à competição com produtos importados. Os dados de emprego da construção civil continuam muito favoráveis.

No trimestre agosto-outubro, foram gerados 1.022 empregos nesse setor, número muito bom, ainda que inferior aos 1.747 do mesmo período de 2010, quando a atividade vinha em ascensão e partia de um nível de emprego menor. Na comparação entre o trimestre junho-agosto de 2011 com o ano anterior, o consumo de cimento em Sergipe aumentou 27%. Entre agosto e outubro, foram criados 9.409 empregos formais em Sergipe, resultado muito bom, e muito próximo aos 9.890 gerados no mesmo período de 2010, no segundo melhor resultado da série histórica (ver Gráfico 1).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nordeste 2001-2010: Crescimento, Mudanças e Desafios

Ricardo Lacerda

Nos dias 23 e 24 de novembro, a Fundação Joaquim Nabuco realizou, em Recife, o XIII Simpósio ObservaNordeste, com a temática que dá título ao presente artigo, para debater sobre as transformações econômico-sociais e políticas do Nordeste na primeira década do novo século.

O objetivo do simpósio foi o de reunir estudiosos e pesquisadores dos estados da região para fazer um balanço das mudanças econômicas, sociais e políticas no Nordeste, no âmbito do ciclo de transformações recentes e avaliar os limites e os desafios para a segunda década do século XXI.

Novo patamar

A questão mobilizadora dos debates era como a região Nordeste, que vem se constituindo em uma das fronteiras do crescimento brasileiro, poderia potencializar a fase positiva recente para alcançar novos patamares de desenvolvimento. O Nordeste obteve taxas de crescimento econômico acima da média brasileira na primeira década do século, impulsionadas pelo impacto maior na região da elevação do poder de compra da chamada classe C, das políticas de transferências de renda e dos investimentos estruturantes realizados.

Pairava entre os pesquisadores certa inquietação sobre a estratégia que a presidente Dilma, que não tem a mesma identificação que demonstrou ex-presidente Lula com a região, adotaria para o desenvolvimento do Nordeste, e se seria dada continuidade a prioridade que ela contou nos últimos oito anos.

No governo anterior, duas linhas de atuação concorreram para impulsionar o crescimento econômico do Nordeste: Em primeiro lugar, o conjunto das políticas públicas com forte viés social que, mesmo sem ter orientação para o desenvolvimento regional, findaram por incidir muito mais intensamente nas áreas mais pobres. A transferência de recursos originários dessa política, ao lado de outras medidas que elevaram o poder de compra das parcelas da população de menor renda, como os aumentos reais do salário mínimo e a expansão do crédito, ampliaram o mercado de consumo da região com importantes reflexos em termos de geração de emprego.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Geração de Emprego e de Emprego Industrial em 2011



Ricardo Lacerda

O mercado de trabalho aquecido tem sido resultado e causa do bom desempenho que a economia brasileira vem apresentando nos últimos anos, enquanto as economias centrais encontram-se em verdadeiras tormentas. Estimulado pela expansão do crédito e pelo aumento do consumo interno, o nível de ocupação elevado tem sido uma das principais bases da formação de um mercado interno robusto.

A ampliação do mercado interno, com a incorporação de milhões de brasileiros em um novo patamar de consumo, é o principal fundamento que lastreia as avaliações otimistas do mundo sobre as perspectivas de longo prazo da economia brasileira. Nada disso se alterou significativamente com a piora do cenário externo, nem mesmo com a desaceleração do crescimento do nível de atividade interna.

Ainda assim, é importante destacar que o desaquecimento da economia no segundo semestre de 2011, já repercute na criação de emprego formal. Mesmo com o mercado de trabalho aquecido, taxa de desocupação de apenas 6%, e o patamar de emprego mantendo-se elevado, a geração de 126 mil empregos formais em outubro, muito menos do que em anos anteriores, reflete a diminuição na capacidade de geração de emprego da economia brasileira, muito especificamente no setor industrial.

Outubro foi especialmente débil na geração de empregos formais, considerando-se os resultados do mesmo mês em anos anteriores: em outubro de 2010, haviam sido gerados 204 mil empregos e, em outubro de 2009, como sintoma da rápida recuperação que se iniciava, 230 mil novos empregos (ver Tabela). No setor industrial foram criados apenas 5.206 novos empregos, em outubro de 2011, frente aos 46.923 empregos criados no mesmo mês de 2010.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Queda na produção industrial nordestina

Ricardo Lacerda

A economia industrial do Nordeste vem sendo atingida mais intensamente pela crise do setor do que as de outras regiões do país. O setor industrial da região vem sofrendo importantes perdas no seu volume de produção física, por conta do seu perfil em que alguns ramos mais sensíveis à valorização cambial e à competição com produtos asiáticos, como o de calçados e o de têxteis, têm grande peso.

A edição de setembro da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), do IBGE, confirmou a conjuntura adversa da produção industrial da região, notadamente no Estado do Ceará. Na comparação entre setembro e agosto (na série sem efeitos sazonais), o resultado da região foi positivo e expressivo, com crescimento de 1,1%, quando o conjunto do país, muito influenciado pela forte queda da produção física da indústria automobilística, registrou recuo de 2,0%.
Em todas as demais séries, os resultados da produção física do Nordeste são muito piores do que os da média do país. No acumulado de janeiro a setembro, sobre igual período do ano anterior, a produção regional apresentou retração de 5,2%, quando na média do país a produção física da indústria geral cresceu 1,1%; na série acumulada de doze meses em relação ao mesmo período anterior, a produção nordestina recuou 4,2%, frente ao crescimento de 1,6% da produção física brasileira.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A produção industrial de setembro

Ricardo Lacerda

O anúncio, na semana passada, da retração de 2% na produção física da indústria brasileira em setembro, em relação a agosto, na série sem efeitos sazonais, provocou um grande susto. Tal resultado deixou patente que a desaceleração do nível de atividade da economia brasileira, meta desejada e planejada pelas autoridades econômicas, veio com mais força do que se projetava.

Depois do crescimento de 7,5% do PIB e de 10,4% da produção física da indústria em 2010, cristalizou-se a percepção de que a economia brasileira estava crescendo acima do seu produto potencial, com efeitos perceptíveis e preocupantes sobre a evolução da inflação e sobre o resultado da conta corrente.

Mesmo considerando que retração tão elevada da produção física da indústria em apenas um mês deveu-se, em grande parte, à queda de 11% na produção de automóveis, em função de férias coletivas adotadas por algumas montadoras para reduzir os estoques no pátio, a queda da produção industrial foi abrangente, atingindo 16 dos 27 ramos pesquisados.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A expansão da cultura do milho no semiárido sergipano

Ricardo Lacerda


Um dos fenômenos recentes mais significativos na evolução da economia agrícola sergipana foi a forte expansão da cultura do milho. Em 2007, o valor da produção do milho superou o da cana-de-açúcar, e, no ano seguinte, ultrapassou o da, até então, principal cultura agrícola de Sergipe, a produção de laranja. Diferentemente da tradicional cana-de-açúcar, enraizada nas terras mais úmidas do Leste Sergipano, e da laranja, cultivada nas áreas valorizadas da chamada região Centro-Sul, o cultivo do milho se desenvolve tipicamente nas áreas do semiárido sergipano, tendo o município de Carira como epicentro.

2010


A publicação pelo IBGE da Pesquisa Agrícola Municipal de 2010, durante a semana que passou, confirmou a trajetória fortemente ascendente da cultura do milho em Sergipe. Em 2010, pela primeira vez, a produção do milho no Estado alcançou um milhão de toneladas, quando no ano de 2000 não atingia 100 mil toneladas (ver Gráfico).

Depois de crescer 28%, em 2007, 147%, em 2008, 20,3%, em 2009, a quantidade produzida de milho aumentou em 50%, em 2010, confirmando-se como a mais importante cultura agrícola de Sergipe. Em 2010, a quantidade produzida de milho no Brasil aumentou 9,8% e no Nordeste, recuou 7,4%.



Fonte: IBGE- Pesquisa Agrícola Municipal


Os resultados alcançados pela cultura do milho em Sergipe são superlativos: a quantidade produzida cresceu 1.114% entre 2000 e 2010, ou seja, foi multiplicada por doze, enquanto o crescimento no Nordeste atingiu 51% e na média do Brasil, 72%. Em 2010, o valor da produção sergipana de milho alcançou a cifra de R$ 335,3 milhões, superando com ampla margem os R$ 222,9 milhões da laranja e os R$ 188 milhões da cana-de-açúcar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Urbanização e crescimento populacional em Sergipe pós-1970

Ricardo Lacerda



Com todo o impulso que a industrialização trouxe para o crescimento das cidades nos anos cinqüenta, o Censo Populacional de 1960 constatou que a maioria da população brasileira ainda era predominantemente rural. Naquele levantamento censitário registrava-se a predominância das populações urbanas apenas na região Sudeste e nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, com suas metrópoles pujantes, no antigo território do Amapá e no Distrito Federal. Na média do país, as populações rurais ainda representavam 54,9% do total.

Na década de sessenta, caracterizada pela crise política e pelo baixo crescimento, na primeira metade, e pelo chamado milagre econômico, a partir de 1968, as populações urbanas passaram a representar mais de 50% dos brasileiros. O predomínio das populações urbanas, de acordo com o censo populacional de 1970, já havia se estendido para as regiões Sul e Centro- Oeste, e para o atual estado de Rondônia, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Anos 1970 e 1980

Os anos setenta, que foram marcados pela aceleração da integração do território nacional e pelas intensas taxas de crescimento econômico, mesmo levando em conta a instabilidade provocada pelos dois choques do petróleo, consagraram o predomínio das populações urbanas em todas as regiões brasileiras. Foi o que constatou o Censo Populacional de 1980: em apenas oitos das atuais 27 unidades federadas as maiores parcelas de suas populações residiam no meio rural, inclusive Rondônia que, com a expansão da fronteira agrícola, a população urbana perdeu a predominância. Permaneceram ainda majoritariamente rurais as áreas dos atuais estados do Pará, Acre, Tocantins, Maranhão, Piauí e o vizinho estado da Bahia, com 49,4% da população no meio rural. Nas demais dezenove unidades federadas, inclusive Sergipe, as pessoas residindo em áreas urbanas se constituíram maioria.

Sergipe

Em 1960, Sergipe contava com uma população de 760 mil pessoas das quais 464 mil, ou 61,1%, residiam no meio rural, frente a apenas 296 mil pessoas (38,9%) no meio urbano, entre cidades e vilas. Ao longo dos anos sessenta, a população urbana de Sergipe cresceu 42,4%, contra apenas 5,5% de expansão da população residindo no meio rural. Ainda assim, o Censo Populacional de 1970 registrou o predomínio da população residindo em domicílios rurais, 53,8%, (ver Gráfico 1).


Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1960,1970, 1980,1991, 2000 e 2010
Obs: Em 1960, 1970 e 1980, população presente. Em 1991, 2000 e 2010, população residente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O crescimento demográfico de Sergipe pós-1970

Ricardo Lacerda

Ao longo do século XX, a população sergipana passou de 356.264 para 1.781.714 habitantes. Somente o censo de 1980 registrou população superior à casa de um milhão de habitantes. Em 2010, o número de residentes atingiu 2.068.017 (ver Gráfico 1).

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1872, 1890, 1900, 1920,1940, 1950, 1960,1970, 1980,1991, 2000 e 2010.
(1) População presente. (2) População recenseada. (3) População residente.
Obs: Os historiadores costumam lembrar que a população de 1872 está subestimada,
em razão de o levantamento censitário ter deixado alguns municípios de fora.


Um fato significativo na evolução populacional de Sergipe nesse período foi a mudança de sua dinâmica na década de 1970, quando a maior parcela da população se tornou urbana. Há um fenômeno particularmente curioso na trajetória populacional de Sergipe, vis a vis a média do Brasil e dos estados nordestinos: Sergipe que desde a década de 1920 vinha registrando crescimento populacional inferior ao do Nordeste e do Brasil, nos anos setenta passou a crescer acima da região e a uma taxa próxima da média brasileira e, nas décadas seguintes, ultrapassou o ritmo de crescimento dos dois agregados em todos os períodos intercensitários (ver Gráfico 2).


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

As exportações de suco concentrado de laranja - Parte 2



Ricardo Lacerda

Quem acompanha os comunicados das associações brasileiras de citricultores pode inferir o grau de insatisfação dos produtores com a situação do mercado da laranja, especialmente no que diz respeito às difíceis relações com as indústrias de suco. A queixa freqüente é a de que a estrutura concentrada permite à indústria impor preços muito desfavoráveis aos produtores de laranja, mesmo quando o mercado internacional inicia uma recuperação.

Em uma perspectiva de médio prazo, a cotação do suco de laranja concentrado (FCOJ) no mercado americano obteve importante aumento na safra de 2005/2006 e, especialmente, na safra de 2006/2007, o que ajudou a expansão das exportações brasileiras do produto. Com a crise financeira internacional, o preço recuou nas safras de 2008/2009 e 2009/2010, com graves conseqüências para a produção citrícola.

O preço do suco concentrado no mercado internacional vinha se recuperando desde meados de 2010, com alguns soluços, o que poderia estimular a retomada das exportações nos próximos anos, mas a recidiva na crise financeira, em que a situação da Grécia é o quadro mais emblemático, fez reverter a recuperação das cotações desde o início de agosto de 2011.

Exportações

No Gráfico 1, a seguir, são apresentados o valor e o volume das exportações brasileiras acumuladas em doze meses, entre outubro de um ano e setembro do ano seguinte. Ainda que esses doze meses não se relacionem com as safras, esse período foi escolhido para abranger os dados mais recentes, referentes a setembro de 2011.

Depois de alcançar US$ 874 milhões nos doze meses encerrados em setembro de 2006, o valor das exportações brasileiras do suco concentrado alcançou US$ 1,5 bilhão no período completado em setembro de 2007, o melhor resultado para essa série em todo o século XXI (ver as colunas no Gráfico 1). Em setembro de 2008, já refletindo a mudança no cenário externo, o valor acumulado das exportações em doze meses, apesar de ainda elevado, caiu para US$ 1,28 bilhão.

É curioso constatar que, apesar do patamar elevado do preço médio nesses dois períodos, o volume do produto comercializado no exterior, representado pela linha no Gráfico 1, ou pouco se elevou ou caiu, indicando problemas pelo lado da oferta brasileira.

Nos três períodos seguintes, nos doze meses acumulados em setembro de 2009, 2010 e 2011, o volume e o valor das exportações despencaram. Ou seja, quando os preços internacionais subiram, o volume exportado se manteve relativamente constante, quando os preços internacionais caíram, o volume exportado despencou.

Os especialistas têm atribuído esse comportamento recente, principalmente, à elevação do custo de produção interno da laranja, que, ao lado da valorização do real retiraria competitividade do produto brasileiro. Mas, honestamente, a explicação nos parece incompleta e insatisfatória.


 
Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.


Sergipe

A citricultura sergipana se ressentiu, também, das oscilações no preço internacional do suco concentrado de laranja, principal produto exportado pelo segmento. Quando os preços internacionais se tornaram muito atrativos, o valor das exportações de suco concentrado em Sergipe apresentou um grande salto, passando de US$ 28,5 milhões nos doze meses completados em setembro de 2006 para US$ 69,5 milhões, nos doze meses completados em setembro de 2007, e US$ 53,4 milhões em setembro de 2008 (ver Gráfico 2). Com a eclosão da crise financeira internacional, no final de 2008, o valor das exportações de suco concentrado também despencou, voltando nos doze meses completados em setembro de 2009 para o patamar anterior à expansão.

As exportações sergipanas de suco concentrado vêm respondendo mais positivamente à elevação do preço internacional do que a média brasileira. Se nos doze meses completados em setembro de 2010, o volume exportado ainda não havia iniciado sua recuperação, pelos menos interrompeu a queda, diferentemente do volume exportado pelo conjunto do país. No acumulado de doze meses de setembro de 2011, o volume exportado aumentou 29% e o valor das exportações, 89%, em relação ao período anterior.



Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.


As trajetórias do volume e do valor das exportações sergipanas de suco concentrado (FCOJ) parecem indicar que o setor estava iniciando uma importante recuperação. O novo período de instabilidade na economia mundial, que já vem afetando a cotação do produto, todavia, pode abortar essa retomada.


Publicado no Jornal da Cidade em 09/10/2011





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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As exportações de suco concentrado de laranja (1)



Ricardo Lacerda

Quem observa o preço médio do suco de laranja concentrado (FCOJ) que foi exportado pelo Brasil nos últimos meses se inclina a inferir que estamos diante de um novo período de prosperidade da citricultura. Depois do fundo do poço, em 2009, quando atingiu US$ 1.092 por tonelada exportada, o valor médio do suco concentrado exportado alcançou US$ 2.021, em agosto de 2011, em grande parte por conta de problemas na safra da Florida (ver Gráfico 1).

Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.

Mesmo com a forte melhoria das cotações, a quantidade exportada de suco concentrado ainda não reagiu. O volume exportado pelo Brasil nos doze meses encerrados em agosto de 2011 se limitou a 423 mil toneladas, frente às 523 mil toneladas comercializadas nos doze meses encerrados em agosto de 2010, uma retração de 19%.

Os especialistas não estão otimistas em relação às perspectivas do suco de laranja no mercado internacional. O entendimento é de que a alta do preço tem caráter temporário, decorrente de problemas climáticos que atingiram a produção americana. O diagnóstico predominante é o de que o mercado de consumo de suco de laranja se encontra estagnado, senão em declínio.

Saturamento

Estimativa da Markestrat, a partir de dados do Euromonitor e da Tetra Pak, é de que o consumo de suco de laranja concentrado nos vinte principais mercados caiu 6,9% entre 2003 e 2010. A retração do mercado no período não teria apenas caráter conjuntural, decorrente da crise financeira internacional, mas indicaria uma mudança de hábito no mercado mundial, em que outras bebidas vêm ocupando espaço na preferência dos consumidores. O Gráfico 2, a seguir, mostra que o mercado sofreu, de fato, com a crise financeira eclodida em 2008, mas a tendência de declínio é anterior e de caráter mais estrutural.



Fonte: Markestrat a partir de Euromonitor e Tetra Pak.
OBS: Inclui suco de laranja utilizado em mix de frutas e vendido congelado no varejo. Extraído de CitrusBR. Consumo Mundial de Suco de Laranja. Brasília, 6 de setembro de 2011. (http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/camaras_setoriais/Citricultura/28RO/App_Consumo_de_Suco.pdf).

Mercados

Entre 2003 e 2010, as retrações mais acentuadas no consumo de suco de laranja industrializado se verificaram em três das quatro maiores economias do mundo, Estados Unidos, Japão e Alemanha, com taxas de retração próximas a 20% (ver Tabela). O forte aumento do consumo em mercados emergentes, como os da China e da Rússia, não tem sido suficiente para se contrapor a tendência de declínio verificado nos principais mercados.

Fonte: Markestrat a partir de Euromonitor e Tetra Pak. Ver observação do Gráfico 2.

Sergipe
O valor das exportações de suco de laranja da economia sergipana reagiu positivamente à melhoria na cotação do produto no mercado mundial. A exemplo do que vem ocorrendo com a citricultura brasileira, como um todo, a melhoria de preços ainda não se refletiu de forma mais intensa no volume exportado por Sergipe. Esse será o ponto a ser tratado no artigo da próxima semana.



Publicado no Jornal da Cidade em 02/10/2011



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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O rebaixamento das expectativas para a economia mundial



Ricardo Lacerda

O agravamento do cenário econômico mundial nas últimas semanas deixou em segundo plano as criticas do ‘mercado’ à decisão do Copom de reduzir a taxa Selic em sua última reunião. A precipitação de notícias ruins sobre as dificuldades na rolagem da dívida soberana da Grécia, os riscos de contaminação de bancos europeus e americanos pelos créditos ruins em carteira, a desaceleração econômica da China, além da queda de braço entre republicanos e democratas que inibe a definição de medidas para ativar a economia americana, geraram um ambiente de forte incerteza na economia mundial, em que a turbulência no mercado de câmbio foi a face mais visível no Brasil.

Relatórios da Fazenda, do Banco Central e a edição de setembro das Perspectivas da Economia Mundial, do Fundo Monetário Internacional, publicados ao longo da semana, que são fontes úteis na compreensão do cenário econômico brasileiro no futuro próximo, podem ter se tornados obsoletos frente aos novos eventos, mas já registram a deterioração do cenário externo nas últimas semanas.

Perspectivas


O relatório do FMI alerta para desaceleração do nível de atividade da economia mundial, para o que contaram tanto fatores previstos na projeção anterior, de junho, quanto fatos que emergiram no período. A recuperação relativamente robusta do nível do comércio e do nível de atividade industrial em 2010 desacelerou-se em 2011. A instituição se diz surpreendida pela demora, nos países avançados, na transmissão de efeitos positivos dos gastos públicos para elevar as demandas das empresas e das famílias.
Fatores adicionais da desaceleração decorreram das dificuldades para a superação da crise das dívidas soberanas de países europeus, do impacto dos acidentes climáticos sobre o nível de atividade da economia japonesa e da elevação em cerca de 25% no preço do barris de petróleo associada aos conflitos no Norte da África e Oriente Médio (NAOM).

Economias avançadas
Na projeção efetuada em junho, o FMI estimava crescimento do produto mundial de 4,3%, em 2011, e 4,5%, em 2012, quando a taxa de 2010 alcançou 5,1%. A projeção de setembro é de que a economia mundial reduza o crescimento para 4%, em 2011 e em 2012, refletindo a deterioração do cenário nos últimos meses.
O produto das economias avançadas, que ensaiava uma recuperação relativamente robusta em 2010, deve registrar forte desaceleração, em 2011, limitando-se a um crescimento de 1,6% e permaneceu com a taxa rebaixada, de 1,9%, em 2012 (ver Gráfico 1). A reversão das expectativas de crescimento em 2011 e 2012, entre as projeções de junho e a de setembro, foi acentuada, encolhendo 0,6% para 2011 e 0,7%, para 2012.


Fonte: IMF.World Economic Outlook. Setembro de 2011.

Economias emergentes


As economias emergentes que, em média, atravessaram com perdas menores os impactos da crise de confiança no sistema financeiro mundial, apresentam cenários menos favoráveis para 2011 e 2012, se comparados aos resultados de 2010. Ainda assim, puxada pelas taxas de crescimento notáveis da China e da Índia, a projeção de crescimento das economias emergentes alcança 6,4% em 2011 e 6,1%, 2012. A projeção para a economia brasileira, no relatório do FMI, é de 3,8%, em 2011, e 3,6%, em 2012 (ver Gráfico 2).
Como a presidente Dilma destacou em seu discurso na abertura dos trabalhos da assembleia anual das Nações Unidas, há limites para as economias emergentes seguirem com crescimentos robustos enquanto as economias dos países avançados não superarem as ameaças de estagnação.


Fonte: IMF.World Economic Outlook. Setembro de 2011.

Mesmo com esta concentração de notícias ruins, vaticínios sobre a ocorrência de mais um dêbacle da economia mundial, abrindo um novo período de queda do PIB nas economias avançadas ou de incidência de nova crise de confiança no sistema financeiro internacional parecem precipitados, quando se considera a margem de atuação das economias líderes para enfrentar a situação, apesar da falta geral de entendimento sobre o que fazer. As próximas semanas serão ricas em acontecimentos.


Publicado no Jornal da Cidade em 25/09/2011

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A produção industrial em 2011

Ricardo Lacerda*

O ano de 2011 está sendo pródigo em medidas que sinalizam para uma reorientação da política econômica. A partir de uma leitura que contempla a reversão de um cenário de lenta recuperação para outro de estagnação nas economias avançadas, acompanhada pelo aumento da cobiça pelos mercados em forte expansão dos países de nível de desenvolvimento intermediário, está em curso uma mudança no mix das políticas fiscal, monetária e de desenvolvimento produtivo, cujo cerne parece ser o de assegurar a continuidade do ciclo expansivo da economia brasileira.

A reorientação da política econômica pode estar sendo motivada por uma combinação de percepção do agravamento conjuntural no cenário externo com o entendimento que se apresentam condições externas e internas para uma mudança na qualidade do desenvolvimento brasileiro, para não utilizar o tão demonizado termo modelo de desenvolvimento.

Depois de conquistar a estabilidade e de promover a formação de um amplo mercado interno, em um cenário de profundas transformações na economia mundial, o Brasil estaria preparado para uma nova geração de políticas de desenvolvimento de forte conteúdo social, mais pragmática e menos tributária das expectativas de mercado, uma combinação de ativismo econômico e social com responsabilidade macroeconômica. Sob certo sentido, é o terceiro estágio de uma política iniciada ainda no primeiro governo do Presidente Lula e que foi mudando de contorno progressivamente. Deixando de lado as digressões sobre o longo prazo, cabe registrar que os resultados do PIB Industrial do segundo trimestre e da produção física da indústria de julho acionaram um conjunto de medidas voltadas para a defesa e promoção do setor industrial, cujos alcances ainda são difíceis de serem avaliados.

Produção Industrial

Como alertou o ministro Mantega, o hiato entre o ritmo ainda intenso de crescimento do comércio varejista e as baixas taxas de incremento da produção industrial foi aberto pelo aumento da participação dos produtos importados no mercado interno. Enquanto o mercado de consumo permanece aquecido, a produção física da indústria vem reduzindo a taxa de expansão desde o início do ano. Na série do crescimento em doze meses, a produção física da indústria vem desacelerando em 2011, o que até certo ponto é natural em razão da elevada base de comparação do ano anterior, mas o faz em ritmo muito intenso, caindo de 3,7% em junho para 2,9%, em julho (ver Gráfico).

PIM-IBGE

A série que mostra a taxa de crescimento acumulada ao longo do ano, que capta melhor o comportamento mais recente, representada na linha dupla no gráfico, informa que até julho de 2011 a produção física da indústria teve incremento de apenas 1,4%, em relação ao mesmo período de 2010.
Setores
A redução do ritmo de crescimento da produção física da indústria teve amplo espectro, atingindo os segmentos de produção de máquinas e equipamentos (bens de capital), de insumos (bens intermediários) e os bens de consumo duráveis, semi-duráveis e não duráveis.

No caso do segmento de bens de capital, cuja produção física vinha crescendo rapidamente em resposta ao aumento do uso da capacidade produtiva disponível nos diversos segmentos da economia, a taxa acumulada de crescimento no ano caiu de 8,6% em março de 2011 para 5,5% em julho. Bem mais preocupantes foram as trajetórias da produção física dos segmentos de bens intermediários, bens de consumo duráveis e do segmento de bens de consumo semi-duráveis e não duráveis, que, respectivamente, apresentaram taxas de crescimento acumulado em julho de 0,6%, 1,9% e 0,5% (ver Tabela).



PIM-IBGE

Ainda na Tabela, podem ser observadas as taxas de crescimento das atividades industriais que tiveram os piores desempenhos nesse período: Têxtil (-14,4%), calçados (-7,4%), máquinas de escritório e equipamentos de informática (-5,5%), bebidas (-4,1%) e vestuários (-3,0%) Como são atividades industriais que, em sua maioria, têm forte participação na matriz industrial do Nordeste, a produção industrial de alguns estados da região está sendo fortemente afetada.

Publicado no Jornal da Cidade, em 18/09/2011

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A desaceleração econômica e o Nordeste

Ricardo Lacerda

A desaceleração do crescimento da economia brasileira entre o primeiro e o segundo trimestres de 2011 teve andamento diferente entre as regiões, ainda que alguns indicadores tenham apresentado comportamentos destoantes sobre esse ponto. Observando-se especificamente o desempenho da economia do Nordeste no período, a evolução do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC) e os dados de emprego apontam uma desaceleração menos pronunciada na região em relação ao comportamento médio do país.

As operações de crédito alcançaram elevadas taxas de crescimento em todas as regiões, e ainda que o Nordeste tenha apresentado taxas de crescimento dos saldos de operações bem acima da média brasileira, a redução do seu crescimento, mesmo que não muito acentuada, foi mais alta do que a média.

Finalmente, as trajetórias da produção física industrial e dos consumos industrial e total de energia elétrica foram menos favorável para região. Em conjunto, tais indicadores parecem apontar que a região Nordeste, com o mercado de consumo ainda bastante aquecido, foi, até o momento, menos impactada pelo agravamento do cenário externo e pelas medidas restritivas de política econômica.

Índice de Atividade

O Índice de Atividade do Banco Central (IBC), que procura antecipar os resultados do PIB, já é calculado para as regiões. Na comparação dos índices observados nos 1º e 2º trimestres de 2011 com igual período de 2010, alguns fatos saltam aos olhos. Enquanto nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, as taxas de crescimento se aceleraram no 2º trimestre, elas apresentaram forte recuo no Sudeste e, especialmente, na região Sul. Nessa série, o Nordeste registrou a mais alta taxa de crescimento no 2º semestre de 2011, 5,5% e a região Sul, a mais baixa, 2,7% (ver Gráfico 1).


Fonte: Banco central

Em termos de geração de emprego formal, nos últimos doze meses encerrados em julho, a taxa de crescimento da região Nordeste foi a segunda maior, 7,1%, atrás dos 8,26% da região Norte, mas superior às do Sudeste (5,90%), Centro-Oeste (6,32%) e Sul (6,07%). Apesar de serem taxas expressivas para todas as regiões, nos doze meses concluídos em março de 2011 as taxas de crescimento do emprego formal eram mais elevadas em todas as regiões. Produção Industrial

Os resultados da produção física da indústria e do consumo industrial são bem menos favoráveis ao Nordeste, em um grau surpreendente. Enquanto entre janeiro a julho a produção física da indústria brasileira cresceu 1,39%, na comparação com o mesmo período do ano anterior, no Nordeste verificou-se uma queda de 5,89%. No mesmo período, a produção física da indústria de São Paulo cresceu 2,6%.

O agravante é que segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), do IBGE, a queda da produção física da indústria nordestina nos sete primeiros meses do ano, embora mais acentuada no setor têxtil, foi generalizada. O consumo industrial da energia elétrica, apresentado no Gráfico 2, confirma essa trajetória desfavorável da indústria nordestina em 2011. Enquanto, em todas as demais regiões, o consumo industrial de energia elétrica, segundo dados da Eletrobrás, cresceu no primeiro semestre de 2011, em relação ao mesmo período de 2010, no Nordeste, o decréscimo alcançou 3,3%.

O Gráfico 2 permite observar, também, que na maioria das regiões, a taxa de crescimento do consumo industrial de energia elétrica refluiu entre o primeiro e o segundo trimestres, na comparação como os mesmos períodos do ano anterior. As magnitudes das variações na PIM e no consumo industrial de energia elétrica no Nordeste, no sentido inverso das demais regiões, podem sugerir problemas estatísticos e convém que sejam feitas investigações adicionais.


Fonte: Eletrobrás

Crédito
Finalmente, os dados relativos às operações de crédito no Nordeste mostram que elas continuam se expandindo em ritmo veloz, apesar de uma ligeira desaceleração no último trimestre. O saldo de operações de crédito para as famílias (PF), que financia a aquisição de imóveis e de bens duráveis, cresceu notáveis 28,2% no 2º trimestre de 2011, em relação ao mesmo período de 2010. Nessa mesma comparação, a taxa de incremento da região Sudeste alcançou 24,1% (ver Gráfico 3). As operações de crédito com as empresas (PJ) no 2º trimestre cresceram 25,8% no Nordeste e 18,9% no Sudeste.



Fonte: Banco Central

Apesar dos resultados problemáticos referentes à produção industrial e ao consumo de energia elétrica, as informações disponíveis apontam que a economia do Nordeste foi menos impactada no seu nível de atividade no segundo trimestre do que das regiões mais ricas do país. Voltaremos a esse tema no artigo da próxima semana.

Publicado no Jornal da Cidade, em 11/09/2011

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O PIB do 2º semestre de 2011

Ricardo Lacerda

A semana correu repleta de informações inquietantes que criaram um ambiente de angústia entre aqueles que acompanham o cenário econômico brasileiro: revisão da taxa de crescimento econômico americano para 1,7% em 2011, contra a projeção anterior de 2,7%; revisão da taxa de crescimento do PIB brasileiro de 2011 pelo Banco Central de 4% para 3,5%; o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, surpreendeu o mercado financeiro, antecipando o corte da taxa básica de juros em 0,5%, frente à expectativa de sua manutenção, quando ainda são tênues os sinais de recuo da taxa de inflação no acumulado de doze meses.

A semana fechou com o anúncio do crescimento do PIB brasileiro do segundo trimestre de 2011, de 0,8%, em relação ao semestre anterior, na série livre de efeitos sazonais, o que aponta a taxa anualizada de 3,6%.

Para além do recorrente comportamento histriônico de certos setores do chamado mercado, sempre que suas projeções não são confirmadas, como se assim fosse colocada em questão a sua pretensa onisciência, a decisão do Copom de reduzir a taxa de juros responde à deterioração do cenário externo e procura se antecipar aos seus efeitos recessivos sobre a economia brasileira, que apesar de ter mantido aquecido o nível de atividade, encontra-se em rápido processo de desaceleração, muito particularmente no setor industrial.

Desaceleração

Ainda que o crescimento do PIB dos últimos doze meses, em relação aos doze meses anteriores, tenha se mantido relativamente elevado, atingindo 4,7%, a trajetória apresentada é de rápida desaceleração, frente aos 6,2% no final do 1º trimestre, e dos 7,5% obtidos nessa série nos dois trimestres anteriores.

Quando se observam os resultados do trimestre comparativamente ao mesmo trimestre do ano anterior, é possível constatar o quão abruptamente a economia brasileira vem desacelerando em 2011. Depois de crescer 5% no 4º trimestre de 2010, em relação ao 4º trimestre de 2009, a taxa de crescimento nessa série caiu para 4,2% no 1º trimestre de 2011 e agora, no 2º trimestre de 2011, para 3,1% (ver Gráfico 1).

Setor Industrial

No setor industrial, mais sensível à valorização do câmbio e ao acirramento da competição com os produtos importados, depois das elevadas taxas de incremento no início de 2010, que na verdade apenas repunham parcialmente a produção perdida no ano de 2009, o PIB setorial se expandiu 4,3% no último trimestre de 2010, em relação ao mesmo trimestre de 2009, desacelerou para 3,5% no 1º trimestre de 2011, e cresceu apenas 1,7% na comparação entre o 2º trimestre de 2011 e o 2º trimestre de 2010, acionando o sinal de alerta (ver Gráfico 1). Entre o primeiro e segundo trimestres de 2011, na série sem efeitos sazonais o PIB industrial teve incremento de 0,2%, o que corresponde a uma taxa anualizada inferior a 1%.


Fonte: IBGE. Contas trimestrais

Gastos

Do ponto de vista do dispêndio, o consumo das famílias, responsável por 63% da demanda total da economia brasileira e principal motor do crescimento nos últimos anos, reduziu o ritmo de expansão nos últimos trimestres, à força das medidas voltadas para a restrição do crédito, mesmo que as taxas de incremento ainda se mantenham elevadas.

Depois de crescer 7,5% na comparação entre o 4º trimestre de 2010 e o mesmo período de 2009, o consumo das famílias aumentou 5,9% no 1º trimestre, nessa série, e 5,5% no 2º trimestre. O dispêndio de consumo da administração pública manteve uma trajetória de expansão moderada, com taxa de incremento de 2,5% no 2º trimestre, e a outra variável interna da demanda, a Formação Bruta de Capital (FBCF), fundamental para ampliar a capacidade produtiva interna e expandir o potencial de crescimento e que vinha se ampliando rapidamente à reboque da expansão do mercado de consumo interno, desacelerou intensamente no último trimestre (ver Gráfico 2).

O governo federal apontou para um novo redirecionamento da política econômica, com maior emprego dos instrumentos fiscais e menor uso da política monetária, diante dos efeitos dessa última sobre a valorização cambial.


Fonte: IBGE. Contas trimestrais

Confirmou-se, sem dúvida, uma mudança de comportamento do Copom, no sentido de se antecipar aos fatos adversos e demonstrar compromisso com a manutenção do crescimento, em uma conjuntura em que isto depende essencialmente do comportamento do mercado interno, mas como dizia Keynes àqueles que lhe cobravam coerência: quando mudam os fatos, eu mudo de ideia, e o que você faz?


Publicado no Jornal da Cidade em 04/09/2011



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