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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 7 de março de 2011

O PIB de 2010 e a desaceleração da economia no 4º trimestre


Ricardo Lacerda



O anúncio na semana passada do crescimento do Produto Interno Brasileiro (PIB) de 2010 foi, ao mesmo tempo, motivo de comemoração e de alguma preocupação. Comemoração porque a taxa de 7,5% é a mais elevada desde 1986, ano marcado pela explosão de consumo do Plano Cruzado, confirmando a força da recuperação da economia brasileira após a crise financeira que prostrou a economia mundial ao final de 2008. O setor industrial, o mais atingido pela crise em 2009, quando caiu 6,4%, apresentou a taxa setorial mais elevada em 2010, 10,1%. O setor agrícola reverteu o recuo de 4,6% em 2009, com 6,5% de crescimento em 2010, e o setor de serviços, o único com resultado positivo em 2009, 2,2%, alcançou 5,4%.
O mais significativo no resultado do PIB de 2010 é o fato de que, com ele, a economia brasileira retomou a trajetória de expansão iniciada no ano de 2004, estabelecendo no período uma taxa de crescimento médio anual de 4,4%, há muito desconhecida no Brasil, em um intervalo relativamente longo, de sete anos.

Trajetória

A primeira década do novo século teve resultados superiores à última do século anterior. Entre 2001 e 2010, o crescimento anual médio foi de 3,6%, enquanto no período 1991-2000, o PIB cresceu, em média, 2,6% ao ano. A diferença pode parecer pequena, mas significa que, na primeira década dos anos 2000, a economia brasileira cresceu 42,4%, contra 29,3 % no período anterior e que, nos anos noventa, o PIB por habitan te subiu apenas 1,1% ao ano, frente aos 2,4% ao ano da primeira década dos anos 2000, implicando que, no ritmo anterior, seriam necessários 63 anos para dobrar a renda média do país, e às taxas mais recentes este prazo se reduziria para 29 anos.

O gráfico 1 a seguir apresenta as taxas de crescimento do PIB brasileiro entre 1996 e 2010. Saltam aos olhos a dinâmica mais intensa de crescimento desde 2004 e que, após o resultado ruim de 2009, foi retomada a expansão no ano passado.



Fonte: IBGE: Contas Nacionais Trimestrais

Alerta

A preocupação é de duas naturezas: de um lado, no quarto trimestre a economia brasileira registrou uma forte desaceleração, com crescimento de 0,7% em relação ao trimestre anterior, na série livre de efeitos sazonais, equivalentes a apenas 2,8% anualizados; e do outro, o consumo continuou muito forte neste quarto trimestre, crescimento de 2,5% ou 10,4% em termos anualizados, indicando que as medidas macroprudenciais de contenção da demanda ainda não tiveram o poder de fazer refluir a taxa de expansão desta variável e, ao mesmo tempo, que outras variáveis da demanda agregada tiveram um desempenho pífio.

O gráfico 2, a seguir, resume a evolução do PIB trimestral ao longo de 2010, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, observando os componentes da demanda agregada. Um primeiro aspecto que chama a atenção é que houve uma sensível melhoria nas trajetórias das taxas de importações (que contam negativamente) e de exportações de bens e serviços (que contam positivamente), amplamente desfavoráveis às exportações no primeiro trimestre e que foram aproximando os ritmos de crescimento ao longo do ano.

Entre as variáveis da demanda interna, o consumo das famílias não apenas comandou a expansão no 4º trimestre, como apresentou uma evolução ascendente ao longo do ano. O Consumo da Administração Pública (Cons. APU), que foi muito importante para a expansão do PIB no segundo trimestre, perdeu o ímpeto de crescimento nos terceiro e quarto trimestre, mostrando-se comportado no período. Especialmente, houve certa decepção com o comportamento dos investimentos, medidos pela Formação Bruta do Capital Fixo (FBCF), que desaceleraram fortemente no quarto trimestre, após três períodos de intenso crescimento, mesmo considerando que esta variável tenha aumentado 21,8% na comparação, entre 2010 e 2009, e que a taxa de investimento da economia tenha subido para 18,4%.




Fonte: IBGE: Contas Nacionais Trimestrais

Em relação ao consumo das famílias, os indicadores de crédito de 2011 apontam para uma trajetória menos acelerada, o mesmo devendo ocorrer com o consumo da administração pública.

A preocupação decorre do fato de que as pressões inflacionárias permaneceram fortes nos últimos meses, mesmo com a economia crescendo a taxas menores. Ainda que fatores importantes de elevação dos preços se originem de fontes externas, o raio de manobra para manter taxas elevadas de crescimento se estreitou. A lição parece ser que o crescimento sustentável requer, nos próximos trimestres, alterações mais aceleradas entre as proporções das taxas de consumo e das taxas de investimento, públicos e privados, na economia brasileira.


Artigos anteriores estão postados em http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com/



Publicado no Jornal da Cidade, em 06/03/2011


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domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Taxa de desocupação da economia brasileira

Ricardo Lacerda



A taxa de desocupação nas regiões metropolitanas brasileiras se situou em 6,1% em janeiro de 2011, extraordinariamente baixa para um mês tradicionalmente ruim para o mercado de trabalho. Recorrentemente, a imprensa tem noticiado a escassez de mão de obra em atividades da construção civil, da indústria de transformação e, mais recentemente, para o trabalho doméstico nas grandes metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Desde quando foi anunciado o resultado de dezembro de 2010, de 5,3%, a menor taxa de desocupação desde o inicio do registro estatístico, que alguns especialistas têm afirmado que a economia brasileira alcançou o pleno emprego do fator trabalho. Tal assertiva decorre, em parte, da associação que se faz entre a taxa de desemprego de 5% com a noção de pleno emprego, posto que resta sempre um contingente de pessoas desocupadas que está saindo de uma ocupação, antes de encontrar outra. Para alguns analistas, o pleno emprego teria sido alcançado na economia brasileira no sentido de que, para um grande e expressivo grupo de ocupações, não estão disponíveis pessoas com o perfil de qualificação para preencher as vagas.

Portanto, pleno emprego não significa que todos aqueles que procuram trabalho estejam ocupados, e sim que uma parcela muito expressiva da força de trabalho está ocupada e que a desocupação persistente, não devo usar residual, decorre de fatores como tempo de rotação entre uma ocupação e outra, ou desproporções do perfil de qualificação ou na estrutura setorial da demanda e da oferta de trabalho, de modo que incrementos adicionais da demanda por trabalho se traduzirão mais em elevação dos rendimentos do que em novas oportunidades de ocupação.

Queda da desocupação

A queda da taxa de desocupação na economia brasileira tem sido, de fato, notável. Em janeiro de 2003, a taxa de desocupação nas regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE havia alcançado 11,2%, frente aos atuais 6,1%. O Gráfico a seguir, mostra a evolução da taxa de desocupação nos mês de janeiro, entre 2003 e 2011. A trajetória é fortemente declinante.

Não há dúvida de que o mercado de trabalho brasileiro se encontra aquecido, o que inclusive tem proporcionado ganhos reais nos rendimentos em uma série de ocupações, mas, mesmo nesse sentido elástico, há que se considerar as diferenças regionais nas taxas de desocupação.


Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio

Regiões

A taxa de desocupação é calculada para seis regiões metropolitanas brasileiras: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Essencialmente por conta de um excedente de mão de obra, acumulado ao longo da história e que a expansão do setor moderno no pós-guerra não logrou absorver, a taxa de desocupação é estruturalmente mais elevada nas regiões metropolitanas do Nordeste, do que naquelas situadas nas regiões Sudeste e Sul. Este é o padrão geral, somente não observado quando crises agudas atacam intensamente o mercado de trabalho mais estruturado do centro dinâmico da economia brasileira, isto é, o da região Metropolitana de São Paulo. A menor taxa de desocupação em janeiro de 2011 foi registrada na Região Metropolitana de Porto Alegre, 4,2%, seguida, pelo Rio de Janeiro, 5,1%, Belo Horizonte (5,3%) e São Paulo (6,0%).

Em janeiro de 2011, a taxa de desocupação nas regiões metropolitanas de Recife e Salvador eram, respectivamente, de 7,1% e 10,7%, também as mais baixas da série histórica. Em janeiro de 2006 as taxas de desocupação daquelas regiões metropolitanas haviam alcançado, respectivamente, 15,3% e 14,9%. (Ver tabela).


Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio

As taxas de desocupação são mais elevadas para os jovens do que para pessoas com mais experiência, apontando a urgência de expandir os cursos de capacitação profissional.

Se fatos extraordinários, como a crise política do mundo árabe ou a deterioração da situação fiscal em nações europeias, não trouxerem efeitos muitos negativos para a economia mundial, o mercado de trabalho brasileiro deve seguir aquecido em 2011, com novas reduções na taxa de desocupação, mesmo que em ritmo menos acelerado. Vamos torcer para que nada atrapalhe esse momento especial do mercado de trabalho no Brasil.


Publicado no Jornal da Cidade em 27/02/2011

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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Realidade e paraíso

Ricardo Lacerda de Melo (Assessor Econômico do Governo de Sergipe)

O editorial do prestigioso periódico Jornal da Cidade de 17 de fevereiro de 2011 tece comentários sobre a mensagem do Governador Marcelo Déda durante a abertura dos trabalhos da Assembleia Legislativa de Sergipe no ano de 2011, sob o título O paraíso não é aqui. No seu direito inalienável de livre manifestação, procura argumentar que aquela mensagem passou a ideia de que a gente sergipana vive no paraíso, quando, assinala o editorial, a realidade dos fatos é outra.
O editorial não foi feliz em sua tarefa de avaliação, por não ter conseguido captar o cerne da mensagem ali pronunciada. A mensagem hora nenhuma traçou um cenário paradisíaco sobre a situação econômica e social de Sergipe. Na verdade, a mensagem fez um amplo relato das realizações do Governo de Sergipe no período 2007-2010, como exige o artigo 84 da Constituição Estadual, apresentou a situação das finanças públicas, mostrou os avanços obtidos em vários campos, reconheceu a persistência de problemas na saúde, na educação, na segurança pública e na infraestrutura, e apontou os desafios e os eixos de atuação do segundo mandato popular. Não fugiu dos problemas e das insuficiências das políticas públicas. Renovou, todavia, a confiança de que as dificuldades estão sendo enfrentadas e que Sergipe vai continuar seguindo em frente.
A mensagem tem como eixo central a renovação do compromisso do Governo de Sergipe com a inclusão social dos mais pobres. Mostrou com indicadores concretos os avanços obtidos, alguns deles os maiores já alcançados por Sergipe, na geração de emprego e renda, na interiorização do desenvolvimento, nas políticas educacionais e de saúde, enfim na inclusão social da gente sergipana mais pobre por meio do acesso às políticas públicas e da geração de oportunidades de trabalho - Inclusão pelo Direito e pela Renda.
Não traçou cenário de paraíso. Apresentou, sim, dados concretos de que o número de famílias em situação de pobreza extrema, a exemplo do que acontece em todo território nacional, vem caindo ano a ano, em função do conjunto de políticas públicas adotadas pelo governo estadual, em parceria com o governo federal, e do crescimento da nossa economia. Mostrou também, com dados concretos de conceituadas instituições nacionais, como a Fundação Getúlio Vargas(FGV) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que Sergipe tem avançado em indicadores econômicos e sociais e que, pela primeira vez na história, está no seu horizonte erradicar da pobreza extrema as famílias sergipanas que se encontram em tal situação, que são aquelas cujos rendimentos por membro integrante é inferior a ¼ do salário mínimo, até o ano de 2016
Com essa constatação, a mensagem faz um chamamento aos poderes e à sociedade para se somarem a essa missão, que, sintetiza, vai nortear todas as ações do governo nos próximos quatro anos.
O editorial não captou a o aspecto central da mensagem. Perdeu uma oportunidade de engrandecer o debate sobre as perspectivas da gente sergipana, que argumento, têm avançado significativamente nos últimos anos.

Publicado no Jornal da Cidade em 18/02/2011

O comércio varejista em 2010

Ricardo Lacerda

A expansão do consumo das famílias tem sido um dos aspectos mais marcantes crescimento recente da economia brasileira. O volume de vendas do comércio varejista no Brasil, em 2010, cresceu 10,87% na comparação com 2009, o melhor resultado da série histórica iniciada em 2001. Entre 2004 e 2010, o mercado de consumo brasileiro cresceu 70,8%, ou seja, o tamanho do mercado de consumo é hoje mais de 2/3 maior do que no início da década. A força da recuperação do mercado de varejo desde o início de 2009 fez com que o volume de vendas em dezembro de 2010 se situasse 17,1% acima do patamar anterior à crise econômica internacional, em setembro de 2008.

2010


A expansão do comércio em 2010 foi movida pelo crescimento do emprego, da renda e do crédito. Segundo o IBGE, as atividades comerciais que mais contribuíram para o incremento do volume de vendas no varejo foram aquelas integrantes do segmento de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo que, com o crescimento de 8,96% no ano, responderam por 39,9% do total do crescimento.
As atividades que tiveram as taxas de crescimento mais elevadas no ano, na comparação com 2009, foram as de comercialização de material de informática, de escritório e de comunicação, que abrangem as vendas de celulares, notebooks, tablets, entre outros, que registraram incremento de 24,1%, apesar de não terem pesos tão expressivos nas vendas totais quantos os segmentos de alimentação, de vestuário ou de produtos farmacêuticos. O comércio varejista de móveis eletrodoméstico, outro segmento muito dependente de crédito, alcançou o crescimento de 18,31% no ano.
As vendas de produtos farmacêuticos e cosméticos tiveram incremento de 11,87%, e os produtos de papelaria, jornais e revistas, 11,95%. Na verdade, todas as atividades pesquisadas apresentaram aumentos muito elevados nas vendas. As atividades de menor crescimento foram as agrupadas no item outros artigos de uso pessoal e domésticos, que aumentaram 8,78%. (Ver gráfico 1).


Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio


Ritmo de crescimento


O crescimento do volume de vendas do comércio desacelerou-se nos últimos meses. Na série de dados que isola os efeitos sazonais, o comércio varejista cresceu 1,9% em agosto, 0,4%, em setembro, 0,1% em outubro, 0,8% em novembro e manteve-se no mesmo nível em dezembro (0,0%), o que significa que a taxa de crescimento anualizado que desde agosto vem se mantendo acima de 10%, deverá se retrair rapidamente nos próximos meses. (Ver gráfico 2).



Fonte: IBGE- Pesquisa Mensal do Comércio


Com as medidas recentes do governo federal de restrição e de encarecimento do crédito, e mesmo com o reajuste menor do salário mínimo em 2011, o crescimento das vendas no comércio varejista deverá desacelerar nos próximos meses. Isso deve acontecer, todavia, em um patamar bastante elevado de vendas, mantendo aquecidas as atividades comerciais. No próximo artigo, examinaremos as diferenças nas taxas de crescimento recentes no comércio varejista de estados e regiões.


Publicado no Jornal da Cidade em 20/02/2011

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A inflação e o preço dos alimentos

Ricardo Lacerda


O governo federal iniciou o ano de 2011 com a adoção de uma série de medidas restritivas na política econômica que, certamente, não tem agradado a população brasileira. A percepção de que a inflação se distancia rapidamente da meta de 4,5% ao ano, acionou o sistema de alerta, fazendo com que o governo tenha respondido com medidas monetárias, de redução da liquidez e de elevação da taxa básica de juros, e medidas fiscais, com anúncios de corte de gastos previstos no orçamento, além de ter adotado uma posição menos flexível nas negociações relativas ao reajuste anual do salário mínimo. Tais atitudes, em conjunto, apontam para a percepção do governo da necessidade de desacelerar o crescimento da economia nesse início de ano.
O IPCA
A meta central de inflação para 2010 e 2011 foi fixada pelo governo federal em 4,50%, com uma margem de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. No acumulado de doze meses completados em janeiro, o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 5,99%. Ainda que dentro da margem, a combinação da aceleração da taxa de inflação nos últimos meses, do forte incremento do consumo e de indicadores de pressão no mercado de trabalho e no nível de capacidade ocupada conformou um cenário de urgência no enfrentamento da questão inflacionária, inclusive para sinalizar, interna e externamente, o compromisso do novo governo com a estabilidade econômica.

Fonte: IBGE- IPCA

Um motivo de preocupação adicional é que a variação nos preços dos alimentos tem sido o principal fator de pressão sobre o IPCA. No acumulado de doze meses, completados em janeiro, o preço da alimentação e das bebidas aumentou 10,42%, quase o dobro do índice geral e quase três vezes o índice acumulado em janeiro de 2010, que havia se situado em 3,56%.

Alguns analistas têm apontado que a pressão inflacionária tem sido sentida também nos preços de bens e serviços não transacionáveis, ou seja, bens e serviços que o consumidor não tem a opção de adquirir de fornecedores situados em outros mercados, como são os casos das despesas pessoais, cujos preços médios subiram 7,42% nos últimos doze meses, os gastos com habitação, 5,33%, e os de saúde e cuidados pessoais, 5,18%.

O gráfico 1, todavia, mostra, sem sombra de dúvidas, que o preço dos alimentos tem sido, de fato, o cerne do problema inflacionário mais recente. Os demais itens praticamente repetiram os números de janeiro de 2010, ainda que alguns venham se mantendo acima da meta para o índice geral.

Alimentos
O preço dos alimentos sofreu forte aceleração a partir de setembro de 2010. Nos acumulado de doze meses de janeiro de 2011, o índice de preços de alimentos consumidos nos domicílios subiu 10,68% e o de alimentação fora dos domicílios teve incremento de 9,9%. O grupo de cereais, leguminosas e oleaginosas aumentou 9,47%, o feijão subiu mais de 30% e o preço da carne, 27%.

A rápida aceleração nos preços dos alimentos tem alguns componentes internos e outros internacionais. Problemas climáticos na Rússia têm causado forte impacto no preço do trigo, e na Índia, sobre o preço do açúcar, que subiu mais de 20% nos últimos doze meses no mercado interno. Mas o fato mais significativo tem sido a retomada do aumento da demanda por alimentos no mercado internacional, puxada pela expansão nos mercados emergentes, com destaque para a China, e no mercado interno.

O gráfico 2 ilustra o comportamento do IPCA-Geral e do IPCA- Alimentação e Bebidas, desde janeiro de 2008. A linha contínua representa a evolução do IPCA-Alimentação e Bebidas, no acumulado de doze meses, e a linha pontilhada a evolução do IPCA- Geral. A partir do segundo trimestre de 2008, o índice de alimentação e bebida, em doze meses, empinou fortemente, até atingir 15,79%, em junho. Nos meses seguintes, com a queda abrupta nas cotações das commodities alimentares por conta da crise internacional, a variação positiva deste índice de preço, em doze meses, chegou a cair para o patamar de 3,19%, em dezembro de 2009.

No primeiro semestre de 2010, o IPCA- Alimentação e Bebidas foi fortemente pressionado pelas inundações em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas passou a ter um comportamento mais suave já a partir de junho. Desde setembro de 2010, todavia, este índice entrou em uma trajetória perigosamente ascendente, até atingir os 10,42% já citados, no acumulado de doze meses em janeiro de 2011.

Em parte por problemas climáticos externos, em parte por conta do aquecimento do consumo no mercado interno e no mercado internacional, os preços dos alimentos no Brasil, no início de 2011, retomaram a trajetória ascendente tal como ocorria no período imediatamente anterior à crise financeira internacional, pressionando o IPCA dos últimos meses. Frente a este quadro, o governo acendeu o sinal de alerta e acionou as políticas de contenção fiscal e monetária.


Fonte: IBGE- IPCA


Publicado no Jornal da Cidade, em 13/02/2011


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A interiorização do emprego formal em Sergipe

Ricardo Lacerda

Um dos mais aspectos mais interessantes do ciclo expansivo atual da economia brasileira é o processo de criação de empregos com carteira de trabalho nos municípios do interior. Ainda que, na maioria dos estados, o emprego metropolitano tenha crescido, nos últimos quatro anos, a taxas superiores as médias dos estados, o emprego fora das regiões metropolitanas aumentou consideravelmente em termos absolutos. Em 2010, foram criados no Brasil mais de 1 milhão de empregos nos municípios não pertencentes a regiões metropolitanas.

Geração de Emprego

Desde 2007, o emprego formal no interior do Estado, entendido como integrado pelos municípios não pertencentes ao aglomerado urbano da Grande Aracaju (além da capital, os municípios de Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros e São Cristovão) vem aumentando progressivamente. Depois dos 2.003 empregos gerados no interior no ano de 2006, o número de novos empregos cresceu para 3.903, em 2007, e alcançou 5.016, em 2008. Por conta da crise financeira internacional, houve certo recuo em 2009, quando foram criados 3.359 empregos formais, e, finalmente, o resultado exuberante de 2010, até o mês de novembro, com a geração de 9.506 empregos no interior do Estado. (Ver Gráfico).


Fonte: MTE- CAGED. Obs. * Municípios não pertencentes a Grande Aracaju (N. Sra. D Socorro; Aracaju, B. dos Coqueiros; e São Cristovão). ** Os dados de 2010 são relativos ao período jan-nov.

O emprego formal nos municípios do interior de Sergipe vem, em média, crescendo a taxas mais elevadas do que as apresentadas por Aracaju e pelos demais municípios da região metropolitana, fazendo com que a participação dos primeiros tenha aumentado no total do emprego formal gerado no Estado. Ou seja, não apenas o emprego formal vem se acelerando nos municípios do interior, como ele vem aumentando a participação no emprego formal que vem sendo gerado em Sergipe.

O movimento de expansão mais acelerada do emprego no interior fica mais bem ilustrado quando são comparados os quadriênios 2003-2006 e o 2007-2010, até o mês de novembro desse último ano. Enquanto no primeiro período foram criados 7.724 empregos nos municípios não integrantes da Grande Aracaju, entre 2007 e 2010, o número de empregos formais criados nestes municípios quase triplicou, na verdade cresceu 181%, alcançando o montante de 21.684 novas vagas.

No primeiro período, em torno de 2/3 dos empregos (68%) foram criados em Aracaju e 72% na Grande Aracaju. Entre 2007 e 2010, apesar da geração de emprego ter sido maior em todas as áreas do que no período anterior, a Capital respondeu por menos da metade do emprego gerado em Sergipe, 48%, e na soma de Aracaju com os demais municípios da região metropolitana, alcançou-se 58%. A outra face é de que, entre 2003 e 2006, o emprego formal no interior representou apenas 28% do total do Estado, e, entre 2007 e 2010, essa participação foi alçada para 42%. (Ver Tabela)


Fonte: MTE- CAGED. Obs. * Municípios não pertencentes a Grande Aracaju (N. Sra. D Socorro; Aracaju, Barra dos Coqueiros; e São Cristovão). ** Os dados de 2010 são relativos ao período jan-nov.

Municípios e Setores

Nos últimos quatro anos, os municípios sergipanos, não pertencentes à Região Metropolitana de Aracaju, que mais criaram emprego foram, por ordem, Capela e Nossa Senhora das Dores, por conta da instalação de Usinas Processadoras de Cana-de-Açúcar; Itabaiana, com destaque para o comércio, extração mineral, alojamentos e comunicação e outras atividades, e Frei Paulo, com a indústria de calçados.

Criaram contingentes também expressivos de novos empregos os municípios de Itaporanga D´Ajuda, com a construção civil, indústria de alimentos e profissões técnico-administrativas; Lagarto, com comércio varejista, indústrias de calçados e de alimentos, e serviços de alojamento e comunicação; Simão Dias, calçados e construção civil; Estância, comércio, construção civil, indústria de bebidas e metalúrgica; Laranjeiras, construção civil e agricultura; Propriá, construção civil, comércio varejista e indústria de alimentos e bebidas; Carmópolis, administração técnico-profissionais, transporte e comunicação, construção civil e metalúrgica; e, Nossa Senhora da Glória, comércio, industria de mobiliário e alojamento e comunicação.

A interiorização do emprego formal concorre para o desenvolvimento mais equilibrado territorialmente. O ciclo expansivo de geração de emprego nos últimos teve como um das características fundamentais a criação de tais empregos mais estruturados também em municípios não pertencentes á região metropolitana, em segmentos diversos da atividade econômica, mas com concentração nas indústrias de calçados e de alimentos e bebidas, na agroindústria canavieira, no comércio, e na construção civil.



Publicado no Jornal da cidade, em 05/02/2011

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O perfil do emprego criado na economia sergipana em 2010

Ricardo Lacerda

A geração de emprego na economia sergipana alcançou patamar inusitado em 2010. Para efeitos de comparação, serão analisados os dados de doze meses, entre dezembro de 2009 a novembro de 2010, em razão da mudança procedida pelo MTE na sistemática de apuração dos dados do CAGED no mês de dezembro de 2010. Nos doze meses acumulados até novembro, foram criados 20.674 empregos com carteira assinada, resultado 64,5% superior à maior geração de emprego anterior, que havia sido nos doze meses acumulados até novembro de 2008, de 12.571 empregos formais.

O objetivo do presente artigo é o de apresentar o perfil desse emprego criado, em termos da escolaridade dos novos empregados e tipos de ocupação que foram mais demandados. Ainda que o espaço disponível não permita uma análise mais exaustiva, serão apresentadas algumas características importantes de novo emprego que tem surgido na economia sergipana.

Escolaridade

Há alguns fatos muito interessantes, referentes ao grau de instrução das pessoas empregadas nesse período, em que 60,6% dos novos empregos foram ocupados por pessoas com ensino médio completo e incompleto, sendo que, em mais da metade de todos os empregos, 51,6%, as pessoas contratadas detinham o ensino médio completo. Esse dado sinaliza para a importância do grau de escolaridade para aumentar as oportunidades de inserção no mercado de trabalho formal, mesmo que a função ocupada possa ter como requisito um grau de instrução inferior. Dos 20.674 empregos criados no período, 12.534 foram ocupados por pessoas com ensino médio, dentre as quais, 10.677 contavam com o ensino médio completo. (Ver Tabela 1).


Um outro dado muito significativo é o de que o número de pessoas contratadas com nível superior, completo e incompleto, ultrapassou os novos empregados com grau de instrução de 1ª a 5ª-serie do ensino fundamental ou da 6ª a 9ª série do fundamental. No período, foram contratadas mais 2.806 pessoas com nível superior, entre completo e incompleto, frente a 2.570 com até a 5ª série do ensino fundamental e 2.352, com ensino fundamental da 6 ª a 9 ª série.

Perfil ocupacional 
O registro do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego classifica, também, os empregos gerados segundo grupos e subgrupos ocupacionais. Cerca de 1/3 dos empregos gerados no período (36,6%) se concentrou no grupo ocupacional 7, que abrange os trabalhadores da construção civil e da indústria de calçados e de têxteis. (Ver Tabela).

O emprego gerado nesse grupo alcançou o contingente de 7.561, com destaque para os 2.272 postos de trabalho criados na construção civil e, subsidiariamente, na indústria extrativa. A ocupação de trabalhadores da indústria de caçados e têxteis somou 1.938 novas vagas. O grupo ocupacional de trabalhadores de serviços e do comércio gerou 4.362 empregos formais, sobressaindo-se os empregos de vendedores e representantes comerciais, e o de trabalhadores na administração de edifícios e logradouros.



Entre as ocupações típicas de profissões científicas, grupo ocupacional 2, e de técnicos de nível médio, grupo ocupacional 3, o setor de saúde liderou a geração de empregos. Neste segmento foram ocupados 1.203 profissionais em áreas cientificas, além de 1.657 técnicos de nível médio.

Na área técnica, foram expressivos, ainda, os empregos gerados nas ocupações em engenharia e nos serviços técnico-administrativos. Outros destaques foram os empregos formais criados na agropecuária, que alcançaram o número de 1.907 no período, associados à implantação de novas usinas, e a intensa demanda por eletricistas para a indústria e para oficinas. (Ver a tabela 2).

A análise das duas tabelas aponta para algumas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, que o grau de instrução tem sido importante para um número expressivo de ocupações na indústria sergipana e de que a obtenção do ensino médio abre novas oportunidades para o trabalhador. Em segundo lugar, a demanda por ocupações científicas tem sido basicamente gerada pelo setor público, especificamente por meio dos concursos realizados pelas fundações de saúde. Há ainda uma forte demanda da construção civil e da indústria por ocupações técnicas.

Publicado no Jornal da Cidade, em 30/01/2011


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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O comércio exterior sergipano em 2010 (2)

Ricardo Lacerda


A análise do comércio exterior sergipano não deve perder de vista o peso limitado que essa atividade tem para o conjunto da economia sergipana, muito mais integrada nos fluxos comerciais internos do que a média dos estados da federação. Em 2008, o peso do Produto Interno Bruto (PIB) sergipano no total nacional era 6,7 vezes superior à participação do fluxo comercial externo de Sergipe no total brasileiro.
Importações
No período recente, o comercio exterior sergipano, soma das exportações e importações, atingiu seu ponto de máximo em 2008, quando atingiu US$ 315 milhões. Com a crise financeira internacional, as empresas sergipanas procuraram concentrar ainda mais as suas vendas no mercado interno, enquanto as compras externas também recuavam, fazendo com que o fluxo comercial de 2010, mesmo superior ao de 2009, tenha se situado 18,7% abaixo do verificado em 2008. O fluxo de compras de produtos importados vem se intensificando nos últimos meses, impulsionado pela valorização cambial e pelo aquecimento do mercado interno.

O gráfico 1, a seguir, apresenta os dados das importações acumuladas em doze meses, entre 2008 e 2010. Nesta série, as importações sergipanas chegaram ao ponto mais baixo no período pós-crise em janeiro de 2010. Em dezembro de 2010, as importações sergipanas haviam aumentado para US$ 179,8 milhões, 19,8% acima dos US$ 153,3 milhões de dezembro de 2009.


Fonte: MDIC-SECEX 
Produtos


Um aspecto importante no perfil das importações sergipanas é o de que cerca de 95% do total importado em 2010 são direcionados para a produção e apenas em torno de 5% seguem diretamente para o consumo das famílias. Isso não significa que o consumo de produtos importados pelos sergipanos seja muito baixo, por que parte expressiva dele pode estar sendo abastecido por empresas importadoras de outros estados, sendo transferida para Sergipe como vendas internas.

Naquele ano, os principais produtos importados eram o trigo, para a fabricação de pães e massas, o coque para a indústria de cimento e alguns tipos de insumos para complementar a oferta do nosso pólo de fertilizantes, além de insumos para a indústria têxtil. As maiores importações de 2010 foram realizadas, por ordem, por Fertilizantes Heringer, Moinho de Sergipe, Petrobras, Cimento Poty, Ematex, G. Barbosa e o estaleiro H Dantas.
As compras externas de insumos, os chamados bens intermediários, representaram 66,6% do total importado por Sergipe em 2010, dos quais 16% foram adquiridos pela indústria de alimentos, com destaque para o trigo, e o restante pelos demais setores industriais. A aquisição de máquinas e equipamentos externos, os chamados bens de capital, responderam por 28,3% do total importado.
A expansão da produção industrial de Sergipe ao longo de 2010 estimulou o aumento da aquisição de insumos importados. O valor dos insumos importados pelo setor produtivo aumentou de US$ 88 milhões, em 2009, para 119,8 milhões, em 2010, um incremento de 36%, com as compras de insumos para a indústria de alimentos tendo aumentado 25%, enquanto a compra de insumos para os demais setores industriais cresceu 38%.

O ciclo expansivo


Mesmo com pequena participação no conjunto das compras totais de Sergipe, as importações podem sinalizar o comportamento de variaveis importantes da economia. As importações de equipamentos e insumos refletem parcialmente o andamento do ciclo de atividade produtiva. Enquanto as variações das compras de insumos se relacionam com o nível de atividade produtiva e de consumo da economia, a evolução na aquisição de equipamentos retrata o comportamento dos investimentos.

As importações de de bens de capital pela economia sergipana passaram de US$ 21 milhões, em 2006, para US$ 29 milhões,em 2007, até alcançarem US$ 60,8 milhões em 2009. Em 2010, elas se situaram em US$ 50,8 milhões. (Ver gráfico 2). A aquisição de insumos produtivos também vem conhecendo uma evolução favorável, passando de US$ 69,6 milhões, em 2006, até atingir US$ 160 milhões, em 2008. Recuaram para US$ 88 milhões, em 2009, e, em 2010, atingiram US$ 119,8 milhões. Assim ao longo do período 2006-2010, as importações de bens de capital tiveram um incremento de 140%, e as importações de insumo, de 72%.
O comportamento das importações sergipanas no ano de 2010 apontam para a retomada do comercio exterior, depois do recuo em 2009 provocado pela desaceleraçaõ da atividade econômica. Em uma perspectiva de prazo mais longa, o crescimento nas aquisições externas de insumos e equipamentos espelha o ciclo de crescimento da economia de Sergipe.
Fonte: MDIC-SECEX



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             Publicado no Jornal da Cidade, em 23/01/2011


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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O comércio exterior sergipano em 2010 (1)

Ricardo Lacerda

A combinação de crise no mercado mundial, valorização cambial e forte expansão no mercado interno fez mudar o papel do comércio exterior na dinâmica de crescimento da economia brasileiro e dos espaços subnacionais. Um número crescente de setores buscou redirecionar maior parcela de sua produção para o mercado interno.

Depois de ter despencado de US$ 197,4 bilhões em 2008 para US$ 153,0 bilhões em 2009, retração de 22,7%, as exportações brasileiras cresceram 32,0%, em 2010, atingindo um novo recorde, US$ 201,9 bilhões. A recuperação das exportações em 2010 confirma a retomada paulatina do comércio mundial, após a etapa mais aguda da crise financeira internacional, agora com maior presença dos mercados emergentes nos fluxos comerciais.

Ainda assim, as exportações nacionais de 2010 se situaram apenas em 2,01% acima do valor de 2008. Além disso, depois do pico de 2006, o saldo do comércio exterior brasileiro vem caindo aceleradamente, significando a diminuição da importância do comércio externo no crescimento do PIB nacional, enquanto a expansão do mercado de consumo interno vem ampliando o seu peso.

As exportações sergipanas também foram fortemente atingidas pela crise internacional, seguindo o padrão nacional, ainda que o impacto tenha sido relativamente maior em Sergipe, tanto em razão das dificuldades enfrentadas no mercado internacional do seu principal produto, o suco de laranja congelado, quanto pelo redirecionamento de outros bens, como o cimento e os têxteis, para o mercado interno. Depois de se retraírem em 45,6%, em 2009, as exportações sergipanas ensaiaram um início de recuperação em 2010, com expansão de 26,1%.

Produtos

As exportações sergipanas estão concentradas em alguns poucos grupos de produtos, com destaque para o suco de laranja congelado, que respondeu por 44,7% do total das vendas externas de 2010. Outros grupos de produtos importantes são o de calçados e couros e o de açúcar. Sucos, calçados e couro, açúcar e produtos assemelhados respondiam por 93,3% da pauta exportadora de Sergipe naquele ano. Produtos têxteis e material elétrico são ainda itens merecedores de menção no perfil exportador.

Entre os principais produtos da pauta de exportação sergipana, o suco de laranja é que tem encontrado maior dificuldade de deixar a crise para trás, seja por que não há a alternativa de redirecionar as vendas para o mercado interno, seja porque depende essencialmente do consumo dos países ricos, ainda enredados em processos recessivos.

As exportações de calçados e couros apresentaram uma notável recuperação em 2010, impulsionadas pelo aumento da produção das unidades industriais que foram instaladas no interior do Estado. As exportações sergipanas deste setor, depois de subirem de US$ 7,6 milhões, em 2006, para US$ 9,5 milhões, em 2007, alcançaram US$ 14,9 milhões em 2008. Com a crise financeira internacional, em 2009 elas recuaram para US$ 7,6 milhões, mas, em 2010, saltaram para US$ 18,2 milhões, o melhor resultado da série histórica. (Ver Tabela). As exportações sergipanas de açúcar, que haviam sofrido descontinuidade em 2006 e 2007, ganharam um novo fôlego nos últimos três anos, saltando de US$ 6,5 milhões, em 2008, e para US$ 9,8 milhões, em 2010.

Fonte: MDIC/SECEX/ ALICE

Suco de Laranja

O valor das exportações do suco congelado de laranja também iniciou uma recuperação em 2010, mas ainda muito parcial frente à perda dos anos anteriores. Depois de alcançarem US$ 71 milhões, em 2007, recuaram nos dois anos seguintes, atingindo US$ 20,1 milhões em 2009. O valor exportado em 2010 ficou 70% acima do registrado em 2009, ainda que muito abaixo dos resultados obtidos em 2007 e 2008. (Ver Tabela). Mesmo considerando o caráter parcial da melhoria, há motivos para otimismo em relação à recuperação das exportações sergipanas de suco de laranja no futuro próximo.

No gráfico a seguir, a linha demarca o valor médio anual recebido por tonelada de suco congelado exportada por Sergipe e as colunas representam o valor exportado. Em 2007, no melhor ano de exportações sergipanas de suco congelado, o valor médio da tonelada exportada do produto alcançou US$ 1,9 mil. Já em 2008, o preço médio da tonelada exportada de suco caiu para US$ 1,4 mil, despencando novamente, em 2009, para US$ 886/ tonelada.


Fonte: MDIC/SECEX/ ALICE

Em 2010, o valor médio do suco exportado teve uma forte reação, alcançando US$ 1,6 mil/tonelada. Observando-se a trajetória dos anos recentes, nos melhores anos o preço da tonelada exportada se situou acima de US$ 1 mil. Cabe indagar, então, se com a recuperação do preço médio, 2010 terá marcado o inicio de uma nova recuperação das exportações sergipanas de suco de laranja? E com isso, as exportações sergipanas deixarão para trás, em breve tempo, as vicissitudes que as acompanham desde o início da crise financeira internacional?

*Professor do Departamento de Economia da UFS e Assessor Econômico do Governo de Sergipe.

Publicado no Jornal da Cidade em 16/01/2011.


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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Crescimento populacional dos municípios sergipanos

Ricardo Lacerda

O IBGE publicou no final do ano passado os primeiros números do Censo Populacional de 2010. Entre os resultados, o que mais chamou a atenção foi o encolhimento da taxa de crescimento da população brasileira, de 1,80%a.a, na década de noventa, para 1,17% a.a, na primeira década do novo século, o que significa que, enquanto nos 10 anos anteriores a população cresceu 19,5%, o incremento restringiu-se a 12,3% na última década. A taxa de crescimento anual da população do Nordeste, de 1,07% a.a., ficou abaixo da média brasileira, mas acima das registradas nas regiões Sul e Sudeste. As expansões mais expressivas na população se verificaram nas regiões Norte e Centro-Oeste, 2,0% a.a e 1,90% a.a., respectivamente.

A população sergipana,em 2010, era de 2.068.031 habitantes, crescimento de 15,9%,em relação aos 1.784.475 residentes em 2000, taxa bem acima das médias nordestina e brasileira. Na região, Sergipe apresentou a segunda maior taxa de crescimento populacional, inferior apenas ao estado do Maranhão.

Municípios

Os municípios que apresentaram maior crescimento populacional na década foram Carmópolis, Barra dos Coqueiros e Canindé do São Francisco, com impressionantes 44,4%, 40,5% e 39,1%, respectivamente. Há importantes forças por trás do crescimento demográfico desses municípios, como a expansão dos gastos públicos impulsionados pelas receitas de royalties de petróleo e gás, no primeiro, de royalties de geração de energia elétrica, no terceiro, e, no caso da Barra dos Coqueiros, a maior integração com Aracaju.

Entre as 15 maiores populações, em 2010, foram pequenas as modificações no ranking municipal, com Itabaianinha ascendendo da 8ª para a 9ª posição, em razão da perda de quatro povoados de Simão Dias para o município baiano de Paripiranga, e a queda de quatro posições de Propriá, superado por Nossa Senhora da Glória, Poço Redondo, Capela e Itaporanga d'Ajuda, municípios que conheceram importantes avanços nas atividades agrícolas ou industriais, no período. Aracaju alcançou o notável crescimento de 23,7%, superior mesmo à taxa de Nossa Senhora do Socorro, de 22,1%, e São Cristovão, também na Grande Aracaju, 22,0%.

Fonte: IBGE. Censo Demográfico. Resultado preliminar de 23/11/2010. OBS. O crescimento populacional de Simão Dias foi de fato maior do que esse registrado, considerando a perda de 4 povoados para Paripiranga, na Bahia.

Grandes e médios

O Quadro a seguir associa o ritmo de crescimento populacional e o porte dos municípios, estabelecendo quatro faixas de tamanho e cinco faixas de taxas de crescimento populacional entre 2000 e 2010. Entre os municípios maiores, com 40 mil habitantes ou mais, três apresentaram crescimento populacional superior a 15% na década, todos na região metropolitana, Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e São Cristovão. Itabaiana, Lagarto e Tobias Barreto registraram expansão populacional superior a 10% mas inferior a 15%, enquanto Estância, com 9,3%, teve a menor taxa de crescimento nesse segmento.

Entre as cidades-pólo, Propriá, com 28.457 habitantes, apresentou o menor incrementopopulacional no período, 3,9%. No segmento entre 20 mil e 40 mil habitantes, oito municípios se situaram nas faixas de crescimento de 10% a 15% ou de mais de 15%, e cinco tiveram incremento entre 5% e 10%.

Pequenos

Entre os pequenos municípios, as situações são mais diversas, com alguns deles tendo apresentado elevadas taxas de crescimento populacional, como São Francisco, Divina Pastora, Rosário do Catete, Gen. Maynard, Carmópolis, Indiaroba, Monte Alegre e Japaratuba, eoutros com baixas taxas ou mesmo redução, comoItabi, Arauá, Japoatã, Canhoba, Neópolis e Santa Luzia. 
Alguns municípios de pequeno porte apresentaram taxas intermediárias de crescimento, entre 5% e 10%,como Malhador, Maruim, Santo Amaro, Brejo Grande, entre outros. Ver a lista completa no quadro citado.


Fonte: IBGE. Censo Demográfico. Resultado preliminar de 23/11/2010. Obs: * O crescimento populacional de Simão Dias foi de fato maior do que esse registrado, considerando a perda de 4 povoados para Paripiranga, na Bahia.

O ritmo de expansão populacional dos municípios pode estar associado a uma diversidade de fatores, como o crescimento econômico do período, a mudança do grau de articulação com centros urbanos mais dinâmicos, ou a implantação de projetos agrícolas ou habitacionais, ou ainda a diferentes taxas de fecundidade. Na primeira década do século, os municípios sergipanos responderem de formas diferenciadas aos estímulos econômicos e sociais: alguns apresentaram expansão notável de população, enquanto outros apresentaram baixo crescimento populacional ou mesmo pequena retração.

Publicado no Jornal da Cidade em 09/01/2011

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Desafios e perspectivas para 2011

Ricardo Lacerda

Confirmando-se a previsão de mercado da semana passada, o crescimento do PIB brasileiro de 2010, de 7,61%, será o mais elevado desde 1985, quando atingiu 7,85%. A produção industrial deverá encerrar o ano com taxa de crescimento acima de 10%, a maior desde 1993, ainda no Governo Itamar. A geração do emprego formal se situará em torno de 2,13 milhões de empregos, o segundo melhor resultado da série histórica do CAGED/MTE, inferior apenas ao de 2007, quando forem criados 2,45 milhões de empregos.

O crescimento do volume de vendas no varejo, 11,09% até outubro, é o melhor da serie histórica iniciada em 2000. A taxa de desocupação de novembro passado atingiu 5,7%, e é também a melhor da série histórica. Muitos outros indicadores do nível de atividade econômica poderiam ser apresentados para caracterizar a excepcionalidade do ano de 2010.

A inquietação natural é se o Brasil poderá repetir em 2011 resultados tão positivos. Um primeiro aspecto a destacar é o de que, após uma expansão exuberante no inicio do ano, o PIB brasileiro vem se desacelerando ao longo de 2010. Depois de ter crescido 2,3% no primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2009, na série livre de efeitos sazonais, a expansão do PIB desacelerou para 1,8% no segundo trimestre, e para 0,5% no terceiro trimestre.

Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, a expansão do PIB, que havia atingido 9,3% no primeiro trimestre e 9,2% no segundo trimestre, desacelerou para 6,6% no terceiro trimestre. (Ver gráfico 1). A projeção de mercado para o crescimento do PIB em 2011 é de 4,5%.

Fonte: IBGE- Contas Nacionais Trimestrais.

Crescimento potencial
A mudança de patamar de expansão do PIB de 7,61%, em 2010, para 4,5%, em 2011, suscita uma série de questões, relacionadas ao chamado crescimento potencial da economia brasileira. Deve-se considerar que o crescimento de 2010 se deu sobre a base rebaixada de 2009, quando o PIB recuou 0,6%, e o crescimento projetado para 2011 incidirá sobre um patamar elevado.
A noção de crescimento potencial diz respeito à expansão que a economia pode ter sem provocar pressão inflacionária que fuja ao controle ou desequilíbrio que ameace a sustentabilidade das contas externas. Quando o crescimento verificado extrapola esse limite, nem sempre claramente definido, resta às autoridades econômicas puxar o freio de mão da economia por meio das políticas fiscal e monetária, provocando a desaceleração do nível de expansão da atividade.

O crescimento excepcional da economia brasileira em 2010, quando a economia dos países avançados continua estagnada, refletiu às medidas adotadas pelo governo para se contrapor à onda recessiva que a ameaçava. No momento agudo da crise de confiança, ainda em 2008, o governo respondeu com aumento dos gastos públicos e com a redução de impostos sobre o consumo.

Na sequência, a expansão da demanda das famílias empurrou o crescimento da economia. Essa resposta, a única possível naquele contexto, fez com que a demanda corresse à frente da oferta, refletida, no front interno em uma piora nas contas públicas, e, no front externo, em uma deterioração do saldo da conta corrente. Mais recentemente, o governo respondeu com medidas restritivas ao crédito e acenos de redução nos gastos públicos para 2011 para enfrentar o aumento de pressões inflacionárias. O gráfico 2, a seguir, mostra como o déficit nas transações correntes do Brasil com o exterior em doze meses vem se ampliando e os efeitos da pressão de demanda sobre o comportamento do IPCA.

Fonte: IBGE- IPCA; Banco Central do Brasil- Déficit em Transações Correntes

O grande desafio da política econômica brasileira em 2011 é o de manejar gastos públicos, juros e câmbio de forma a assegurar a continuidade nas trajetórias de expansão do emprego e do mercado interno, quando limites externos e internos mais estreitos precisam ser observados.

A conjuntura econômica internacional ainda fragilizada não ajuda, mas o passado recente mostrou que, com responsabilidade, a expansão do mercado interno pode continuar sendo o sustentáculo do crescimento da economia brasileira nos próximos anos. O próximo passo é o de desenvolver inovações financeiras que assegurem a expansão sustentada dos investimentos a fim de alargar o potencial de crescimento brasileiro.

Publicado no Jornal da Cidade, em 02/01/2011
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Crédito e felicidade

Ricardo Lacerda


Economistas podem ser pessoas pretensiosas. Depois de se arvorarem em calcular o nível de bem-estar das comunidades agora se propõem a medir a Felicidade Interna Bruta- a FIB. São muitas as críticas feitas ao Produto Interno Bruto (PIB) como indicador de desenvolvimento. Ele mede a riqueza gerada, mesmo assim parte da riqueza gerada, muitas atividades não são consideradas; mas não necessariamente a riqueza a que as pessoas têm acesso. Entram no cálculo do PIB, essencialmente, fatos econômicos que geram dispêndio. Assim, o tempo dedicado pelos pais à educação dos filhos não é computado, ainda que essa atividade seja importante na formação deles.

Como medido hoje, penso que as variáveis de renda são sempre melhores do que as de produção, como o PIB, quando se trata de avaliar o desenvolvimento em âmbito subnacional. O PIB pode ser um indicador do estágio de desenvolvimento das forças produtivas em um estado ou região, e é importante por isso, mas pode também ser um fetiche, porque nem sempre expressa adequadamente o grau de desenvolvimento sócio-econômico.

Esforços estão sendo realizados pelos cientistas sociais, economistas inclusive, para incorporar na avaliação do desenvolvimento outras dimensões além do desempenho econômico, como as dimensões da qualidade de vida e a da sustentabilidade do crescimento. Alguns sugerem a inclusão de variáveis sobre percepção pela população da qualidade de vida nesse novo indicador. A intenção é boa, mas as dificuldades metodológicas envolvidas são imensas para compatibilizar, no mesmo cálculo, os dispêndios econômicos, as variáveis que não envolvem dispêndios, como as externalidades negativas e positivas da atividade econômica sobre os recursos ambientais, e as variáveis subjetivas, como a satisfação das pessoas com a vida que têm e a percepção de elevação ou queda do padrão de vida material.

Consumo e crédito

Retornando à medição mais tradicional, o acesso a bens e serviços, ainda que não seja tudo, é uma dimensão importante do desenvolvimento, principalmente em uma região como o Nordeste, em que cerca de 30% da população se encontram em situação de pobreza extrema. A expansão do mercado de consumo no Brasil tem cumprido um duplo papel nos últimos anos: de um lado, significa mais acesso das famílias a alimentação, eletrodomésticos, informações, transporte e lazer; de outro lado, consistiu no principal motor de crescimento do emprego e da renda, engendrando mecanismos virtuosos de auto-reforço sobre o crescimento do mercado interno.

A expansão do crédito foi um dos instrumentos mais importantes na ampliação do mercado do consumo da economia brasileira e cumpriu papel ainda maior nos estados nordestinos. Em um segundo momento, o crescimento do emprego e da massa de renda reforçou a expansão creditícia, tanto da oferta de crédito ao consumo das famílias, quanto da oferta de crédito às empresas.

Em dezembro de 2008, o saldo de operações de crédito na economia sergipana alcançou R$ 4,5 bilhões, equivalentes a 23% dos R$ 19,6 bilhões do PIB daquele ano. O gráfico 1 apresenta os saldos de operação de crédito na economia sergipana, classificando-os em Saldo de Operações de Pessoa Física e Saldos de Operações de Pessoal Jurídica. Em setembro de 2010, a soma dessas operações atingiu o montante de R$ 7,3 bilhões, dos quais cerca R$ 3,96 bilhões resultavam de operações com as famílias e R$ 3,32 bilhões, com empresas.

Quatro anos antes, em setembro de 2006, em valores corrigidos pelo IPCA do período, as operações com as famílias se limitavam a R$ 1,28 bilhão e as operações com as empresas, em 1,37 bilhões. Neste intervalo de tempo, o crédito às famílias mais do que triplicou (210%) e o crédito às empresas aumentou 2,4 vezes. O saldo total de operações em setembro de 2010 se apresentou 2,75 vezes superior ao resultado de setembro de 2006. (Ver gráfico 1).


Fonte: Banco Central do Brasil

Nordeste

Um fato significativo é que as operações de crédito se expandiram mais rápido no Nordeste do que nas demais regiões do país, tanto no que se refere às operações com as famílias quanto nas operações com as empresas. No Nordeste, entre setembro de 2007 e setembro de 2010, Sergipe foi o primeiro lugar em crescimento nas operações com pessoa física e o segundo lugar nas operações totais, atrás apenas de Pernambuco. O gráfico 2 apresenta as evoluções dos saldos totais de Sergipe, Nordeste e Sudeste, neste período.

O ciclo expansivo recente retirou milhões de brasileiros da pobreza extrema e formou um novo mercado de consumo de massa. O crescimento das operações de crédito foi um dos principais instrumentos do ciclo expansivo. Trouxe felicidade para milhões de lares brasileiros que, certamente, estão passando o melhor final de ano de suas vidas. Aumentou nossa Felicidade Interna Bruta, ainda que os economistas não tenham chegado a um consenso a respeito deste novo conceito. Feliz Natal para todos.



Fonte: Banco Central do Brasil


Publicado no Jornal da Cidade, em 26/12/2010

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A especialização relativa da economia sergipana (Final)

Ricardo Lacerda


A especialização dosterritórios de desenvolvimento é o tema desse quinto artigo, que encerra a série sobre especialização relativa da economia sergipana. Com ele, completa-se um ano, sem descontinuidade, que ocupamos semanalmente este espaço nobre do Jornal da Cidade para tratar de questões que julgamos relevantes para o desenvolvimento de Sergipe. Agradecemos à direção do jornal, pela oportunidade, e aos leitores, pela paciência.

Em 2007, o Governo de Sergipe, por meio da Secretaria do Planejamento, deu início à implantação de um Plano de Desenvolvimento Territorial Participativo- PDTP, a partir da constituição de territórios de desenvolvimento.Em linhas muito gerais, a proposta do desenvolvimento territorial visou mobilizar pessoas e recursos para reforçar vocações existentes e criar novas especializações no território sergipano.

A diferença em relação aos programas mais tradicionais de desenvolvimento local, é que o desenvolvimento territorial, além de participativo, tem como pressuposto o empoderamento das forças sociais e a mobilização da população residente em torno da proposta de desenvolvimento, pensadanão apenas em termos econômicos, mas, igualmente, em termos sociais ede sustentabilidade dos recursos naturais.

Os territórios

A proposta de territorialização do espaço sergipano conformou a constituição de oito territórios de desenvolvimento, o Agreste Central, o Alto Sertão, o Baixo São Francisco, o Centro Sul, a Grande Aracaju, o Leste, o Médio Sertão e o Sul, configurados a partir de características econômicas, sociais, ambientais, políticas e culturais (Ver figura).

Figura. Territórios Sergipanos

Fonte: SEPLAN-SE


Coordenados pela Seplan, foram elaborados estudos e planos detalhados para cada um dos territórios. No espaço limitado do presente artigo, são apresentadas,a seguir,algumas características mais gerais de suas especializações relativas. Em termos da riqueza gerada, apenas em três territórios sergipanos a agropecuária representou, em 2007, mais de 10% do total: o Médio Sertão, com 18,3%; o Baixo S. Francisco, com 14,2%; e o Centro-Sul, 11,5%. (Ver quadro).

Dois territórios são fortemente marcados pela presença de grandes unidades industriais que fazem com que os setores secundáriosdelas alcancem elevadas participações na riqueza gerada: o Leste Sergipano, em virtude da presença da extração de petróleo& gás natural e de sais de potássio, que explicam os 2/3 (66,1%) de riqueza gerada no setor secundário; e o Alto Sertão, por conta da operação da Usina Hidrelétrica de Xingó, que faz com que 58,9% da riqueza tenham sido provenientesdesse segmento.

O Agreste Central e a Grande Aracaju, com importantes centros urbanos, se destacam pelas elevadas presenças do setor de serviços, abrangendo as atividades de comércio e os serviços prestados às famílias e às empresas, ainda que a Grande Aracaju sedie, também, a maior parte da atividade industrial.

Agropecuária

No que tange às especializações agrícolas, o quadro a seguir resume as principais especializações dos territórios sergipanos: No Agreste Central as principais culturas são o milho, com 66% do valor da produção do setor, a mandioca, a banana e a batata-doce. O território respondia, também, por mais de 1/3 da produção de ovos do Estado.

No Alto Sertão destacam-se o milho, com 63% do valor da produção agrícola do território, o feijão, a goiaba e mandioca. Trata-se, também, do território de maior produção pecuária, com 51% da produção de leite, além de 48% do mel do Estado. O Baixo S. Francisco Sergipano é especializado na produção de coco, cana, arroz, mandioca e o cultivo de frutas, como banana e manga.

O Centro-Sul conta também com uma agricultura diversificada, em que se sobressaiam, em 2009, a laranja, com 27% do valor da produção agrícola do território, o milho (26%), a mandioca (20%), o maracujá (13%), além do fumo e do feijão. Esse território respondia, em 2009, por 7% da produção de leite e de ovos e 23% da produção estadual de mel.

No Leste Sergipano, com predomínio da cana, 78% do valor da produção, éimportante ainda o cultivo da banana (7%), além de 23% da produção estadual de mel, e 7% do leite e dos ovos produzidos.

Na Grande Aracaju, principal pólo industrial e de serviços do Estado, algumas atividades agropecuárias também são importantes, como os cultivos da cana e do coco, e a produção de ovos e de mel.

O Médio Sertão é marcado pela presença de novas unidades de processamento de cana. As principais culturas agrícolas, em 2009, eram o milho, com 48% do valor da produção do território, cana, 17%, mandioca, 10%, e feijão, 5%. Tratava-se, também, da segunda maior bacia leiteira estadual, representando 19% do total produzido.

Finalmente, a região Sul, que conta com um importante parque industrial nos segmentos de produção de alimentos, produtos têxteis, produtos metalúrgicos e distribuição de energia, é o território em que é maior a presença da citricultura, com 52 % do total do valor da produção da laranja do Estado.



A principal vantagem do desenvolvimento territorial é o de potencializar as vocações locais e agregar novas atividades à estratégia de desenvolvimento. Promove o desenvolvimento a partir da mobilização da população local. Além disso, permite conjugar os investimentos estruturantes de âmbito macro às iniciativas locais.

Publicado no Jornal da Cidade em 19/12/2010

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A especialização relativa da economia sergipana (4)

Ricardo Lacerda

A análise da estrutura do setor de serviços guarda dificuldades não encontradas no exame dos setores agropecuário e industrial. O próprio caráter intangível,que está na essência da caracterização das atividades de serviços,torna menos exata amensuração das quantidades produzidas e da riqueza criada. Para alguns subsetores de serviços, a apuração do valor pelo IBGE é feita com base em indicadores indiretos.

Acrescente-se a isso, as dificuldades causadas na agregação de uma diversidade de atividades abrangidas por esse setor da economia, que inclui desde a renda gerada nas três esferas de governo, o pagamento de aposentadorias e pensões, a prestação de serviços às empresas, como consultorias e serviços de engenharia, a prestação de serviços às famílias, como cuidados de higiene e beleza, os serviços financeiros, o comércio, os serviços privados de saúde e educação, a alimentação fora de casa e a hospedagem, entre outros.

De maneira geral, a evolução do setor de serviços acompanha a expansão do processo de urbanização. As cidades são o local, por excelência, da prestação de serviços. A atividade tende a ganhar peso na riqueza gerada na medida em que a economia de um país ou de uma região cresce e a população urbana aumenta.

Com a abrangência citada, o setor de serviços, em 2008, respondia por 61,8% da riqueza gerada na economia sergipana, cerca de 7 pontos percentuais a menos do que na média da economia brasileira (66,7%) e da média da região Nordeste (66,8%).Como vimos no primeiro artigo dessa série voltada para a análise da especialização da economia sergipana, esta participação menor do setor serviços decorre do peso acima das médias nacional e regional que as atividades industriais apresentam no caso de Sergipe.

Administração Pública

Em 2008, o subsetor Administração Pública, incluindo a seguridade social, respondia por 24,5% da riqueza gerada em Sergipe. Ou seja, cerca de um em cada quatro reais gerados na economia sergipana são originados no setor público, contando com os gastos dos governos federal, estadual e dos municípios e as aposentadorias, pensões e outras transferências de recursos.

Se forem consideradas ainda as atividades de extração de petróleo e gás, 9,8% do Valor Adicionado Bruto, e parte expressiva dos Serviços Industriais de Utilidade Pública, como os serviços de fornecimento de água, saneamento e a energia gerada pela Usina Hidroelétrica de Xingó, 7,9% no total, pode-se inferir a importância das atividades da administração pública e do setor produtivo estatal para a economia sergipana. O gráfico a seguir apresenta os pesos do setor serviços e do subsetor administração pública nos estados do Nordeste e na média da região e do Brasil, sem considerar, nesse caso, a contribuição das empresas públicas na geração do Valor Adicionado Bruto.

Ainda que o peso das atividades da administração pública no Valor Adicionado da economia sergipana, 24,5%, se situe muito acima da média do Brasil, 15,8%, e um pouco superior à do Nordeste, 22,2%, ele não distoado resultado da maioria dos outros estados do Nordeste, em que a participação chega a alcançar 31,3%, no caso da Paraíba, e 28,3%, no Piauí. (Ver gráfico).
Fonte: IBGE-Contas regionais de 2008. Obs. A participação do Subsetor de Administração Pública abrange também a Saúde e Educação Públicas e a Seguridade Social.

As especializações

Excluindo a participação da administração pública, para evitar distorções na comparação com as médias do Nordeste e do Brasil, as atividades de maior peso no total do Valor Adicionado do setor de serviços sergipano, naquele ano,eramo comércio, com 30,6%, as atividades de aluguel e administração de imóveis, 20,4%, o subsetor de transporte, 11,8%, o subsetor financeiro, 9,4% e a prestação de serviços às empresas, 7,0%. A lista completa está apresentada na tabela. Essas participações não divergem muito dos resultados encontrados para o Nordeste, embora possam ser bastante diferentes dos obtidos para a média do Brasil.

Em relação à média do país, as atividades de comércio, de aluguel e administração de imóveis, de transporte e de alojamento e alimentação fora de casa, além dos serviços domésticos, apresentavam, em 2008, maiores pesos na economia sergipana. Por outro lado, os serviços financeiros, as atividades de prestação de serviços às empresas, os serviços de informação, os serviços financeiros e os serviços privados de saúde e educação tinham menor participação na economia sergipana do que na média do país.

Comparativamente ao Nordeste, Sergipe era relativamente especializado nas atividades de transporte, nos serviços financeiros e nas atividades de aluguel e administração de imóveis. Situava-se em posição próxima ou igual a do Nordeste nas atividades de serviços às empresas e nos serviços de informação. Nas atividades de saúde e educação mercantis, alojamento e alimentação e nos serviços às famílias e comércio, situava-se abaixo da média regional.

Ainda que as estatísticas sobre as atividades de serviços sejam menos precisas do que as dos demais setores, os indicadores de especialização relativa propiciam umavisão panorâmica dos segmentos em que Sergipe tem se destacado mais do que as médias do Nordeste e do Brasil.

Assim, chamam a atenção as atividades de aluguel e de administração de imóveis, de transporte e mesmo as do setor financeiro, estas últimas relativamente mais desenvolvidas em Sergipe do que na média regional.No próximo artigo, serão examinadas as especializações relativas dos territórios sergipanos, com o que será encerrada essa série sobre as especializações produtivas de Sergipe.

Fonte: IBGE-Contas regionais de 2008.
Obs. Participação calculada extraindo os valores da administração pública.
Publicado no Jornal da Cidade em 12/12/2010


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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A especialização relativa da economia sergipana (3)

Ricardo Lacerda

Sergipe conta com uma estrutura industrial relativamente diversificada, na qual a indústria extrativa mineral e a indústria de transformação repartem, com peso similar, a geração do valor de transformação. Na indústria extrativa se destacam a exploração de petróleo e gás natural e a de minerais não-metálicos. Essas atividades de extração das riquezas minerais são as bases das cadeias produtivas de petróleo & gás e de fertilizantes no Estado. Tais atividades, como se sabe, ganharam expressão em Sergipe entre o final da década de setenta e o início dos anos oitenta, a partir de investimentos de empresas estatais.

Na indústria de transformação, as atividades mais importantes, em termos de Valor da Transformação Industrial (VTI), são as indústrias de alimentos e bebidas; a produção de minerais não metálicos, em que se destacam a produção de cimento e produtos cerâmicos; têxteis e confecção; calçados e couros; e a fabricação de produtos químicos, incluindo a produção de fertilizantes, cosméticos e de álcool.

Esse perfil diversificado da indústria de transformação inclui desde empreendimentos muito tradicionais, como os de fabricação de tecidos e de açúcar, aos de fabricação de concentrados de sucos, implantados nos anos setenta, a indústria de confecção, até outros segmentos, relativamente mais recentes, como os de torrefação de café, fabricação de calçados e a indústria de etanol. Atividades ainda mais recentes são a fabricação de materiais elétricos, de cosméticos, produtos metalúrgicos, máquinas e equipamentos e linhas variadas de produção de alimentos.

Estrutura Industrial

A Pesquisa Industrial Anual (PIA), do IBGE, informa que o Valor da Transformação Industrial da Indústria Geral de Sergipe, abrangendo a indústria de transformação e a indústria extrativa, alcançou o montante de R$ 3,5 bilhões, em 2008, repartidos em 50% para cada uma das atividades. O VTI da indústria de transformação somou R$ 1,74 bilhão e o da Indústria Extrativa, R$ 1,72 bilhão.

Na indústria de transformação, destacam-se a produção de alimentos e a do setor de minerais não metálicos cujos VTIs alcançaram em 2008, respectivamente, R$ 392 milhões e R$ 387 milhões. No patamar seguinte encontravam-se a produção têxtil com R$ 218 milhões, e a de bebidas, com R$ 194 milhões. No terceiro pelotão, as atividades de produção de calçados e couros, produtos químicos e vestuário que registraram, em 2008, VTI acima de R$ 80 milhões e inferior a R$ 100 milhões. Entre as atividades de maior peso, caberia ainda destacar os segmentos de produção de máquinas e equipamentos, de material elétrico e o de fabricação de plásticos e borracha, cujos VTIs se situaram entre R$ 40 milhões e R$ 60 milhões. (Ver Gráfico)


Fonte: IBGE- Pesquisa Industrial Anual de 2008.


As especializações

Em 2008, cinco atividades industriais apresentavam mais do que o dobro da participação no VTI da indústria de transformação em Sergipe do que na média da região Nordeste: a fabricação de minerais não-metálicos, por conta da indústria de cimentos, cujo VTI pesava 4,9 vezes mais em Sergipe que na média da região; a indústria têxtil, 4,53 vezes; máquinas e equipamentos, 4,38; fabricação de móveis, 2,49, e a produção de bebidas, 2,24. (Ver Tabela). Dignas de menção são, também, as especialização relativas de Sergipe na produção de máquinas e equipamentos elétricos, vestuário, fumo e na produção de alimentos.

Na comparação com a média brasileira, as especializações relativas na produção de minerais não metálicos e na fabricação de produtos têxteis são ainda mais acentuadas. São significativas, também, as especializações relativas da indústria na produção de bebidas, calçados, vestuário, produtos alimentícios e móveis.


A especialização relativa da indústria de transformação sergipana nos segmentos destacados informa uma certa divisão de trabalho entre os estados da federação, em que Sergipe participa com mais peso naqueles segmentos do que na média da indústria de transformação. A especialização indica, desta forma, vantagens competitivas do presente ou do passado persistente. No próximo artigo, examinaremos a especialização relativa de Sergipe nas atividades de serviço.



Publicado no Jornal da Cidade em 05/12/2010

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