Praça São Francisco, São Cristovão- SE

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Praça São Francisco, São Cristovão-SE. Patrimônio da Humanidade

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Balancear produção e consumo


Ricardo Lacerda

As taxas modestas de crescimento econômico dos países ditos emergentes, inclusive o Brasil, nos últimos três anos tão somente refletiram os desdobramentos da crise financeira internacional deflagrada em 2008. Quando, a partir de meados de 2011, as economias dos países centrais, depois de uma melhoria temporária, mergulharam na recessão pela segunda vez ou abortaram uma retomada ainda muito incipiente, deixou de ser razoável esperar que os países emergentes pudessem manter taxas elevadas de crescimento, contra tudo e contra todos.

Com diferenças de alguns trimestres, e em graus um pouco mais ou um pouco menos acentuados, praticamente todos os países emergentes de alguma expressão econômica apresentaram forte queda nos ritmos de expansão do PIB em relação ao período anterior à crise. E não poderia ser diferente.

É assim um tanto fora de propósito a capa da semana passada da revista britânica The Economist indagando se o Brasil havia posto a perder a oportunidade de alcançar um novo patamar de desenvolvimento econômico e social. A capa é no mínimo injusta com o Brasil.

Retomada

Mesmo em um ambiente econômico internacional ainda muito débil, a economia brasileira vem apresentando aceleração na taxa de crescimento do PIB, desde o segundo trimestre de 2012. É muito provável que no terceiro trimestre de 2013 a retomada arrefeça um pouco, mas isso não significará a sua interrupção e sim que a recuperação, frente a um quadro externo ainda muito desfavorável, não vai se nem em ritmo muito acelerado, nem uniforme.

E do ponto de vista social, a experiência recente do país na erradicação da pobreza extrema e de ascensão da Classe C é modelo para os demais países em desenvolvimento. As repetidas vezes com que tem freqüentado nos últimos anos a capa da revista britânica já evidenciam a nova importância assumida pelo Brasil no cenário mundial.

Longo prazo

Mas quero me fixar no longo prazo. Afastada temporariamente a ameaça da reversão dos estímulos monetários pelo Federal Reserve, o Brasil ganhou tempo para fazer com mais determinação os ajustes necessários para assegurar a sustentabilidade de suas contas externas no longo prazo.

Nos doze meses encerrados em agosto de 2013, o déficit na conta de transações correntes do Brasil com o mundo alcançou US$ 80,3 bilhões, se situando 63% acima do resultado de um ano antes. Esse déficit representa o quanto o país está recorrendo ao exterior para cobrir o excesso da demanda  sobre a produção.

Essa rápida deterioração da conta de transações correntes nos últimos doze meses pode ser atribuída em sua quase totalidade à queda abrupta no saldo da balança comercial, que passou de US$ 23,0 bilhões nos doze meses encerrados em agosto de 2012 para US$ 2,5 bilhões em agosto de 2013.

É provável que parcela considerável dessa redução no saldo do balanço comercial tenha se dado por conta do atraso na contabilização de importações de gasolina, o que apenas indica que a queda, apesar de menos acelerada, iniciou-se alguns meses antes.  

Ainda que a mudança mais recente no patamar do déficit de transações correntes tenha se iniciado no segundo semestre de 2012, em relação direta com o novo agravamento do cenário internacional, desde o final de 2006 o excesso da demanda por consumo e produção no Brasil vem sendo financiado por meio de aporte de recursos externos.

O gráfico apresentado relaciona o saldo da conta de transações correntes em doze meses como proporção do PIB, desde o ano de 1970.  Grosso modo, os períodos em que a curva se encontra acima do eixo, o Brasil acumulou poupança externa, como proporção do PIB, e nos períodos, mais freqüentes, em que elevou utilizou poupança externa para financiar o consumo e a produção ou pagar compromissos anteriores, a curva se encontra abaixo do eixo.

O boom exportador brasileiro do inicio dos anos 2000 propiciou a obtenção de saldos positivos na conta de transações correntes até 2007, que se consubstanciou no acúmulo de reservas internacionais pelo país.

De lá para cá, de forma crescente o país vem ampliando a dependência de recursos externos para financiar o excesso de produção e consumo, em proporção que vem dando seguidos saltos desde 2010, sintoma de que as medidas adotadas pelo governo nos últimos dois anos para rebalancear a produção e o consumo, ainda que no caminho certo,  estão longe de surtirem os efeitos na dimensão necessária.

Câmbio e investimento

O recurso à poupança externa para financiar o desenvolvimento é padrão para os países periféricos, mas o déficit em transações correntes somente é sustentável a médio prazo quando ele favorece mais a produção e as exportações do que o consumo e as importações.

Nesse sentido, a depreciação do câmbio e o incremento dos investimentos para ampliar a capacidade produtiva e superar os principais gargalos da infraestrutura são fundamentais não apenas para incentivar a indústria interna, são uma necessidade da própria sustentabilidade de longo prazo do país, por mais que trocar consumo por produção não seja simpático aos eleitores.




Fonte:Banco Central do Brasil



Publicado no Jornal da Cidade, em 29/09/2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A economia de serviços de Sergipe nos anos oitenta

Ricardo Lacerda

A modernização da economia sergipana nos anos setenta e oitenta, com a implantação de novas atividades industriais e a revitalização de tradicionais, foi acompanhada por uma expansão urbana acelerada. Entre 1970 e 1991, a população urbana de Sergipe mais do que duplicou, passando de 421.358 para 1.001.940 habitantes. O censo demográfico de 1991 já apontava que dois em cada três sergipanos (67%) já residiam no meio urbano, quando em 1970 a população urbana não atingia a metade (46%) do total.

Os anos oitenta, especificamente, marcaram não apenas a transformação da estrutura industrial do estado, a partir da implantação das grandes unidades produtivas nos segmentos de petróleo e gás e de fertilizantes.  Caracterizaram também a formação de uma economia de serviços mais diversificada e a forte ampliação dos serviços públicos, devidamente acompanhada pela aumento extraordinário no tamanho da máquina pública.

Estrutura ocupacional

A comparação entre a estrutura de ocupação de 1980 e a de 1991 é ilustrativa das mudanças econômicas dos anos oitenta. Alertando que os dados referentes a 1980 se referem à População Economicamente Ativa   e os dados de 1991 tratam da População Ocupada,  é possível identificar alguns processos interessantes.

Enquanto a força de trabalho do setor agropecuário praticamente estacionou no período, o que a fez perder participação no total, os contingentes vinculados às atividades industriais e nas atividades de serviço registraram crescimentos consideráveis. 

Não deixa de impressionar o fato de que, em 1980, 43,7% da força de trabalho sergipana ainda se dedicavam às atividades agropecuárias. Com a expansão do processo de urbanização, todavia, essa porcentagem caiu para 30,8%, em 1991, um peso ainda considerável, mas agora já inferior ao do setor terciário.

Nos anos oitenta, as atividades industriais não apresentaram  o mesmo desempenho da década anterior, quando o seu peso na PEA pulou de 11,4%, para 17,9%, como vimos em artigo anterior. Entre 1980 e 1991, a sua participação manteve-se no mesmo patamar, oscilando ligeiramente, de 17,9% para 17,7%, o que significa que o crescimento da ocupação nessas atividades evoluiu ao ritmo médio do conjunto da economia, em virtude da própria desaceleração do crescimento econômico que acompanhou o agravamento dos desequilíbrios macroeconômicos no país.  

Serviços

Em velocidade bem superior se expandiram as atividades do setor de serviços, em todos os ramos considerados (ver Tabela), mas com especial ímpeto nos serviços prestados pelo governo, distribuídos na tabela pelos ramos da administração pública e nas  atividades sociais, que incluem os serviços públicos de educação e saúde, além daqueles prestados pelo setor privado e pelas entidades comunitárias.

Mas é incorreto atribuir a expansão das atividades de serviços exclusivamente ao crescimento da máquina pública, ainda que o número de funcionários públicos tenha mais do que duplicado no período.

Os contigentes de pessoas ocupadas nas atividades comerciais e de prestação de serviços quase que dobraram entre 1980 e 1991, refletindo a conformação de uma economia urbana mais complexa e diversificada. Cabe registrar que em 1989 foi inaugurado em Aracaju o Shopping Center Riomar, o primeiro a ser instalado em Sergipe.

Proliferaram também as ocupações em serviços pessoais e em serviços auxiliares das atividades econômicas e o ramo de outras atividades de serviço, que inclui as atividades financeiras, o comércio de imóveis e outras atividades mal definidas. Além disso, os serviços educacionais em escolas particulares já iniciavam naquele período uma expansão importante, ainda centrada no ensino fundamental e médio, posto que o aumento acelerado na oferta do ensino superior privado somente ocorrerá nas décadas seguintes.

Os anos oitenta, considerados por muitos analistas como a década perdida do desenvolvimento brasileiro, não podem ser assim caracterizados em Sergipe e, possivelmente, em alguns outros estados da região Nordeste. Mais correto é afirmar que marcaram o fim de um ciclo de expansão econômica iniciado no final dos anos sessenta, em que os estados da região passaram por uma importante transformação econômica, com a implantação de empreendimentos em novos setores industriais e com a diversificação das atividades comerciais e de serviços.  A década de noventa, sim, trará grandes dificuldades para os estados da região.

Tabela. Sergipe. População Economicamente Ativa (PEA) em 1980 e População Ocupada em 1991
Setor e ramo
PEA 1980
Pop. Ocupada 1991
Pessoas
Part.
Pessoas
Part.
Agropecuária
149.794
43,7%
151.506
30,8%
Atividades industriais
61.325
17,9%
87.082
17,7%
·         Transformação
26.345
37.209
·         Construção
27.181
33.652
·         Outras ativ. Industriais
7.799
16.221
Serviços
131.417
38,4%
252.645
51,4%
·         Comércio
28.530
8,3%
53.912
11,0%
·         Prestação de serviços
43.650
12,7%
78.250
15,9%
·         Transportes e comunicações
14.331
4,2%
21.276
4,3%
·         Atividades sociais
25.058
7,3%
51.736
10,5%
·         Administração Pública *
14.177
4,1%
30.137
6,1%
·         Outros serviços
5.671
1,7%
17.334
3,5%
Fonte: IBGE. Censos demográficos de 1980 e 1991.  Obs*: Ocupações na administração pública, excluindo educação e saúde públicas que são contabilizadas em atividades sociais.


Publicado no Jornal da Cidade 22/09/2013

terça-feira, 17 de setembro de 2013

CONVITE- SESSÃO ESPECIAL DE ENTREGA DE TÍTULO DE CIDADÃO SERGIPANO


Prezados amigos, colegas, alunos e ex-alunos


Convido a todos para participarem de Sessão Especial da Assembleia Legislativa de Entrega de Título de Cidadão Sergipano, na próxima segunda-feira, dia 23 de setembro, às 17 horas.

É uma ocasião de muito significado para mim, depois de 29 anos de residência em Sergipe e de dedicação da vida profissional ao estudo da economia do estado. Espero contar com a presença de todos vocês.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A indústria em Sergipe na década de 1980 (parte 2)

Ricardo Lacerda


Na década de oitenta, a instalação de empreendimentos privados incentivados pela SUDENE e de plantas produtivas de empresas estatais conformou uma estrutura industrial mais complexa em Sergipe. Enquanto novas atividades foram instaladas diretamente por empresas do sistema Petrobras, como a produção de gás natural e a de fertilizantes, muitos investimentos privados foram realizados na modernização de unidades existentes que vinham perdendo competitividade frente a empresas de outros estados, bem como na implantação de novas unidades produtivas, tanto em setores tradicionais como em novos setores.

A instalação das grandes plantas industriais no segmento de petróleo e gás natural e na produção de fertilizantes formaram uma nova estrutura industrial com empreendimentos  com escala, padrão tecnológico e valor adicionado diferentes de tudo que havia anteriormente.  Esses investimentos, ao lado de outros fatores como o preço alcançado pelo petróleo no mercado internacional e, em menor grau, a expansão dos segmentos tradicionais nas cadeias têxtil e sucroalcooleira, fizeram com que o setor industrial de Sergipe assumisse um perfil inusitado.

Nova matriz

No ano de 1985, o valor adicionado conjunto da indústria de transformação e da indústria extrativa mineral alcançou 52% de tudo que foi produzido na economia sergipana. Incluindo a construção civil e os serviços industriais, essa participação ultrapassou 2/3 da riqueza gerada no estado (ver Tabela 1). Possivelmente, peso tão expressivo das atividades secundárias na produção de riqueza não se repetia em nenhuma outra unidade da federação.

Nas contas regionais do IBGE referentes a 1985, a atividade extrativa mineral, por conta da exploração de petróleo e gás natural, respondia por 21,9% do valor adicionado bruto e a indústria de transformação, por 36,8%.  

A elevação da participação da indústria extrativa mineral na riqueza gerada a esse patamar tão extraordinário era explicada mais pela variação dos preços do petróleo e gás natural, do que pelo próprio incremento da produção. Quando a cotação internacional do produto recuou no final da década, o peso da produção extrativa mineral se reduz a menos da metade, quando o nível de produção do petróleo caiu muito menos do que isso (8,7% entre 1985 e 1990).  

De outra parte, é possível interpretar que a perda de participação do setor industrial nesse período se deveu complementarmente ao impulso dado pelo crescimento da atividade industrial desde a década anterior sobre as atividades de comércio e serviços diversos, à medida que a urbanização se expandia, e também à expansão dos serviços públicos, financiados pelo crescimento da arrecadação e pelo aumento das transferências federais.

Nas contas regionais de 1990, o setor secundário já havia sido superado na formação da riqueza, mesmo que por uma diferença muito pequena, pelo setor de serviços. 

  Tabela 2. Sergipe. Participação das Atividades Econômicas no Valor Adicionado Bruto a Preço Básico - 1985  e 1990 (%)
Atividades
1985
1990
Agropecuária
8,2
10,7
Indústria
67,8
44,4
Indústria extrativa mineral
21,9
9,0
Indústria de transformação
36,8
23,8
Eletricidade, gás e água
0,7
1,4
Construção
8,3
10,3
Serviços
24,0
44,9
Comércio e reparação de veículos e de objetos pessoais e de uso doméstico
5,7
9,9
Administração pública, defesa e seguridade social
8,4
19,1
Outros serviços
9,9
15,9
Total
100
100
Fonte: IBGE. Contas regionais.

Diversificação

Um movimento que é menos conhecido é a multiplicação de empresas industriais de pequeno porte em atividades que normalmente acompanham a expansão dos centros urbanos. Entre 1985 e 1990, o número de estabelecimentos pertencentes à indústria de transformação e à indústria extrativa mineral registrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) saltou de 438 para 668, uma expansão de 52%.

Eram empreendimentos que proliferaram nos segmentos de alimentos e confecção ou em atividades mais vinculadas à própria expansão da construção habitacionais, como a fabricação de produtos minerais não metálicos, que abrange a fabricação de materiais de construção, além do crescimento dos estabelecimentos nas atividades de madeira e mobiliário e as pequenas metalúrgicas. 

Um perfil dos estabelecimentos industriais em 1990 é apresentado na Tabela 2, na qual pode ser observada a concentração das unidades industriais com 250 trabalhadores ou mais nos subsetores têxtil e de vestuário e de alimentos e bebidas. Podem ser anotados ainda empresas nessa faixa nos segmentos de minerais não-metálicos (as fábricas de cimento), química (fertilizantes), calçados e extrativa mineral.

As empresas industriais com menos de cem empregados se distribuem em um grande número de setores. Entre 1985 e 1990, o número de estabelecimento desse porte saltou de 404 para 630.  Expressando esse crescimento de pequenas e micros indústrias vinculado à expansão urbana, passaram atuar na economia local mais 35 estabelecimentos do ramo de madeira e móveis, 26 metalúrgicas, 18 empresas no segmento de papel, material e gráfica e 24 no segmento de indústrias diversas.

Tabela 2.  Sergipe. Número de estabelecimentos segundo número de empregados
em 1990
Setor IBGE
Número de estabelecimentos segundo número de empregados
Até 99
100 a 249
250 ou Mais
Total
 Total da Indústria Geral
630
11
27
668
Extrativa Mineral
32
1
33
Têxtil e Vestuário
73
2
14
89
Alimentícios, Bebidas e álcool Etílico
139
4
7
150
Produtos Minerais não Metálicos
73
1
2
76
Borracha, Fumo, Couros, Peles e diversas
47
1
1
49
Química,  Farmacêuticos
26
1
1
28
Calçados
14
1
15
Madeira e do Mobiliário
85
85
Metalúrgica
55
1
56
Papel, Papelão, Editorial e Gráfica
52
1
53
Material de Transporte
16
16
Mecânica
12
12
Material Elétrico e de Comunicações
6
6
Fonte: MTE-RAIS.



Publicado no Jornal da Cidade, em 15/09/2013