Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Câmbio e os juros


Ricardo Lacerda

O valor da moeda nacional frente às dos demais países com os quais o Brasil efetua transações econômicas é um dos fatores mais fundamentais na determinação não apenas do nível atual da atividade econômica, quanto, por meio de diversos canais, do desenvolvimento do país no longo prazo.   

Em situações como a presente, de desaceleração do crescimento econômico convivendo com uma trajetória declinante da inflação, abre-se uma janela de oportunidade para promover uma acentuada correção do câmbio que deve ser em grau suficiente para reverter a situação de declínio da competitividade relativa da produção industrial brasileira frente aos produtos importados e no mercado externo.

O Gráfico 1 apresenta o comportamento da taxa de câmbio real efetiva, corrigida pelo IPCA, desde o final o final de 1993, até maio de 2012, delimitado pelos períodos de governo. Observe-se que a desvalorização do real no corrente ano, apesar de forte, é ainda relativamente pouco expressiva quando comparada à valorização de períodos anteriores. 


Fonte: BCB-Depec

Desorganização da produção

Manter o câmbio valorizado significa em primeiro lugar subsidiar o consumo de produtos importados, tornando-os artificialmente baratos, em detrimento da produção industrial doméstica existente ou potencial, o que pode ou não atender objetivos da política econômica em determinadas etapas do desenvolvimento.

Em uma conjuntura recessiva da demanda externa como a que se vivencia hoje, o câmbio valorizado induz a transferência de milhares de empregos para o exterior, sem a compensação de mesma qualidade ou quantidade promovida pela expansão das exportações. Mesmo com o mercado de consumo interno mantendo expansão robusta nos últimos meses, uma parcela maior do acréscimo de consumo vem sendo atendida pelo fornecimento de produtos elaborados lá fora. O consumidor fica satisfeito com o câmbio valorizado, mas a produção interna corre o risco de se desorganizar. 

Ainda no curto prazo, o valor do câmbio é importante na medida em que o preço dos produtos importados afeta o comportamento da inflação interna. É observando esses dois efeitos, sobre o ritmo da atividade e sobre os preços, que a autoridade econômica estipula os objetivos que vão guiar as políticas de curto prazo que afetam o valor do câmbio. No longo prazo, muitos outros aspectos estão em jogo e o essencial é equilibrar os graus de modernização e de exposição à competição desejados para a matriz produtiva interna, de um lado, e sua expansão e diversificação em direção a novos setores, de outro.

Os juros

Uma desvalorização pronunciada do câmbio torna-se factível em função da queda recente das taxas de juros internas. Como alguns especialistas têm assinalado, a valorização do real nos últimos anos deveu-se apenas parcialmente à entrada de divisas proporcionada pela elevação dos preços de commodities minerais e alimentares em que o Brasil responde por parcela importante da demanda mundial. Parcela significativa da valorização decorreu do fluxo de capital internacional atraído pelo diferencial de juros pagos internamente.  

A queda acentuada na taxa básica real de juros desde o segundo semestre de 2011 (ver Gráfico 2), que deve ter continuidade nos próximos meses, amortece um dos principais vetores de valorização cambial na medida em que estreita o diferencial de juros.

Fonte: BCB- Relatório de inflação, junho de 2012.

Na situação atual de desaquecimento dos mercados externos e de perda de competitividade da produção nacional no mercado interno, manter o câmbio valorizado implicaria exposição da produção interna em grau desmedido, muito além do que preceitua o convencional receituário de abertura à competição externa.

Por tudo que avançou na primeira década do século XXI, o Brasil se encontra em condições ainda excepcionais para enfrentar a nova onda de turbulência dessa já longa crise internacional. Medidas adicionais que visem promover a desvalorização da moeda não são indolores, mas são decisivas para reaquecer o nível de atividade e recuperar a competitividade da estrutura industrial.


Publicado no Jornal da Cidade em 16/07/2012 
Para baixar o arquivo em PDF clique aqui.

domingo, 8 de julho de 2012

Nordeste- Mudanças na especialização industrial na década de 2000

Ricardo Lacerda

No debate sobre a desindustrialização do país, vale a pena considerar as especificidades regionais. Ao longo da primeira década do século XXI, a indústria de transformação do Nordeste cresceu a taxas superiores à media do Brasil na ampla maioria das atividades. 

Tendo em vista a descontinuidade da série histórica em 2007, com a alteração da Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE), é necessário quebrar a análise em dois subperíodos, 2000-2007 e 2007-2010. 

 Entre 2000 e 2007, a participação da região no Valor da Transformação Industrial (VTI) da indústria de transformação brasileira ampliou-se de 8,5% para 9,4%. Depois de 2007, até 2010, em um período já marcado pela crise financeira internacional e pela perda de dinamicidade da atividade industrial do Brasil, a indústria de transformação regional também se ressentiu, o que fez com que estancasse a ampliação de sua participação no VTI em 9,5% em 2010, igual à participação de 2007 na nova classificação das atividades. 

Avançando no entendimento do significado do intenso crescimento econômico do Nordeste na primeira década do século atual em termos de mudanças em sua estrutura industrial, cabe examinar os setores em que o Valor da Transformação Industrial (VTI) apresentaram maior expansão, inferindo as variações dos pesos na composição da indústria regional e no total da atividade no Brasil. 

Estrutura

 Em 2010, os segmentos de maior peso na estrutura industrial do Nordeste eram a fabricação de alimentos, de derivados de petróleo e biocombustíveis (etanol) e o de produtos químicos, inclusive fertilizantes. Cada uma dessas divisões respondia por mais de 10% do VTI da indústria de transformação regional. Na sequência, representavam mais de 5% do VTI industrial a fabricação de calçados, de bebidas, metalurgia, minerais não-metálicos e a fabricação de veículos. 

 O setor têxtil, desde 2007, não consta mais na lista dos dez segmentos mais importantes no valor da produção regional da indústria de transformação. Cabe assinalar, que, em 2000, a fabricação de produtos têxteis participava com 7% do VTI regional e se situava na 5ª posição (Ver Tabela). 


domingo, 1 de julho de 2012

Especialização e crescimento do emprego regional na indústria



Ricardo Lacerda

Ao longo da década de 2000, o movimento de desconcentração da atividade industrial no território brasileiro teve continuidade, com a região (Sudeste) e o estado (São Paulo) mais industrializados perdendo participações no Valor Adicionado Bruto do setor industrial, conceito próximo ao PIB, em favor dos estados de regiões menos industrializadas, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste e dos demais estados da região Sudeste.

De acordo com as contas regionais do IBGE, o estado de São Paulo perdeu 4,6 pontos percentuais de participação na indústria brasileira entre 2000 e 2009, considerando a indústria de transformação, a indústria extrativa mineral, a construção civil e os serviços industriais de utilidade pública. Entre 1995 e 2009, essa perda teria alcançado 9,1 p.p., o que representa uma fatia muito expressiva, ainda que a desconcentração na indústria de transformação não tenha sido acentuada.

A desconcentração territorial do emprego industrial foi bem mais ampla, com a região Sudeste tendo reduzido, entre 2000 e 2010, em 3,5 pontos percentuais a participação do emprego formal considerando apenas a indústria de transformação, segundo os dados do MTE-RAIS.

Certamente muitos fatores contaram para tal espraiamento da atividade industrial no território brasileiro, entre eles as deseconomias de aglomeração dos principais polos industriais situados naquele estado (salários e alugueis mais altos), os atrativos oferecidos no âmbito das disputas fiscais entre as unidades da federação, a montagem de novos polos industriais fora das regiões Sudeste e Sul, as novas oportunidades de exploração de recursos naturais, a expansão mais rápida do mercado de consumo nas regiões mais pobres e as próprias mudanças na estrutura industrial brasileira.


domingo, 24 de junho de 2012

Crescimento e redistribuição regional do emprego formal na década de 2000.


Ricardo Lacerda

A intensa geração de emprego formal é um dos aspectos mais virtuosos do crescimento econômico na década de 2000. O contingente de emprego formal no Brasil cresceu à taxa média de 5,3% ao ano entre dezembro de 2000 e dezembro de 2010, bem superior à expansão média do PIB e do crescimento da População Economicamente Ativa, fazendo com que a parcela dos vínculos formais no total do emprego tenha se ampliado significativamente.

Em 2010, a quantidade de pessoas inseridas no mercado formal brasileiro era cerca de 2/3 maior do que em 2000. A geração de emprego manteve-se robusta nos anos mais recentes, apesar dos impactos da crise financeira internacional.  Mesmo em anos ruins, de PIB estagnado, como 2009, ou de baixo crescimento, como 2011, o emprego formal aumentou a taxas superiores a 4% e 5%, respectivamente. 

Em 2012, de forte desaceleração do nível de atividade, a taxa de crescimento do emprego formal em doze meses completados em maio alcançou 4,3%, o que não significa que o mercado de trabalho esteja blindado em relação à crise, pois as taxas de geração de emprego vêm caindo.

Desconcentração
A expansão do emprego formal tem sido célere em todas as regiões brasileiras. As regiões mais pobres e com mercado de trabalho mais frágil, como o Norte e o Nordeste, apresentaram taxas de expansão do emprego formal ainda mais elevadas, enquanto as regiões mais ricas e com mercado de trabalho mais estruturado registraram taxas de expansão abaixo da média brasileira (ver Gráfico). No período 2000-2010, o emprego formal se expandiu a taxas anuais de 8,2% na Região Norte, de 6,2%, no Nordeste, e 5,7% no Centro-Oeste, frente aos 5% na região Sul e 4,8% no Sudeste.

O mais interessante é que a desconcentração do emprego formal em direção às regiões mais pobres não pode ser atribuída a nenhum setor específico, posto que se verificou em praticamente todos os setores de atividade econômica.

domingo, 17 de junho de 2012

As forças que derrubaram o PIB



Ricardo Lacerda

Desde meados de 2011 que o governo federal vem adotando uma série de medidas visando reverter a intensa desaceleração do ritmo de crescimento da economia brasileira. As medidas abrangeram um amplo leque de instrumentos para desvalorizar o câmbio, reduzir juros, ampliar crédito, defender o mercado interno de setores especialmente atingidos pelo intenso crescimento das importações, reduzir tributos de bens de consumo, sem que o ritmo de atividade tenha, até o momento, dados sinais de reanimação. Ver no Gráfico 1 o declínio acentuado da taxa de crescimento do PIB no acumulado de quatro trimestres.

Reação

Diferentemente da reação adotada em 2009, muito mais incisiva frente a um quadro mais agudo da crise naquele momento, as medidas vem sendo tomadas de forma progressiva, agregando novos instrumentos quando se conclui que os estímulos anteriores não foram suficientes para reaquecer a demanda agregada da economia.

Também diferentemente de 2009, o governo optou, até o momento, por não utilizar uma política de gasto público de caráter anticíclico, colocando suas fichas na recuperação na demanda das famílias e das empresas. Atento à intensificação dos sinais de instabilidade nos países com situações fiscais mais fragilizadas da Zona do Euro, o governo brasileiro vem buscando preservar a meta de superávit primário estabelecida para o ano, como forma de assegurar a trajetória declinante das taxas de juros.  

Quando se decide por intensificar os gastos, busca destravar o investimento público e não as despesas correntes, inclusive com a ampliação da oferta de crédito para os estados, como foi anunciada em reunião na última sexta-feira sobre a disponibilidade de 20 bilhões de reais por meio do programa de Pro-Invest, voltado para as obras de infraestrutura.    


Fonte IBGE: Contas trimestrais


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Como foi construído o Brasil Moderno

Entrevistas com ex-presidentes, diretores do BNDES e lideranças empresariais, no âmbito do projeto O papel do BNDE na industrialização do Brasil – Os anos dourados do desenvolvimentismo – 1952-1980, foram publicadas pelo Centro Internacional Celso Furtado em 2009. 

Lucas Lopes, Roberto Campos,Celso Furtado, Ignácio Rangel, Conceição Tavares, dentre outros, apresentam suas visões sobre um período muito rico da história econômica do país.

O documento mostra um pouco como foi construído o Brasil Moderno.  Ver link a seguir.

http://www.centrocelsofurtado.org.br/interna.php?ID_M=138

domingo, 10 de junho de 2012

Exportações sergipanas batem recorde em doze meses



Ricardo Lacerda


As exportações sergipanas finalmente se recuperaram de forma robusta em 2012, depois de terem sido fortemente atingidas pela crise financeira internacional de setembro de 2008. Muito dependentes do desempenho das vendas de suco concentrado de laranja, as exportações sergipanas se ressentiram profundamente da baixa cotação do produto no mercado internacional. O preço médio da tonelada exportada por Sergipe de suco concentrado de laranja em 2009 caiu a menos da metade da cotação de 2007. Porém, desde meados de 2010, o preço do produto apresentou notável recuperação no marcado internacional, criando estímulo para a retomada das exportações sergipanas.

Entre janeiro e maio de 2012, as exportações sergipanas alcançaram US$ 66 milhões, frente aos US$ 38,6 milhões do mesmo período de 2011, uma expansão de 71%. Nos doze meses completados em maio de 2012, as exportações sergipanas somaram US$ 149,8 milhões, o mais alto resultado alcançado para o período e 63% superiores aos US$ 91,7 milhões dos doze meses completados em maio de 2011, superando ainda em 13% o recorde anterior, de maio de 2008 (ver Gráfico 1).


Fonte: MDIC/SECEX


terça-feira, 5 de junho de 2012

Visitações em maio

O numero de visitações ao blog Cenários de Desenvolvimento bateu recorde em maio: 12.313. O pico se deu no dia 28, com 633 visitações. Deve vigorar alguma Lei de crescimento da clientela adaptada a ambientes virtuais para explicar a expansão geometrica. Obrigado a todos os visitantes, intencionais ou ocasionais!

domingo, 3 de junho de 2012

A Usina de Biomassa Gentil Barbosa e a agroindústria canavieira em Sergipe

Ricardo Lacerda

Foi inaugurada na última terça-feira, no município de Nossa Senhora das Dores, a Usina Elétrica Renovável Gentil Barbosa, com capacidade de gerar 34 MW a partir do aproveitamento da biomassa da cana, oferta suficiente para atender as necessidades do complexo agroindustrial e o equivalente ao consumo conjunto dos municípios de Lagarto e Itabaiana.

A implantação da unidade de biomassa do grupo Agroindustrial Campo Lindo simboliza a nova etapa que vivencia a agroindústria canavieira em Sergipe, que procura se afastar do modelo tradicional e estigmatizado do setor e enveredar para a formação de um complexo produtor de energia. O investimento na unidade geradora de energia a partir de biomassa, da ordem de R$ 100 milhões, eleva para R$ 300 milhões o investimento realizado no complexo, com a criação de três mil empregos diretos formais, com grande impacto na economia da região. Em uma terceira fase, o grupo efetuará investimentos na produção de energia elétrica de origem eólica, com a implantação de mais de cinquenta torres em meio ao canavial.

Sucroenergético

Alerta-nos Marco Aurélio Déda, que desenvolve estudo instigante sobre a competitividade das atividades da agroindústria canavieira no Nordeste, que a tradicional indústria açucareira brasileira desde 2010 passou a ser referida como indústria sucroenergética para caracterizar mais adequadamente os mercados em que as empresas atuam. Na safra 2008/9, 61% do chamado ATR- Açúcar Total Recuperável da cana brasileira foram destinados à produção de etanol e os demais 39% à produção de açúcar. Trata-se, portanto, de, crescentemente, competir no mercado de combustíveis, ainda que o mercado do açúcar deva continuar respondendo por uma parcela ampla da atividade.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Nordeste e a Crise

Ricardo Lacerda

Os mecanismos pelos quais os estímulos (e os desestímulos) à demanda agregada operam sobre o nível de atividade econômica das regiões nunca foram suficientemente investigados. A redução do IPI na aquisição de veículos, por exemplo, certamente tem impactos maiores sobre o nível de atividade nos estados que sediam as montadoras do que nos demais, ainda que não se saiba exatamente como se distribuem espacialmente os efeitos diretos e indiretos da medida.

No primeiro momento, perdem os estados mais pobres, com a redução de aporte de recursos para o FPE e FPM (fundos de participação dos estados e dos municípios, respectivamente), os maiores beneficiários dos fundos, enquanto os mais ricos não apenas deixam de ter o vazamento de renda com o recolhimento do tributo, como têm uma resposta mais imediata em termos de geração de emprego, recuperação do comércio e na arrecadação de ICMS.

Mas os efeitos não se limitam aos impactos mais diretos. A recuperação do nível de atividade da indústria automobilística pode ajudar a reverter o marasmo econômico atual e afastar os riscos da estagnação, e termina, por uma multiplicidade de canais, repercutindo positivamente no nível de atividade dos estados mais pobres, ainda que menos do que proporcionalmente.

Oscilações no câmbio, na taxa de juros, no volume de crédito, nos gastos públicos, aumentos reais no salário mínimo etc repercutem de formas distintas entre as regiões, mesmo considerando que o grau de integração produtiva e comercial entre elas e os mecanismos de transferências de renda funcionem como contrapeso, e venham assegurando taxas de crescimento relativamente próximas entre os estados da federação.

Nordeste

Desde o inicio do ciclo expansivo, em 2004, as regiões mais pobres vêm apresentando taxas de crescimento mais elevadas do que as alcançadas nos estados mais industrializados. Gastos federais em infraestrutura, elevação real do salário mínimo, expansão do crédito, bancarização da população e diversas modalidades de transferência de rendas foram alguns dos mecanismos que incidiram mais intensamente no Norte, Nordeste do que nas regiões Sul e Sudeste. O crescimento do Centro-Oeste é ainda estimulado pela valorização das commodities no mercado internacional.

Quando em 2008 a crise financeira internacional impactou fortemente o nível de atividade interna, a resposta do governo brasileiro centrada no estímulo ao mercado de consumo novamente favoreceu as economias das regiões mais pobres, mas isso não significou que o setor produtivo delas não tenha sido afetado.

domingo, 20 de maio de 2012

O consumo e a queda na produção industrial


Ricardo Lacerda

Analistas têm repetido que o modelo de crescimento puxado pelo consumo, marca do governo Lula, teria se exaurido e que o governo Dilma somente engrenaria novo ciclo de altas taxas de crescimento se a economia passar a ser movida por incrementos de produtividade que elevassem a competitividade da produção doméstica, notadamente no setor industrial. Não estou tão seguro quanto a esse esgotamento do ‘modelo de crescimento”. Não acredito mesmo que existam evidências que autorizem tal tipo de conclusão. Além disso, esse argumento já foi utilizado anteriormente e se mostrou equivocado.

De fato, a ampliação do poder de compra das famílias, por meio de aumentos reais de salário mínimo, das transferências de renda e da ampliação do crédito, pôs em movimento, ainda em 2004, um ciclo expansivo que se realimentava na medida em que o emprego e o poder de compra se ampliavam. É a combinação do aumento do poder e compra das famílias com os preços favoráveis das commodities brasileiras no mercado internacional que deram partida ao ciclo de crescimento.

Quando a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, prenuciou o fim dos tempos, o governo brasileiro dobrou a aposta na ampliação do mercado de consumo, promovendo a redução de tributos incidentes sobre os bens duráveis, mantendo os aumentos reais de salário e irrigando os canais de crédito, o que permitiu uma recuperação rápida e exemplar da atividade econômica ainda em 2009.

Desaceleração

O que sustou a continuidade do ciclo expansivo em meados de 2011, portanto já no governo Dilma, não foi nenhum esgotamento do potencial de crescimento puxado pela expansão do consumo e sim a excessiva retração dos gastos decorrente da sobreposição da nova fase da crise internacional com as medidas restritivas adotadas internamente.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nova queda da produção industrial no 1º trimestre



Ricardo Lacerda

A economia mundial experimenta tempos extraordinários, enfrentando desde meados de 2011 uma recidiva da crise iniciada ainda em 2007. A resposta brasileira à forte deterioração do cenário internacional no final de 2008, com o estímulo ao poder de compra interno, propiciou que a nossa economia recuperasse rapidamente a trajetória de crescimento e venha mantendo taxas elevadas de geração de emprego.

Acompanhando atenta a Europa se desmanchar nessa nova etapa da crise, a gestão da política econômica tornou-se mais complexa no seu intento manter a sustentabilidade do crescimento econômico, mesmo a taxas mais modestas. Como é recorrente nesses momentos, alguns especialistas reagem negativamente às medidas menos ortodoxas adotadas e clamam por mais juros e menos ações de defesa da indústria, paladinos que são da austeridade e do livre comércio. Em um momento em que os reflexos da crise mundial ameaçam não apenas a continuidade do crescimento mas a própria integridade de nossa estrutura industrial, não se sabe se tais posicionamentos são um caso de oportunismo ou de dissociação da realidade.

Produção trimestral

Os números da produção física da indústria brasileira, apresentados pelo IBGE na semana que passou, ilustram o momento difícil do setor. A produção física recuou 2,1% em março de 2012 em relação ao mesmo mês do ano anterior. No trimestre, a retração atingiu 3% e nos últimos doze meses a queda foi de 1,1%. Em relação a fevereiro, na série livre de efeitos sazonais, a produção industrial de março caiu em 18 dos 27 ramos pesquisados. A tabela apresentada resume a extensão e a profundidade da retração:no 1º trimestre a produção física de bens capital caiu 11,4%, a de bens duráveis, 11,6%, de bens intermediários, 1,3%, e apenas os não duráveis e semiduráveis apresentaram modesto crescimento, de 0,9%.

domingo, 6 de maio de 2012

A cultura do milho e a seca

Ricardo Lacerda

A cultura do milho tem grande significado para o semiárido nordestino. Tradicional cultura da região, ao lado da mandioca e do feijão, a produção de milho se expandiu intensamente na última década, mais do que dobrando a quantidade produzida, enquanto as outras duas culturas apresentaram evoluções mais modestas.

Entre as médias de 1998-2000 e 2008-2010, a produção de milho do Nordeste aumentou 126%, frente a 26% de incremento da cultura da mandioca e 6% do feijão. Com a elevação do preço internacional do produto, em grande parte associada à expansão da fabricação de etanol nos Estados Unidos, o cultivo de milho acelerou seu ritmo de crescimento no Brasil. O Departamento de Agricultura americano estima mesmo que a utilização de milho na safra 2011/2012 para a produção de combustível deverá superar o montante consumido na fabricação de rações.

Nordeste

A produção de milho do Nordeste vem crescendo em ritmo mais acelerado do que a média do Brasil, com taxas de expansão somente inferiores às alcançadas pelo Centro-Oeste. A constatação vale tanto para o período mais recente, pós-2008, quanto para a última década como um todo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A geração de emprego no 2º trimestre


Ricardo Lacerda

A expansão da atividade sucroalcooleira nos últimos anos em Sergipe propiciou a ampliação de emprego formal no setor agropecuário e na fabricação do açúcar e do álcool. Também foi fundamental para a interiorização do emprego com carteira assinada, com a criação de milhares de ocupações nos territórios do Leste e do Médio Sertão, notadamente nos municípios de Capela e de Nossa Senhora das Dores.  

O crescimento dessa atividade, com o aumento do seu peso no emprego total, teve como efeito colateral a intensificação da variação sazonal na geração de emprego, aumentando a participação das contratações a partir de junho de cada ano, mas diminuindo a ocupação nos primeiros meses do ano e muito particularmente entre março e maio. Esse comportamento sazonal se verifica em todos estados do leste nordestino, sendo mais acentuado em Alagoas e Pernambuco, detentores das maiores áreas de cultivo de cana. Com o crescimento dessa lavoura em Sergipe, elevou-se a participação do 3º trimestre no total de contratação anual e, em menor escala, do 4º trimestre, enquanto reduziu-se o peso do 2º trimestre.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O emprego no 1º trimestre: a força da construção civil


Ricardo Lacerda

O comportamento do emprego formal em Sergipe permaneceu muito positivo nesse início de 2012. Entre janeiro e março foram criados 2.977 empregos formais, o melhor resultado já registrado para o 1º trimestre. Nos doze meses completados em março foram criados 18.537 novos empregos com carteira assinada na série estatística do MTE com ajustes, que considera as declarações fora de prazo.

A taxa de crescimento do emprego formal nesses doze meses alcançou notáveis 7,12%, muito elevada, considerando o ritmo relativamente menor do crescimento econômico desde meados de 2011. Foi a segunda taxa mais alta de crescimento do emprego formal do Nordeste, depois de Pernambuco, e a sexta do país (ver Gráfico 1). Na média do Nordeste, o emprego formal cresceu 5,29% e no Brasil, 4,82%.

Fonte: MTE- CAGED
1º trimestre

A geração de emprego no 1º trimestre do ano é sempre menos intensa do que no restante do ano. Em geral a indústria de transformação inicia o desligamento de parcela do pessoal contratado para abastecer as vendas de final de ano ainda em novembro e somente tende a reiniciar a contratação no segundo trimestre. O comércio promove corte acentuado no final de dezembro e retoma de forma crescente a admissão também no 2º trimestre, alcançando o pico de contratação nos últimos meses do ano. Some-se a esses desligamentos à redução de pessoal do setor sucroalcooleiro por ocasião do final da safra e se tem delineado o cenário do mercado de trabalho no 1º trimestre de cada ano.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ocupação e estabilidade no emprego

O ciclo de crescimento econômico iniciado em 2004 produziu forte impacto sobre a ocupação formal e informal. Mais brasileiros de todas as regiões conseguiram se inserir no mercado de trabalho em condições melhores do que em períodos anteriores.

O aspecto mais significativo foi a queda do desemprego aberto. A taxa de desocupação das regiões metropolitanas caiu de 12,4%, na média de 2003, para 6,0%, em 2011, o melhor resultado da série histórica. Mesmo com a desaceleração do crescimento econômico desde meados de 2011, a taxa de desocupação manteve sua trajetória de declínio (ver Gráfico 1).


Fonte: IBGE- PME.

Especialmente benvindo foi o aumento da taxa de formalização do emprego que subiu 10,1 pontos de porcentagem, passando de 43,5% da população ocupada de 2003 para 53,6% em 2011. Quando são considerados apenas os trabalhadores do setor privado, a taxa de formalização alcançou 48,5%, em 2011, frente a 39,7%, em 2003. Mesmo em ano de queda do PIB, como em 2009, ou de crescimento mais modesto, como em 2011, a geração de emprego formal manteve-se firme, alcançando 4,4%, no primeiro, e 5,5%, no último, na série Caged sem efeito sazonal.

De natureza diferente tem sido a relação entre crescimento econômico e estabilidade no emprego. Tida pelo senso comum como um bem para o trabalhador, a estabilidade média no emprego tem sido menor e não maior, mesmo com o emprego em forte expansão, é o que indica o aumento da rotatividade.

domingo, 8 de abril de 2012

A estagnação da produção industrial

Mudanças de grande vulto estão em andamento na economia mundial. As economias dos países ricos enfrentam em 2012 o quinto ano de baixo crescimento, a contar de 2007. Apenas em 2010, quando parecia que o pior da crise financeira internacional já havia passado, o produto interno dessas economias alcançou taxa de crescimento de 3%. A projeção do FMI, elaborada em setembro de 2011 e naturalmente sujeita a revisões, é de que o ritmo lento nas economias centrais deverá se estender até 2016.

Enquanto isso, a China mudou o seu peso e o seu papel na economia global. No período 2007-2011, as economias avançadas tiveram crescimento de apenas 3,7%, a Zona do Euro, de 2,4%. A China cresceu 65% e o Brasil e a América Latina, um pouco acima de 20%. A economia da China em 2011 era cerca de três vezes maior do que em 2000, a da América Latina, 45% maior, a do Brasil, 47% maior, enquanto nas economias avançadas o PIB era apenas 19% superior e na Zona do Euro, 14%.

O acelerado avanço do gigante asiático vem transformando as relações entre as economias nacionais, com grande impacto sobre o Brasil, impulsionando intensamente a produção de commodities agrícolas e minerais, mas com efeitos perversos sobre a indústria de transformação.

É difícil estimar o quanto das dificuldades atuais da nossa indústria de transformação se deve à desaceleração do crescimento econômico desde meados de 2011 e o quanto cabe às transformações na economia mundial. Há, assim, fatores estruturais e conjunturais atuando no atual quadro de estagnação da indústria brasileira.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Densidade populacional e desenvolvimento (final)

Ricardo Lacerda



A distribuição da população no território sergipano apresenta algumas características similares às dos demais estados localizados nas áreas mais orientais do Nordeste, marcados pelo processo de ocupação a partir da implantação da economia canavieira, mas guarda também algumas peculiaridades. As terras mais férteis das regiões mais próximas do litoral apresentam maior densidade populacional enquanto aquelas situadas no agreste e no sertão contam com população relativamente mais dispersa. Com base nas características naturais, foram implantados, ao longo do tempo, sistemas de produção agrícola com distintos padrões de ocupação de terras e que resultaram na formação de diferentes redes de cidades. É a evolução desses sistemas de produção e o crescimento das cidades que explicam parte considerável da distribuição da população entre as regiões sergipanas.

Evolução

Desde o início da década de setenta, as atividades urbanas vêm ganhando peso na economia sergipana, em ritmo acelerado, incorporando novos determinantes à distribuição espacial da população. A aceleração da industrialização e a implantação de grandes empreendimentos para a exploração de riquezas minerais, em parte por meio da geração de emprego direto, mas, sobretudo, pela injeção de renda que proporcionam para as famílias e para o setor público, passam a ter um papel crescente na distribuição da população. Empreendimentos vinculados à exploração de petróleo e gás, do potássio, do calcário para a fabricação de cimento e a instalação da Usina Hidroéletrica de Xingó tornaram-se vetores que, direta e indiretamente, atraíram populações para municípios que os sediam. Para alguns municípios, a instalação de fábricas de calçados e de usinas de açúcar, tem concorrido, nos últimos anos, para o crescimento populacional

Mas não desprezemos a força da expansão de sistemas agrícolas, como a citricultura no Sul do Estado nos anos setenta e oitenta, e mais recentemente dos assentamentos rurais no Alto Sertão, como fatores que atuaram sobre a distribuição espacial da população.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Densidade populacional e desenvolvimento

Ricardo Lacerda
É do senso comum que regiões e localidades com melhores recursos naturais atraem mais pessoas, formando maiores aglomerações populacionais e redes de cidades de malha mais estreita, com menores distâncias entre os centros urbanos. Não custa lembrar o contraste entre a elevada densidade populacional na Zona da Mata, com solos mais adequados para a agricultura e menos sujeita a estiagens, e a população relativamente rarefeita do semi-árido nordestino, com características climáticas mais inóspitas. 
Além da geografia, a história também conta. Uma vez criadas as aglomerações humanas, a partir de um evento inicial de motivação econômica, política ou religiosa, operam-se mecanismos de autorreforço que podem as fazer crescer cumulativamente. Novos eventos ao longo da história, como mudanças econômicas, tecnológicas ou institucionais (de caráter endógeno ou exógeno), a exemplo do efeito do surgimento da indústria de pneumáticos na virada para o século XX sobre a extração do látex das seringueiras da Amazônia, abrem possibilidades de mudar a distribuição espacial da população.
A evolução dos meios de transporte e as mudanças nas restrições legais à migração cumprem seu papel, o que deixa a nossa análise referenciada apenas a movimentações internas. Ficando posta a questão, passemos a observar os indicadores de densidade populacional dos estados brasileiros e dos territórios e municípios sergipanos.

domingo, 18 de março de 2012

O curto e o longo prazos

Ricardo Lacerda
O Brasil vive tempos extraordinários, com imensas oportunidades e algumas incertezas inquietantes. O ciclo expansivo recente, iniciado em 2004, incluiu 17 milhões de trabalhadores no mercado formal, retirou da pobreza extrema mais de 30 milhões de pessoas, elevou o rendimento médio do trabalho e mais do que duplicou o acesso das famílias ao crédito fatores que, no conjunto, propiciaram taxas de crescimento sustentadas que não se viam desde meados dos anos oitenta e que causaram forte ampliação do mercado do interno.
O aspecto inclusivo desse ciclo virtuoso, de sua essência mesmo, pode ser sintetizado no crescimento de maior intensidade nas regiões mais pobres e entre as pessoas de renda mais baixa, diferenciando-se dos ciclos de crescimento dos anos sessenta e setenta. Os programas de transferência de renda também foram importantes nesse aspecto.
Convergência
Levantamento do CPS/FGV, com base nos dados da PNAD, informa que o rendimento per capita domiciliar cresceu 24,4% no Brasil, entre 2001 e 2009, sendo que no Nordeste essa taxa alcançou 43,2%, e no Sudeste, a região mais rica, 16,4%. Ou seja, enquanto o rendimento per capita familiar na média nacional cresceu 2,7% ao ano, o do Nordeste aumentou 4,6%. Sergipe liderou o crescimento entre os estados, com expansão de 58,6%, no período, ou 5,9% ao ano (ver Gráfico 1).
Fonte: CPS/FGV,com dados da PNAD.
Esse ciclo é extraordinário, repito, porque ampliação tão intensa no mercado interno dá uma outra dimensão ao país e cria oportunidades de investimento na expansão e diversificação dos negócios, inclusive nas regiões mais pobres. São mais pessoas consumindo, com emprego mais estável e rendimentos mais elevados (Gráfico 2).
Fonte: Extraído de Ministério da Fazenda. Economia brasileira em perspectiva. 14.
 Ed. Especial de fevereiro de 2012, com dados da PNAD.

As oportunidades estão relacionadas, também, à exploração de recursos naturais para a expansão da produção de commodities agrícolas e minerais cujas demandas passam por um longo ciclo de aquecimento associado ao crescimento dos países emergentes puxado, principalmente, pela economia chinesa.
Incertezas
Incertezas relativas a questões externas e internas podem perturbar o ciclo de crescimento, algumas delas mais associadas ao curto prazo e outras a aspectos mais estruturais. No curto prazo, o desafio é manter o crescimento da economia e a inflação sob controle em um cenário de crise prolongada na Europa e de recuperação ainda titubeante da economia americana.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O PIB e os juros

Ricardo Lacerda
O IBGE anunciou durante a semana o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2011. A modesta taxa de crescimento, de 2,7%, na comparação com o ano anterior confirma as piores estimativas de desaceleração do nível de atividade econômica no segundo semestre de 2011. Foram dois trimestres de economia estagnada: retração de 0,07% no 3º trimestre, no dado revisado, e crescimento de 0,34% no 4º trimestre (ver Gráfico 1).
Ainda que alguns analistas tenham assinalado que o resultado de 2011já não refletiria o ritmo de atividade atual e que o país já teria reencontrado a trajetória de recuperação nos primeiros meses de 2012, com projeção de crescimento de até 5% ao longo do ano, as autoridades econômicas não parecem tão confiantes, a julgar pelo conjunto de medidas que vêm sendo adotadas para reanimar o nível de atividade. É importante ter em mente que o crescimento pífio do último trimestre de 2011 resulta em uma taxa anualizada de apenas 1,36%.
Fonte: Contas trimestrais. IBGE

segunda-feira, 5 de março de 2012

A desaceleração do nível de atividade no 2º semestre de 2011



Ricardo Lacerda

Foi intensa a desaceleração do nível de atividade da economia brasileira no segundo semestre de 2011, na esteira das medidas restritivas adotadas pelo governo para fazer frente à pressão nos preços, associada, em parte, ao excessivo aquecimento do ano anterior. Com a piora do cenário externo, a desaceleração foi mais forte do que a pretendida, provocando uma reversão na política monetária a partir de meados de 2011 para reanimar o nível de atividade, e levando à adoção de uma série de medidas defensivas, de espectro relativamente amplo, voltadas para o setor industrial, que simplesmente parara de crescer.

Depois de atingir 4,2% no 1º trimestre do ano, a taxa de crescimento do PIB passou a apresentar uma trajetória fortemente declinante, até atingir 2,1% no 3º trimestre de 2011, em relação ao mesmo período do ano anterior. Para a média do ano, as estimativas apontam para uma expansão do PIB de 2,8%, portanto, um pouco abaixo do patamar de 3% que, informalmente, o governo considera necessário para sinalizar, interna e externamente, que terá continuidade o ciclo pujante de transformações econômicas e sociais pelo qual vem se notabilizando o país desde 2004.

Nordeste

A evolução do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), que busca antecipar os resultados do PIB, sintetiza o desaquecimento da economia brasileira no segundo semestre de 2011.

Depois de iniciar o ano de 2011 com taxa de crescimento de 4,81%, o IBC-BR, já livre de efeitos sazonais, desacelerou fortemente a partir de agosto (situação agravada por problemas de estoque na indústria automobilística), atingindo o fundo do poço no mês de outubro, quando o crescimento em relação ao mesmo mês do ano anterior se limitou a 0,4% (ver Gráfico 1). Nos meses de novembro e dezembro, já como resposta aos estímulos da política monetária, o IBC-BR ensaiou uma retomada moderada.

A desaceleração do nível de atividade também atingiu a economia dos estados nordestinos. As medidas de restrições ao crédito, a elevação na taxa de juros, a moderação na expansão dos gastos federais, o crescimento mais modesto do salário mínimo e a piora nas expectativas levaram a que a economia da região tivesse, também, uma forte desaceleração, que foi agudizada pelo impacto do aumento das importações de têxteis e de calçados sobre a sua produção industrial.

Ainda assim, durante todo o ano, a taxa de crescimento do IBC-NE se manteve acima do IBC-BR, como mostra o Gráfico 1, o que antecipa para 2011 uma taxa de expansão do PIB também superior para o Nordeste.

Fonte: Banco Central

sexta-feira, 2 de março de 2012

Visitação

Talvez pela vigencia da Lei da acumulação de clientela, a visitação ao blog Cenarios de Desenvolviimento vem em trajetória crescente. Atingiu o pico de 255 visitas no dia 28 de fevereiro. Ao longo do mês de fevereiro o blog recebeu 4.285 visitas. O recorde é do mês de novembro, com 5.521.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O comportamento do FPE e as finanças estaduais



Ricardo Lacerda

O Fundo de Participação dos Estados (FPE) é um dos principais instrumentos de descentralização tributária que conta a federação brasileira. É, de fato, um dos instrumentos mais efetivos de solidariedade entre as unidades federativas, na medida em que mobiliza valores expressivos e em que os maiores contribuintes dos fundos são os estados mais ricos e os maiores beneficiários são os de menor renda per capita, localizados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, concorrendo para a redução das disparidades regionais de desenvolvimento nos últimos decênios.

FPE e ICMS

Com essas características, o FPE é muito mais significativo para as finanças dos estados menos industrializados e de menor renda per capita do que para os estados com base produtiva mais ampla, em que outras receitas ganham maior expressão. O Gráfico 1 apresenta uma comparação entre os valores do FPE e do ICMS para os estados brasileiros, com dados de 2010, ordenando-os segundo o peso do FPE na soma dessas duas fontes de receita.



Fonte: ICMS (Cotepe-Confaz); FPE (STN), deduzidos os repasses do FUNDEB.

Em alguns estados da Região Norte, como Amapá, Roraima e Acre, com estreita base industrial, a receita do FPE em 2010 representou mais do que o dobro arrecadado com o ICMS. Para a maioria dos estados do Nordeste, já descontados os 20% para o Fundo de Educação do Ensino Básico (FUNDEB), o FPE participou com uma parcela muito significativa da receita corrente, respondendo por mais de 30% da soma do agregado FPE-ICMS. Diferentemente, nos estados mais ricos ou mais industrializados, o FPE é uma parcela infirma desse agregado, como no caso de São Paulo, em que não atingia 1% (Ver Gráfico 1).

Evolução

Para aqueles estados, como Sergipe, em que o FPE representa uma parcela elevada da receita corrente, os anos de 2009 e 2010 foram muito ruins, com uma perda de recursos que mesmo o bom desempenho de 2011 não conseguiu compensar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O projeto carnalita



Ricardo Lacerda

A Vale e a Petrobras anunciaram no inicio de fevereiro o fechamento do acordo para o arrendamento por 30 anos das reservas de carnalita em Sergipe. Não foi uma negociação fácil. A própria Presidente da República Dilma Rousseff, por interveniência do Governador Marcelo Déda, precisou aproximar as partes para que a negociação chegasse a bom termo, depois de um longo impasse sobre a extensão das reservas, em virtude de sobreposição de jazidas de petróleo e de carnalita em algumas áreas, e sobre as contrapartidas envolvidas. Segundo a imprensa, o acordo não passou por desembolso financeiro imediato ou cessão de patrimônio pela Vale e sim pelo compartilhamento de receitas futuras do empreendimento, mas essa informação ainda carece de confirmação.

O Projeto Carnalita, como explica a Vale, tem como objetivo a produção de cloreto de potássio (KCl) por meio de “lavra de dissolução”, produzindo uma salmoura rica de sais de potássio, sódio e magnésio.

Para Sergipe, o Projeto Carnalita, em primeiro lugar, assegura a continuidade da produção de potássio por mais 30 anos. A produção hoje realizada a partir da silvinita deverá entrar em processo de declínio nos próximos anos. Mas outros aspectos também são relevantes.

Os números do projeto são de impressionar: o investimento deve alcançar US$ 4 bilhões, montante muito superior a qualquer outro já realizado em Sergipe por uma empresa privada e a empresa prevê a geração de até 4 mil empregos durante a implantação e cerca de mil empregos na operação. O leitor pode avaliar o impacto que tal empreendimento deverá ter sobre o mercado de trabalho e sobre o volume de recursos circulando na economia sergipana. Por tudo isso, não é exagero afirmar que se trata do mais importante empreendimento produtivo já realizado em Sergipe, depois da exploração de petróleo.

Outro aspecto é que o Projeto Carnalita integra o plano da empresa Vale de ampliar os seus investimentos na área de fertilizantes, em que o país é altamente dependente de importações.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Balança comercial e transações correntes em 2011

Ricardo Lacerda

A temática do setor externo da economia brasileira não tem recebido muita atenção por parte dos analistas e do público em geral. Afinal, a posição de nossas reservas internacionais que, no conceito de liquidez, atingiram o montante de US$ 352 bilhões ao final de 2011, propicia uma sensação de conforto nas relações externas, deixando para trás, espera-se que definitivamente, os tempos mais duros de intensa instabilidade, de forma que assistimos com relativo distanciamento, como em um filme que mostra uma paisagem exótica, os abalos financeiros dos países da periferia européia.

Todavia, acompanhar com acuidade as relações econômicas externas é importante não apenas nos momentos de crise aguda, seja porque elas afetam a dinâmica econômica interna do momento atual, seja porque antecipam os possíveis desdobramentos nos anos seguintes. Em geral, o público presta mais atenção ao saldo da balança comercial, que compara exportações e importações, e a variação das reservas internacionais, não se detendo na conta de serviço e na conta das transações de capital.

No final de janeiro, o Banco Central publicou a Nota do Setor Externo referente ao ano de 2011. O balanço de pagamentos registrou superávit de US$ 58,6 bilhões, impactando positivamente no volume de nossas reservas internacionais. A balança comercial, em 2011, apresentou uma importante melhoria, alcançando o saldo de US$ 29,8 bilhões, frente aos US$ 20,1 bilhões do ano anterior, por conta do excelente desempenho das exportações que bateram recorde, alcançando o montante de US$ 256 bilhões, um incremento de 26,%. As importações também tiveram crescimento robusto em 2011, de 24,5%.

Déficit corrente

Os resultados muito favoráveis na balança comercial e no saldo final do balanço de pagamento deixaram em segundo plano o fato de que a conta de transações correntes atingiu o maior déficit já registrado, U$ 52,6 bilhões. Como a conta de transações correntes é a soma da balança comercial e da balança de serviços e rendas, e como o saldo comercial foi muito favorável, isso implica que o saldo de serviços e rendas foi desfavorável e de dimensão muito grande (US$ 85,3 bilhões). Desse total, US$ 39,9 bilhões correspondem ao déficit que tivemos nos chamados serviços produtivos, incluindo turismo, seguro, aluguel de máquinas e equipamentos, frete, consultoria, entre outros, e o déficit US$ 47,3 bilhões de rendas, incluindo pagamento de juros e remessas de lucro. Não são valores desprezíveis.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Produção industrial e desindustrialização

Ricardo Lacerda

A crise financeira internacional vem impondo novos desafios para a indústria brasileira. A estagnação da produção industrial em 2011, com taxa de crescimento de apenas 0,3%, gerou uma onda de pessimismo sobre o futuro da indústria e reabriu a temporada de vaticínios sobre a desindustrialização do país.

O debate, da forma como vem se desenvolvendo, produz mais calor do que luz. É muito difícil captar o quanto das dificuldades recentes da indústria brasileira decorre de fatores conjunturais, como a valorização do real, a queda da demanda nos mercados centrais e o recrudescimento do protecionismo comercial, e quanto se relaciona com transformações mais estruturais, como a ascensão da China no cenário mundial, o deslocamento da indústria manufatureira do ocidente para o extremo-oriente e mesmo de uma mudança de mais longo prazo do patamar do câmbio e dos salários reais no Brasil.

Em outros termos, cabe perguntar quais são as possibilidades de crescimento da indústria brasileira quando as economias centrais retomarem um ritmo de crescimento de 3% ao ano e as medidas de proteção aos mercados internos refluírem. Assim como não está fora do horizonte os Estados Unidos se reinventarem enquanto nação manufatureira, o Brasil poderá retomar a trajetória expansão sustentada e menos errática da produção industrial. O câmbio faz muita diferença.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O emprego formal em 2011


Ricardo Lacerda

O Ministério do Trabalho e do Emprego apresentou os dados de geração de emprego celetistas de 2011, fornecidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). Foram criados no Brasil 1.944.560 empregos formais celetistas, sem considerar os vínculos do regime estatutário do setor público. Foi um bom resultado. Ainda que a criação de novos empregos tenha sido 23,5% inferior aos 2.543.177 de 2010, o ano de 2011 apresentou a segunda melhor geração de emprego da série histórica.

Formalização

O ciclo expansivo da economia brasileira, iniciado em 2004, promoveu melhoras substantivas na situação do mercado de trabalho, como demonstra a queda da taxa de desocupação nas regiões metropolitanas de 12,4%, em 2003, para 6%, em 2011, segundo a pesquisa mensal do emprego do IBGE. A melhoria no mercado de trabalho propiciou, entre outras coisas, que o percentual de empregados formais do setor privado nessas áreas tenha passado, nesse período, de 39,7% para 48,5%, mesmo considerando que a porcentagem ainda muito elevada de pessoas na informalidade denuncie a fragilidade estrutural da ocupação no Brasil.

O movimento em direção à maior formalização na atividade privada tem se refletido também em certo descolamento da taxa de crescimento do emprego formal em relação ao crescimento do PIB, em parte por conta da expansão maior de atividades mais intensivas em trabalho, como as do setor de serviços, comparativamente ao setor industrial (ver gráfico). Em 2011, o emprego formal celetista aumentou em 5,4%, frente ao crescimento estimado de 2,9% no PIB.


Fonte: IBGE e MTE-CAGED.
Obs*: Estimativa de mercado para o crescimento do PIB em 2011.

Sergipe

Nos últimos anos, o emprego formal em Sergipe também vem crescendo acima do PIB. Entre 2007 e 2011, o emprego formal celetista em Sergipe apresentou uma taxa anual de incremento de 7,9%, frente à média nacional de 6% e à média nordestina de 7%.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Índice de pobreza e vulnerabilidade das famílias

Ricardo Lacerda

 O IPEA publicou na semana passada o Índice de Vulnerabilidade das Famílias, com recortes por região, unidade da federação, rural/urbano e metropolitano/ não metropolitano. O objetivo do índice é o de tentar identificar os perfis das famílias brasileiras a partir do conceito de vulnerabilidade, que considera a pobreza como um fenômeno multidimensional, em que a carência de renda é apenas uma das dimensões. Também são consideradas as dimensões da própria estrutura da família, o acesso ao trabalho, o desenvolvimento infanto-juvenil e as condições habitacionais.

Os estudos sobre desenvolvimento e pobreza avançaram muito nas últimas décadas. Há muito tempo que a renda per capita e o PIB per capita deixaram de ser a expressão que sintetizava o grau de desenvolvimento econômico e social de um país ou de uma região. A simples troca de indicadores de rendimentos médios, que escondem as situações extremas (os muito ricos e os muito pobres), por indicadores que consideram a distribuição já permite identificar o quantitativo de pessoas em situação de pobreza e abre a possibilidade de localizar as famílias que deverão se constituir alvos prioritários das políticas públicas.

Laranjas e maçãs

Mas, até esse ponto, nosso índice conta apenas com uma variável (rendimento familiar per capita) e apenas uma dimensão (o rendimento). Mais complexo vai se tornando quando outras variáveis e outras dimensões vão sendo agregadas. É isso o que faz a medida de vulnerabilidade do IPEA; é um índice que sintetiza 6 dimensões, 26 componentes e 48 indicadores para caracterizar a situação de pobreza e vulnerabilidade das famílias (ver em http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/120117_comunicadoipea131.pdf).

Quando aprendemos contabilidade social nas escolas de economia nos ensinam que não é possível somar maçãs com laranjas no cálculo do Produto Interno Bruto. É necessário reduzir todos os bens e serviços que o compõem a uma unidade comum para se obter o resultado agregado, o PIB, expresso em termos monetários. Como, então, agregar a estrutura das famílias, os seus rendimentos, as condições de habitação etc? Com o avanço dos métodos quantitativos, os economistas foram elaborando índices multivariados, somando maçãs, laranjas, presença de idosos e crianças na família e existência de esgotamento sanitário no domicílio em um único índice, por meio da padronização e da estipulação de peso para cada componente.

Fiz este longo percurso explicativo para situar o leitor em relação aos diversos índices que pululam no nosso cotidiano, desde os mais reconhecidos, como o IDH, até os índices de desenvolvimento municipal, de transparência pública, de qualidade de vida, de ambiente favorável de negócios, de competitividade e de atratividade de países e regiões etc.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Composição etária e razão de dependência em Sergipe



Ricardo Lacerda

Com a queda da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida tem havido importantes mudanças na composição da população brasileira, com a elevação da participação das faixas etárias mais elevadas e a redução nas faixas de menor idade. Muitos especialistas têm destacado o significado econômico do período de bônus demográfico que o país atravessa por conta da redução, em termos absolutos e relativos, da população de menos de 15 anos, enquanto engrossa a fatia da população que se encontra em idade ativa. O período de bônus se encerra quando o incremento no contingente de pessoas idosas superar a redução da população inativa mais jovem, como proporção da população total.

Demógrafos e economistas entendem que o bônus demográfico é uma força poderosa na elevação dos níveis médios de renda da população, na medida em que significa diminuição na faixa de população que depende de renda gerada por outros grupos etários. Convencionou-se chamar de razão de dependência o peso da população considerada inativa (0 a 14 anos e 65 anos e mais de idade) sobre a população potencialmente ativa (15 a 64 anos de idade).

Sergipe

A distribuição etária da população sergipana também tem passado por transformações estruturais, com importantes implicações econômicas. Em 2010, residiam em Sergipe 556.222 pessoas com menos de 15 anos de idade, representando 27% da população total de 2.068.017. No ano de 2000, o contingente de pessoas com menos de 15 anos era de 595.327 e representava 33% da população total (ver Gráfico). Ou seja, essa faixa etária encolheu, ao longo da década, o equivalente a 39.105 pessoas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A recuperação das exportações sergipanas em 2011

Ricardo Lacerda
Qualquer avaliação do comportamento do comércio exterior sergipano não deve desconhecer o peso pouco expressivo que tem o setor externo na dinâmica de crescimento da economia estadual. Considerando a soma das exportações e das importações (a chamada corrente de comércio) e comparando-a com o PIB, é possível afirmar que o comércio exterior é cerca de sete vezes menos importante para Sergipe do que para a média do país (calculando com o PIB de 2009 e o comércio exterior de 2011).
Isso se deve ao fato de que os segmentos mais importantes da economia sergipana, vinculados à sua base de recursos minerais, foram erigidos ao longo das últimas quatro décadas visando o atendimento do mercado nacional.  Se o coeficiente de abertura da economia brasileira é relativamente restrito, a economia sergipana depende ainda mais do comportamento do mercado interno brasileiro para crescer.  
Ainda assim, algumas atividades da economia sergipana, como a citricultura, a fabricação de calçados e a fabricação de açúcar são muito dependentes do mercado externo, de forma que, quando as exportações dos seus produtos vão mal, as áreas que concentram tais atividades perdem ocupação e renda, e quando as exportações retomam a trajetória de crescimento, o emprego e renda tendem a reagir positivamente nas economias locais.
É nesse sentido, que devemos comemorar a continuidade da recuperação das exportações sergipanas em 2011, notadamente a expansão nas vendas do suco concentrado de laranja.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

As perspectivas econômicas para 2012



Ricardo Lacerda

A economia brasileira deverá apresentar uma aceleração moderada do crescimento em 2012, na comparação com 2011, mesmo enfrentando um cenário de deterioração do setor externo.

A economia mundial terminou o ano de 2011 pior do que começou. No relatório de abril sobre as perspectivas econômicas do ano, o FMI assinalava que estava em curso uma recuperação do nível de atividade, ainda que de forma débil e desequilibrada, mais forte nas economias em desenvolvimento e menos intensa nas economias avançadas.

Ao longo do ano o quadro foi se tornando mais difícil. Com a deterioração da situação econômica europeia e a emergência da crise das dívidas soberanas no segundo semestre, o relatório de setembro destacava a desaceleração do crescimento e o aumento dos riscos sistêmicos na economia mundial. Na retrospectiva de 2011, em 21 de dezembro, o economista-chefe Olivier Blanchard resume o cenário em termos nada otimistas: “a recuperação de muitas economias avançadas está estancada e alguns investidores contemplam as implicações de uma possível ruptura da Zona do Euro, sendo real a possibilidade de as condições se tornarem piores que as de 2008”.

Além de as condições na Europa virem se deteriorando mês a mês por meio do contágio da crise de confiança, há muita incerteza sobre quais vão ser os seus desdobramentos no futuro próximo, tornando ainda mais frágeis as projeções para a economia mundial em 2012.