Praça São Francisco, São Cristovão- SE

Praça São Francisco, São Cristovão- SE
Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

domingo, 20 de maio de 2012

O consumo e a queda na produção industrial


Ricardo Lacerda

Analistas têm repetido que o modelo de crescimento puxado pelo consumo, marca do governo Lula, teria se exaurido e que o governo Dilma somente engrenaria novo ciclo de altas taxas de crescimento se a economia passar a ser movida por incrementos de produtividade que elevassem a competitividade da produção doméstica, notadamente no setor industrial. Não estou tão seguro quanto a esse esgotamento do ‘modelo de crescimento”. Não acredito mesmo que existam evidências que autorizem tal tipo de conclusão. Além disso, esse argumento já foi utilizado anteriormente e se mostrou equivocado.

De fato, a ampliação do poder de compra das famílias, por meio de aumentos reais de salário mínimo, das transferências de renda e da ampliação do crédito, pôs em movimento, ainda em 2004, um ciclo expansivo que se realimentava na medida em que o emprego e o poder de compra se ampliavam. É a combinação do aumento do poder e compra das famílias com os preços favoráveis das commodities brasileiras no mercado internacional que deram partida ao ciclo de crescimento.

Quando a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, prenuciou o fim dos tempos, o governo brasileiro dobrou a aposta na ampliação do mercado de consumo, promovendo a redução de tributos incidentes sobre os bens duráveis, mantendo os aumentos reais de salário e irrigando os canais de crédito, o que permitiu uma recuperação rápida e exemplar da atividade econômica ainda em 2009.

Desaceleração

O que sustou a continuidade do ciclo expansivo em meados de 2011, portanto já no governo Dilma, não foi nenhum esgotamento do potencial de crescimento puxado pela expansão do consumo e sim a excessiva retração dos gastos decorrente da sobreposição da nova fase da crise internacional com as medidas restritivas adotadas internamente.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nova queda da produção industrial no 1º trimestre



Ricardo Lacerda

A economia mundial experimenta tempos extraordinários, enfrentando desde meados de 2011 uma recidiva da crise iniciada ainda em 2007. A resposta brasileira à forte deterioração do cenário internacional no final de 2008, com o estímulo ao poder de compra interno, propiciou que a nossa economia recuperasse rapidamente a trajetória de crescimento e venha mantendo taxas elevadas de geração de emprego.

Acompanhando atenta a Europa se desmanchar nessa nova etapa da crise, a gestão da política econômica tornou-se mais complexa no seu intento manter a sustentabilidade do crescimento econômico, mesmo a taxas mais modestas. Como é recorrente nesses momentos, alguns especialistas reagem negativamente às medidas menos ortodoxas adotadas e clamam por mais juros e menos ações de defesa da indústria, paladinos que são da austeridade e do livre comércio. Em um momento em que os reflexos da crise mundial ameaçam não apenas a continuidade do crescimento mas a própria integridade de nossa estrutura industrial, não se sabe se tais posicionamentos são um caso de oportunismo ou de dissociação da realidade.

Produção trimestral

Os números da produção física da indústria brasileira, apresentados pelo IBGE na semana que passou, ilustram o momento difícil do setor. A produção física recuou 2,1% em março de 2012 em relação ao mesmo mês do ano anterior. No trimestre, a retração atingiu 3% e nos últimos doze meses a queda foi de 1,1%. Em relação a fevereiro, na série livre de efeitos sazonais, a produção industrial de março caiu em 18 dos 27 ramos pesquisados. A tabela apresentada resume a extensão e a profundidade da retração:no 1º trimestre a produção física de bens capital caiu 11,4%, a de bens duráveis, 11,6%, de bens intermediários, 1,3%, e apenas os não duráveis e semiduráveis apresentaram modesto crescimento, de 0,9%.

domingo, 6 de maio de 2012

A cultura do milho e a seca

Ricardo Lacerda

A cultura do milho tem grande significado para o semiárido nordestino. Tradicional cultura da região, ao lado da mandioca e do feijão, a produção de milho se expandiu intensamente na última década, mais do que dobrando a quantidade produzida, enquanto as outras duas culturas apresentaram evoluções mais modestas.

Entre as médias de 1998-2000 e 2008-2010, a produção de milho do Nordeste aumentou 126%, frente a 26% de incremento da cultura da mandioca e 6% do feijão. Com a elevação do preço internacional do produto, em grande parte associada à expansão da fabricação de etanol nos Estados Unidos, o cultivo de milho acelerou seu ritmo de crescimento no Brasil. O Departamento de Agricultura americano estima mesmo que a utilização de milho na safra 2011/2012 para a produção de combustível deverá superar o montante consumido na fabricação de rações.

Nordeste

A produção de milho do Nordeste vem crescendo em ritmo mais acelerado do que a média do Brasil, com taxas de expansão somente inferiores às alcançadas pelo Centro-Oeste. A constatação vale tanto para o período mais recente, pós-2008, quanto para a última década como um todo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A geração de emprego no 2º trimestre


Ricardo Lacerda

A expansão da atividade sucroalcooleira nos últimos anos em Sergipe propiciou a ampliação de emprego formal no setor agropecuário e na fabricação do açúcar e do álcool. Também foi fundamental para a interiorização do emprego com carteira assinada, com a criação de milhares de ocupações nos territórios do Leste e do Médio Sertão, notadamente nos municípios de Capela e de Nossa Senhora das Dores.  

O crescimento dessa atividade, com o aumento do seu peso no emprego total, teve como efeito colateral a intensificação da variação sazonal na geração de emprego, aumentando a participação das contratações a partir de junho de cada ano, mas diminuindo a ocupação nos primeiros meses do ano e muito particularmente entre março e maio. Esse comportamento sazonal se verifica em todos estados do leste nordestino, sendo mais acentuado em Alagoas e Pernambuco, detentores das maiores áreas de cultivo de cana. Com o crescimento dessa lavoura em Sergipe, elevou-se a participação do 3º trimestre no total de contratação anual e, em menor escala, do 4º trimestre, enquanto reduziu-se o peso do 2º trimestre.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O emprego no 1º trimestre: a força da construção civil


Ricardo Lacerda

O comportamento do emprego formal em Sergipe permaneceu muito positivo nesse início de 2012. Entre janeiro e março foram criados 2.977 empregos formais, o melhor resultado já registrado para o 1º trimestre. Nos doze meses completados em março foram criados 18.537 novos empregos com carteira assinada na série estatística do MTE com ajustes, que considera as declarações fora de prazo.

A taxa de crescimento do emprego formal nesses doze meses alcançou notáveis 7,12%, muito elevada, considerando o ritmo relativamente menor do crescimento econômico desde meados de 2011. Foi a segunda taxa mais alta de crescimento do emprego formal do Nordeste, depois de Pernambuco, e a sexta do país (ver Gráfico 1). Na média do Nordeste, o emprego formal cresceu 5,29% e no Brasil, 4,82%.

Fonte: MTE- CAGED
1º trimestre

A geração de emprego no 1º trimestre do ano é sempre menos intensa do que no restante do ano. Em geral a indústria de transformação inicia o desligamento de parcela do pessoal contratado para abastecer as vendas de final de ano ainda em novembro e somente tende a reiniciar a contratação no segundo trimestre. O comércio promove corte acentuado no final de dezembro e retoma de forma crescente a admissão também no 2º trimestre, alcançando o pico de contratação nos últimos meses do ano. Some-se a esses desligamentos à redução de pessoal do setor sucroalcooleiro por ocasião do final da safra e se tem delineado o cenário do mercado de trabalho no 1º trimestre de cada ano.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ocupação e estabilidade no emprego

O ciclo de crescimento econômico iniciado em 2004 produziu forte impacto sobre a ocupação formal e informal. Mais brasileiros de todas as regiões conseguiram se inserir no mercado de trabalho em condições melhores do que em períodos anteriores.

O aspecto mais significativo foi a queda do desemprego aberto. A taxa de desocupação das regiões metropolitanas caiu de 12,4%, na média de 2003, para 6,0%, em 2011, o melhor resultado da série histórica. Mesmo com a desaceleração do crescimento econômico desde meados de 2011, a taxa de desocupação manteve sua trajetória de declínio (ver Gráfico 1).


Fonte: IBGE- PME.

Especialmente benvindo foi o aumento da taxa de formalização do emprego que subiu 10,1 pontos de porcentagem, passando de 43,5% da população ocupada de 2003 para 53,6% em 2011. Quando são considerados apenas os trabalhadores do setor privado, a taxa de formalização alcançou 48,5%, em 2011, frente a 39,7%, em 2003. Mesmo em ano de queda do PIB, como em 2009, ou de crescimento mais modesto, como em 2011, a geração de emprego formal manteve-se firme, alcançando 4,4%, no primeiro, e 5,5%, no último, na série Caged sem efeito sazonal.

De natureza diferente tem sido a relação entre crescimento econômico e estabilidade no emprego. Tida pelo senso comum como um bem para o trabalhador, a estabilidade média no emprego tem sido menor e não maior, mesmo com o emprego em forte expansão, é o que indica o aumento da rotatividade.

domingo, 8 de abril de 2012

A estagnação da produção industrial

Mudanças de grande vulto estão em andamento na economia mundial. As economias dos países ricos enfrentam em 2012 o quinto ano de baixo crescimento, a contar de 2007. Apenas em 2010, quando parecia que o pior da crise financeira internacional já havia passado, o produto interno dessas economias alcançou taxa de crescimento de 3%. A projeção do FMI, elaborada em setembro de 2011 e naturalmente sujeita a revisões, é de que o ritmo lento nas economias centrais deverá se estender até 2016.

Enquanto isso, a China mudou o seu peso e o seu papel na economia global. No período 2007-2011, as economias avançadas tiveram crescimento de apenas 3,7%, a Zona do Euro, de 2,4%. A China cresceu 65% e o Brasil e a América Latina, um pouco acima de 20%. A economia da China em 2011 era cerca de três vezes maior do que em 2000, a da América Latina, 45% maior, a do Brasil, 47% maior, enquanto nas economias avançadas o PIB era apenas 19% superior e na Zona do Euro, 14%.

O acelerado avanço do gigante asiático vem transformando as relações entre as economias nacionais, com grande impacto sobre o Brasil, impulsionando intensamente a produção de commodities agrícolas e minerais, mas com efeitos perversos sobre a indústria de transformação.

É difícil estimar o quanto das dificuldades atuais da nossa indústria de transformação se deve à desaceleração do crescimento econômico desde meados de 2011 e o quanto cabe às transformações na economia mundial. Há, assim, fatores estruturais e conjunturais atuando no atual quadro de estagnação da indústria brasileira.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Densidade populacional e desenvolvimento (final)

Ricardo Lacerda



A distribuição da população no território sergipano apresenta algumas características similares às dos demais estados localizados nas áreas mais orientais do Nordeste, marcados pelo processo de ocupação a partir da implantação da economia canavieira, mas guarda também algumas peculiaridades. As terras mais férteis das regiões mais próximas do litoral apresentam maior densidade populacional enquanto aquelas situadas no agreste e no sertão contam com população relativamente mais dispersa. Com base nas características naturais, foram implantados, ao longo do tempo, sistemas de produção agrícola com distintos padrões de ocupação de terras e que resultaram na formação de diferentes redes de cidades. É a evolução desses sistemas de produção e o crescimento das cidades que explicam parte considerável da distribuição da população entre as regiões sergipanas.

Evolução

Desde o início da década de setenta, as atividades urbanas vêm ganhando peso na economia sergipana, em ritmo acelerado, incorporando novos determinantes à distribuição espacial da população. A aceleração da industrialização e a implantação de grandes empreendimentos para a exploração de riquezas minerais, em parte por meio da geração de emprego direto, mas, sobretudo, pela injeção de renda que proporcionam para as famílias e para o setor público, passam a ter um papel crescente na distribuição da população. Empreendimentos vinculados à exploração de petróleo e gás, do potássio, do calcário para a fabricação de cimento e a instalação da Usina Hidroéletrica de Xingó tornaram-se vetores que, direta e indiretamente, atraíram populações para municípios que os sediam. Para alguns municípios, a instalação de fábricas de calçados e de usinas de açúcar, tem concorrido, nos últimos anos, para o crescimento populacional

Mas não desprezemos a força da expansão de sistemas agrícolas, como a citricultura no Sul do Estado nos anos setenta e oitenta, e mais recentemente dos assentamentos rurais no Alto Sertão, como fatores que atuaram sobre a distribuição espacial da população.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Densidade populacional e desenvolvimento

Ricardo Lacerda
É do senso comum que regiões e localidades com melhores recursos naturais atraem mais pessoas, formando maiores aglomerações populacionais e redes de cidades de malha mais estreita, com menores distâncias entre os centros urbanos. Não custa lembrar o contraste entre a elevada densidade populacional na Zona da Mata, com solos mais adequados para a agricultura e menos sujeita a estiagens, e a população relativamente rarefeita do semi-árido nordestino, com características climáticas mais inóspitas. 
Além da geografia, a história também conta. Uma vez criadas as aglomerações humanas, a partir de um evento inicial de motivação econômica, política ou religiosa, operam-se mecanismos de autorreforço que podem as fazer crescer cumulativamente. Novos eventos ao longo da história, como mudanças econômicas, tecnológicas ou institucionais (de caráter endógeno ou exógeno), a exemplo do efeito do surgimento da indústria de pneumáticos na virada para o século XX sobre a extração do látex das seringueiras da Amazônia, abrem possibilidades de mudar a distribuição espacial da população.
A evolução dos meios de transporte e as mudanças nas restrições legais à migração cumprem seu papel, o que deixa a nossa análise referenciada apenas a movimentações internas. Ficando posta a questão, passemos a observar os indicadores de densidade populacional dos estados brasileiros e dos territórios e municípios sergipanos.

domingo, 18 de março de 2012

O curto e o longo prazos

Ricardo Lacerda
O Brasil vive tempos extraordinários, com imensas oportunidades e algumas incertezas inquietantes. O ciclo expansivo recente, iniciado em 2004, incluiu 17 milhões de trabalhadores no mercado formal, retirou da pobreza extrema mais de 30 milhões de pessoas, elevou o rendimento médio do trabalho e mais do que duplicou o acesso das famílias ao crédito fatores que, no conjunto, propiciaram taxas de crescimento sustentadas que não se viam desde meados dos anos oitenta e que causaram forte ampliação do mercado do interno.
O aspecto inclusivo desse ciclo virtuoso, de sua essência mesmo, pode ser sintetizado no crescimento de maior intensidade nas regiões mais pobres e entre as pessoas de renda mais baixa, diferenciando-se dos ciclos de crescimento dos anos sessenta e setenta. Os programas de transferência de renda também foram importantes nesse aspecto.
Convergência
Levantamento do CPS/FGV, com base nos dados da PNAD, informa que o rendimento per capita domiciliar cresceu 24,4% no Brasil, entre 2001 e 2009, sendo que no Nordeste essa taxa alcançou 43,2%, e no Sudeste, a região mais rica, 16,4%. Ou seja, enquanto o rendimento per capita familiar na média nacional cresceu 2,7% ao ano, o do Nordeste aumentou 4,6%. Sergipe liderou o crescimento entre os estados, com expansão de 58,6%, no período, ou 5,9% ao ano (ver Gráfico 1).
Fonte: CPS/FGV,com dados da PNAD.
Esse ciclo é extraordinário, repito, porque ampliação tão intensa no mercado interno dá uma outra dimensão ao país e cria oportunidades de investimento na expansão e diversificação dos negócios, inclusive nas regiões mais pobres. São mais pessoas consumindo, com emprego mais estável e rendimentos mais elevados (Gráfico 2).
Fonte: Extraído de Ministério da Fazenda. Economia brasileira em perspectiva. 14.
 Ed. Especial de fevereiro de 2012, com dados da PNAD.

As oportunidades estão relacionadas, também, à exploração de recursos naturais para a expansão da produção de commodities agrícolas e minerais cujas demandas passam por um longo ciclo de aquecimento associado ao crescimento dos países emergentes puxado, principalmente, pela economia chinesa.
Incertezas
Incertezas relativas a questões externas e internas podem perturbar o ciclo de crescimento, algumas delas mais associadas ao curto prazo e outras a aspectos mais estruturais. No curto prazo, o desafio é manter o crescimento da economia e a inflação sob controle em um cenário de crise prolongada na Europa e de recuperação ainda titubeante da economia americana.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O PIB e os juros

Ricardo Lacerda
O IBGE anunciou durante a semana o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2011. A modesta taxa de crescimento, de 2,7%, na comparação com o ano anterior confirma as piores estimativas de desaceleração do nível de atividade econômica no segundo semestre de 2011. Foram dois trimestres de economia estagnada: retração de 0,07% no 3º trimestre, no dado revisado, e crescimento de 0,34% no 4º trimestre (ver Gráfico 1).
Ainda que alguns analistas tenham assinalado que o resultado de 2011já não refletiria o ritmo de atividade atual e que o país já teria reencontrado a trajetória de recuperação nos primeiros meses de 2012, com projeção de crescimento de até 5% ao longo do ano, as autoridades econômicas não parecem tão confiantes, a julgar pelo conjunto de medidas que vêm sendo adotadas para reanimar o nível de atividade. É importante ter em mente que o crescimento pífio do último trimestre de 2011 resulta em uma taxa anualizada de apenas 1,36%.
Fonte: Contas trimestrais. IBGE

segunda-feira, 5 de março de 2012

A desaceleração do nível de atividade no 2º semestre de 2011



Ricardo Lacerda

Foi intensa a desaceleração do nível de atividade da economia brasileira no segundo semestre de 2011, na esteira das medidas restritivas adotadas pelo governo para fazer frente à pressão nos preços, associada, em parte, ao excessivo aquecimento do ano anterior. Com a piora do cenário externo, a desaceleração foi mais forte do que a pretendida, provocando uma reversão na política monetária a partir de meados de 2011 para reanimar o nível de atividade, e levando à adoção de uma série de medidas defensivas, de espectro relativamente amplo, voltadas para o setor industrial, que simplesmente parara de crescer.

Depois de atingir 4,2% no 1º trimestre do ano, a taxa de crescimento do PIB passou a apresentar uma trajetória fortemente declinante, até atingir 2,1% no 3º trimestre de 2011, em relação ao mesmo período do ano anterior. Para a média do ano, as estimativas apontam para uma expansão do PIB de 2,8%, portanto, um pouco abaixo do patamar de 3% que, informalmente, o governo considera necessário para sinalizar, interna e externamente, que terá continuidade o ciclo pujante de transformações econômicas e sociais pelo qual vem se notabilizando o país desde 2004.

Nordeste

A evolução do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), que busca antecipar os resultados do PIB, sintetiza o desaquecimento da economia brasileira no segundo semestre de 2011.

Depois de iniciar o ano de 2011 com taxa de crescimento de 4,81%, o IBC-BR, já livre de efeitos sazonais, desacelerou fortemente a partir de agosto (situação agravada por problemas de estoque na indústria automobilística), atingindo o fundo do poço no mês de outubro, quando o crescimento em relação ao mesmo mês do ano anterior se limitou a 0,4% (ver Gráfico 1). Nos meses de novembro e dezembro, já como resposta aos estímulos da política monetária, o IBC-BR ensaiou uma retomada moderada.

A desaceleração do nível de atividade também atingiu a economia dos estados nordestinos. As medidas de restrições ao crédito, a elevação na taxa de juros, a moderação na expansão dos gastos federais, o crescimento mais modesto do salário mínimo e a piora nas expectativas levaram a que a economia da região tivesse, também, uma forte desaceleração, que foi agudizada pelo impacto do aumento das importações de têxteis e de calçados sobre a sua produção industrial.

Ainda assim, durante todo o ano, a taxa de crescimento do IBC-NE se manteve acima do IBC-BR, como mostra o Gráfico 1, o que antecipa para 2011 uma taxa de expansão do PIB também superior para o Nordeste.

Fonte: Banco Central

sexta-feira, 2 de março de 2012

Visitação

Talvez pela vigencia da Lei da acumulação de clientela, a visitação ao blog Cenarios de Desenvolviimento vem em trajetória crescente. Atingiu o pico de 255 visitas no dia 28 de fevereiro. Ao longo do mês de fevereiro o blog recebeu 4.285 visitas. O recorde é do mês de novembro, com 5.521.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O comportamento do FPE e as finanças estaduais



Ricardo Lacerda

O Fundo de Participação dos Estados (FPE) é um dos principais instrumentos de descentralização tributária que conta a federação brasileira. É, de fato, um dos instrumentos mais efetivos de solidariedade entre as unidades federativas, na medida em que mobiliza valores expressivos e em que os maiores contribuintes dos fundos são os estados mais ricos e os maiores beneficiários são os de menor renda per capita, localizados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, concorrendo para a redução das disparidades regionais de desenvolvimento nos últimos decênios.

FPE e ICMS

Com essas características, o FPE é muito mais significativo para as finanças dos estados menos industrializados e de menor renda per capita do que para os estados com base produtiva mais ampla, em que outras receitas ganham maior expressão. O Gráfico 1 apresenta uma comparação entre os valores do FPE e do ICMS para os estados brasileiros, com dados de 2010, ordenando-os segundo o peso do FPE na soma dessas duas fontes de receita.



Fonte: ICMS (Cotepe-Confaz); FPE (STN), deduzidos os repasses do FUNDEB.

Em alguns estados da Região Norte, como Amapá, Roraima e Acre, com estreita base industrial, a receita do FPE em 2010 representou mais do que o dobro arrecadado com o ICMS. Para a maioria dos estados do Nordeste, já descontados os 20% para o Fundo de Educação do Ensino Básico (FUNDEB), o FPE participou com uma parcela muito significativa da receita corrente, respondendo por mais de 30% da soma do agregado FPE-ICMS. Diferentemente, nos estados mais ricos ou mais industrializados, o FPE é uma parcela infirma desse agregado, como no caso de São Paulo, em que não atingia 1% (Ver Gráfico 1).

Evolução

Para aqueles estados, como Sergipe, em que o FPE representa uma parcela elevada da receita corrente, os anos de 2009 e 2010 foram muito ruins, com uma perda de recursos que mesmo o bom desempenho de 2011 não conseguiu compensar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O projeto carnalita



Ricardo Lacerda

A Vale e a Petrobras anunciaram no inicio de fevereiro o fechamento do acordo para o arrendamento por 30 anos das reservas de carnalita em Sergipe. Não foi uma negociação fácil. A própria Presidente da República Dilma Rousseff, por interveniência do Governador Marcelo Déda, precisou aproximar as partes para que a negociação chegasse a bom termo, depois de um longo impasse sobre a extensão das reservas, em virtude de sobreposição de jazidas de petróleo e de carnalita em algumas áreas, e sobre as contrapartidas envolvidas. Segundo a imprensa, o acordo não passou por desembolso financeiro imediato ou cessão de patrimônio pela Vale e sim pelo compartilhamento de receitas futuras do empreendimento, mas essa informação ainda carece de confirmação.

O Projeto Carnalita, como explica a Vale, tem como objetivo a produção de cloreto de potássio (KCl) por meio de “lavra de dissolução”, produzindo uma salmoura rica de sais de potássio, sódio e magnésio.

Para Sergipe, o Projeto Carnalita, em primeiro lugar, assegura a continuidade da produção de potássio por mais 30 anos. A produção hoje realizada a partir da silvinita deverá entrar em processo de declínio nos próximos anos. Mas outros aspectos também são relevantes.

Os números do projeto são de impressionar: o investimento deve alcançar US$ 4 bilhões, montante muito superior a qualquer outro já realizado em Sergipe por uma empresa privada e a empresa prevê a geração de até 4 mil empregos durante a implantação e cerca de mil empregos na operação. O leitor pode avaliar o impacto que tal empreendimento deverá ter sobre o mercado de trabalho e sobre o volume de recursos circulando na economia sergipana. Por tudo isso, não é exagero afirmar que se trata do mais importante empreendimento produtivo já realizado em Sergipe, depois da exploração de petróleo.

Outro aspecto é que o Projeto Carnalita integra o plano da empresa Vale de ampliar os seus investimentos na área de fertilizantes, em que o país é altamente dependente de importações.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Balança comercial e transações correntes em 2011

Ricardo Lacerda

A temática do setor externo da economia brasileira não tem recebido muita atenção por parte dos analistas e do público em geral. Afinal, a posição de nossas reservas internacionais que, no conceito de liquidez, atingiram o montante de US$ 352 bilhões ao final de 2011, propicia uma sensação de conforto nas relações externas, deixando para trás, espera-se que definitivamente, os tempos mais duros de intensa instabilidade, de forma que assistimos com relativo distanciamento, como em um filme que mostra uma paisagem exótica, os abalos financeiros dos países da periferia européia.

Todavia, acompanhar com acuidade as relações econômicas externas é importante não apenas nos momentos de crise aguda, seja porque elas afetam a dinâmica econômica interna do momento atual, seja porque antecipam os possíveis desdobramentos nos anos seguintes. Em geral, o público presta mais atenção ao saldo da balança comercial, que compara exportações e importações, e a variação das reservas internacionais, não se detendo na conta de serviço e na conta das transações de capital.

No final de janeiro, o Banco Central publicou a Nota do Setor Externo referente ao ano de 2011. O balanço de pagamentos registrou superávit de US$ 58,6 bilhões, impactando positivamente no volume de nossas reservas internacionais. A balança comercial, em 2011, apresentou uma importante melhoria, alcançando o saldo de US$ 29,8 bilhões, frente aos US$ 20,1 bilhões do ano anterior, por conta do excelente desempenho das exportações que bateram recorde, alcançando o montante de US$ 256 bilhões, um incremento de 26,%. As importações também tiveram crescimento robusto em 2011, de 24,5%.

Déficit corrente

Os resultados muito favoráveis na balança comercial e no saldo final do balanço de pagamento deixaram em segundo plano o fato de que a conta de transações correntes atingiu o maior déficit já registrado, U$ 52,6 bilhões. Como a conta de transações correntes é a soma da balança comercial e da balança de serviços e rendas, e como o saldo comercial foi muito favorável, isso implica que o saldo de serviços e rendas foi desfavorável e de dimensão muito grande (US$ 85,3 bilhões). Desse total, US$ 39,9 bilhões correspondem ao déficit que tivemos nos chamados serviços produtivos, incluindo turismo, seguro, aluguel de máquinas e equipamentos, frete, consultoria, entre outros, e o déficit US$ 47,3 bilhões de rendas, incluindo pagamento de juros e remessas de lucro. Não são valores desprezíveis.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Produção industrial e desindustrialização

Ricardo Lacerda

A crise financeira internacional vem impondo novos desafios para a indústria brasileira. A estagnação da produção industrial em 2011, com taxa de crescimento de apenas 0,3%, gerou uma onda de pessimismo sobre o futuro da indústria e reabriu a temporada de vaticínios sobre a desindustrialização do país.

O debate, da forma como vem se desenvolvendo, produz mais calor do que luz. É muito difícil captar o quanto das dificuldades recentes da indústria brasileira decorre de fatores conjunturais, como a valorização do real, a queda da demanda nos mercados centrais e o recrudescimento do protecionismo comercial, e quanto se relaciona com transformações mais estruturais, como a ascensão da China no cenário mundial, o deslocamento da indústria manufatureira do ocidente para o extremo-oriente e mesmo de uma mudança de mais longo prazo do patamar do câmbio e dos salários reais no Brasil.

Em outros termos, cabe perguntar quais são as possibilidades de crescimento da indústria brasileira quando as economias centrais retomarem um ritmo de crescimento de 3% ao ano e as medidas de proteção aos mercados internos refluírem. Assim como não está fora do horizonte os Estados Unidos se reinventarem enquanto nação manufatureira, o Brasil poderá retomar a trajetória expansão sustentada e menos errática da produção industrial. O câmbio faz muita diferença.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O emprego formal em 2011


Ricardo Lacerda

O Ministério do Trabalho e do Emprego apresentou os dados de geração de emprego celetistas de 2011, fornecidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). Foram criados no Brasil 1.944.560 empregos formais celetistas, sem considerar os vínculos do regime estatutário do setor público. Foi um bom resultado. Ainda que a criação de novos empregos tenha sido 23,5% inferior aos 2.543.177 de 2010, o ano de 2011 apresentou a segunda melhor geração de emprego da série histórica.

Formalização

O ciclo expansivo da economia brasileira, iniciado em 2004, promoveu melhoras substantivas na situação do mercado de trabalho, como demonstra a queda da taxa de desocupação nas regiões metropolitanas de 12,4%, em 2003, para 6%, em 2011, segundo a pesquisa mensal do emprego do IBGE. A melhoria no mercado de trabalho propiciou, entre outras coisas, que o percentual de empregados formais do setor privado nessas áreas tenha passado, nesse período, de 39,7% para 48,5%, mesmo considerando que a porcentagem ainda muito elevada de pessoas na informalidade denuncie a fragilidade estrutural da ocupação no Brasil.

O movimento em direção à maior formalização na atividade privada tem se refletido também em certo descolamento da taxa de crescimento do emprego formal em relação ao crescimento do PIB, em parte por conta da expansão maior de atividades mais intensivas em trabalho, como as do setor de serviços, comparativamente ao setor industrial (ver gráfico). Em 2011, o emprego formal celetista aumentou em 5,4%, frente ao crescimento estimado de 2,9% no PIB.


Fonte: IBGE e MTE-CAGED.
Obs*: Estimativa de mercado para o crescimento do PIB em 2011.

Sergipe

Nos últimos anos, o emprego formal em Sergipe também vem crescendo acima do PIB. Entre 2007 e 2011, o emprego formal celetista em Sergipe apresentou uma taxa anual de incremento de 7,9%, frente à média nacional de 6% e à média nordestina de 7%.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Índice de pobreza e vulnerabilidade das famílias

Ricardo Lacerda

 O IPEA publicou na semana passada o Índice de Vulnerabilidade das Famílias, com recortes por região, unidade da federação, rural/urbano e metropolitano/ não metropolitano. O objetivo do índice é o de tentar identificar os perfis das famílias brasileiras a partir do conceito de vulnerabilidade, que considera a pobreza como um fenômeno multidimensional, em que a carência de renda é apenas uma das dimensões. Também são consideradas as dimensões da própria estrutura da família, o acesso ao trabalho, o desenvolvimento infanto-juvenil e as condições habitacionais.

Os estudos sobre desenvolvimento e pobreza avançaram muito nas últimas décadas. Há muito tempo que a renda per capita e o PIB per capita deixaram de ser a expressão que sintetizava o grau de desenvolvimento econômico e social de um país ou de uma região. A simples troca de indicadores de rendimentos médios, que escondem as situações extremas (os muito ricos e os muito pobres), por indicadores que consideram a distribuição já permite identificar o quantitativo de pessoas em situação de pobreza e abre a possibilidade de localizar as famílias que deverão se constituir alvos prioritários das políticas públicas.

Laranjas e maçãs

Mas, até esse ponto, nosso índice conta apenas com uma variável (rendimento familiar per capita) e apenas uma dimensão (o rendimento). Mais complexo vai se tornando quando outras variáveis e outras dimensões vão sendo agregadas. É isso o que faz a medida de vulnerabilidade do IPEA; é um índice que sintetiza 6 dimensões, 26 componentes e 48 indicadores para caracterizar a situação de pobreza e vulnerabilidade das famílias (ver em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/120117_comunicadoipea131.pdf).

Quando aprendemos contabilidade social nas escolas de economia nos ensinam que não é possível somar maçãs com laranjas no cálculo do Produto Interno Bruto. É necessário reduzir todos os bens e serviços que o compõem a uma unidade comum para se obter o resultado agregado, o PIB, expresso em termos monetários. Como, então, agregar a estrutura das famílias, os seus rendimentos, as condições de habitação etc? Com o avanço dos métodos quantitativos, os economistas foram elaborando índices multivariados, somando maçãs, laranjas, presença de idosos e crianças na família e existência de esgotamento sanitário no domicílio em um único índice, por meio da padronização e da estipulação de peso para cada componente.

Fiz este longo percurso explicativo para situar o leitor em relação aos diversos índices que pululam no nosso cotidiano, desde os mais reconhecidos, como o IDH, até os índices de desenvolvimento municipal, de transparência pública, de qualidade de vida, de ambiente favorável de negócios, de competitividade e de atratividade de países e regiões etc.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Composição etária e razão de dependência em Sergipe



Ricardo Lacerda

Com a queda da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida tem havido importantes mudanças na composição da população brasileira, com a elevação da participação das faixas etárias mais elevadas e a redução nas faixas de menor idade. Muitos especialistas têm destacado o significado econômico do período de bônus demográfico que o país atravessa por conta da redução, em termos absolutos e relativos, da população de menos de 15 anos, enquanto engrossa a fatia da população que se encontra em idade ativa. O período de bônus se encerra quando o incremento no contingente de pessoas idosas superar a redução da população inativa mais jovem, como proporção da população total.

Demógrafos e economistas entendem que o bônus demográfico é uma força poderosa na elevação dos níveis médios de renda da população, na medida em que significa diminuição na faixa de população que depende de renda gerada por outros grupos etários. Convencionou-se chamar de razão de dependência o peso da população considerada inativa (0 a 14 anos e 65 anos e mais de idade) sobre a população potencialmente ativa (15 a 64 anos de idade).

Sergipe

A distribuição etária da população sergipana também tem passado por transformações estruturais, com importantes implicações econômicas. Em 2010, residiam em Sergipe 556.222 pessoas com menos de 15 anos de idade, representando 27% da população total de 2.068.017. No ano de 2000, o contingente de pessoas com menos de 15 anos era de 595.327 e representava 33% da população total (ver Gráfico). Ou seja, essa faixa etária encolheu, ao longo da década, o equivalente a 39.105 pessoas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A recuperação das exportações sergipanas em 2011

Ricardo Lacerda
Qualquer avaliação do comportamento do comércio exterior sergipano não deve desconhecer o peso pouco expressivo que tem o setor externo na dinâmica de crescimento da economia estadual. Considerando a soma das exportações e das importações (a chamada corrente de comércio) e comparando-a com o PIB, é possível afirmar que o comércio exterior é cerca de sete vezes menos importante para Sergipe do que para a média do país (calculando com o PIB de 2009 e o comércio exterior de 2011).
Isso se deve ao fato de que os segmentos mais importantes da economia sergipana, vinculados à sua base de recursos minerais, foram erigidos ao longo das últimas quatro décadas visando o atendimento do mercado nacional.  Se o coeficiente de abertura da economia brasileira é relativamente restrito, a economia sergipana depende ainda mais do comportamento do mercado interno brasileiro para crescer.  
Ainda assim, algumas atividades da economia sergipana, como a citricultura, a fabricação de calçados e a fabricação de açúcar são muito dependentes do mercado externo, de forma que, quando as exportações dos seus produtos vão mal, as áreas que concentram tais atividades perdem ocupação e renda, e quando as exportações retomam a trajetória de crescimento, o emprego e renda tendem a reagir positivamente nas economias locais.
É nesse sentido, que devemos comemorar a continuidade da recuperação das exportações sergipanas em 2011, notadamente a expansão nas vendas do suco concentrado de laranja.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

As perspectivas econômicas para 2012



Ricardo Lacerda

A economia brasileira deverá apresentar uma aceleração moderada do crescimento em 2012, na comparação com 2011, mesmo enfrentando um cenário de deterioração do setor externo.

A economia mundial terminou o ano de 2011 pior do que começou. No relatório de abril sobre as perspectivas econômicas do ano, o FMI assinalava que estava em curso uma recuperação do nível de atividade, ainda que de forma débil e desequilibrada, mais forte nas economias em desenvolvimento e menos intensa nas economias avançadas.

Ao longo do ano o quadro foi se tornando mais difícil. Com a deterioração da situação econômica europeia e a emergência da crise das dívidas soberanas no segundo semestre, o relatório de setembro destacava a desaceleração do crescimento e o aumento dos riscos sistêmicos na economia mundial. Na retrospectiva de 2011, em 21 de dezembro, o economista-chefe Olivier Blanchard resume o cenário em termos nada otimistas: “a recuperação de muitas economias avançadas está estancada e alguns investidores contemplam as implicações de uma possível ruptura da Zona do Euro, sendo real a possibilidade de as condições se tornarem piores que as de 2008”.

Além de as condições na Europa virem se deteriorando mês a mês por meio do contágio da crise de confiança, há muita incerteza sobre quais vão ser os seus desdobramentos no futuro próximo, tornando ainda mais frágeis as projeções para a economia mundial em 2012.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Os PIBs dos municípios sergipanos em 2009 (2)

Ricardo Lacerda

O plebiscito para aprovação da criação de dois novos estados a partir do desmembramento do Pará mobilizou não apenas a população local, como suscitou debates acalorados em todo o país. Do que foi possível captar, a grande maioria daqueles que se manifestaram na grande imprensa ou nas redes sociais era contrária à constituição dos novos estados, percebida ou como esperteza dos políticos para aumentarem os cargos públicos ou como sacrifício das demais unidades da federação, que teriam que sustentar as novas estruturas administrativas.
Tais preocupações são legítimas e encontram fundamento em experiências passadas em que foram criados estados e municípios que não contavam com autonomia financeira para se manter. Mas, um pressuposto geral, frequentemente, é causa de decisões estreitas em que deixam de ser observadas as especificidades das situações. Não é difícil perceber as dificuldades do Pará em ofertar políticas públicas de segurança, saúde, educação e de infraestrutura em um estado que tem dimensão territorial superior a muitos países. Particularmente na região sul do Pará, há uma notória carência de ordem pública. É um quadro, não resta dúvida, em que é necessário aumentar a presença do estado.
Há casos evidentes abusos na criação de municípios em  que o estado da  Paraíba é um dos exemplos mais nefastos. Com dimensão territorial relativamente modesta, a Paraíba conta com 223 municípios, dos quais 68 tinham, em 2009, menos de cinco mil habitantes e 137, menos de dez mil habitantes. Gerou-se um cenário em que mais de 2/3 dos municípios paraibanos são extremamente dependentes das transferências governamentais: em 158 dos 223 municípios (70,8%), a administração pública, incluindo a seguridade social, respondia por mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB).

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Os PIBs dos municípios sergipanos em 2009 (1)

Ricardo Lacerda

O IBGE anunciou na semana passada os valores e a composição dos PIBs municipais do Brasil referentes a 2009, ano em que o PIB brasileiro apresentou recuo de 0,3% em razão do impacto da crise financeira internacional. Levando em conta tal cenário, o crescimento de 4,4% da economia sergipana foi um resultado extraordinário, o quarto maior crescimento do país, muito superior ao 1% alcançado pelo conjunto da região Nordeste (ver Gráfico).


 IBGE: Contas regionais 2009

O PIB municipal corresponde ao valor das riquezas produzidas ao longo do ano, considerando tudo o que foi produzido naquele território nos setores agropecuário, industrial e de serviços. Não mede, todavia, a riqueza que fica no município e sim aquela que é ali produzida. Para medir a riqueza que circula no próprio município, os indicadores de renda são mais apropriados. Assim, as parcelas do valor da extração de potássio explorada pela companhia Vale ou do valor da exploração de petróleo e gás, pela Petrobrás, que são remunerações de pessoas ou empresas não domiciliadas no Estado, fazem parte do PIB municipal, ainda que não signifiquem renda internalizada no próprio município.

Tampouco os tributos federais ou estaduais que incidem sobre essa produção ficam na íntegra no próprio município. Da mesma forma, o PIB per capita municipal é principalmente um indicador de produtividade média, e não necessariamente da riqueza média das pessoas que residem no município. Portanto, para se avaliar o grau de pobreza ou o de bem estar das pessoas, a renda per capita ou a renda familiar per capita são indicadores mais adequados do que o PIB per capita.

Mesmo assim, a não ser em situações muito excepcionais, a elevação do PIB per capita de um município tende a ser seguida pelo crescimento da renda per capita, por meio de mecanismos diversos, como incremento de tributos e elevação da massa de salários. Os valores do PIB per capita e da renda per capita municipais estão tanto mais correlacionados quanto mais a estrutura produtiva tem predominância de empresas de pequeno e médio portes, em sua maioria sediadas no próprio município.

Finalmente, a distância entre o PIB per capita e a renda per capita diminui quando se lida com agregados territoriais maiores, como estados e países.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A taxa nula de crescimento do PIB no 3º trimestre de 2011



Ricardo Lacerda

A taxa nula de crescimento do PIB do 3º trimestre de 2011, em relação ao trimestre anterior, sem efeitos sazonais, confirmou os temores de que o agravamento da crise européia potencializaria a desaceleração econômica já em curso.

Ao final de 2010, o governo brasileiro percebia que o ritmo acelerado de crescimento naquele ano não teria como se sustentar em 2011. A expansão do PIB de 2010 era atípica porque incidia sobre a base rebaixada de 2009, em que o produto interno havia recuado 0,3%. A aceleração da inflação nos últimos meses de 2010, que se afastava rapidamente do centro da meta, em doze meses, tendia a se agravar, diante da maior velocidade de crescimento na demanda do que na oferta, notadamente nos segmentos em que a produção interna não poderia ser complementada pela importação, como na maioria dos serviços. O quadro que se desenhava era de uma situação de crescimento econômico acima do potencial do país, com efeitos danosos sobre os preços e sobre o saldo de transações do país, em um cenário de dificuldades na economia mundial.

As medidas macroprudenciais adotadas pelo Banco Central, restringindo a oferta de crédito, e a sucessivas elevações na taxa básica de juros fizeram o trabalho de desacelerar rapidamente o crescimento econômico em 2011. O agravamento do quadro europeu no segundo semestre incorporou expectativas negativas a um cenário interno de desaceleração e pôs em dúvida a capacidade do Brasil continuar crescendo em meio a uma crise que se arrasta já por quatro anos nos países avançados, produzindo o resultado nulo do 3º trimestre.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O nível de atividade da economia sergipana ao final de 2011

Ricardo Lacerda

Na próxima terça-feira, 6 de dezembro, o IBGE deverá anunciar a evolução do PIB do terceiro trimestre de 2011. As especulações que circulam na imprensa são de que a economia brasileira estagnou no período, em comparação com o trimestre anterior, na série livre de efeitos sazonais.

O governo federal já vem reagindo à piora do cenário, a partir do entendimento de que a rápida deterioração da situação européia vem contaminando o ambiente empresarial com uma dose de pessimismo que impacta o nível de atividade interna.

Estão sendo acionados os botões das políticas monetárias e fiscais para estimular, de forma moderada, o crescimento do consumo em grau suficiente para sepultar a maré pessimista, mas sem perder de vista a necessidade de manter a inflação bem comportada. Como a situação não é de pânico, como o foi no final de 2008, as medidas até agora são menos radicais.

Sergipe

Os indicadores mais representativos do nível de atividade da economia sergipana permanecem bons ou mesmo muito bons, com exceção dos resultados da Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE. A soma do consumo industrial e do consumo livre, na área da Energisa, cresceu 4,3% entre janeiro e outubro de 2011, em relação ao mesmo período de 2010.

No trimestre agosto-outubro, o crescimento desse agregado foi de notáveis 7,1%, em relação ao mesmo trimestre de 2010. O emprego na atividade industrial continua firme. Nos últimos doze meses encerrados em outubro foram gerados 4.349 empregos formais, taxa de crescimento de 10,37%.

Apenas no setor têxtil, entre os ramos mais importantes da indústria sergipana, o emprego gerado em doze meses foi negativo, o que é compreensível por se tratar de atividade muito vulnerável à valorização cambial e à competição com produtos importados. Os dados de emprego da construção civil continuam muito favoráveis.

No trimestre agosto-outubro, foram gerados 1.022 empregos nesse setor, número muito bom, ainda que inferior aos 1.747 do mesmo período de 2010, quando a atividade vinha em ascensão e partia de um nível de emprego menor. Na comparação entre o trimestre junho-agosto de 2011 com o ano anterior, o consumo de cimento em Sergipe aumentou 27%. Entre agosto e outubro, foram criados 9.409 empregos formais em Sergipe, resultado muito bom, e muito próximo aos 9.890 gerados no mesmo período de 2010, no segundo melhor resultado da série histórica (ver Gráfico 1).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nordeste 2001-2010: Crescimento, Mudanças e Desafios

Ricardo Lacerda

Nos dias 23 e 24 de novembro, a Fundação Joaquim Nabuco realizou, em Recife, o XIII Simpósio ObservaNordeste, com a temática que dá título ao presente artigo, para debater sobre as transformações econômico-sociais e políticas do Nordeste na primeira década do novo século.

O objetivo do simpósio foi o de reunir estudiosos e pesquisadores dos estados da região para fazer um balanço das mudanças econômicas, sociais e políticas no Nordeste, no âmbito do ciclo de transformações recentes e avaliar os limites e os desafios para a segunda década do século XXI.

Novo patamar

A questão mobilizadora dos debates era como a região Nordeste, que vem se constituindo em uma das fronteiras do crescimento brasileiro, poderia potencializar a fase positiva recente para alcançar novos patamares de desenvolvimento. O Nordeste obteve taxas de crescimento econômico acima da média brasileira na primeira década do século, impulsionadas pelo impacto maior na região da elevação do poder de compra da chamada classe C, das políticas de transferências de renda e dos investimentos estruturantes realizados.

Pairava entre os pesquisadores certa inquietação sobre a estratégia que a presidente Dilma, que não tem a mesma identificação que demonstrou ex-presidente Lula com a região, adotaria para o desenvolvimento do Nordeste, e se seria dada continuidade a prioridade que ela contou nos últimos oito anos.

No governo anterior, duas linhas de atuação concorreram para impulsionar o crescimento econômico do Nordeste: Em primeiro lugar, o conjunto das políticas públicas com forte viés social que, mesmo sem ter orientação para o desenvolvimento regional, findaram por incidir muito mais intensamente nas áreas mais pobres. A transferência de recursos originários dessa política, ao lado de outras medidas que elevaram o poder de compra das parcelas da população de menor renda, como os aumentos reais do salário mínimo e a expansão do crédito, ampliaram o mercado de consumo da região com importantes reflexos em termos de geração de emprego.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Geração de Emprego e de Emprego Industrial em 2011



Ricardo Lacerda

O mercado de trabalho aquecido tem sido resultado e causa do bom desempenho que a economia brasileira vem apresentando nos últimos anos, enquanto as economias centrais encontram-se em verdadeiras tormentas. Estimulado pela expansão do crédito e pelo aumento do consumo interno, o nível de ocupação elevado tem sido uma das principais bases da formação de um mercado interno robusto.

A ampliação do mercado interno, com a incorporação de milhões de brasileiros em um novo patamar de consumo, é o principal fundamento que lastreia as avaliações otimistas do mundo sobre as perspectivas de longo prazo da economia brasileira. Nada disso se alterou significativamente com a piora do cenário externo, nem mesmo com a desaceleração do crescimento do nível de atividade interna.

Ainda assim, é importante destacar que o desaquecimento da economia no segundo semestre de 2011, já repercute na criação de emprego formal. Mesmo com o mercado de trabalho aquecido, taxa de desocupação de apenas 6%, e o patamar de emprego mantendo-se elevado, a geração de 126 mil empregos formais em outubro, muito menos do que em anos anteriores, reflete a diminuição na capacidade de geração de emprego da economia brasileira, muito especificamente no setor industrial.

Outubro foi especialmente débil na geração de empregos formais, considerando-se os resultados do mesmo mês em anos anteriores: em outubro de 2010, haviam sido gerados 204 mil empregos e, em outubro de 2009, como sintoma da rápida recuperação que se iniciava, 230 mil novos empregos (ver Tabela). No setor industrial foram criados apenas 5.206 novos empregos, em outubro de 2011, frente aos 46.923 empregos criados no mesmo mês de 2010.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Queda na produção industrial nordestina

Ricardo Lacerda

A economia industrial do Nordeste vem sendo atingida mais intensamente pela crise do setor do que as de outras regiões do país. O setor industrial da região vem sofrendo importantes perdas no seu volume de produção física, por conta do seu perfil em que alguns ramos mais sensíveis à valorização cambial e à competição com produtos asiáticos, como o de calçados e o de têxteis, têm grande peso.

A edição de setembro da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), do IBGE, confirmou a conjuntura adversa da produção industrial da região, notadamente no Estado do Ceará. Na comparação entre setembro e agosto (na série sem efeitos sazonais), o resultado da região foi positivo e expressivo, com crescimento de 1,1%, quando o conjunto do país, muito influenciado pela forte queda da produção física da indústria automobilística, registrou recuo de 2,0%.
Em todas as demais séries, os resultados da produção física do Nordeste são muito piores do que os da média do país. No acumulado de janeiro a setembro, sobre igual período do ano anterior, a produção regional apresentou retração de 5,2%, quando na média do país a produção física da indústria geral cresceu 1,1%; na série acumulada de doze meses em relação ao mesmo período anterior, a produção nordestina recuou 4,2%, frente ao crescimento de 1,6% da produção física brasileira.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A produção industrial de setembro

Ricardo Lacerda

O anúncio, na semana passada, da retração de 2% na produção física da indústria brasileira em setembro, em relação a agosto, na série sem efeitos sazonais, provocou um grande susto. Tal resultado deixou patente que a desaceleração do nível de atividade da economia brasileira, meta desejada e planejada pelas autoridades econômicas, veio com mais força do que se projetava.

Depois do crescimento de 7,5% do PIB e de 10,4% da produção física da indústria em 2010, cristalizou-se a percepção de que a economia brasileira estava crescendo acima do seu produto potencial, com efeitos perceptíveis e preocupantes sobre a evolução da inflação e sobre o resultado da conta corrente.

Mesmo considerando que retração tão elevada da produção física da indústria em apenas um mês deveu-se, em grande parte, à queda de 11% na produção de automóveis, em função de férias coletivas adotadas por algumas montadoras para reduzir os estoques no pátio, a queda da produção industrial foi abrangente, atingindo 16 dos 27 ramos pesquisados.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A expansão da cultura do milho no semiárido sergipano

Ricardo Lacerda


Um dos fenômenos recentes mais significativos na evolução da economia agrícola sergipana foi a forte expansão da cultura do milho. Em 2007, o valor da produção do milho superou o da cana-de-açúcar, e, no ano seguinte, ultrapassou o da, até então, principal cultura agrícola de Sergipe, a produção de laranja. Diferentemente da tradicional cana-de-açúcar, enraizada nas terras mais úmidas do Leste Sergipano, e da laranja, cultivada nas áreas valorizadas da chamada região Centro-Sul, o cultivo do milho se desenvolve tipicamente nas áreas do semiárido sergipano, tendo o município de Carira como epicentro.

2010


A publicação pelo IBGE da Pesquisa Agrícola Municipal de 2010, durante a semana que passou, confirmou a trajetória fortemente ascendente da cultura do milho em Sergipe. Em 2010, pela primeira vez, a produção do milho no Estado alcançou um milhão de toneladas, quando no ano de 2000 não atingia 100 mil toneladas (ver Gráfico).

Depois de crescer 28%, em 2007, 147%, em 2008, 20,3%, em 2009, a quantidade produzida de milho aumentou em 50%, em 2010, confirmando-se como a mais importante cultura agrícola de Sergipe. Em 2010, a quantidade produzida de milho no Brasil aumentou 9,8% e no Nordeste, recuou 7,4%.



Fonte: IBGE- Pesquisa Agrícola Municipal


Os resultados alcançados pela cultura do milho em Sergipe são superlativos: a quantidade produzida cresceu 1.114% entre 2000 e 2010, ou seja, foi multiplicada por doze, enquanto o crescimento no Nordeste atingiu 51% e na média do Brasil, 72%. Em 2010, o valor da produção sergipana de milho alcançou a cifra de R$ 335,3 milhões, superando com ampla margem os R$ 222,9 milhões da laranja e os R$ 188 milhões da cana-de-açúcar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Urbanização e crescimento populacional em Sergipe pós-1970

Ricardo Lacerda



Com todo o impulso que a industrialização trouxe para o crescimento das cidades nos anos cinqüenta, o Censo Populacional de 1960 constatou que a maioria da população brasileira ainda era predominantemente rural. Naquele levantamento censitário registrava-se a predominância das populações urbanas apenas na região Sudeste e nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, com suas metrópoles pujantes, no antigo território do Amapá e no Distrito Federal. Na média do país, as populações rurais ainda representavam 54,9% do total.

Na década de sessenta, caracterizada pela crise política e pelo baixo crescimento, na primeira metade, e pelo chamado milagre econômico, a partir de 1968, as populações urbanas passaram a representar mais de 50% dos brasileiros. O predomínio das populações urbanas, de acordo com o censo populacional de 1970, já havia se estendido para as regiões Sul e Centro- Oeste, e para o atual estado de Rondônia, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Anos 1970 e 1980

Os anos setenta, que foram marcados pela aceleração da integração do território nacional e pelas intensas taxas de crescimento econômico, mesmo levando em conta a instabilidade provocada pelos dois choques do petróleo, consagraram o predomínio das populações urbanas em todas as regiões brasileiras. Foi o que constatou o Censo Populacional de 1980: em apenas oitos das atuais 27 unidades federadas as maiores parcelas de suas populações residiam no meio rural, inclusive Rondônia que, com a expansão da fronteira agrícola, a população urbana perdeu a predominância. Permaneceram ainda majoritariamente rurais as áreas dos atuais estados do Pará, Acre, Tocantins, Maranhão, Piauí e o vizinho estado da Bahia, com 49,4% da população no meio rural. Nas demais dezenove unidades federadas, inclusive Sergipe, as pessoas residindo em áreas urbanas se constituíram maioria.

Sergipe

Em 1960, Sergipe contava com uma população de 760 mil pessoas das quais 464 mil, ou 61,1%, residiam no meio rural, frente a apenas 296 mil pessoas (38,9%) no meio urbano, entre cidades e vilas. Ao longo dos anos sessenta, a população urbana de Sergipe cresceu 42,4%, contra apenas 5,5% de expansão da população residindo no meio rural. Ainda assim, o Censo Populacional de 1970 registrou o predomínio da população residindo em domicílios rurais, 53,8%, (ver Gráfico 1).


Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1960,1970, 1980,1991, 2000 e 2010
Obs: Em 1960, 1970 e 1980, população presente. Em 1991, 2000 e 2010, população residente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O crescimento demográfico de Sergipe pós-1970

Ricardo Lacerda

Ao longo do século XX, a população sergipana passou de 356.264 para 1.781.714 habitantes. Somente o censo de 1980 registrou população superior à casa de um milhão de habitantes. Em 2010, o número de residentes atingiu 2.068.017 (ver Gráfico 1).

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1872, 1890, 1900, 1920,1940, 1950, 1960,1970, 1980,1991, 2000 e 2010.
(1) População presente. (2) População recenseada. (3) População residente.
Obs: Os historiadores costumam lembrar que a população de 1872 está subestimada,
em razão de o levantamento censitário ter deixado alguns municípios de fora.


Um fato significativo na evolução populacional de Sergipe nesse período foi a mudança de sua dinâmica na década de 1970, quando a maior parcela da população se tornou urbana. Há um fenômeno particularmente curioso na trajetória populacional de Sergipe, vis a vis a média do Brasil e dos estados nordestinos: Sergipe que desde a década de 1920 vinha registrando crescimento populacional inferior ao do Nordeste e do Brasil, nos anos setenta passou a crescer acima da região e a uma taxa próxima da média brasileira e, nas décadas seguintes, ultrapassou o ritmo de crescimento dos dois agregados em todos os períodos intercensitários (ver Gráfico 2).


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

As exportações de suco concentrado de laranja - Parte 2



Ricardo Lacerda

Quem acompanha os comunicados das associações brasileiras de citricultores pode inferir o grau de insatisfação dos produtores com a situação do mercado da laranja, especialmente no que diz respeito às difíceis relações com as indústrias de suco. A queixa freqüente é a de que a estrutura concentrada permite à indústria impor preços muito desfavoráveis aos produtores de laranja, mesmo quando o mercado internacional inicia uma recuperação.

Em uma perspectiva de médio prazo, a cotação do suco de laranja concentrado (FCOJ) no mercado americano obteve importante aumento na safra de 2005/2006 e, especialmente, na safra de 2006/2007, o que ajudou a expansão das exportações brasileiras do produto. Com a crise financeira internacional, o preço recuou nas safras de 2008/2009 e 2009/2010, com graves conseqüências para a produção citrícola.

O preço do suco concentrado no mercado internacional vinha se recuperando desde meados de 2010, com alguns soluços, o que poderia estimular a retomada das exportações nos próximos anos, mas a recidiva na crise financeira, em que a situação da Grécia é o quadro mais emblemático, fez reverter a recuperação das cotações desde o início de agosto de 2011.

Exportações

No Gráfico 1, a seguir, são apresentados o valor e o volume das exportações brasileiras acumuladas em doze meses, entre outubro de um ano e setembro do ano seguinte. Ainda que esses doze meses não se relacionem com as safras, esse período foi escolhido para abranger os dados mais recentes, referentes a setembro de 2011.

Depois de alcançar US$ 874 milhões nos doze meses encerrados em setembro de 2006, o valor das exportações brasileiras do suco concentrado alcançou US$ 1,5 bilhão no período completado em setembro de 2007, o melhor resultado para essa série em todo o século XXI (ver as colunas no Gráfico 1). Em setembro de 2008, já refletindo a mudança no cenário externo, o valor acumulado das exportações em doze meses, apesar de ainda elevado, caiu para US$ 1,28 bilhão.

É curioso constatar que, apesar do patamar elevado do preço médio nesses dois períodos, o volume do produto comercializado no exterior, representado pela linha no Gráfico 1, ou pouco se elevou ou caiu, indicando problemas pelo lado da oferta brasileira.

Nos três períodos seguintes, nos doze meses acumulados em setembro de 2009, 2010 e 2011, o volume e o valor das exportações despencaram. Ou seja, quando os preços internacionais subiram, o volume exportado se manteve relativamente constante, quando os preços internacionais caíram, o volume exportado despencou.

Os especialistas têm atribuído esse comportamento recente, principalmente, à elevação do custo de produção interno da laranja, que, ao lado da valorização do real retiraria competitividade do produto brasileiro. Mas, honestamente, a explicação nos parece incompleta e insatisfatória.


 
Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.


Sergipe

A citricultura sergipana se ressentiu, também, das oscilações no preço internacional do suco concentrado de laranja, principal produto exportado pelo segmento. Quando os preços internacionais se tornaram muito atrativos, o valor das exportações de suco concentrado em Sergipe apresentou um grande salto, passando de US$ 28,5 milhões nos doze meses completados em setembro de 2006 para US$ 69,5 milhões, nos doze meses completados em setembro de 2007, e US$ 53,4 milhões em setembro de 2008 (ver Gráfico 2). Com a eclosão da crise financeira internacional, no final de 2008, o valor das exportações de suco concentrado também despencou, voltando nos doze meses completados em setembro de 2009 para o patamar anterior à expansão.

As exportações sergipanas de suco concentrado vêm respondendo mais positivamente à elevação do preço internacional do que a média brasileira. Se nos doze meses completados em setembro de 2010, o volume exportado ainda não havia iniciado sua recuperação, pelos menos interrompeu a queda, diferentemente do volume exportado pelo conjunto do país. No acumulado de doze meses de setembro de 2011, o volume exportado aumentou 29% e o valor das exportações, 89%, em relação ao período anterior.



Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.


As trajetórias do volume e do valor das exportações sergipanas de suco concentrado (FCOJ) parecem indicar que o setor estava iniciando uma importante recuperação. O novo período de instabilidade na economia mundial, que já vem afetando a cotação do produto, todavia, pode abortar essa retomada.


Publicado no Jornal da Cidade em 09/10/2011





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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As exportações de suco concentrado de laranja (1)



Ricardo Lacerda

Quem observa o preço médio do suco de laranja concentrado (FCOJ) que foi exportado pelo Brasil nos últimos meses se inclina a inferir que estamos diante de um novo período de prosperidade da citricultura. Depois do fundo do poço, em 2009, quando atingiu US$ 1.092 por tonelada exportada, o valor médio do suco concentrado exportado alcançou US$ 2.021, em agosto de 2011, em grande parte por conta de problemas na safra da Florida (ver Gráfico 1).

Fonte: MDIC-SECEX. Banco de dados Alice.

Mesmo com a forte melhoria das cotações, a quantidade exportada de suco concentrado ainda não reagiu. O volume exportado pelo Brasil nos doze meses encerrados em agosto de 2011 se limitou a 423 mil toneladas, frente às 523 mil toneladas comercializadas nos doze meses encerrados em agosto de 2010, uma retração de 19%.

Os especialistas não estão otimistas em relação às perspectivas do suco de laranja no mercado internacional. O entendimento é de que a alta do preço tem caráter temporário, decorrente de problemas climáticos que atingiram a produção americana. O diagnóstico predominante é o de que o mercado de consumo de suco de laranja se encontra estagnado, senão em declínio.

Saturamento

Estimativa da Markestrat, a partir de dados do Euromonitor e da Tetra Pak, é de que o consumo de suco de laranja concentrado nos vinte principais mercados caiu 6,9% entre 2003 e 2010. A retração do mercado no período não teria apenas caráter conjuntural, decorrente da crise financeira internacional, mas indicaria uma mudança de hábito no mercado mundial, em que outras bebidas vêm ocupando espaço na preferência dos consumidores. O Gráfico 2, a seguir, mostra que o mercado sofreu, de fato, com a crise financeira eclodida em 2008, mas a tendência de declínio é anterior e de caráter mais estrutural.



Fonte: Markestrat a partir de Euromonitor e Tetra Pak.
OBS: Inclui suco de laranja utilizado em mix de frutas e vendido congelado no varejo. Extraído de CitrusBR. Consumo Mundial de Suco de Laranja. Brasília, 6 de setembro de 2011. (http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/camaras_setoriais/Citricultura/28RO/App_Consumo_de_Suco.pdf).

Mercados

Entre 2003 e 2010, as retrações mais acentuadas no consumo de suco de laranja industrializado se verificaram em três das quatro maiores economias do mundo, Estados Unidos, Japão e Alemanha, com taxas de retração próximas a 20% (ver Tabela). O forte aumento do consumo em mercados emergentes, como os da China e da Rússia, não tem sido suficiente para se contrapor a tendência de declínio verificado nos principais mercados.

Fonte: Markestrat a partir de Euromonitor e Tetra Pak. Ver observação do Gráfico 2.

Sergipe
O valor das exportações de suco de laranja da economia sergipana reagiu positivamente à melhoria na cotação do produto no mercado mundial. A exemplo do que vem ocorrendo com a citricultura brasileira, como um todo, a melhoria de preços ainda não se refletiu de forma mais intensa no volume exportado por Sergipe. Esse será o ponto a ser tratado no artigo da próxima semana.



Publicado no Jornal da Cidade em 02/10/2011



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